Há anos Mahara não via uma tempestade como aquela. Era como se o mar quisesse engolir a ilha Molokai inteira. O vento uivava se movendo tão rápido que fazia com que as arvores se curvassem perante ele. As ondas batiam contra a enseada repetidas vezes, quebrando as poucas canoas que encontravam em seu caminho. E engolindo as pessoas que não corriam da praia rápido o suficiente.

Mahara não via uma tempestade daquelas desde que... Desde que Kaleo morrera. Seu menino, tão pequeno. Ela disse para se afastar do mar. Pois o mar é perigoso e cruel, ela dizia enquanto sacudia a colher no ar, ele engole e não cospe mais. Mas ele não a escutou. O mar estava como daquela vez, quando as ondas engoliram a canoa de Kaleo e arrastaram-no para as profundezas de onde ele nunca mais voltou.

Ao lembrar da cena que assistira impotente, Mahara deixou que suas lágrimas corressem, acompanhado a chuva que batia em seu rosto enquanto observava o mar de longe. Ficou feliz por estar ensopada, não gostaria que ninguém a visse assim. Muito menos seu marido, Hani, que não suportava vê-la triste.

Foi em seus devaneios e lágrimas que ela avistou ao longe. Não, não podia ser, não depois de todo esse tempo. Ela largou os mantimentos que estavam em suas mãos e correu para a praia.

***

A criança não parecia se debater. Não parecia buscar fôlego. Como se todo aquele inferno não fosse grande coisa... Ao contrário, o bebê sorria. Como se o mar estivesse brincando com ele, lhe fazendo cócegas.

Mahara não sorriu quando pulou no mar revolto. Pode escutar gritos de advertência atrás dela, mas o mar não levaria mais nenhuma criança enquanto ela estivesse perto. Ela nadou, a braçadas fortes, utilizando seus braços malhados pelo trabalho na ilha, brigando contra as ondas.

Até que o pegou em seus braços. E então o mar mudou... Ele não estava mais lutando contra Mahara, estava lutando com Mahara. As ondas não a afastavam mais da praia e sim a empurravam em direção a ela. O mar continuava revolto, como se as ondas dançassem loucamente, mas agora aquela loucura estava salvando ambos: Mahara e o bebê. Não era o seu bebê, mas ela segurava a criança como se fosse sua criança. Como se fosse Kaleo.

Quando chegaram à praia Hani veio em sua direção correndo. Mahara estava bem, apenas desnorteada pela investida das ondas.

—Mahara, o que deu em você? –Disse ele, agarrando a esposa com um forte abraço– Não se pode confiar no mar. “Pois o mar é cruel, ele engole e não cospe mais.” –Completou tentando imitar o tom de voz dela.

Ele era assim, brincava com tudo. E fazia de tudo para fazê-la feliz. Mas ela não havia sorrido. Ela encarava o bebê. Olhava para ele como se decidisse o que fazer com ele. Ele não era da ilha, Mahara o conheceria. Ela era a curandeira do pequeno vilarejo.

Aquele bebê veio do nada, trazido do mar. O mesmo mar que levou seu Kaleo embora. Que senso de humor ridículo tinha ele, mandar outra criança como se fosse substituí-lo. Ninguém substituiria Kaleo nem hoje nem... E então o bebê sorriu, e o próprio céu se abriu, as ondas se acalmaram e os ventos se tornaram brisa. Ele estendeu suas mãos gorduchas e tocou o rosto de Mahara. Nem mesmo aquele coração corroído pela dor suportou aquela doçura. Seu sorriso transmitia a mais pura felicidade. Ela sorriu, e deixou uma lágrima escorrer. Ela mostrou a criança para Hali. Que sorriu de maneira bondosa.

—Kai... –Disse Mahara, com o bebê nas mãos.

Hani abraçou-a novamente, cobrindo a criança e a esposa com seus enormes braços.

—Ohana. –Ele disse enquanto se perdiam naquele abraço que podia durar para sempre, naquele pequeno universo de felicidade.

Kai jamais substituiria Kaleo. Hani e Mahara sabiam disso, e mais tarde, Kai também tomou ciência desse fato. Kaleo e seu espírito aventureiro jamais seriam esquecidos por sua família. Mas aquela criança cuspida pelo mar não tinha intenção de substituir ninguém, não tinha intenção de apagar Kaleo da memória de seus pais. Quem sabe o mar enviou Kai como presente, como dádiva. Como peça que faltava naquela família pra que pudesse novamente ser feliz. Pra que juntos fossem, sem melhor palavra para definir, ohana.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.