Quem Nós Somos?
5 E - O que está feito, está feito.
Notas iniciais
"Quero saber o que sente agora,
Se ainda sonha, ou continua a pensar que nada disso vai valer.
Ainda não sabe me dizer direito,
Se me deixa ou se me põe no peito,
Eu sei, tem medo de se arrepender."
Esteban — Sophia
Por Eadlyn Schreave
O som alto de alguma coisa caindo no chão me acordou. Respiro profundamente, eu simplesmente odiava quando interrompiam o meu sono, odiava de verdade, puxei isso de minha mãe, eu acho. Abro um dos meus olhos para ver o que tinha acontecido, e vi que Manoela havia deixado cair um de seus livros no chão. Não é de se admirar que o baque tenha sido tão alto, o livro da garota devia ter um milhão de páginas. Puxo o travesseiro para cima da cabeça, deixando apenas uma pequena fresta para poder respirar.
Manoela continua fazendo barulho. Qual é o problema dela, afinal? Hoje não é sábado?
Me viro na cama, ficando agora de barriga para baixo.
Sim, hoje é sábado.
Suspiro.
— Ei, hoje é que dia? — Eu pergunto para ela. A menina demora um pouco para responder, o que faz com que eu apoie meu cotovelo no colchão e incline a cabeça em sua direção. Manoela parecia supresa. Obviamente estava exagerando... tá certo que erámos colegas de quartos há quase dois anos e apenas a pouco tempo tinha me tocado que o seu nome era Manoela... mas eu era simpática com ela, não era?
Bem...
— Sábado. — Responde, um sorriso tímido surgindo em seus lábios ressecados. Por que ela não passa um hidratante ali? Me jogo novamente na cama.
— E por que você está fazendo tanto barulho? — Olho de relance para o relógio em cima da mesinha de cabeceira. — É madrugada.
— São 8 horas, Eadlyn. — Diz, a voz séria. Ela sabia o meu nome, bom saber, apesar que... quase o campus inteiro sabia.
Fecho os meus olhos, uma lembrança desagradável tingindo minha mente.
— Argh... tem revisão pras provas, não é? — Pergunto apenas para confirmar, já sabia que era isso. Todos os cursos, cada um em um auditório. Eu bem que precisava de uma revisão, estava bem perdida neste semestre, mas a minha cama está tão, mas tão gostosa, que seria tipo um pecado sair dela agora.
Depois eu me viro, eu sempre dava o meu jeito.
— É, sim, você não vêm? — Manoela quer saber. — Podemos ir juntas... — pareceu animar-se. Pigarreio. Ela não tinha o perfil de pessoas com as quais eu costumava aparecer em público, ela estava mais para o tipo de pessoa que andava com o Kile.
Ah, sim... Kile. Eca. Eram perfeitos um para o outro.
— Não. — Digo. Há uma pausa pesada, então eu complemento: — Estou muito cansada.
— Entendo... nos vemos depois, então. — Murmura, e logo em seguida escuto o rangido da porta ao ser aberta, e o baque abafado quando ela a fechou.
Assim que tenho certeza de que estou sozinha, me sento na cama. O meu reflexo no espelho, no outro lado do quarto, mostrava que o meu rímel não borrou. Eu sempre dormia de rímel, não gostava de acordar e me ver sem ele, me dava agônia. Desmancho o meu coque, que fazia sempre antes de dormir para não acordar com uma juba de leão, herdada de minha família paterna, e balanço os fios para que emoldurassem o meu rosto.
Quase me arrastando, e com um mau humor especial por ter acordado tão cedo sem necessidade — quer dizer... -, me rumo em direção ao banheiro, tomo um banho gelado, sempre ouvi dizer que água gelada ajuda a manter a pele sempre jovem. Não que eu precisasse me preocupar com isso agora, mas é sempre melhor prevenir do que remediar, não é mesmo?
Estou enrolada em minha tolhada de oncinha, que é muito fofinha por sinal, quando escuto o som de batidas na porta. Acho que Manoela deve ter esquecido algo... mas ela não tinha a chave?
Abro a porta do quarto, sem me incomodar por estar apenas de toalha, independente de quem fosse. E eis que quem está ali é Erik. Seu sorriso é tão sexy, meu Deus. Sua camisa justa revela seus músculos que são diariamente e insistentemente cultivados na acadêmia. Lindo, lindo, nenhuma palavra o definiria melhor.
