Queen of The Night: Selena
1 A Rainha da noite e o Caçador de Van Helzen
Notas iniciais
2016, Colégio Católico de Maria Imaculada.
A chuva fina e fria de agosto caía sobre os paralelepípedos estreitos de Van Helzen, refletindo as luzes pálidas dos postes de iluminação. Dez anos. Era o tempo exato desde a última vez que eu tinha ouvido a voz de Narven Sefaradi sem que fosse através de memórias distorcidas pelo saudosismo do tempo.
Eu tinha apenas quatorze anos quando ele partiu para a Sérvia, enquanto ele, com seus dezesseis recém-completados, exalava uma maturidade prematura e uma audácia quase irritante. Naquela época, no pátio do colégio, as diferenças entre nós pareciam gritantes e, ao mesmo tempo, irrelevantes.
Ele era dois anos mais velho e cerca de 15 cm mais alto, sempre enaltecendo o serviço militar com um brilho de ambição nos olhos, enquanto eu escondia por trás dos meus testes de QI elevado e do meu sarcasmo defensivo uma mente que já desenhava os fundamentos do meu próprio sistema de magia.
— Você analisa as pessoas como se fossem equações de segundo grau, Selena — ele me disse uma vez, encostado na grade do pátio, cruzando os braços com aquele sorriso de canto. — Mas esquece de incluir a variável mais simples: a sensatez.
— Sensatez, Narven? — respondi na época, sem tirar os olhos do meu livro de ocultismo disfarçado com capa de romance clássico. — Vindo de alguém que quer trocar a tranquilidade do colegial por marchas militares e disciplina rígida? Isso soa quase poético.
— Alguém precisa garantir que o mundo continue inteiro para que intelectuais como você possam continuar lendo em paz — ele debochava, com aquele humor descontraído que conseguia desarmar até o meu cinismo mais severo.
Narven descruzou os braços e deu meio passo na minha direção, inclinando a cabeça apenas o suficiente para que o brilho provocativo nos seus olhos ficasse bem visível.
— Embora... — ele continuou, abaixando a voz em um tom suave, quase confidencial — se esse mundo que eu proteger tiver você esperando por mim no final, acho que poderia até me esforçar um pouco para voltar sem nenhum arranhão. Quem sabe você não me concederia uma honra como essa?
Ele me deu aquele sorriso de canto irresistível, a audácia em pessoa mascarada sob o pretexto de um flerte despretensioso. A diferença daqueles dois anos entre nós se fazia notar não pela altura ou pelo porte militar que ele já começava a desenhar, mas pela facilidade com que ele testava os meus limites.
Eu nem sequer mudei a postura. Sem erguer os olhos da página ou alterar a expressão neutra, virei a folha com uma lentidão calculada, deixando o silêncio pairar no ar entre nós por longos segundos antes de dar a resposta.
— Se você pretende sobreviver ao exército baseando-se em ilusões desse tipo, Narven, temo que dez anos não serão suficientes para ensinar-lhe realismo — retruquei com voz pausada e gélida, fingindo total indiferença enquanto ajustava a postura. — Concentre-se nas suas marchas. É um uso infinitamente mais produtivo do seu tempo.
Narven soltou uma risada baixa, sem se abalar nem um pouco pelo banho de água fria, claramente satisfeito por ter conseguido interromper o meu foco, mesmo que por um instante.
— Anotado, senhorita Warlock — disse ele, dando um leve tapinha na grade antes de se afastar. — Mas não se preocupe, a sensatez sempre encontra um jeito de vencer no final.
Agora, na noite límpida de 31 de outubro de 2026, a sensatez parecia uma memória distante. Nada seria como antes, eu presumia.
Eu o vi caminhar em minha direção perto dos antigos armazéns do distrito leste. Ele havia mudado. Os ombros estavam mais largos, o porte ereto pelo rigor de uma década no exército, e o olhar... o olhar mantinha a mesma capacidade analítica de outrora, só que agora afiada pelo combate real.
Nossos olhos se cruzaram sob a intensidade da névoa densa. Não houve abraços ou dramatismo. Apenas a pausa calculada de dois observadores natos reconhecendo o impacto do tempo um no outro.
— Você não mudou nada, Selena. Continua andando por becos escuros a essas horas da noite. — disse ele, a voz mais grave, mas mantendo a mesma provocação de sempre.
— E você continua se achando o dono da razão, Narven. Dez anos de exército e nem um pouco de modéstia? — retruquei, esboçando um meio sorriso que durou menos de um segundo.
