Queen of Darkness — Interativa
7 Da Vinci do mundo do crime
Notas iniciais

Sou devoto da destruição, dose completa de disfunção prejudicial. Estou morrendo devagar mas o diabo está me apressando. Veja, sou um otário pela dor, sou apenas um boneco. Talvez eu corte minha cabeça logo depois de cortar meu pescoço.
(Sucker for Pain)
Lil' Wayne, Wiz Khalifa & Imagine Dragons — Sucker For Pain
*Bristol, 01 de junho, 1:22AM Pov Kasper Van Houten
Os olhos cristalinos de Kasper observavam atentamente o homem machucado à sua frente. Seus dedos brincavam devagar com a lâmina de uma adaga que, assim como sua roupa, estava coberta de sangue. Um sorriso maroto escapou de seus lábios, fazendo com que o homem se mexesse na cadeira.
— Você é um homem morto, Van Houten — murmurou, abaixando o olhar. Sangue escorria pelo seu rosto inchado e roxo. Suas mãos e pés estavam amarrados na cadeira, o que o impedia de levantar-se. Além do fato de duas rochas pontiagudas estarem cravadas uma em cada coxa.
A fala do homem arrancou mais uma risada de Kasper. Ele olhou para a janela ao seu lado, tentando enxergar o próprio reflexo. Praguejou.
— Droga! Meu cabelo está fora do lugar. Você sabe que eu odeio não estar impecável, Lucian — continuou se olhando, até que voltou a virar-se para o mercenário sentado à sua frente —. Bem, falando em morte, eu acho que está na sua hora.
— Você não pode me matar, Kasper. Sabe bem disso, Elliot o encontrará e arrancará seus olhos enquanto ainda respira — mais risadas. Kass se lembrou do irmão de Lucian, um respeitado membro da máfia local. Apenas mais um idiota qualquer achando que tinha alguma chance de sequer tocar nele. Sem paciência, desferiu um soco no rosto do homem.
— Pensando bem, você está certo. Elliot realmente virá atrás de mim — disse, parecendo arrependido. Viu o brilho de esperança no olhar de Lucian, o homem achava que havia alguma chance de sair dali com vida. — Deixe que venha.
Foram as últimas palavras que o mercenário ouviu antes de Kasper estalar os dedos e dois blocos de cimento saírem do chão e esmagarem a sua cabeça. Miolos voaram para todos os lados, inclusive no rosto do ryüi.
— Bleh — bufou Kass, passando a mão em seu terno e face para tirar vestígios do homem. — Além de ter que passar tempo a mais tomando banho para tirar essa sujeira, ainda estou no tédio — revirou os olhos. — Mas, é o que temos para hoje.
~ * ~
Após um demorado banho, Kasper decidiu dar uma volta pela cidade. Em plenas três da manhã, Bristol estava completamente vazia, não se escutava sequer o barulho do vento. O som de sua respiração havia começado a irritá-lo, e decidiu chutar uma pedra que cruzara seu caminho. Parou, observando a rocha rodopiar à sua frente. Em poucos segundos, a mesma estava flutuando no ar. Kass semicerrou os olhos e a pedra explodiu em mil pedacinhos, atingindo alguns carros cujos alarmes começaram a soar.
Suas mãos se deslocaram para seus bolsos numa tentativa de tentar aquecê-las, e ali permaneceram. Incrivelmente, a populosa cidade no sudoeste da Inglaterra estava com o clima frio. Pensamentos começaram a rondar a cabeça do homem, a respeito de sua infância e como seus fantasmas do passado o perseguiam.
Sua mãe morreu no parto de seu irmão mais novo, Kasper tinha apenas quatro anos. Ela era uma mulher muito protetora com ele, e isso acabou por fazer seu coração despedaçar-se. Rosie, sua mãe, em seu último suspiro, disse para o menino que cuidasse de seu filho, que o protegesse. Kass levou isso à vera. Acreditou piamente que ele tinha de ser o protetor de seu irmão e assim o fez. Protegia o garoto até da própria sombra, possessivo como só ele era. Quando completou seis anos, seu padrasto o obrigou a matar uma pessoa a sangue frio. Caso Kasper não o fizesse, Klaus, seu irmão, que sofreria. Kasper então, o matou. Sua cabeça de criança começou a ter pensamentos mais adultos e sua personalidade ficou marcada para sempre. Seu padrasto era dono de uma máfia na Irlanda, onde Kass nasceu, e obrigava ele e seu irmão menor a agirem como seres sem coração, perfeitos soldados.
