Quem Nós Somos?
12 K - Quem é você, Eadlyn?
"Fiz todos os meus planos, como ela fez os dela. Ela me manteve na cabeça, mas eu não tinha certeza.
Eu procurei em todos os lugares por uma maneira de escapar
mas toda vez que eu tento partir, ela continua me segurando para o prazer
e bloqueando o meu caminho."
Ed Shreeran — She
Por Kile Woodwork
Eu abro a boca em um enorme O. Eadlyn jogou um cobertor florido em cima do sofá, e praticamente arremessou um travesseiro no meu rosto, mas eu estou tão sonolento, que mal tenho forças pra me incomodar com a agressividade que às vezes emanava daquele corpo. E muitas dessas vezes era do nada, vinha de forma súbita. Minutos atrás, ela até tinha até sorrido. Ela entra para dentro do banheiro com algumas peças de roupa dobradas no antebraço e, enquanto ela mudava de roupa por lá, aproveitei para trocar minha calça jeans por uma mais folgada e de moletom. Me sento no sofá e me espreguiço. Até que era confortável, não iria sofrer muito, mas bem que dormir em uma cama seria mil vezes melhor. Antes America tivesse ficado calada, e Maxon tivesse me levado para o lado ensolarado da mansão, onde eu teria um quarto só meu e uma bela caminhazinha para o meu bel prazer.
Minutos depois Eadlyn sai do banheiro com os cabelos presos em um coque aparentemente firme. Observo enquanto ela caminha pelo o quarto razoavelmente espaçoso, fazendo um laço em seu roupão, e para diante da porta para trancá-la. Ergo uma sobrancelha, meus olhos pesados.
— Vai trancar a porta pra não correr o risco de ser pega em flagrante enquanto tenta abusar deste pobre e inocente rapaz? — Eu questiono, minha expressão séria, mas por dentro estou dando um sorrisinho maroto. Eadlyn me encara com as feições entediadas.
— Não quero que meus pais ou alguma das empregadas entre e veja que não estamos dormindo na mesma cama — ela da de ombros, e então apaga a luz do quarto, e acende um abajur. Uma luz suave e alaranjada passou a iluminar parte do ambiente. Eadlyn, então, deita em sua cama e puxa os cobertores até a sua cintura, para depois tirar o roupão rosa que usava e jogá-lo no chão. Sua camisola é perolada, com alças super finas e delicadas. Ela afofa um travesseiro e, quando está prestes a deitar-se, seus olhos se encontram com os meus.
— Perdeu alguma coisa aqui? — Questiona ao arquear as duas sobrancelhas.
Dou uma alongada nos meus músculos rijos.
— Não, nada. Você vai dormir assim? — Pergunto. Eadlyn me encara por alguns segundos, antes de querer saber:
— Assim como?
— Ainda está usando maquiagem.
— Vou.
— Por quê?
— Porque sim, oras — e aí ela bufa e se acomoda por baixo dos cobertores.
— Isso é estranho.
— Ninguém te perguntou — retruca. Acabo abrindo um sorriso involuntário.
— Já te falei que a sua doçura é encantadora? — Ironizo, enquanto começo a desabotuar a camisa social que vestia, rapidamente. Quando termino, encontro os olhos de Eadlyn em mim. — Que que foi?
— Você vai dormir pelado? — Pergunta pra mim. Achei um pouco engraçado o seu tom de voz, revelava uma certa ingenuidade que não esperava dela.
— Óbvio que não, só que eu trouxe duas camisas apenas, esqueci do pijama. E não gosto de dormir de blusa... — abro um sorrisinho de canto — e também não quero que você fique excitada a ponto de vir querer me agarrar na madruga. — Finjo uma cara de pavor, e Eadlyn revira seus olhos azuis.
— Parece que você está de bom humor.
— Parece que você está de mal humor, mas até aí tudo bem, já estou acostumado — digo, enquanto me acomodo no sofá macio e me cubro com o cobertor pesado demais que ela me dera, considerando que devia estar uns 26 graus agora. — Na verdade, você tá mais pra tipo bipolar, seu humor muda muito rápido — concluo.
— Não sou bipolar — diz, a voz firme, como sempre, mas alguns tons mais baixa. — Desde quando?
Tiro os óculos e deixo dentro da minha caixinha, onde costumava guardá-los.
— Desde quando o quê?
— Você tem essa tatuagem? No braço? — Indaga, toda curiosa e parecendo bem surpresa.
Automáticamente, deslizo uma mão pela a tatuagem que fiz há algum tempo atrás.
— Uns dois anos, mais ou menos.
— Nunca iria imaginar que você teria uma tatuagem.