A tensão entre nós era palpável, um equilíbrio delicado entre a nostalgia da juventude e a desconfiança do presente. Mas antes que pudéssemos dar o próximo passo nessa dança verbal, o ar ao nosso redor congelou.
O cheiro de enxofre e carne queimada impregnou o ambiente.
Da escuridão entre os galpões, a terra estremeceu. Uma silhueta monumental emergiu da névoa: uma criatura grotesca, um gigante cujas mãos e punhos queimavam em chamas vivas de um alaranjado doentio. O monstro urrou, e o impacto do som fez os vidros dos armazéns próximos estilhaçarem.
Narven reagiu no mesmo instante. Seu treinamento militar o fez se projetar à frente, deixando sua mochila saco no chão, sacando uma lâmina tática enquanto tentava flanquear a besta. Mas aquela não era uma ameaça convencional.
— Selena, fique atrás de mim! — Pediu Narven, sua voz era autoritária e cobrava de mim uma postura imediata.
Com um único golpe de varredura, o gigante incendiou o solo e lançou Narven contra a parede de tijolos a metros de distância. O impacto foi brutal. Narven caiu desacordado.
Sua audácia de sempre o havia colocado na linha de frente, mas a magia daquele lugar me pertencia.
— Apenas observe, idiota. — murmurei para o corpo inerte dele, dando um passo à frente.
Deixei a energia do meu sistema fluir. Não a feitiçaria engessada dos velhos tomos de Salem Hills, mas a magia fluida e calculada que eu mesma havia desenvolvido. Tracei círculos rúnicos no ar com a ponta dos dedos, invocando círculos de contenção.
A criatura investiu contra mim, desferindo um soco flamejante que teria me reduzido a cinzas, mas meu escudo arcano absorveu o impacto, dissipando o fogo em uma espiral de faíscas.
Girei os braços, projetando estacas de energia violeta-profundo que perfuraram os ombros do gigante, prendendo-o temporariamente ao chão de asfalto. O gigante urrou de dor, tentando se libertar enquanto o calor de seus punhos derretia a matéria arcana.
Eu estava no controle absoluto do cenário. Ergui as mãos para desferir o golpe de misericórdia, pronta para canalizar um feitiço de desintegração que destruiria o núcleo da besta.
No entanto, antes que a palavra final saísse dos meus lábios, um estalo metálico cortou a noite.
Correntes escarlates, reluzentes e recobertas por espinhos afiados como navalhas, surgiram das sombras mais densas da viela. Elas cortaram o ar com uma velocidade sobrenatural, enroscando-se com precisão cirúrgica ao redor do pescoço volumoso do gigante.
A criatura sequer teve tempo de emitir um novo rugido. As correntes se tensionaram violentamente, cravando os espinhos na carne monstruosa e, com um único puxão seco e impiedoso, dilaceraram a garganta do demônio, decepando sua cabeça em um corte límpido.
O impacto da decapitação lançou um jato denso de sangue escuro e viscoso para o alto. A chuva de sangue espirrou sobre mim, cobrindo parcialmente meu rosto, meu peito e meus braços com o fluido quente e fétido da criatura.
A criatura desabou pesadamente, desfazendo-se em fumaça negra.
Limpei devagar o sangue do meu rosto com o dorso da mão, respirando fundo enquanto a adrenalina baixava. Entre as sombras projetadas pela lua de outubro, a figura que havia disparado as correntes deu um passo à frente.
Ele trajava um uniforme tático impecável: um macacão ajustado em tom de vinho bem escuro, calçando botas e luvas pretas integradas que pareciam absorver a luz. Detalhes em linhas verticais em neon vermelho reluziam suavemente ao longo de seu peito e braços. O rosto estava parcialmente coberto por uma máscara, cuja viseira reluzia no formato inconfundível de uma letra "V".
Eu estaquei. O ar fugiu dos meus pulmões por um segundo enquanto minha mente conectava cada detalhe do traje, a postura rígida, as correntes e a presença avassaladora daquele vigilante.
Olhei para a máscara, para as linhas em neon e para a precisão cirúrgica daquele ataque fatal.
Um sorriso irônico e fascinado se desenhou nos meus lábios manchados de sangue.
— Então, é você — declarei, sustentando o olhar refletido na viseira vermelha. — O caçador de Van Helzen!
Ele manteve o olhar fixo em mim, recolheu suas correntes e caminhou em minha direção lentamente. Ao passar ao meu lado, sem dizer uma palavra, senti um arrepio estranho. Pois havia notado algo estranhamente familiar, o caçador puxou suavemente uma mecha dos meus cabelos longos e os percorreu a pele quente do meu rosto com os seus dedos.