Com onze anos, sua vida praticamente acabou. Seu padrasto lhe deu uma faca e lhe ordenou que matasse seu irmão. Kasper negou imediatamente, dizendo que preferia morrer. Seu padrasto então lhe deu uma surra na frente de Klaus e o estuprou, violentamente. Não satisfeito, o homem atirou na cabeça de seu irmão. Depois dessa série de violências, o homem o trancou em um quarto com o corpo de seu irmão. Passou uma semana lá, preso e nu, vendo a carne se seu irmão apodrecer e cheirar mal, sem comer ou beber. Quando seu padrasto resolveu tirá-lo de lá, Kasper havia se tornado outra pessoa. Foi diagnosticado com alexitimia crônica, e passou a viver como alguém sem nada a perder e sem medo algum.
Apesar de tudo, ele se sentia vazio. Por trás de toda essa loucura que foi e é a sua vida, Kass tem essa crise existencial toda vez que mata uma pessoa. Aprecia, contudo. Assassinar é uma arte, e Kasper é o Da Vinci do mundo do crime.
Perdido em seus próprios pensamentos, mal percebeu que o dia já amanhecia. Suas mãos procuravam curiosas um cigarro em algum de seus bolsos. Achando a caixinha, puxou um e o acendeu, tragando logo em seguida. Segurou a respiração por alguns segundos, fechando os olhos. Ao expirar a fumaça, decidiu sentar-se num banco que estava próximo a ele. Em alguns poucos minutos aquela praça estaria lotada de pessoas indo para seus trabalhos, escolas, atletas correndo e afins. No auge de seus vinte e dois anos, Kasper não fazia nada, apenas a vivia. Sua família sempre teve dinheiro, então não se preocupava em trabalhar. Ainda mais que ele poderia conseguir qualquer quantia a qualquer hora. Qualquer pessoa minimamente inteligente respeitava-o, e o temia. Kass realmente era o tipo de cara que conseguia tudo o que queria. Também, quem ousasse contrariá-lo acabava por ter um fim não muito agradável.
Terminou de fumar seu cigarro, o lançando no chão e o pisando com seus sapatos sociais caros logo em seguida. Como não estava nem um pouco disposto a ver gritaria e/ou correria perto dele àquela hora da manhã, decidiu caminhar de volta para sua casa, com seus pensamentos perturbadores e suas crises existenciais.
*Bristol, 01 de junho, 01:15 PM PoV Daemon
Os cabelos negros do imtzäki balançavam suavemente com a brisa que entrava pela janela do carro estacionado. Ao seu lado, Marilyn retocava seu batom. Seus óculos escuros impediam que ele encarasse seus brilhantes olhos negros. Daria e Jade haviam saído para procurar o outro Cavaleiro, e o guardião achou que era uma boa oportunidade para conversar com a garota.
— E então... — Ele disse, virando para o lado. A ruiva guardou seu espelho na bolsa e o encarou, como se não entendesse. — Digo, nós. — A expressão de confusa em seu rosto não mudava.
— O que você quer saber sobre “nós”? — Ela perguntou, enfatizando a última palavra.
— Bem, eu não sei ao certo. Há alguma definição para nós dois?
— Você é um guardião, Daemon. Eu sou uma Cavaleira — ela levantou uma sobrancelha. — Alguém anda esquecendo as coisas.
Daemon bufa.
— Não foi isso que eu quis dizer. Quero saber o que vai acontecer daqui para frente. Bem, já que nós... — Sua fala foi interrompida por uma risada.
— A gente se beijou. Nós continuamos a mesma pessoa. Um beijo não é aliança de casamento, pelo amor de Deus — ela olhou para a sua bolsa e retirou alguma maquiagem que o imtzäki não conseguiu identificar.
