Quem Nós Somos?
20 K - Quase que eu... bom, deixa pra lá.
"Você estava realmente surpreso quando ela deixou todas as suas memórias para trás. Ela nunca disse que estava doendo, mas que garota quer dizer que esta bem quando diz isso?
E ela está chorando e ela está morrendo para que você possa levá-la para casa, e ela não quer um espaço, ela só quer ser procurada; e que você mostre que ela não está sozinha.
Então, não espere e deixe-a ir, porque eu não quero ser a única que tem de dizer "eu bem que te avisei".
Eu bem que te avisei.
É claro que ela quer atenção porque você nunca diz o quanto ela significa para você. Não deveria ser novidade que ela quer ser importante para você, então não banque o idiota (...)
Mas você já sabe disso, então por que você senta e espera para que ela mude de ideia?
E fica dizendo a si mesmo que vai ficar bem, quando você sabe que estou certa?"
Kathryn Dean — I told you so
Por Kile Woodwork
A noite passada fora, de certa forma, bem divertida. Bem, eu ainda estava bastante irritado com Eadlyn, mas não conseguia continuar a ignorando, até porque, ela não se deixava ser ignorada. Quando fomos dormir, depois do fracassado jogo de Verdade e Consequência -- talvez nem tão fracassado assim, já que Micaela e Josafah haviam meio que evoluído no relacionamento deles, que eu nem sabia se existia mesmo... talvez não exista, mas, de acordo com Eadlyn, eles se gostam --, e de jantar pão com salsichas assadas na fogueira, fui dormir. Dessa vez, quem sabe por eu estar um pouco cansado da noite anterior mal dormida, não tive problemas em pegar no sono.
Mais uma vez, quando acordei, os outros não estavam mais no quarto. Será que nos dias de aula eles tinham toda essa disposição para levantar cedo também? Eadlyn também não estava, então eu me espreguicei inteiro na cama, olhando para o teto com uma expressão de tédio. Espera... aquilo ali na madeira era uma mancha? Estreito os olhos, forçando minha visão a ter detalhes. Uou, aquilo era uma mancha, e parecia de café. Só Deus sabe como foi parar lá, mas eu queria limpá-la. No entanto estou com preguiça, então coloco o travesseiro em cima da cabeça, para poupar os meus olhos de ver aquilo.
Escuto o som da madeira barulhenta do banheiro rangendo, e então um som de passos parecia se aproximar, em seguida, uma voz soou:
—Se está querendo se matar sufocado pelo o travesseiro, não está fazendo certo — Eadlyn diz, e eu abro os olhos contra o peso leve sobre o meu rosto. -- Posso ajudá-lo --continua ela, e então eu sinto um cheiro de perfume; --posso sentar em cima dele, pra te sufocar. É assim que funciona um suícidio, namorado.
—Você não faz ideia do quanto eu estou contente em você ser a primeira voz que escuto ao acordar, ainda mais com esses seus comentários tão angelicais e positivos. Me sinto um abençoado por Deus. E, além do mais, se você fizesse isso, acredito que se enquadraria em assassinato, e não suícidio -- ironizo, enquanto tiro o travesseiro da cabeça e o jogo para o lado. Eadlyn está diante do espelho, passando uma escova em seus cabelos que hoje pareciam mais lisos. Sua calça é jeans e escura, com botas sem salto até a altura dos joelhos. A regata branca acentuava sua cintura e o seu decote. Uma jaqueta curta sem mangas e também jeans terminava de compor o look. Me viro na cama, ficando de lado, fitando-a com atenção.
—Você é meu namorado, você é obviamente um abençoado por Deus --murmura ao abrir um sorriso e me olhar de relance. --Mesmo que seja por chantagem.
—Não deve estar sendo tão ruim assim --eu digo, lembrando-me da facilidade com a qual Eadlyn retribuiu o meu beijo ontem.