Ao final, ele estacou a uma distância de poucos milímetros do meu corpo, farejou o meu cheiro no ar e disse com sua tessitura vocal rasgada naturalmente, as palavras que guardaria para sempre em minha mente.
— Selena, Selena.. — O caçador de Van Helzen, começou a me chamar pelo nome em um tom poético e irônico. — Que flamejas, nas florestas da noite. Em que longínquo abismo, em que remotos céus ardeu o fogo de teus olhos?
Arregalei os olhos, a voz inaudível pelos sussurros que passaram a ecoar pelo ambiente. Estava paralisada, a respiração pesada, o meu olhar se cruzava com o dele e o caçador seguiu seu rumo, enquanto processava tudo aquilo no mais absoluto silêncio.
O amanhecer viria, trazendo consigo a luz de um novo dia. Era Halloween, uma data importante e impossível de esquecer. Antes de sair de casa, acendi uma vela e rezei para que os espíritos das bruxas ancestrais, fiéis aos ensinamentos, encontrassem a luz e a prosperidade em suas insaciáveis buscas pelo saber eterno.
Embora, estivesse afastada há anos da comunidade bruxa, em nenhum momento deixei de pensar com carinho e respeito singelo sobre toda a experiência que obtive naquele lugar, em Salem Hills. Sobretudo, de muitas pessoas queridas e que me fizeram ser quem eu sou hoje, a persona mais excepcional de nossa geração.
Peguei o celular, deslizei suavemente o dedo pela tela e acessei o aplicativo de corrida particular, aguardei até que um veículo fosse de encontro a minha localização e quando ele adentrou a rua de acesso à minha residência, acenei e o condutor parou o veículo ao meu lado.
Entrei pela porta da frente e seguimos viagem rumo à universidade. Durante o trajeto, conversamos um pouco para descontrair, ele era um senhor simpático e de terceira idade.
Dentre muitos assuntos pertinentes que conversamos, surgiu algo que me fez pensar um pouco e refletir sobre os eventos da noite anterior.
— E então, senhorita Selena. Já soube dos recentes rumores que circulam pela cidade? — Me perguntava, o condutor. Apenas olhei para o lado, batendo os dedos contra a janela, tentando disfarçar que não fazia ideia do que ele estava prestes a me falar. — Hmpf. Os boatos afirmam que um vigilante mascarado iniciou uma caçada livre contra as criaturas demoníacas nessa noite.
— Ah, então é mesmo verdade. — Sibilei, entrando na conversa sem qualquer pretensão de me alongar. — Temos um maluco mascarado brincando de ser herói. Mas que coisa.
— E não é só isso. Ouvi falar essa manhã que uma bruxa, indignada, o confrontou… — O velho motorista, declarou, me fazendo gelar por alguns instantes. — E sabe o que ele fez com ela? Ora, quem iria imaginar. Ele não só roubou sua presa, como fez questão de humilhá-la e ainda selou o seu grimório para que nunca mais pudesse usá-lo.
— Entendo. Esse mascarado me parece ser um sujeito atormentado. — Desabafei, com um tom e meio de sarcasmo.
O velho suspirou e soltou o ar de seus pulmões. O silêncio pairou por breves milissegundos até que me perdi nos meus pensamentos.
— “Se ele só quer caçar monstros, eu entendo. Agora.. — Comecei a refletir. — Se revoltar com bruxas já é algo que passa dos limites. ”
Após umas meia hora de viagem, finalmente cheguei ao meu destino. Agradeci ao motorista, desembarquei e caminhei lentamente em direção aos portões. Lugar este onde minhas duas inseparáveis amigas já me aguardavam.
Ao me aproximar, elas acenaram e sem muito perder tempo, fizemos o trajeto até a sala de aula. No caminho até lá, me colocavam a par de todas as coisas que aconteceram e elas não escondiam o coro de animação. Luana e Bianca são um caso meio particular que nem sei como explicar, por exemplo, como acabamos nos tornando amigas.
Lembro-me do exato dia em que cheguei ao campus e como a recepção não foi uma das mais calorosas por parte de muitos alunos, sobretudo quando expus uma certa opinião polêmica e que prefiro não relembrar, pois ainda me causa repulsa.
O dia seria longo, muitos estudos me aguardavam, tantas conversas para nos atualizarmos e essa noite, em particular, seria uma das mais memoráveis.