Mas eu teria que terminar com ele. Meu sorriso por vê-lo desaparece, e então espalmo uma das mãos na minha testa.
— Que foi? — Erik pergunta, já entrando no quarto e trancando a porta. Enquanto ele se aproxima, eu vou dando passos para trás. Ele franze o cenho, parecendo incomodado com a minha reação. Erik não está acostumado com indiferença.
— Você não ia ficar uma semana lá com a sua família? — Mudo de assunto, desviando o olhar para a parede azul bebê logo atrás dele.
— Ia, mas estou aqui agora. Qual é, cara? Você não parece feliz por me ver, que que foi? — Sua frustração agora é evidente. Abro a boca para terminar logo, seria melhor assim, mas Erik me puxa pela a cintura e enterra a sua boca no meu pescoço. — Você é tão gostosa, Eadlyn. — Murmura, seu hálito arrepiando os pelos do meu corpo.
Ele sempre me elogia assim. Gostosa, linda, e essas coisas. E eu gostava, gostava muito, mas não tínhamos nada além de atração física e uma imagem social que nos previligiava. Eu poderia terminar com ele agora, neste exato momento... mas o maldito tirou a minha toalha, teria que deixar pra depois.
Estou acabando de fechar o zíper de um short curto, super curto. Erik odiava aquele short, e para complementar visto minha blusa de renda e que deixa minha barriga de fora.
— Você não vai usar isso. — Alertou ele, enquanto vestia a sua camisa lisa e azul.
— Já estou usando. — Respondo, enquanto me viro de costas para verificar através do espelho se estava tudo certo com a parte traseira da roupa.
— Você parece uma vadia com essa roupa. — Solta Erik. Me encaminho até onde ele está e aponto o meu dedo pra sua cara.
— Vadia é a sua mãe.
Erik cruzou os braços, me olhando com raiva. Nós sempre brigávamos, mas desta vez iria usar nossa briga como justificativa para o término.
— Minha mãe não usa esse tipo de roupa. — Retruca.
— Foda-se. — E reviro os olhos. E eu com isso com o tipo de roupa que a mãe dele usava? Me poupe.
— Eadlyn... — seu tom é de alerta. Arqueio uma sobrancelha.
— Que foi?
— Não quero minha mulher sendo chamada de vadia por aí.
Dou de ombros.
— Você devia ter orgulho de ter uma namorada como eu. — Retruco, falando extremamente sério.
— Depois não reclama se algum mané passar a mão em você. — Murmura, irritado. Ele pega o seu cinto de cima da cama e se encaminha até a porta, provavelmente pretendendo me deixar falando sozinha de novo. Mas isso não iria acontecer.
— Quero terminar. — Falo. Erik para imediatamente, suas sobrancelhas ficando franzidas e o seu rosto muito branco, agora ficando muito vermelho.
— O quê? — Ele está completamente surpreso, como se não visse motivos pra eu querer terminar com ele. Como se ele fosse bom demais para eu tomar essa atitude.
— Isso que você ouviu. — Digo, passando pelo o seu corpo alto e forte e... ok, parei. Abro a porta do quarto e gesticulo para que ele se apressasse em sair dali. — E que fique claro, que independente da roupa que eu estiver usando, ou mesmo se eu estivesse andando nua pelo o campus ou pela a rua, NADA daria o direito de alguém encostar UM dedo sequer em mim sem a minha permissão. Agora saía, vou me arrumar pra festa da Suzzana.
Erik me fitou com os olhos muito abertos. Por uma fração de segundos pensei que ele iria me pedir desculpas ou algo do gênero, mas ele apenas mostrou o dedo do meio pra mim.
Faço uma careta.
— Você vai se arrepender, eu que fiz você aqui na Universidade, elevei o seu status.
— Eu me fiz sozinha, não preciso de niguém.
Erik parecia muito, muito irritado, indignado. Ela revira seus olhos e saí pisando forte no chão. E só porque eu sou só um pouquinho dramatica, fecho a porta com o baque beeeem alto, pra que ele pudesse ouvir. Fico parada por um instante, esperando sentir algum tipo de remorso...
Nada.
Respiro fundo e pego o meu celular de cima da cômoda. Procuro o nome da pessoa que em hipótese alguma imaginaria que estaria da minha agenda, e deslizo o dedo pelo o touch para iniciar a ligação.