Ela me fita de soslaio, a expressão indecifrável.
—Está sendo mais que ruim.
Faço uma careta.
—Você é tão destestável -falo, enquanto me sento na cama, esticando os braços para o alto e inclinando a coluna um pouco para trás. --Não deveria ir com a sua cara.
Agora ela para de mexer nos cabelos, se vira para mim, e arqueia uma sobrancelha com a testa levemente franzida.
—Não sabia que ia com a minha cara --diz, fazendo uma careta.
Penso sobre aquilo. Bem, eu também não sabia, ou talvez não quisesse admitir, mas claramente, apesar de ser uma peste vinda diretamente dos quintos dos infernos às vezes, eu ia com a cara dela. Agora eu ia.
—Está sabendo agora --murmuro ao me levantar em um salto da cama, passando por ela e lhe dando um beijo na bochecha. Sabia que aquilo a irritaria, e quando ela semicerrou os olhos, eu sorri. --Mas não fique se achando, cherie, posso mudar de ideia novamente.
Eadlyn bufa e estufa o peito, jogando seu cabelo para o lado.
—Quem você pensa que é pra falar isso? --Indaga, indignada.
Reviro os meus olhos, e então coço a minha nuca por um momento, antes de responder:
—Kile Woodwork, prazer --falo, curvando-me um pouco para baixo, e estendendo minha mão para pegar a dela. Dei um beijo de leve antes de me erguer novamente. --Mas não estou ao seu dispor --pondero um pouco sobre aquilo, e dou risada; --não, definitivamente não estou.
Eadlyn pisca seus cílios longos e cheios de rímel. Parecia aqueles de boneca.
—Acho que você entrou demais no personagem --ela pontua e, por algum motivo, corou as bochechas; -você não é o cara popular e charmoso, Kile -murmura, desviando o olhar para algo atrás de mim. --Você é o só nerd que eu trouxe pro meu círculo.
Cruzo as mãos atrás da nuca, inclinando a minha cabeça um pouco para o lado, enquanto analisava o rosto de Eadlyn, até que abro um sorriso largo.
—Não sou popular, realmente -digo, lhe dando uma piscadela; --mas sobre não ser charmoso? Bem, acredito que suas amigas pensem exatamente o oposto.
Ela cruza os braços, trocando o peso de uma perna para a outra. Parecia que estava pensando em algo para me responder, e eu esperei pacientemente.
Pigarreia.
—É que você finge muito bem --diz, desviando o olhar para a minha testa, ao invés dos meus olhos. --Ontem a noite... a música, foi realmente muito bom, encenou de um jeito bem convincente. --Fala, piscando algumas vezes antes de me encarar.
Ah... a música. Foi a primeira que me passou pela a cabeça, achei que combinava com... bem, não sei.
—Óbviamente, você sabe que não foi uma declaração... eu definitivamente não estou apaixonado por você -digo, minha voz soando um pouco mais alta, e os seus lábios franziram-se um pouco. --Mas na parte da música que fala sobre a garota ser bonita --continuo, observando o seu rosto com atenção. --Isso foi real.
Ela abre a boca e fecha duas vezes. Seus olhos haviam aumentado de tamanho um pouco, e então tossiu. De repente, dá de ombros.
—Eu sei, não preciso que você diga. Sou maravilhosa --retruca, e eu não sabia se ria, ou se revirava os olhos. Na dúvida, não fiz nenhum dos dois.
—Tá. E então? --Questiono, olhando-a de cima a baixo. --Não vai ser praia hoje?
Ela sacode seus cabelos de um lado para o outro. Sua pele está levemente bronzeada, e seu colo está um pouco avermelhado.
—Vamos cavalgar... o avô do Richard chegou, e ele é fazendeiro e tal... acho que essa coisa de campo é tradição por aqui, sei lá. Ou nós vamos ver as vacas... e ovelhas... não sei exatamente --e então, ela passa por mim, esbarrando no meu ombro, e eu me viro para continuar com Eadlyn sob a minha visão. Pega um chapéu com uma aba arrendondada e escuro, escondendo seu rosto de mim quando abaixou a cabeça um pouco para baixo.