— Por quê?
— Nerds geralmente não tem — diz, apesar de estar olhando para o teto alto, sabia que ela sorria.
— As pessoas são muito mais que rótulos, não deixo com o que as outras pessoas me limitem somente por terem me posto dentro de um estereótipo.
— É por isso que você malha? — Indaga e, por conta da sua voz um pouco constrangida, desvio o olhar para o seu rosto, mas não consigo ver nada de diferente em sua expressão. A pouca luz, e a distância não ajudaram também.
— Não malho.
Ela bufa e solta uma risadinha.
— Qual é, Woodwork — ela fala, — infelizmente eu acabei de te ver sem camisa, vi músculos aí que não se formam do nada, por inércia — e então revira os olhos.
— Não malho — repito.
— Mentiroso — retruca de imediato. Eu fico quieto, não queria dar explicações e revelar que, apesar de não malhar, pratiquei anos de Muay Thai. Ela não precisa saber, e estou com preguiça demais para ouvir algum outro tipo de comentário dizendo que está surpresa e que pessoas como eu deviam ficar socados dentro de casa o dia inteiro lendo quadrinhos e toda essa palhaçada. Apesar que eu gosto um pouco de quadrinhos, mas isso não vem ao caso.
— Cherie, eu sei que já disse isso, mas você me cansa — murmuro.
— Namorado, não sei se já disse isso, mas quem começou isso aqui, foi você.
— Claro, bem feito pra mim. E a sua tatuagem, o que é?
— Está escrito uma frase em uma língua antiga — responde, sem vontade.
— E o que significa?
— Nada que eu vá revelar pra você.
Reviro os olhos.
— Boa noite, Eadlyn.
— Uma péssima noite pra você, Woodwork.
— Se repetir isso de novo vou ir aí te dar um beijo de língua daqueles — falo, com ar de riso.
— Tá amarrado, em nome de Jesus.
Acabo dando risada.
— Tá bom, agora fique quietinha, por tudo que é mais sagrado.
E, então, um silêncio reconfortante inundou o quarto. Segundos depois, minha mente já começava a vagar para a inconsciência.
Acordo com uma luz fraca iluminando o meu rosto, e encolhido em cima do sofá. A temperatura parecia ter caído de forma acentuada e, fiquei surpreso por não ter acordado durante a noite por conta do frio. Porém, quando eu me sentei na sofá e me espreguicei, foi que vi que tinha uns três cobertores sobre o meu corpo. Fico por alguns segundos fitando-os, o cenho franzido. Olho em direção à cama de Ealdyn, mas ela não estava lá. Até que a diaba não era tão diaba assim. Caminho, meio cambaleante e com os músculos um tanto enrijecidos, visto que, por mais que o sofá fosse macio, ainda assim fora um pouco desconfortável por conta do meu tamanho e o dele não serem muito compatíveis. O banheiro da menina era todo ladrilhado com cores claras, alguns tinham o desenho de uma flor. Era grande, e muitas coisas eram douradas, como o adorno do espelho, a descarga e o utensílio que usamos para colocar o papel higiênico. Havia uma banheira, e um box. Abro alguns armários, procurando por uma toalha limpa, que não foi difícil de encontrar. Deixei a água quente desatar os nós do meu corpo, enquanto eu tento relaxar.
Vários minutos depois, quando já tinha me vestido com uma camiseta e calça jeans, e acabara de terminar de limpar o banheiro — ficou impecável a limpeza, não podia-se encontrar uma sujeirinha sequer para contar a história -, saio para o corredor largo dos Schreave. Uma mulher baixinha, com os cabelos louros e o rosto já bastante enrugado vem ao meu encontro assim que ponho os pés para fora do quarto. Quando chega perto o suficiente, ela abre um sorriso educado.
— Boa tarde, senhor Kile — mumura, a voz macia.
— Boa tarde... ?
— Lucy — diz, seu sorriso acentuando-se um pouco mais.
— Boa tarde, Lucy... você poderia me dizer que horas são? — Pergunto, havia esquecido de verificar o horário antes de sair. Ela observa rapidamente seu relógio prateado, e então seus olhos faíscam para mim novamente:
— São 16:00, e acredito que a família Schreave esteja lhe esperando no jardim para tomar o café da tarde — avisa. Ponho minhas mãos geladas dentro do bolso dianteiro da calça. Se arrependimento matasse, eu já estaria morto de frio por não ter colocado mais roupas dentro da mochila.
— Sei... e onde fica?
— Quer que eu lhe acompanhe, senhor Kile?
— Se não estiver muito ocupada... não estou familiarizado por aqui.
