Quem Nós Somos?
30 K - Vou ligar pra ela.
Notas iniciais
"Ah, quase ninguém vê, quanto mais o tempo passa, mais aumenta a graça em ti, viver.
Ah, e sai sem eu dizer... Tem mais do que te mostro, não escondo o quanto gosto de você... eh
O coração dispara, tropeça, quase para. Me encaixo no teu cheiro e ali me deixo inteiro.
Eu amei te ver, eu amei te ver, eu amei te ver"
Amei te ver — Tiago Iorc
Por Kile Woodwork
E quando eu terminei de dizer aquilo, pensei que me sentiria melhor, que finalmente deixaria tudo o que aconteceu pra trás e poderia retomar minha vida normal, sem nenhuma Eadlyn me tirar ela do eixo. Mas isso não aconteceu, e o sentimento que tomou o meu coração — na verdade cérebro, porque é lá onde nossas emoções habitam — era um misto tão confuso, que eu não estava conseguindo separá-las e catalogá-las.
Maldita hora em que me dei conta de que estava apaixonado pela a pentelha. E agora, o que eu faço? Como se faz pra se livrar desse tipo de sentimento? Deveria existir um botãozinho na nossa cabeça que fosse capaz de apagar lembranças. E amores.
Eadlyn abriu muito os olhos quando me ouviu, antes de desviá-los em direção à janela e, por um segundo, a garota pareceu ter ficado chateada. Ou talvez eu que quis ter enxergado isso, me iludir de que talvez houvesse um futuro pra nós dois, mas logo depois seu rosto tornou-se indiferente, e suas palavras confirmaram a minha expectativa.
—Tudo bem, obrigada — ela disse.
Tudo bem, obrigada? Ok... e eu estou me sentindo estranho, por quê? Por um acaso, eu tinha esperanças sobre outra resposta?
Abro um sorriso duro antes de me escorar no banco e fechar os olhos. Não estava com sono, mas seria mais fácil evitá-la se eu não conseguisse enxergar o seu rosto e aqueles olhos azuis, que me faziam perder o fio da meada.
Não podia continuar com isso... ; não podia manter ela ao meu lado dessa forma, obrigada. Que tipo de amor seria se eu fizesse isso? Eadlyn merece seguir com a vida dela e, provavelmente, eu continuaria apaixonado por um bom tempo, mas não me importava se era recíproco. Não precisava ser.
Eu me apaixonei sem esperar o mesmo sentimento em troca e, ela me querendo ou não, o sentimento continuaria ali. E ele está aqui.
Suspiro alto, agora me sentindo irritado.
Que merda eu acabei de dizer á ela? Que a liberei do contrato? É sério que eu falei isso?
Eu estou dando o sinal verde pra ela me esquecer?
Abro os olhos, e dou de cara com Eadlyn. Ela está olhando pela a janela, seu rosto era uma incógnita. Não demostrava nenhum tipo de emoção.
Foi quase.
Foi por pouco.
Eu quase abri a minha boca pra dizer que estava brincando; que era mentira; que o contrato não poderia ser rompido agora. Mas aí, eu me lembrei de que gosto o suficiente dela, pra deixá-la ir e seguir a própria vida, não poderia mantê-la presa à mim dessa forma, não era justo com nós dois.
Durante praticamente os 3 dias de viagem, nós não trocamos mais do que poucas palavras, e isso foi bom. Precisava me desacostumar em ouvir a voz dela me irritanto, desapegar e essas coisas que te machucam, sabe? Mas, algumas horas antes de finalmente chegarmos na Espanha, me obriguei a dizer umas palavras à Eadlyn. Ela estava sentada com duas pernas em cima do banco, na famosa posição de Buda, e evitava me olhar.
—Finalmente estamos chegando — eu digo, de repente parecia que eu tinha perdido o jeito de falar com ela.
Ela me olha com uma sobrancelha erguida.
—É, estamos.
—Então... queria te dizer uma coisa.
—O quê? — Seus olhos me encaravam agora.