Antes de adentrar na sala da aula, atravessamos o corredor e nos deparamos com uma informação que me passou despercebida, depois de tudo o que aconteceu nessa madrugada e eu havia esquecido.
##### Quadro de Informações #####
(Anúncio Importante!!!)
Título: Festa fantasia no campus!
Horário: 9 pm
Convidados: Todos os alunos, familiares, amigos ou acompanhantes registrados.
Preço para participar: € 1000
Data: 31/10/2026
Obs: Os interessados devem procurar o chefe de monitores ou a direção da instituição com o nome das partes, a quantia em espécie e trazer algum acompanhamento(como bebidas, comida e etc..).
Ao ler o pequeno anúncio, revirei os olhos e respirei fundo. Antes de me pronunciar a respeito, a voz alegre e o sorriso contagiante de Bianca me chamou atenção. Ela estava me puxando pela camisa e cochichando algo que só nós duas conseguíamos ouvir.
— Ei, selena. Escuta só essa. — Bianca interrompeu, ao citar o meu nome. — A festa dessa noite promete. Mas soube que você não tem par, não é?
— E daí? — Retruquei, ajustando a ponte do óculos de leitura. — Algum problema?
— Como assim e daí? — Ela indagou, fervorosa. — Uma mulher incrível como você e eu, não podemos ser vistas andando sozinha nessa universidade ainda mais nessa noite de Halloween… não é Lua?
Luana assentiu com a cabeça, mesmo sem entender direito uma vírgula das loucuras que se passavam na cabeça de Bia. Mas eu, por outro lado, sabia aonde ela queria chegar e por isso não poupei esforços em tentar argumentar.
— Bia, menos, está bem? É só uma festa pagã como todas outras. — Declarei, profundamente irritada. — E além do mais, analisando de forma sensata, se nos vissem acompanhadas de alguma pessoa. Isso só alimentaria os boatos e realçaria a má fama que já temos no campus, caso tenha se esquecido.
— Selena, veja bem. — Luana se pronunciou, com uma postura impecável. — Eu sei que na mente da Bia, coisas estranhas acontecem. E já me acostumei com o fato de sermos só duas perdidas na estrada na vida. Mas você, não precisa se afundar no mesmo buraco que a gente, quero dizer. Poderia arranjar algum partido decente com quem iria se divertir muito essa noite.
Bufei de ódio. Contradita. Me dei por vencida e gesticulei com as mãos para cima, em sinal de rendição.
— Tá bom, tá bom. — Concordei com todas a palavras. — Mas se não der certo, a culpa é toda de vocês.
As duas riram e juntas seguimos para dentro da sala de aula.
O salão principal do campus universitário de Van Helzen estava metamorfoseado. Flâmulas roxas e alaranjadas pendiam dos tetos altos de arquitetura gótica, enquanto feixes de luz neon e fumaça fria criavam uma atmosfera de sonho — ou de delírio. Era o baile à fantasia do Halloween de 2026. Risadas ressoavam, taças de cristal tilintavam e uma orquestra ao vivo executava arranjos eruditos repletos de elegância e melancolia.
No entanto, para mim, o evento era apenas um mero teatro de futilidades.
Ajeitei o chapéu pontudo de aba larga e o vestido negro de veludo e renda que compunham minha veste clássica de bruxa. Sentada em uma cadeira estofada no canto mais escuro do salão, eu observava o turbilhão de alunos dançando. Recusei com um aceno gélido e sem olhar nos olhos o quarto pretendente que tentou me convidar para a pista de dança naquela hora. Ao longe, vi Bianca e Luana acenando para mim, já conduzidas por seus pares em meio à multidão festiva.
Caminhei até a mesa de bebidas para servir-me de uma taça de vinho tinto. Quando ergui a garrafa de cristal para encher a taça, uma garota vestida de anjo decaído passou em disparada com seu grupo, empurrando-me com o cotovelo de forma deliberada.
O impacto me fez cambalear. A taça de vidro caiu, estilhaçando-se no chão. Meus óculos de leitura deslizaram do rosto e caíram sobre os estilhaços e o vinho derramado.
— Ah, me desculpa! Eu não vi a bruxinha esquisita no canto — zombou a garota, soltando uma gargalhada estridente juntamente com suas amigas. — Olha só, sem os óculos ela nem consegue se mexer!
Eu resmungava entredentes, abaixando-me irritada para tatear o chão úmido e evitar os cacos. Mas, antes que meus dedos tocassem o piso, os risos ao redor cessaram abruptamente. O silêncio instalou-se em um raio de dez metros.