Lucy concorda com a cabeça, e faz um gesto com as mãos pequenas, pedindo para que eu a acompanhasse escada a baixo. Ela caminha muito rápido, precisei me concentrar para segui-lá. Na sala, dobramos para a esquerda, e pouco tempo depois encontramos uma porta enorme de vidro, que Lucy empurra com certa força, fazendo com que o caminho ficasse livre para uma área aberta e bem verde. Havia muitas flores espalhadas pelo o chão, e alguns árvores. À direita, avisto Maxon, America e Eadlyn, e mais duas figuras idosas. Os 5 estavam sentados à uma mesa, e um telhadinho protegia suas cabeças do sol, ou seja lá do quê. Tipo um piquenique de rico, sei lá. América foi a primeira a me enxergar, e abriu um sorriso pra mim, fazendo um sinal entusiasmado para que eu fosse até lá. Olho para Lucy, agradecido por ela ter se disposto a interromper o seu serviço para me acompanhar.
— Obrigado, Lucy — digo com um sorriso.
— Disponha, senhor, com licença — responde, também com um pequeno sorriso nos lábios, para então partir em retirada com pegadas rápidas e precisas. Sigo por um caminho de pedra reto, que ia da porta de vidro até a mesa farta — o que me lembrou que estou morrendo de fome -. Algumas flores também ladeavam o trajeto. Quando cheguei, Maxon levantou-se e me cumprimentou com um aperto de mãos firme, enquanto que América me abraçou de forma amorosa. Elas, Eadlyn e sua mãe, pareciam muito diferentes uma da outra... não tanto fisicamente, mas em questão de personalidade. America era muito mais doce.
— Estes são Clarkson e Amberly Schreave, Kile — Maxon apresenta, apontando para os dois senhores elegantes que reparara anteriormente. Estendo a mão para o Clarkson, e depois para Amberly. Amberly tinha olhos castanhos, um corpo mais arredondado, mas mesmo assim não pude deixar de ver certa semelhança dela com Eadlyn. Talvez os cabelos, ou o traçado forte do rosto, não sei.
— Prazer em conhecê-los — eu digo, tentando parecer educado, mesmo que por dentro eu só quisesse estar na minha casa, com minha família de verdade, meus tios. Apesar de ter gostado dos pais da Eadlyn, ainda não me sentia à vontade, talvez seja culpa por ter colocado mais pessoas legais nesse ninho de mentiras entre mim e a filha deles.
— O prazer é nosso, Kile — Diz Amberly, sorrindo pra mim. Sorrio-lhe de volta.
— E como está o seu tio? — Pergunta Clarkson, enquanto eu me sento à mesa, ao lado de Eadlyn que me lança um sorrisinho falso.
— Bem, bem.
— Ele daria um bom político — reflete o senhor, olhando para algum ponto distante, e depois focando o olhar para o rosto de Maxon. — O pai dele teve muita coragem pra deixar o filho seguir o sonho de ser jardineiro — diz.
— Paisagista — corrijo, abrindo um sorriso afetado. — Admiro muito o meu tio, ele é um exemplo de como devemos seguir nossos sonhos.
Clarkson abre um sorriso duro, e então concorda com a cabeça.
— Você se tornou um rapaz muito bonito, Kile — fala Amberly, risonha. — E, principalmente, um homem íntegro e responsável, pelo o que pude perceber e pelos os comentários que recebi ao seu respeito.
Bem, com certeza esses comentários não vieram de Eadlyn.
— Obrigado, de verdade — falo, lançando um sorriso genuíno para ela.
— Foi seu tio que desenhou está área de lazer, Kile, — murmura Maxon, parecendo orgulhoso do amigo — às vezes peço pra alguma empresa fazer a manutenção, mas procuramos deixar sempre com o mesmo modelo de antes.
Meu sorriso alargou-se.
— Tio Carter ficará feliz em saber — digo, sendo sincero. Ele, volta e meia, contava alguma história da adolescência dele com o Maxon.
Os olhos de Maxon brilharam.
— Sei que vai — diz.
— E sua tia? Diga que estou com saudades dela. Faz quase 3 meses que não nos vimos — fala America, seus lábios levemente curvados para baixo.
— Ela comentou que estava se programando para vir a Londres, mas o hospital, muitas vezes, acaba preenchendo muito do tempo dela — falo.
— Entendo, mas de qualquer forma, não esqueça de dizer que estou morrendo de saudade dela — murmura, e eu concordo alegremente com a cabeça. Pelo visto, virei um menino de recados, mas não que eu me incomode.
Há uma pausa silenciosa, e eu aproveito para me servir de café e cortar uma fatia de bolo para mim.