Coço a lateral do meu rosto, franzindo o cenho.
—Ahn... bem rural --digo, abrindo um sorriso divertido.
Em seguida, Eadlyn praticamente me empurrou para dentro do banheiro, resmungando que eu deveria me arrumar logo, que o restante do pessoal estava nos esperando. Como de costume, não me estendi muito no banho, e procurei me vestir com alguma roupa leve, então escolhi uma calça um pouco mais folgada do que as skinny que Eadlyn me obrigava a usar, e uma camiseta lisa e escura. Quando descemos, Diogo, que era um cara de estatura média e com cabelos escorridos e ruivos que iam até os ombros, e expressivos olhos castanhos, me estendeu um boné um pouco surrado e preto. Ele mesmo usava um, só que vermelho.
Pego o boné, olhando-o com as sobrancelhas franzidas.
—Vai por mim, cara --Diogo começa, abrindo um sorriso maroto, -o senhor Campestro não vai deixar a gente descansar, vamos fazer tipo um tour por aqui -e aí seu sorriso fecha, e ele suspira. --E o sítio é beeeem grande --conclui, fazendo uma careta, antes de fazer um sinal com as mãos, para o seguirmos. Olho para Eadlyn, mas ela está com os olhos azuis focados no seu celular. De repente, ela para e me olha:
—Você tem uma boa disposição física, com certeza não irá sofrer muito -- diz, lançando-me uma piscadinha, e caminha para fora do casarão dos Campestro. Assim que coloco os pés para fora, dou de cara com jovens ao redor de duas pessoas de mais idade. Me lembrava aqueles passeios do colegial, quando todos os alunos ficavam ao redor do professor, recebendo as instruções para dar início à jornada que, pelo o menos pra mim, nunca fora exatamente divertida. A não ser quando fomos ao Museu. Aquele lugar era, sem duvidas, incrível.
Um senhor murmurava algo, gesticulando com as mãos enquanto parecia que tentava explicar algo. Ele é razoavelmente alto, talvez 1,75m. Está usando um chapéu de cowboy cor de camurça, na verdade, acho que era feito do mesmo material. Conforme fomos nos aproximando, pude perceber que ele possuia uma barba rala e branca, constratando com a pele morena, já marcada pelo o tempo com uma variação de rugas profundas e outras mais superficiais. Suas bochechas eram cheias e um pouco caídas, e de repente me passou pela a cabeça a ideia de que talvez ele fosse descendente de índios. Talvez. A mulher ao seu lado, com seus 65 anos quem sabe, também está com um chapéu e um batom vermelho sangue nos lábios. Ela está com o braço dentro do bolso da jaqueta do marido -eu acho que é marido, mas não posso ter certeza. Ambos usavam botas de cano alto e sem saltos.
Das garotas, apenas Patrícia, Fernanda e Eadlyn usavam chapéus. Micaela está de boné, assim como seu irmão, Louise, Katherine, eu e Diogo. O restante não tem nada em suas cabeças. Assim que nos avistou, o homem abriu um largo sorriso, parando o que estava dizendo, e abraçando Eadlyn com um abraço forte e um aperto de mãos firmes em mim. A senhora também abraçou Eadlyn, só que mais suavemente e também me abraçou.
—Vô e vó, esse é o Kile, que eu estava falando pra vocês, o novo namorado de Eady --murmura Micaela, abraçando-se por um segundo, parecendo extremamente animada ao me apresentar como namorado de sua amiga. Micaela me passava uma boa impressão, talvez houvesse alguém de verdade entre as amizades de Eadlyn. Na verdade, acho que aprendi a ir com a cara de todos os que estão aqui. Até mesmo Louise não parecia ser tão ruim, mas, mesmo assim, ainda me incomodava o fato dela tratar bem somente quem fazia parte do seu círculo social. Me incomodava profundamente.