Passos firmes e ritmados ecoaram pelo salão.
Um rapaz alto, de porte militar impecável e ombros largos, abriu caminho entre a multidão. Sua pele parda contrastava com o traje tático e refinado em tom de vinho-escuro, detalhado em linhas verticais de neon vermelho que pulsavam suavemente. Seus cabelos castanhos estavam cuidadosamente dispostos em tranças bem alinhadas. Ele trajava a vestimenta temática do icônico vigilante de Van Helzen — o Disciplina.
As amigas da garota congelaram, boquiabertas com a presença magnética e a imposição física daquele homem.
Ele se inclinou com uma postura rígida e graciosa, recolheu meus óculos intactos do chão com suas luvas táticas pretas e me estendeu a mão livre.
— Permita-me, senhorita — disse ele. Sua voz era profunda, grave e impregnada de uma autoridade que fez o ar do salão parecer mais denso.
Ainda resmungando impropérios baixos sobre garotas fúteis, recoloquei os óculos na ponte do nariz. Quando minha visão focou a figura à minha frente, travei. A iluminação de néon desenhava perfeitamente os contornos marcantes de seu rosto pardo, o maxilar firme coberto por uma barba rala e o olhar penetrante que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.
Ele fez uma reverência formal e elegante, estendendo a mão espalmada para mim.
— Concederia-me esta dança, senhorita? — perguntou ele, exibindo um sorriso sutil e provocante.
Deixei-me conduzir. Apanhei sua mão e permiti que ele me guiasse até o centro do salão, onde os casais abriram espaço quase instintivamente ao verem a imponência do traje vermelho. Ele envolveu minha cintura com firmeza e nos colocamos a deslizar no ritmo da valsa clássica.
Permaneci em silêncio por alguns compassos, absorvendo o calor de seu corpo e o aroma sutil de couro e enxofre que emanava dele. Ele se inclinou perto do meu ouvido e, com um tom baixo e poético, recitou outro trecho do poema de William Blake que havia ficado marcado em nossa adolescência:
— Cordeirinho, eu o direi, / Cordeirinho, eu o direi: / Teu nome tomou inteiro, / Também se chama Cordeiro; / Humildade meiga e mansa, / Que se tornou uma criança.
Um arrepio percorreu minha espinha. A intuição não falhava: o homem sob a fantasia do Caçador era, de fato, o verdadeiro vigilante da noite anterior. Um sorriso sutil e enigmático despontou em meus lábios enquanto eu sustentava o olhar dele e respondia no mesmo tom:
— Eu, menino, tu, cordeiro, / Temos Dele o nome inteiro. / Cordeirinho, que Deus rei / Te abençoe, como o farei!
Ele puxou meu corpo para mais perto. Nossos rostos ficaram a milímetros de distância. Senti seu hálito quente contra minhas bochechas, e meu coração — habitualmente frio e calculista — disparou no peito. Fechei os olhos devagar, prestes a selar aquele reencontro com um beijo terno.
BOOOM!
O teto de gesso e as janelas de vidro temperado do salão estilhaçaram-se em mil pedaços.
A música cessou, substituída por gritos histéricos de pânico. Do centro da pista de dança, surgindo de uma fenda abissal de chamas negras que se abriu no solo, emergiu uma criatura demoníaca monstruosa: um cão infernal de três cabeças, com pele de ébano, saliva ácida e olhos vermelhos como brasas.
Nos separamos no mesmo instante.
— Luana! Bianca! — vi minhas duas amigas correndo em nossa direção em meio ao caos.
— Saiam daqui agora! Vão para fora do campus! — ordenei, assumindo uma postura de combate e invocando a primeira camada do meu sistema mágico de contenção.
— Não vamos te deixar para trás, Selena! — gritou Luana, segurando o braço de Bianca com firmeza.
— Escutem-me! — gritei de volta, com a voz embargada por uma autoridade desesperada. — Vai ficar tudo bem! Mas se qualquer uma de vocês se ferir por minha causa, eu jamais me perdoarei! Por isso, VÃO!
Luana hesitou por um milissegundo, olhou nos meus olhos, assentiu com um nó na garganta e puxou Bianca para as saídas de emergência.
Com o perímetro limpo de minhas amigas, o combate se dividiu em duas frentes perfeitamente coordenadas.
De um lado, posicionei-me à distância. Tracei glifos incandescentes no ar com os dedos, projetando disparos concentrados de energia arcana que atingiam as patas e o tórax do cão infernal, atordoando-o.