—Eadlyn, acho que não vamos mais nos ver com tanta frequência...
—Óbvio, não sou mais obrigada a conviver com você — diz ao dar de ombros; piscou seus olhos enquanto sua mandíbula se contraia e seu rosto virava-se para a janela. Mais uma vez.
Cruzou os braços.
—... Mas eu queria dizer que você não é tão ruim assim — digo, sorrindo um pouco, mas quando ela me fuzila com o olhar, eu o fecho imediatamente. — Na verdade, só queria dizer pra você dar uma chance às pessoas... nem todo mundo só está com você por vontagens, você tem amigos, só precisa passar a enxergar eles.
—Não sou cega, consigo enxergar eles muito bem.
—Você entendeu o que eu quis dizer — rebato.
—Vou ver o que posso fazer.
—Deixa esse orgulho de lado — digo enquanto reviro os olhos.
—O orgulho é meu e eu faço dele o que quiser — ela me fita agora, me desafiando.
E, então, fico calado. Será que não poderia ter me apaixonado por uma pessoa um pouco mais fácil de lidar? Não... não podia, esse meu coração retardado foi se encantar logo pela a pentelha da Eadlyn, fala sério. Duas horas mais tarde, nós desembarcamos na estação da Espanha e pegamos um táxi pra voltar pra casa. Quando cheguei na casa onde eu e meus tios morávamos, abri a porta branca do veículo, mas não sai.
Eu não queria sair agora.
Queria ficar mais um tempo com ela.
O motorista solta um pigarro, e eu olho uma vez mais pra Schreave. Provavelmente seria uma das últimas vezes que a veria. E, talvez, fosse melhor assim.
—Adeus, Kile — murmura a garota, sem olhar pra mim.
—Adeus, Eadlyn — digo antes de sair e fechar a porta com um baque quase inaudível.
As aulas começariam hoje, e desde que voltei da França, não vi mais Eadlyn. Pensei que passar um tempo sem ela me faria sentir melhor, que, quem sabe, os meus sentimentos não eram reais e que se eu ficasse sem vê-la, poderia tomar consciência disso. Mas eu ainda estou mal. Um mês já. Meus tios ficaram surpresos quando lhes contei que terminara com a garota; mas eu falei que estava tudo bem, mesmo que não estivesse. Porém, ao que tudo indica, meu tio não caiu nessa, já que uns dias atrás ele chegou até mim pra conversarmos sobre minha ex namorada fictícia. Que irônia. Se era ficíticia, por que essa agônia era tão real?
Meu tio deitou-se ao meu lado na cama, enquanto eu tocava qualquer coisa no meu violão.
—Você está bem, filho? — Pergunta.
—Estou.
—Kile — repreende.
—Não — suspiro ao largar o violão ao lado da cama e cruzar os braços.
—Sabe, quando eu tinha mais ou menos a sua idade, eu pensava que se apaixonar era uma merda.
—E é — digo, entediado.
Ele riu antes de colocar um dos braços ao redor do meu ombro.
—Deixa eu te contar — recomeça. — Achava que se apaixonar era somente para os fracos. Passei muito tempo achando isso, namorei sem me apegar muito nessa vida, Kile, muito mesmo. Mas daí sua tia apareceu na mansão dos Schreave para o casamento de America e Maxon... e ela mexeu comigo — abriu um sorriso de lado, meio pensativo. — Na verdade, ela ainda mexe. Marlee me fez perceber que é exatamente o contrário, se apaixonar é para os fortes.
Dou de ombros.
—Kile, você nunca tinha se apaixonado antes — diz pra mim. Eu o olho com o cenho franzido.
Estava prestes a contestar, quando ele continua:
—E nem me venha falar de Fiorella e Katherine — e então faz uma careta. — Elas eram iguais à você, e você gostava disso, porque você sempre gostou do que era conhecido, seguro, comum e estável. Você é igual ao seu pai.
—Mas eu gostava delas, principalmente de Katherine — me defendo.
—Gostar não é amar, não é se apaixonar. Por quê não liga pra Eadlyn e diz que está sentindo a falta dela?
