Quem Nós Somos?
9 E - E que os jogos comecem!
Notas iniciais
"Me conheceu sabendo, não seria fácil, viver é uma arte, amar é complicado. Mas pense que é a chance de você parar de se esconder... Olha pra janela, o tempo passa mesmo. Perdeu tantos momentos sem provar meus beijos (...)
Se pensar em voltar a me procurar pra gente tentar se entender, pense bem no que quer porque nosso amor depende muito mais de você. Seja o que for, eu te avisei, você já sabe o que eu sempre quis. Não depende de sorte, depende da gente, a vida é pra tentar ser feliz. "
Paula Fernandes — Depende da gente
Por Eadlyn Schrave
Eu já sabia, há muito tempo, que Kile era um babaca. Mas, por incrível que pareça, ele conseguia a proeza de se superar constantemente e tinha o terrível dom de me deixar furiosa. Às vezes só de olhar pro seu rosto, eu já sentia que estava praticamente entrando em um colpaso nervoso. Respiro o ar profundamente, e solto-o bem devagar. Faço isso algumas vezes antes de procurar um Tilenol em minha necesserie, colocando-o direito na boca, deixando com que o comprimido raspasse a minha garganta, descendo a seco. Olho para as minhas roupas dobradas em cima da cama, roupas de verão. Peguei somente as peças mais comportadas, aquelas que não deixavam muito o colo a mostra, nem muito justas, ou muito curtas. Suspiro. Há tempos que me importava se meu short deixava a poupa da minha bunda de fora ou não e, pra falar a verdade, foi muito, muito, muito difícil mesmo eu conseguir encontrar essas peças mais comportadas.
Como consequência, não irei precisar levar nem mesmo uma mala para esta maldita viagem. Uma mochila seria o suficiente para colocar duas calças jeans, e duas camisetas de manga. Sim, de manga. Eu fiz uma tatuagem no braço ontem, e eu não quero que meus pais vejam. A verdade, é que eles não sabem que eu não sou mais a menininha deles e, para não chocá-los, eu tentava parecer mais como antes, quando minha vida era uma merda gigantesca. A bobinha rebelde. Agora sem a bobinha, só rebelde mesmo... mas eles não precisavam saber.
Prendo o meu cabelo em um rabo de cavalo frouxo, e ponho uma alça da mochila no ombro. Quando pego meu celular para ligar pro Kile, avisto uma mensagem no whatsapp de Louise.
Abro a mensagem meio desconfiada, ela mal falara comigo nesses dias, ao que parece, ela havia preferido ser leal à piranha da Julieta, do que a mim.
Louise diz: Oii, Ead... queria falar com você hoje! Vamos marcar de sair
Franzo os lábios, e escrevo uma resposta rapidamente.
Eu: Não posso, vou viajar
Louise está digitando...
Louise diz: Hj? sozinha?
Abro um sorrisinho malicioso, e digito:
Eu: Não, com o meu namorado.
Ela visualiza imediatamente, e em seguida sua mensagem chega pra mim.
Louise: Kile? o.o
Eu: óbvio, que eu saiba é o único namorado que eu tenho no momento. Vou sair aqui, tchau.
E então saí do aplicativo, sem me dar ao trabalho de ler a mensagem que chegara em seguida. Busco o número do Woodwork na minha agenda, e antes de iniciar a ligação, coloco um 9090 na frente. Simplesmente não estava disposta a gastar os meus créditos ligando pra ele. Depois do terceiro toque, uma voz eletrônica chegou aos meus ouvidos.
— Após o bipe, diga o que nome e a cidade de onde está chamando... Biiip.
— Olá, Kile, como você está? — Digo, incapaz de esconder o meu sorrisinho divertido.
— Péssimo, estou pagando para ouvir a sua voz, como acha que eu estaria? — Diz, meio ranzinza.
— Credo, seus tios são ricos, não vai ficar mais pobre por atender uma ligação a cobrar.
— Meus tios são, eu não. Quem tem mais condições aqui é você. A próxima vez não vou atender. — Avisou. Reviro os meus olhos mais de uma vez.
— Você é tosco, ogro, Shreck. — Murmuro, resignada pela a oudácia dele de sempre me tratar com desprezo.
— O que você quer? — Pergunta, sem se importar em revidar os meus xingamentos.
— Quero que você venha me buscar dentro de 15 minutos mais ou menos, estarei te esperando. — Falo.