Havia julgado os amigos da Schreave, mas nem todos eram superficiais como ela, ou como alguns que encontro pelo o campus. Todos são amigáveis, e pareciam ser pessoas boas e normais, e eu comecei a cogitar a possibilidade de deixar de criar uma ideia das pessoas sem antes trocar algumas palavras com ela. Isso iria demorar, mas posso me esforçar... mesmo que eu não faça exatamente questão de me enturmar com qualquer um que me aparece pela a frente. Não por preconceito ou qualquer outra coisa, é só preguiça. Gosto de direcionar minhas energias com coisas simples, como me manter vivo, estudar e tocar, ao invés de socializar.
—Kile, não é mesmo? Meu irmão se chamava Kile --retruca o homem, balançando a cabeça de cima para baixo vagamente. Ele ainda sorria. -Eu me chamo Jacob Campestro, esta é minha esposa, Elizabeth Campestro --apresenta ao colocar um braço ao redor do corpo miúdo e magro da mulher. --É uma honra tê-lo pela a primeira vez aqui.
—Seja muito bemvindo, querido --murmura a senhora Elizabeth, olhando-me com um ar maternal. Sua voz é um pouco rouca.
—Muito obrigado, é um prazer pra mim conhecê-los --digo eu, sendo sincero. Semprei gostei de pessoas de mais idade, toda aquela sabedoria de anos e anos de vida, os olhos antigos e a pele que contava histórias, sempre me agradou. E com relação aos avós Campestro, digamos que gostei deles assim que coloquei os olhos.
—Tens bom gosto, menina --fala Elizabeth, rindo um pouco.
Olho para Eadlyn, um canto dos meus lábios se arqueando. Ela me fita rapidamente, e então olha para a senhora simpática.
—Tenho, eu sei --fala, e quando ela me olha de novo, dou uma levantadinha nas duas sobrancelhas de cima para baixo, meu rosto sendo repuxado em um sorriso sacana. Eadlyn revirou os olhos e me fitou com tédio.
Provocá-la estava começando a ser um dos meus passatempos prediletos.
O tour, do qual Diogo mencionara mais cedo, realmente durou bastante tempo. Tempo até demais. Não sei se me cansei tanto só por ter caminhado muito, ou se era por causa do sol que brilhava forte no céu, que fazia meus músculos amolecerem um pouco. Agradeço mentalmente pelo o Diogo ter me dado um boné. A fazendo de Jacob e Elizabeth é enorme. Um vasto campo verde se ia para além do horizonte, algumas vacas pastavam, espalhada pela a grama, enquanto outras aproveitavam para beber de alguma poça, ou aproveitar a sombra de alguma árvore com folhagens robustas. Neste momento do passeio caseiro mais ou menos, Eadlyn apontou para uma das vacas e disse:
—Olha ali, Fernanda, encontrei sua irmã gêmea --murmurou, de forma inocente, piscando seus olhos e abrindo um sorriso. Fernanda apenas a encarou, fez cara de desdém e ficou quieta. Eadlyn pareceu decepcionada, acho que queria que a garota fizesse algum barraco.
Enquanto víamos as ovelhas, um grupo estava mais a frente, outros conversando animadamente com os avós Campestro, e eu entre Fernanda e Eadlyn. Fernanda é bonita, tem olhos escuros e uma sobrancelha bem marcada, seus cabelos são de um loiro claro, mas eu acho que não eram naturais. Seus lábios são cheios, e eu não sou idiota e sabia que ela flertava comigo. Quando eu contar para Marcus, o cara vai ficar de boca caída. Eadlyn pareceu incomodada, ficou com uma expressão de irritação toda vez em que eu prestava atenção e respondia, às vezes com um estusiasmo forçado — apenas para provocá-la -, a garota. Será que estava com ciúmes?