—Por que ela não deve estar sentindo a minha. Isso é unilateral, tio. E é péssimo... quero que ela seja feliz, e eu vou ser só uma pedra no caminho dela, não faço e nunca fiz o seu tipo.
—E ela fazia o seu tipo antes? — Indaga.
—Não...
—Então.
—Vou me apaixonar por outra pessoa e esquecer ela — falo, com convicção.
Meu tio bufou e levantou-se com uma risada, antes de bagunçar o meu cabelo e me lançar uma piscadela.
—Vai nessas — e então saiu.
Saio de meus devaneios quando escuto o meu celular tocar. Era Marcus. Prometi uma carona a ele hoje. Quando cheguei para buscá-lo, o cara parecia animado e, assim que entrou para dentro do meu velho Fiat que Eadlyn odiava, ele me deu um soquinho sacana no braço e perguntou:
—E sua namorada?
Ligo o motor em seguida.
—Acabou o contrato — falei, meio sem vida.
—Por quê? — Indagou, parecendo confuso. De repente, ele parece entender o que aconteceu e quando voltou a falar, sua voz estava alta demais. — AI MEU DEUS, você seapaixonou?
Suspiro.
—Talvez.
—Nossa, cara... que foda. Meus pêsames.
—Realmente, estou em um luto muito estranho do qual eu simplesmente não estou sabendo lidar — e olho pra ele de cara feia.
—Ela é muito gata mesmo — disse com um ar pensativo.
Bufo.
—Não me apaixonei pela a pentelha porque ela é bonita. Se fosse por isso, poderia ter me apaixonado por mais da metade do campus da universidade. Teria me apaixonado por qualquer uma.
—Foi pelo o quê, então?
Dou de ombros.
—Porque... não sei, nada faz sentido.
—O amor não faz sentido — murmura em um tom de Verdade Absoluta.
Abriu um pacote de balas e me ofereceu.
—Não, obrigado.
—Pra adoçar sua vida — argumenta.
—Nossa, com esses seus argumentos, não consigo entender o motivo de você ter escolhido o curso de Direito, Marcus. Rezo a Deus pra você não acabar morrendo de fome por não conseguir emprego.
Ele soltou uma risada.
—Não tem problema, qualquer coisa eu tenho um amigo arquiteto pra me apoiar financeiramente.
—Não sonha.
—Sei que posso contar com você.
—É, você pode.
—Cara, e o que ela disse quando você contou que tinha se apaixonado?
—Ela não sabe.
—Ah é, me diz que você está me zoando? Como sabe que ela também não está por você?
Olho de relance pra ele, meus olhos estreitos.
—Por que quando disse que ela estava liberada do contrato, ela disse algo como "tudo bem, obrigada". A garota me agradeceu. Você realmente acha que ela está apaixonada por mim?
—Foda.
—É. E, quer saber? Tudo bem, está de boas. Vou continuar apaixonado por ela, independente de qualquer coisa.
—Nossa, que gay.
—Que merda, né? Mas é verdade.
—Meus pêsames — repetiu ele, ao pôr uma mão ternamente no meu ombro.
Quando coloquei meus pés dentro do campus, senti uma sensação engraçada dentro do estômago. Seria a minha chance de vê-la, mesmo que de longe. Talvez ela até me considerasse um amigo agora, e me dissesse um 'oi'. Nossa, que patético. Me sinto patético, mas... cara, sinto falta até de quando ela colocava o dedo do meio pra mim. As aulas seguriam indistintas. Apresentação das novas disciplinas, novos professores, novos colegas nas classes — mas alguns eu já conhecia — e, na hora do intervalo, por volta do meio dia mais ou menos, segui com pressa para a cantina. Não porque eu estivesse com fome, mas sim porque de todos os lugares do quais eu poderia me encontrar com Eadlyn por acaso pela a universidade, o mais provável era ali. Porém, quando cheguei, não a vi.