Kile bufa.
— Não vou te buscar, não sonha.
— Se você não sabe brincar de ser namorado, não devia nem ter começado a jogar os dados. — Franzo as sobrancelhas. — Você vai vir, sim.
— Cherie, minha casa fica perto do aeroporto, não vou fazer o mesmo caminho duas vezes só pra ir buscar a princesa. Venha de carro, oras.
— Estou sem carro. — Menti.
— Pegue um táxi. — Retrucou imediatamente.
— Estou sem dinheiro vivo, apenas cartão de crédito. E até eu conseguir encontrar algum taxista que tenha o aparelho de Crédito, pode demorar horas e aí será tarde demais e perderemos o vôo. — Menti de novo. Eu nunca, nunquinha, saía sem algumas notas de dinheiro.
— Venha andando, ou correndo. Venha voando na sua vassoura. — Mumura, a voz meio azeda.
— Você é insuportável. — Bufei.
— Você também não é nenhum doce de candura. Estou esperando você. Tchau. — E desligou.
Qual é o problema dele, afinal? Será que ele me acha feia? Não, não é possível. Então por que ele me trata assim? Por que não consigo fazer com que ele seja um capacho aos meus pés como a maioria dos garotos do campus, ainda mais aqueles que estão fora do meu círculo social?
Esse menino ainda vai me pagar. Vou fazer ele me idolatrar, ou então não me chamo Eadlyn Calix Singer Schreave. Quando estou prestes a sair do quarto, avisto Manoela entrando, seus ombros sempre meio para baixo, seu cabelo muito cacheado me lembravam os meus antes de começar a cuidá-los. Assim que ergue os seus olhos do chão e finalmente encontram o meu rosto, ela abre um sorriso tímido, mas não diz nada.
Arqueio uma sobrancelha.
— Eu vou ficar fora neste final de semana — falo eu, enquanto colocava os meus óculos Ray Ban. — Vou viajar com o Kile... qualquer coisa, se alguém vier perguntar por mim, você pode dizer isso, por favor? — Peço, minha voz um pouco autoritária. Mas o 'por favor' ao fim da frase amenizou um pouco... eu acho.
— Você e Kile estão namorando mesmo? — Questiona, sua voz baixa transmitia surpresa e um algo a mais que não consegui identificar.
— Infelizmente. — Murmuro baixinho, quase inaudível.
— O quê? Me desculpe, acho que não te entendi. — Seus olhos faíscaram.
— Estamos namorando, sim. — Abro um sorriso falsamente entusiasmado.
Manoela fica em silêncio por um instante, parecia que digeria a informação lentamente, e então seus olhos foram parar no chão mais uma vez, enquanto que suas bochechas adiquiriram uma coloração avermelhada.
— Não sabia que ele fazia o seu tipo... — Diz, a voz ainda mais baixa do que antes. Seus olhos ainda não me encaravam.
Arqueio agora as duas sobrancelhas e faço um gesto qualquer com uma das mãos.
— Kile não é mais o boboca de antes, você não o viu nesta semana? — Pergunto.
— Vi, sim...
— Ele está realmente lindo, não é? Quem diria que por trás de um pateta, tinha aquele cara atraente? — Indago, valorizando-o, mesmo que, ao meu ver, ele sempre foi e sempre será um pateta. A questão é que, se ele era o meu namorado para todos os efeitos, o mínimo que eu poderia fazer era elevar a moral dele. Porque eu, Eadlyn Schreave, não saio a público com qualquer um.
— Sempre foi bonito, pra mim. — Diz, agora virando-se de costas e deixando sua bolsa em cima de sua cama. — A beleza nem sempre é aquela mais vísivel.
Faço uma careta e reviro os olhos. Se ela conseguiu ver a beleza de Kile antes de eu repaginá-lo, bem, então ela não precisava mais usar aqueles óculos fundo de garrafa.
— Tá certo. — Digo, meio seca. — Até segunda. — E saio porta a fora.