Do outro lado, Narven agia com uma precisão cirúrgica de um soldado. Ele sacou suas correntes escarlates, saltando sobre as mesas destruídas e flanqueando o monstro. Com um movimento ágil e impetuoso, ele laçou uma das cabeças da fera e tensionou o cabo metálico, decepando-a em um corte limpo.
Contudo, para nossa surpresa, o toco do pescoço da criatura não jorrou apenas sangue: a carne borbulhou e uma nova cabeça se regenerou instantaneamente.
A cabeça central do demônio abriu as mandíbulas, acumulando uma esfera de energia destrutiva e pura. Antes que Narven pudesse desferir um novo ataque, o cão disparou um baque concussivo em direção a ele. Narven reagiu rápido, cruzando os braços e invocando o escudo interno de seu traje, mas a explosão o atingiu de raspão, arremessando-o contra uma coluna de sustentação.
O impacto foi devastador. O visor e a máscara do vigilante se despedaçaram no chão.
Narven arrancou os restos da máscara do rosto, tossindo fuligem e revelando seus traços marcantes para todo o salão deserto.
Olhei para ele e senti uma onda de raiva e choque percorrer meu sangue.
— Narven?! — esbravejei, tomada pela indignação ao ver que o caçador que roubava minhas presas era o mesmo cara debochado do meu colégio. — Você... seu idiota pretensioso!
Tomada por um furor místico, não dei espaço para justificativas. Pronunciei encantações ancestrais em velocidade sobre-humana, batendo as palmas das mãos no chão. Um círculo mágico de proporções gigantescas se acendeu sob a besta. Do solo, uma estaca monumental de purificação elemental emergiu de baixo para cima, empalando a criatura de três cabeças em cheio.
O corpo da fera urrou em agonia, começando a se desintegrar e desfazer em cinzas em pleno ar.
Porém, em seu último suspiro de malícia pura, a cabeça esquerda do demônio disparou uma última e desesperada rajada de energia concentrada antes de se dissolver por completo. O feixe passou a uma distância segura de mim e de Narven, colidindo contra a parede do fundo.
Pensei ter sido apenas um espasmo involuntário de uma besta agonizante.
Até que ouvi um grito de dor abafado.
— Selena...
Voltei-me para trás. Minhas forças sumiram instantaneamente.
Luana, que havia retornado ao salão para garantir que eu estava segura, jazia caída próximo aos escombros da porta principal. O feixe demoníaco atravessara o seu peito.
— LUANA! — o grito rasgou minha garganta.
Corri desesperada, derrapando no chão forrado de vidros e sangue. Ajoelhei-me ao lado do corpo de minha melhor amiga, apoiando sua cabeça em meu colo. O sangue jorrava de seu tórax de forma incontrolável.
Tracei círculos arcanos de cura com as mãos trêmulas, canalizando toda a minha energia mística sobre a ferida.
— Não desapegue da sua vida! Por favor, Luana, fique comigo! Eu vou te curar, eu consigo! — implorei, enquanto as lágrimas lavavam o sangue no meu rosto.
Uma mão forte e calejada pousou gentilmente sobre meu ombro. Narven estava ajoelhado ao meu lado, o rosto machucado e solene. Ele balançou a cabeça devagar, negando com um olhar carregado de pesar.
Naquele segundo, o toque de Narven me fez mergulhar em um flashback avassalador do meu passado em Salem Hills.
Eu tinha quinze anos. Estava no pátio da academia de bruxas, cercada por minhas tutoras após realizar uma magia de alto nível. Eu segurava nos braços um pequeno felino gravemente ferido em uma das aulas práticas, tentando desesperadamente costurar sua vida com feitiços primitivos.
A professora mais velha aproximou-se, ríspida, e segurou meus pulsos com firmeza.
— Pare, Selena — disse ela com tom severo. — Se você realmente deseja compreender o que significa ser uma bruxa de verdade, precisa aceitar que existem limites até mesmo para a magia mais antiga. Quem dirá para uma jovem prodígio.
— O que eu devo fazer, então?! — perguntei, com lágrimas de raiva nos olhos. — Deixar um ser vivo morrer pura e simplesmente? Isso é inconcebível!
A docente suspirou profundamente, amaciando o olhar:
— A Morte é a segunda maior dádiva concedida pela nossa mãe Bruxa, após a concepção da Vida. Você não pode ignorá-la ou negá-la. Quando ela chega, Selena, é inevitável.
A lembrança evaporou. Voltei ao presente, com o salão em chamas e Luana respirando com extrema dificuldade em meus braços.