Kile atende no milésimo toque. Argh.
— Quem é? — Ele pergunta, a voz razoavelmente agradável.
— Você não olha no identificador de chamadas antes de atender? — Questiono enquanto abro a porta do roupeiro e procuro por um vestido pra usar esta noite.
— Ah, é você. — Sua voz azedou. — A que devo a honra dessa ligação?
— Terminei com o Erik.
— Quando? — Agora ele transmitiu interesse.
— Agora a pouco.
— Você não parece triste.
— E não estou.
— Sabe, você é bem estranha, mas me sinto melhor em saber que não acabei com nenhum tipo de romance verdadeiro. — Ele deu uma ênfase desnecessária na última palavra.
— Ótimo. Tenho uma festa pra ir hoje, e você vai comigo. — Avisei.
Kile solta uma risada de escárnio.
— Me diga em que momento de nosso breve relacionamento, eu permiti que você me dissesse o que eu iria ou deixaria de fazer? — Ele bufa.
Abro um sorriso maroto.
— Erik estará lá.
Há uma pausa.
— Que horas é a festa? — Pergunta.
— Começa às 19:00, mas eu passo no seu quarto por umas 20:00 horas.
— Não estou no dormitório, hoje é sábado.
— Onde está?
— Nos meus tios.
— Te busco aí então, estou com saudades de Marlee e Carter mesmo.
— Não, Eadlyn, não quero que eles saibam que estamos conversando.
— Às oito horas. Até mais. — E desligo.
Jogo o aparelho em cima da cama, ainda tinha bastante tempo para ficar incrível, perfeita. Queria que Erik babasse, que todos os caras babassem, que ele visse que não fora ele que me elevou na universidade, que com ou sem ele, eu era inabalável. Uma rainha.
O táxi estacionou em frente à uma bela casa. A varanda continha vasos de plantas, e com certeza aquele jardim era o mais bonito que vira naquele bairro, e talvez até mesmo da cidade. Pego o dinheiro de dentro da bolsa, e entrego-o para o motorista negro, com olhos brilhantes, mas que já passou da idade de pessoas que eu consideraria pegáveis. Meu limite é até os 28, e olhe lá. Ele sorriu para mim, e eu lhe lancei uma piscadela, saindo do carro em seguida.
O carro permanece parado, mas eu não viro para trás pra poder confirmar que o motorista de 40 anos e sorriso bonito ainda me fitava. Quando finalmente chego na varanda, ouço o som do táxi partindo, e então ajeito o meu vestido colado e preto, e sacudo os cabelos para dar um pouco de volume a ele.
Foi Kile quem abriu a porta. Ele está com uma calça jeans vermelha, e uma blusa azul claro. Os tênis são os surrados de sempre, mesmo eu tendo escolhido uns 3 pares ontem. Discretamente, ele me olha de alto a baixo e arqueia minimamente uma sobrancelha.
— Gostou? — Pergunto ao colocar minhas mãos na cintura.
Kile dá de ombros.
— Vai passar frio. — Eu reviro os olhos. — Vamos logo. — Diz ele, já praticamente me empurrando para trás pra poder fechar a porta.
— Espera aí, você não vai ir com essa roupa. — Digo. Kile dá uma olhada em sua própria roupa, parecendo confuso.
— Mas foi a roupa que você escolheu pra mim ontem.
— Woodwork, você tem muito pra aprender ainda. Essas peças não combinam, você está parecendo um palhaço.
— Como você consegue ser assim, tão doce?
Estreito os olhos, com certeza era alguma zoação. Bufo.
— Doce feito um limão. — Concluiu. Ele abriu um sorriso sacana.
— Obrigada, adoro limão. Talvez eu até mesmo pegue um e espirre aquele líquido ácido que tem dentro dele nos seus olhos. Seria uma cena interessante, não acha?
— Não. — Ele coça a lateral de seu rosto. — Espere aí, vou trocar de roupa.
— Ei, você vai me deixar aqui na rua? — Faço uma careta.
— Esse é o plano.
— Vou ir com você, e vou te ajudar a escolher as roupas. — Aviso, já passando por ele e entrando na sala espaçosa dos Woodwork. Me viro para ele, que está muito frustrado com a minha atitude. Abro um sorriso de canto e inclino a cabeça para o lado. — Onde é o seu quarto?