Seria legal.
Vimos algumas ovelhas, galinhas — neste momento Eadlyn também fez uma brincadeirinha sem graça (pra mim teve, para a Button, não). Algumas horas mais tarde, paramos em um local a céu aberto, onde um retângulo com uma grama bem aparada, estava ladeado por uma cerca de madeira um tanto frágeis, talvez judiadas pelo o tempo. Alguns cavalos estão sendo domados, e eu fico encantado com um baio, seu pelo era extremamente reluzente.
—Incrível -eu penso em voz alta. Acho que nunca tinha visto cavalos de verdade, a não ser pela a televisão.
—Eu sei -suspira Eadlyn, me fazendo olhar para baixo para fitá-la. Queria ver o seu rosto, mas a aba do chapéu dificultava completamente. Franzo o cenho, eu queria saber qual expressão tinha em seu rosto. Só pude ver os seus olhos, quando ela inclinou a cabeça para cima, sorrindo. --Você sabe montar?
Olho novamente para os cavalos, agora o senhor Jocab havia entrado, e Pietro e Josafah estavam em seu encalço. Acho que iriam montar. Em seguida, avisto Dandara, correndo atrás deles, gritando que queria ir também.
—Não. — A fito de novo. --E você?
—Fiz equitação quando criança.
Eu iria murmurar algo, mas a risada de Fernanda me dispersou. Ela aponta para a frente, e vimos Dandara erguendo-se no chão. Ela havia caído do cavalo... ou seja lá do que, só esperava que a garota não tivesse se machucado.
—Dandara é patética --bufa Fernanda, enquanto terminava de rir e revirava os olhos. Franzo o cenho. Quando nem eu e nem Eadlyn fizemos qualquer comentário, ela continuou: --Tipo, se ela emagrecesse... — e bufou; --não que fosse ficar mais bonita, na verdade nem sei porque ela anda com a gente — ponderou.
E naquele momento, eu poderia dizer que Fernanda também me incomodava. Senti vontade de virar as costas e ir embora, mas Eadlyn murmurou algo que me fez ficar e ouvir:
—Não entendo a sua surpresa, você não é tudo isso --retruca Eadlyn, impaciente. Fernanda abriu a boca para dizer algo, mas a Schreave ergue seu dedo na altura dos lábios, seu olhar é autoritário. --E quer saber? Você está me enjoando, por que não vai junto com os outros? Vá pastar com suas irmãs, vá ser feliz bem longe de mim e de Kile.
Fernanda fica chocada, e então, ela empina seu nariz, parecendo muito incomodada, mas não retrucou, apenas lançou um olhar mortal para Eadlyn antes de ir embora, marchando com passadas largas e pesadas no chão. E resmungou algo que não entendi.
Quando fico encarando a Eadlyn, ela abaixa a cabeça, impedindo que eu pudesse ver o seu rosto.
—O que foi isso? --Perguntei, sem querer abrindo um sorriso.
—Nada.
—Ciúmes? --Agora ela me olha apenas para me deixar vê-la fazer cara de tédio.
—Óbvio que não.
—Então você realmente defendeu Dandara?
Eadlyn suspira, se vira para mim e apoia as mãos na cerca de madeira, erguendo o seu corpo até estar sentada nele.
—Dandara é tipo uma agregada --começa, me lançando um olhar sugestivo. --Ela não andava com a gente até começar a namorar Katherine, e ela sempre foi legal comigo, não tenho motivos de não ir com a cara dela. Fora que Fernanda estava me irritando desde que começamos esta porcaria de viagem, e... bom --Eadlyn suspira, agora olhando para as suas unhas.
Espero até que ela continue, mas ela parecia que tinha desistido.
—E...? -Estimulo.
—Nada --resmunga.
—Fala.
—Não.
—Fala.
—Não --e revira os olhos.