Somente Diogo e Richard, que quando me viram acenaram pra eu ir sentar com eles, e Marcus foi comigo. Nos sentamos à mesa, e eles nos cumprimentaram de forma simpática.
—E aí, como você está? — Diogo me pergunta. Seus cabelos ruivos estão presos em um rabo de cavalo.
Largo minha mochila em cima da mesa de material acizentado.
—A notícia já se espalhou, é? — Retruco.
—Com certeza — Richard diz, sua expressão pra mim era de "poxa, coitado".
—Você é nosso amigo agora, se quiser desabafar, nós estamos aqui — Diogo diz, erguendo a mão com o punho fechado pra mim. Dei um soquinho nele, e em seguida Richard fez o mesmo.
—Não, estou... indo, está tudo bem — murmurei com o cenho franzido.
—E eu não vou ganhar soquinho na mão? — Marcus pergunta, vestindo sua camisa laranja berrante, que constratava muito com sua pele morena.
Diogo e Richard trocaram olhares.
—Se você é amigo do Kile, também deve ser gente boa — Richard diz. — Mas, só pra ter certeza... você curte basquete?
Marcus pensa por um momento.
—Não.
Richard pareceu decepcionado.
—Tudo bem, nós podemos tentar fazer uma lavagem cerebral em você.
Marcus riu — o que não é novidade.
—Podemos ver isso aí — responde, animado.
Enquanto meu amigo se enturmava com Diogo e Richard, avisto Louise, Patrícia e Julieta. Louise parecia que tentava consolar a amiga Julieta, e de repente me lembrei o motivo dessa história toda ter começado.
—E Erik? — Questiono. — Não o vi desde que cheguei hoje.
—O pai o convenceu a assumir o cargo da empresa lá na cidade dele — Richard me conta. — Estamos precisando de um novo membro no time, se tiver interesse, é só avisar pro capitão aqui — murmura ao apontar para si mesmo, orgulhoso de seu título.
Abro um sorriso vago.
—Vou focar nos estudos nesse semestre... no passado deixei um pouco a desejar nas notas.
—Uma vez nerd, sempre nerd, hein? — Diogo brinca. — Falando nisso, podemos sair pra beber hoje. Sabe como é, esquecer dos amores...
Entendi que Diogo quis ajudar, mas.. a verdade, é que ele piorou. O que será que Eadlyn estaria fazendo agora?
—Falando em amores, alguém a viu?
—Eadlyn? — Richard pergunta.
Concordo com a cabeça.
—Está em Nova Iorque já há algum tempo, junto com Micaela. Prestou vestibular pra Moda esses dias.
Uma parte minha se sentiu orgulhosa e feliz por ela. A outra, se sentiu péssima e meu coração se apertou de um jeito dolorido. Nova Iorque? Não nos veríamos mais, então... nem mesmo um esbarrão sem querer pela a universidade.
Suspiro baixinho.
—Ela passou? — Pergunto.
—Por que você não liga pra ela? — Diogo dá a ideia.
—Eu apoio — Marcus fala.
Richard se inclina para a frente e fala:
—Kile, ela também está mal. Minha irmã me contou... parecia que estava triste e tal. Liga pra ela.
Não sabia se ele disse aquilo somente pra me convencer, ou se era verdade.
—Melhor não...
Marcus começou a dar tapas com as duas mãos na mesa.
—Liga, liga, liga, liga! — Começou a cantarolar ele, e Richard e Diogo fizeram coro, também batendo na mesa.
—Vocês estão chamando a atenção de todo mundo pra cá... — reclamo, começando a ficar constrangido.
Os três me ignoraram e continuaram.
Bufo.
—Tá, tá — digo eu ao pegar meu celular e me afastar, caminhando hesitante até a área aberta da cantina. Procuro o número de Eadlyn e, antes de inciar a chamada, respiro o ar profundamente.
Ela atende no terceiro toque.
—Kile? — Sua voz está surpresa. Não digo nada por alguns segundos, e então ela diz de novo: — Kile? Alô?
—Ah..., oi Eadlyn... como você está? — Pergunto patéticamente.
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