— Selena... — sussurrou Luana, com a voz fraca e o olhar sereno. — Não se culpe... por favor. A culpa foi minha... Se eu tivesse te escutado e ido embora com a Bianca... nada disso teria acontecido.
— Não fala nada, por favor... — solucei, apertando sua mão.
— Seja feliz, Selena... — ela sorriu pela última vez, enquanto uma lágrima solitária escorria por sua bochecha. — Siga em frente... ao lado de quem você ama... e não deixa de cuidar da Bia...
O brilho em seus olhos apagou-se. A mão de Luana ficou gélida e pendeu sem vida.
Ajoelhada no sangue de minha amiga, abracei seu corpo inerte e gritei contra o teto destruído de Van Helzen, enquanto a chuva fria de outubro começava a cair sobre nós através do teto arruinado.
Cinco Anos Depois — O Pós-Colapso dos Mundos
Ano de 2031.
O cheiro de enxofre e terra queimada não era mais uma raridade isolada em Van Helzen; tornara-se o ar padrão do mundo.
Cinco anos haviam se passado desde aqueles dias e noites de uma tragédia anunciada. O evento que a imprensa global batizou de "O Grande Colapso dos Mundos" havia rasgado as fronteiras entre a dimensão humana, os planos infernais e a dimensão de ser um imponente, atroz e cuja mente perversa havia orquestrado um plano e o executou levando caos, o terror e a escuridão para todas as civilizações de nosso mundo.
Cidades inteiras ao redor do globo foram reduzidas a ruínas e cinzas, forçando a humanidade a se reorganizar sob o medo e a vigilância constante.
Nas catacumbas profundas sob a zona sul de Van Helzen, o som de garras arranhando a pedra ecoava.
Uma alcateia de lobos demoníacos gigantes investia contra mim. Eu não era mais a jovem hesitante do baile. Meus cabelos estavam presos em um coque firme, meu olhar carregava a frieza de uma veterana da guerra arcana e meus movimentos eram limpos, letais e desprovidos de hesitação.
Disparei lâminas de energia roxa que fatiaram os três primeiros lobos ao meio.
Ao meu lado, atuando em perfeita sincronia tática, estava o Caçador de Van Helzen — o Disciplina. Narven, trajando uma versão ainda mais robusta de seu uniforme vinho e preto, avançou contra o líder da alcateia. Ele saltou com agilidade sobre-humana, montou no dorso do lobo gigante e ativou o dispositivo central da sua máscara renascida. Uma rajada devastadora de energia cinética pura disparou do visor em forma de "V", decepando a cabeça da besta instantaneamente.
O corpo da criatura começou a se desfazer em cinzas.
Subitamente, levei a mão ao abdômen, sentindo uma leve pontada. Minha magia se dissipou. Eu trajava um sobretudo adaptado que mal conseguia disfarçar minha barriga saliente de gestante.
Narven notou minha pausa no mesmo milissegundo. Ele desmontou do cadáver da fera e correu até mim, envolvendo-me em seus braços firmes e protetores. Ele removeu a viseira e me beijou com um afeto profundo e acolhedor.
— Você está bem, minha rainha da noite? — perguntou ele, a voz impregnada de preocupação e carinho.
— Estou ótima — respondi, sorrindo cansada e pegando as mãos calejadas dele para colocá-las sobre minha barriga. — Alguém aqui dentro resolveu dar um chute para avisar que a batalha acabou.
Narven sentiu os pequenos movimentos no interior da minha bolsa gestacional. Um sorriso genuíno e radiante surgiu em seu rosto.
Passos ecoaram pelo corredor escuro das catacumbas. A figura de John B. Cassius emergiu da escuridão aos fundos do local. O loiro trajava seu tradicional sobretudo surrado e segurava um cigarro apagado entre os lábios.
— Ei, casal do ano! — gritou John, apontando com o polegar para a câmara do fundo. — Tem uma ninhada inteira de ovos daquelas desgraças ali atrás. O que a gente faz?
— Queime tudo até não restar cinzas, John — ordenou Narven, assumindo o tom severo de comando. — E abra o portal de regresso imediatamente.
— É pra já, Narv — acatou John. Com um gesto rápido das mãos, ele canalizou um feitiço de chamas intensas que consumiu os ovos e, logo em seguida, rasgou o tecido do espaço, abrindo um portal místico que nos levou diretamente para a retaguarda de uma cafeteria na zona sul da cidade.
Mais tarde naquela mesma noite, após passarmos no hospital para exames de rotina e confirmarmos que o bebê estava perfeitamente saudável, Narven retornou ao seu refúgio privado no andar superior do complexo.