—Vou usar o seu jogo contra você. Se não me contar, vou te incomodar durante as 24 horas que estamos passando um ao lado do outro --ameaço com uma sobrancelha erguida.
Eadlyn bufa, irritada.
—Tá. É que não gostei de Fernanda ter comentado sobre o peso de Danara. A garota já sofreu com bulimia, e ela sabe... foi péssimo. E eu já sofri com isso, quando tinha uns 12 anos, sei que é horrível, e agora a menina está bem com o próprio corpo, e eu valorizo isso.
Ok, acho que fui pego de surpresa. Jamais imaginaria isso.
—Sabe de uma coisa? --Questiono após algum tempo em silêncio. Eadlyn parece dispersa quando foca seus olhos em mim.
—O quê?
—Adoro saber que você tem um coração com chances de voltar a bater como um ser humano normal.
Ela iria me dizer alguma coisa, mas aí eu me aproximei dela, e tiro o seu chapéu.
—O que pensa que está fazendo, imbecil? --Indaga, com o rosto franzido.
—Aquele negócio feio estava me impedindo de ver o seu rosto -respondo com sinceridade. Ela fica me olhando agora, não diz nada, seu rosto também não demonstrava nenhuma emoção. E seus lábios se afastaram um do outro, e seus olhos não saiam dos meus, e os seus cabelos estão um pouco bagunçados, e eu começo a me aproximar ainda mais, colocando o meu corpo entre as suas pernas, aproximando o meu rosto do seu. Espero que ela reaja, me bata, me morda, me chute, mande eu me foder, mas Eadlyn permanece imóvel. Me encara, inclinando o rosto mais para a frente, nossos lábios separados por uma nesga de ar. Iriamos nos beijar.
Com certeza iriamos nos beijar.
Não fosse o meu celular tocando alto em meu bolso traseiro da bermuda, fazendo com que eu me afastasse em um salto para trás. Eadlyn quase se desequilibrou e caiu para o lado, mas eu segurei sua cintura antes que isso acontecesse. De repente, seu rosto ficou corado, e ela desce da cerca antes de dizer em voz baixa:
—Estou ficando louca --e ir embora, me deixando com o celular tocando insistente. Atordoado e passando uma mão pelo o rosto, atendo sem antes olhar o identificador de chamadas.
—Alô? -Falo, ainda meio confuso pelo o quase beijo. Onde eu estava com a cabeça, sério?
—Kile? Oh, Kile! -Diz minha tia do outro lado da linha. --Porque você não me ligou? Estávamos preocupados.
—Eu esqueci, desculpe. Mas preocupados com o quê? --Indago, ao franzir as sobrancelhas.
—Ora, você nunca ficou tanto tempo fora de casa --responde. Olho para o céu, agora menos azul do que antes, algumas nuvens cinzentas já começava a tingí-lo, dando a dica de que os dias de sol estavam com as horas contadas.
—Tanto tempo? Tia... não faz tanto tempo --retruco.
—Claro que faz... o quê? Não, eu que... Carter, não! --Ouvi sua voz, mas a do meu tio não consegui entender, até que a voz dele soa dentro do meu ouvido: -Aproveite, Kile! Sua tia é paranóica.
Eu abro um sorriso.
—Nós dois sabemos --murmuro com um ar cúmplice.
—... vocês vão ver paranóica quando eu deixar os dois sem almoço e janta—berrou ela do outro lado. --Desculpe, querida, você não é não, estava brincando --tio Carter murmurou, mesmo sem estar diante dele, sabia que ele sorria. --E você está se divertindo? Como está sendo, Kile?
Penso um pouco sobre aquilo enquanto deslizava o meu dedo pelo o queixo, e depois puxava alguns fios da barba para baixo.
—Não sei muito bem... está... interessante, mas não posso dizer até quando --reflito, ao pensar em Eadlyn e abrir um sorrisinho de lado.
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