— Você está tão quietinha hoje, Ead — observa Amberly, que recebe uma afirmação de America.
— Ainda estou um pouco cansada, só isso — diz ao bebericar algum líquido quente de dentro da xícara branca.
— E como está a faculdade? Está se preparando bem para seguir os passos da família? — Indaga Clarkson, olhando para Eadlyn com uma mistura de orgulho e autoridade.
Eadlyn desvia o olhar para o prato quase vazio diante de si.
— Sim, vô.
— Está gostando? — Maxon pergunta, a voz também transmitia orgulho. — Sei que será ótima.
Ela abre um sorrisinho amarelo, e assente com a cabeça.
— É legal, pai! — Retruca, aparentando entusiasmo na voz, mas algo me diz que tinha algo estranho em suas feições.
Eu estava prestes a tentar entender o que a expressão de Eadlyn queria dizer, quando uma brisa fria arrepiou ainda mais os pelos do meu corpo. Esfrego minha mão pelo o braço desnudo, tentando fazer algum calor ali.
— Está com pouca roupa — analisa America, com ar maternal.
— Vi que aqui é verão, então não trouxe roupas mais adequadas — e dou de ombros.
— Demorei para me acostumar com o clima daqui — responde ela, sorrindo.
— Venha comigo, vou te emprestar algum casaco — fala Maxon, já levantado-se.
— Claro... com licença — peço, já seguindo Maxon pela a casa adentro, e subindo mais uma vez a escada. Ele procura alguma peça dentro do enorme roupeiro, e me entrega um casaco marrom. Visto-o, e o caímento ficara bom, já que tinhamos quase a mesma altura.
— Ficou bom em você — ele fala.
— Obrigado.
— Sabe... sei que você e Eadlyn estão juntos ha pouco tempo, ela é um pouco difícil, mas é uma boa menina — murmura, enquanto repousa uma mão sobre o meu ombro. — Dê uma chance, que ela vai te mostrar que pode ser doce.
— Claro... — não sabia mais o que falar além disso.
Maxon concorda com a cabeça, o sorriso um pouco afetado. Seguimos então para o andar de baixo, quando ele diz:
— Eadlyn é parecida em muitos aspectos com a mãe — reflete ele. Penso um pouco sobre isso e, até então, não consigui ver nenhuma mera semelhança, além do fato de ambas serem lindas. — Com o tempo, ela deixa de ser defensiva.
Eu estou pensando em algo coerente para lhe responder, quando uma mulher com saia longa e escura e um blazer entra no meu campo de visão, com um telefone negro em mãos. Ela abre um sorriso educado para mim, e então seu olhar foca em Maxon.
— É o Robson Levigne, disse que é importante — avisa, ao estender o aparelho para Maxon, que o pega imediatamente.
— Com licença, Kile — pede, antes de sair caminhando apressado para o lado oposto ao jardim, e com a mulher logo atrás dele. Quando dobro o corredor, acabo esbarrando em Eadlyn que, mais uma vez, está com roupas muito simples e comportadas.
— Ah... oi — ela diz, parecendo dispersa.
— Oi — digo, ponho uma mão dentro do bolso do casaco de Maxon. — Então... gostaria de te agradecer pelo os cobertores a mais hoje.
— Tudo bem, não há de quê. Apenas fiquei com receio de acordar com alguém morto por hipotermia no mesmo quarto que eu — e aí ela faz uma careta engraçadinha.
Ficamos nos encarando pelo o que me pareceu um minuto inteiro, mas acho que não devia ter passado de uns 6 segundos.
— Você está bem? — Pergunto.
— Estaria melhor se não precisasse mais fingir.
— Está se referindo ao nosso namoro?
— Estou me referindo à muitas coisas, Woodwork.
Eu queria abraçá-la simplesmente porque ela parecia abalada. Queria saber o que estava acontecendo, ao mesmo tempo em que preferia me manter à salvo de qualquer problema alheio que não fosse os meus próprios. Mas a questão é que eu não surportava ver uma garota triste ou magoada e, querendo ou não, Eadlyn é uma garota. Escuto passos vindo em nossa direção, e aproveito para puxá-la pela a cintura, e lhe dar um abraço forte. Sinto seu corpo tenso, mas logo ela relaxa e escora o queixo no meu ombro por um breve momento. Essa necessidade de reconfortar as pessoas, eu herdei da convivência com minha tia, mas que não era muito prática quando se tratava de pessoas que eu não gostava tanto. Segundos depois nos afastamos.
— Tinha alguém vindo? — Indaga.
— Até que você é esperta — murmuro. Ela sorri de canto.
— Eu sei.
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