No estacionamento, procuro pelo o meu carro. Um conversível rosa, o Kile iria amar, com certeza. Durante todo o trajeto até a casa do Woodwork, comecei a sentir uma crescente ansiedade dentro do peito. Eu queria ver os meus pais, estava com saudade, não posso negar. Mas eu não sentia saudade de Londres, daquela vida, dos jornais, ou das festas com gente falsa e sem graça, de como eu sempre tinha que parecer ser uma boa menina para não prejudicar meu pai, e de como a fase inicial e intermediária da minha adolescência fora um fiasco. Não sentia falta de quem eu era antes, de como eu chorei, ou de como me senti completamente sozinha durante anos e anos, mesmo estando cercada de pessoas. Viro a esquina, e entro na rua larga e cheia de belas casas, todas com lindos jardins coloridos e bem cuidados. Me pergunto se fora o tio Carter que os fizera.
Lá, parado com as mãos dentro do bolso de sua calça jeans, com a mesma mochila que usa diariamente na faculdade e com os seus 1,86m está Kile. Seu cabelo está bagunçado, mas não está feio. Surpreendentemente bem vestido, com uma camisa social branca e tênis LIMPOS — surpresa em dobro. Seu rosto está terrívelmente sério enquanto eu aproximo o conversível dele, seus olhos focados na lataria rosada e luminosa do veículo. Abro um sorriso provocativo, enquanto lhe lanço uma piscadinha e abro a porta do carro para sair.
— O que significa isso? — Pergunta, ao apontar com o dedo polegar para o carro. Sigo o seu olhar, e o meu sorriso era grandioso.
— A Sra. Sunshine. — Respondo, alegremente.
Ele me encara com a expressão incrédula.
— Colocou um nome no carro? Um ser inanimado? Sem vida?
Dou de ombros.
— O que que tem?
— Nada, Eadlyn — e suspira.
— Cadê teus tios? — Pergunto ansiosa, olhando de relance para o casarão, estranhamente simples, dos Woodwork.
— Eles trabalham. — Diz, as feições entediadas, dando a entender que era óbvio. — Hoje é sexta feita à tarde, nós não nos sustentamos de oxigênio apenas.
E então me olha, e eu faço uma careta, e ele abre um sorriso pequeno, parecia que já estava esperando pela a expressão que eu faria após suas palavras.
— Legal. Vamos logo, precisamos ir logo senão perderemos o Vôo. — Digo.
— Estou mais preocupado com a disciplina que estou perdendo hoje. — Diz, ao caminhar em minha direção e abrir a porta do carona. Entrou em seguida.
— Relaxa, matar aula uma vez na vida não vai proibir a sua entrada no céu. — Falo assim que afivelo o meu cinto.
— Claro. — Kile coça a lateral do seu rosto, a barba havia sido aparada, apesar de ainda estar grande. — Você não tinha nenhum carro normal pra andar?
— Este é normal, qual o problema dele? — Quero saber, fingindo estar confusa. Mas por dentro estou dando a risada da Malévola.
Kile suspira e então cruza os braços. Fica em silêncio e faz um gesto de cabeça, dando a entender que não era nada.
— Vai ser legal. — Eu afirmo pra ele, ao dar a partida e seguir rumo ao aeroporto.
— Você está muito otimista pro meu gosto, isso quer dizer que tomou o seu remedinho? — Ele debocha, mas a sua voz se suavizou, e um sorriso largo apareceu em seu rosto.
Mal sabe Kile que sim, eu tomo remédio. Pra ansiedade. E que esse otimismo é fajuto, é só pra eu tentar me convencer que está tudo bem quando, no fundo, a possibilidade de tudo dar errado é iminente. Mas ele não precisa saber disso, ninguém precisa saber que eu estou quase tento um ataque cardíaco.
— Engraçadinho. Vamos tirar uma foto? — Falo, pegando o meu celular e abrindo a câmera frontal.
— Por quê? — Retruca Kile, revirando os olhos.
— Pra eu postar e todo mundo saber que estamos viajando juntos. — Digo.
Ele pensa por um instante, e então se aproxima de mim. O seu perfume é forte, mas somente consegui sentir quando chegamos bem perto um do outro. Nossos rostos tão próximos, que alguns pelinhos de sua barba fizeram cócegas na minha pele. Nossa imagem na câmera está legal, até que não ficávamos mal juntos... pelo menos menos nesta foto.
— Se prepare para vários seguidores a mais. — Eu aviso. — Vou te marcar, meninas vão cair feito chuva. Elas sempre querem tudo o que eu tenho.
— Você não me tem.
— Foda-se. Agora sorria e finja que estamos felizes e que não nos odiamos. — Murmuro.
Um click foi ouvido em seguida.
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