Kile olha pro teto, colando a palma de suas mãos, aparentemente fazendo alguma prece silenciosa. O garoto não me responde, apenas segue adiante, subindo as escadas de madeira escura, que fazia uma curvatura suave, quase como um caracol. Ele segue pelo o corredor da direita, e abre a segunda porta. Dou uma analisada geral no quarto. Limpo, organizado, com livros e DVD's enfileirados em ordem alfabética. Uma cama de casal, com os cobertores muito bem esticados, e com um violão escorado no encosto dela.
— Você toca violão? — Questiono, incapaz de esconder a minha surpresa.
— É o que parece.
Bufo.
— Poderia ser só de enfeite.
Kile abre a porta do seu guardaroupa.
— Não sou do tipo de cara que tem as coisas apenas por aparência, pra enfeite. — Retruca.
Suspiro. Era difícil conversar com alguém que não sabe se colocar no seu devido lugar.
— Tá, tá. — Digo, entediada. — Pegue a calça jeans escura, o tênis branco e a camisa social branca. — Instruo. Kile hesita por um momento, mas no fundo ele sabia que não iria adiantar resmungar comigo.
— Pronto, senhora. — Então bate contiência. — Você vai ficar aqui enquanto eu fico semi nu na sua frente? — Um sorriso divertido surgiu em seu rosto. Faço uma careta feia.
— Prefiro poupar os meus olhos deste sofrimento. — E viro de costas. Kile soltou uma risadinha humorada, mas não comentou nada.
Segundos depois a voz dele ecoa pelo o quarto:
— Okay, acho que agora podemos ir.
Me viro para analisá-lo.
— É... quase. — Me encaminho até ele, e dobro a manga da camisa até a altura do cotovelo, dou uma desabotoada no último botão e tiro-a de dentro da calça. Kile parecia incomodado por me ter tão perto, e eu estava tentando fingir que não me importava... ao menos o seu perfume é muito bom. — Agora sim. — Falo, sorrindo triufante.
— Vou continuar com os óculos. — Avisou, parecendo decidido. Dou de ombros.
— Essa armação é bonita e moderna, mil vezes melhor do que aquela que, provavelmente, foi o Harry Potter que te deu.
Ele suspira.
— Você me cansa.
— Todo ato tem uma consequência, namorado. — Debocho, e dou uma piscadinha em seguida. Kile fecha a expressão. Deslizou os dedos pelos seus cabelos escuros com certa dificuldade, até que eles ficassem razoavelmente arrumados.
— Será que dá pra irmos agora ou você tem algum outro pitaco pra dar sobre a minha aparência? — Indaga, a voz entediada.
— Você está adequado assim, se conseguir manter a boca fechada, podemos até fingir que você é outro cara.
Ele franze a testa.
— Você está querendo dizer que eu estou bonito? — Pergunta com uma risada.
— Estou querendo dizer que você não parece mais um lesado. E só pra avisar, não vim com o meu carro.
— Vamos com o meu, então. — Ele sorriu divertido.
— Não, vamos com o de Carter.
— Não vamos.
— Vamos sim.
— Não.
Estreito os olhos e abro a porta do quarto. Não iria com o Fiat velho de Kile pra uma festa nem morta. Nós iriamos no do tio Carter por bem ou por mal. Na parede perto da madeira da porta, vislumbrei um pôster enorme daquela banda que os caras usam máscaras bizarras... Slipknot.
— Essa banda parece coisa do dêmonio, é a sua cara. — Falo, já dando um passo para fora do quarto.
Kile revirou os olhos, meio ofendido.
— Você já escutou alguma música deles? — Retruca, passando por mim e caminhando na minha frente pelo o corredor. Eu, denitivamente, não gosto de ficar atrás de ninguém.
— Não escutei e não pretendo escutar.
— Então não julgue a banda, não faça com que o meu conceito sobre você caía ainda mais... se é que é possível essa proeza, cherie.
Agora foi a minha vez de revirar os olhos. Na metade da escada, avisto Marlee e Carter, os dois pareciam muito surpresos em nos ver juntos, e a expressão de Kile era semelhante a de alguém que está na iminência de ser atropelado por um caminhão sem ter a possibilidade de sair vivo.
Adorei.
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