Exausto, ele tirou as botas e se jogou no sofá de couro.
Antes que pudesse fechar os olhos, dois braços macios e joviais o envolveram por trás. O aroma denso de pimentas e rosas infernais anunciou sua presença antes mesmo que ele a visse.
— Reconheço esse cheiro em qualquer lugar... Stelle — murmurou Narven, sem se mover.
Stelle, uma mulher de beleza estonteante, feição jovial e olhar de fogo, deu mordidas brincalhonas e provocantes no pescoço dele, aliviando a tensão muscular do combate. Ela saltou por cima do encosto do sofá, sentando-se no colo dele e abraçando-o pelo pescoço.
— Senti sua falta, meu Rei — disse ela, cravando um beijo faminto e carregado de desejo nos lábios dele.
Quando se separaram, Narven a encarou de forma solene:
— Onde estão as crianças, Stelle?
Stelle sorriu com malícia. Ela estendeu as mãos para a frente e murmurou palavras em uma língua arcaica e profana. Uma projeção mágica espelhada surgiu no ar, exibindo a visão privilegiada do reino inferior: os dois filhos pequenos de Narven e Stelle, dotados de marcas demoníacas e trajes de caça, treinavam arduamente e abatiam uma fera menor sob as ordens de guardas infernais.
— Como a nova Rainha do Inferno — explicou Stelle, voltando seu olhar apaixonado para Narven —, eu não posso ficar simplesmente calada enquanto o meu Rei vaga pelo mundo mortal lidando com os desajustados da nova ordem que estamos construindo lá embaixo.
Narven soltou um sorriso cansado, acariciando o rosto dela:
— Você não precisa se preocupar. Estou cumprindo nosso acordo matrimonial e sei perfeitamente quais são meus deveres no trono infernal.
Stelle aproximou seus lábios do ouvido dele, sussurrando com um tom sedutor e envolvente:
— Eu sei... mas você parece exausto depois de um dia tão longo. Deixe-me cuidar de você.
Ela o puxou pelo colarinho em um beijo ardente. Os dois levantaram-se do sofá, despindo-se de suas vestes táticas e nobres enquanto caminhavam juntos em direção ao banheiro, onde continuaram o momento sob o calor do chuveiro.
Três semanas se passaram.
A luz matutina entrava pelas janelas do quarto privativo do hospital central de Van Helzen.
Após horas de um parto delicado, o choro cristalino de um recém-nascido ecoou pelo ambiente. A enfermeira, exibindo um sorriso cansado e aliviado, limpou a pequena recém-nascida e a envolveu em uma manta macia.
Ela caminhou até o corredor, onde Narven aguardava inquieto.
— Parabéns, papai — disse a enfermeira, entregando a bebê nos braços do caçador. — Ela é linda... e tem exatamente os seus olhos.
Narven segurou a filha contra o peito com extrema delicadeza, sentindo as lágrimas quentes escorrerem por seu rosto calejado. Ele caminhou para o interior da sala de parto.
A bebê chorou baixinho, estendendo as mãozinhas no ar.
Deitada na cama, exausta mas com um olhar repleto de paz, Selena observou a cena. Um sorriso sereno e acolhedor surgiu em seus lábios. Analisou friamente aquela pequenina vida nos braços de Narven antes de recebê-la em seu peito.
— Bem-vinda ao mundo, Savena — murmurei, aninhando a filha nos braços.
Narven se aproximou, inclinou-se e beijou meus lábios com uma ternura infinita.
— Eu prometo a você, Selena... vou me dedicar a proteger esta família com a minha vida por toda a eternidade. — disse ele, com a voz embargada pelas lágrimas de felicidade.
Ao fundo da sala, encostado na batente da porta, John Cassius observava a cena ao lado de sua noiva, Zeta — uma maga formidável de cabelos negros e postura elegante. Os dois se entreolharam com um olhar de orgulho e satisfação, acompanhando o nascimento de sua afilhada, a pequena Savena Warlock Sefaradi.
Na televisão suspensa no canto do quarto, o noticiário transmitia imagens globais em tom solene:
“...E embora os boletins internacionais continuem a registrar os estragos causados pelo Grande Colapso dos Mundos, as principais capitais mostram sinais claros de reconstrução. A humanidade aprendeu a lição, enfrentando suas sombras e hoje encontra formas de se reerguer nessa nova era que está por vir...”
A família, contra todas as probabilidades e através de todas as dores do passado, estava finalmente unida.
Fim da One-Shot.
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