— Fico feliz que você tenha entendido isso. Afinal, foi só um momento. Certo? — Ele mordeu o lábio e olhou para a boca da menina, que levantou uma sobrancelha.
— Se essa foi sua tentativa de me seduzir, saiba que seu ato foi falho — ela abriu a porta do carro. — Vamos mofar aqui dentro ou você pretende me levar em algum lugar para comer? Estou faminta.
— Bem, eu vi um restaurante italiano à algumas quadras daqui e...
— Vamos — interrompeu-o, Marilyn.
*Bristol, 01 de junho, 01:37 PM PoV Jade
Daria e Jade andavam pelas ruas de Bristol, impacientes. As duas não haviam almoçado, e procuravam sem êxito por algum Cavaleiro que sequer conheciam ou imaginavam como era. Sendo imtzäkis, seus instintos as faziam reconhecer kiäs e ryüis por onde quer que passassem. O movimento súbito e brusco de Daria ao parar assustou Jade, que arregalou os olhos.
— O que está fazendo, exatamente?
— Não está sentindo o cheiro? — A ruiva virou a cabeça para os lados, na tentativa de captar algum odor. Jade a acompanhou.
— Deixe comigo, não acho que você esteja sendo muito eficiente — debochou. — Porém eu sinto a presença de algo... não parece ser um Cavaleiro.
— Talvez um akhlin? — Daria fungou mais um pouco.
— Não... Esse é diferente — a mulher-loba olhou para o lado e começou a andar. — Há mais um imtzäki por aqui.
— Ahn, Daemon, talvez? — A ruiva disse, com uma certa ironia na voz.
— Céus, você é muito sem noção — Jade revirou os olhos —. Não, Daria. Outro imtzäki, e eu tenho a impressão de que eu o conheço.
— E você sabe disso apenas pelo “cheiro”?
— Se você se esquece, eu sou uma loba. Meu olfato apurado capta odores milhas à distância.
— Tudo bem, então. Onde ele está?
A morena se virou para Daria com uma cara de deboche.
— Eu sou uma loba, não um GPS — e começou a andar, fungando a cada passo. A outra imtzäki se viu forçada a segui-la.
As duas caminhavam pela Queen Square, uma praça que se localizava bem no centro de Bristol. Várias pessoas estavam sentadas na grama, correndo, passeando com crianças e afins. Jade parou bruscamente mais uma vez, o que tirou Daria do sério.
— Você precisa parar de fazer isso, droga!
— Se assusta com facilidade? Que pena — disse a loba, com escárnio. — Ele está por aqui.
Jade já tinha noção de quem estava procurando, e um sorriso largo apareceu em sua boca quando avistou um menino de cabelos platinados virados de costas para ela. Correu com toda rapidez que conseguiu e saltou sobre o menino, o derrubando no chão. Era um dos guardiões que havia saído do castelo e não havia retornado.
Os olhos turquesa do imtzäki arregalaram, e num movimento rápido, se pôs por cima de Jade, que ria descontroladamente.
— Lucky! — Ela o abraçou, esmagando o pescoço do homem.
A imtzäki ouviu um oi abafado e o largou por um instante.
— Jay, o que está fazendo aqui?! — O guardião disse, antes que levasse um tapa bem dado em sua bochecha esquerda. A risada de Daria soou alta, e Jade a olhou de relance antes de virar-se para o homem à sua frente.
— Seu idiota, onde você estava? Porque não deu notícias? Eu passei semanas achando que eu tinha perdido a porra do meu irmão mais novo, seu sem noção do caralho!
Lucky deixou escapar uma risada alta, colocando a mão no rosto por alguns segundos.
— Eu estava numa missão, Jay-Jay. Você sabe como essas coisas podem ser perigosas.
— Exatamente por isso que você deveria ter dado notícias. Pelo amor de Deus! Você me matou de preocupação.
Antes de responder sua irmã, Lucky olhou para a menina ruiva que se punha em silêncio logo atrás de Jade.
— Não vai se apresentar?
A imtzäki franziu o cenho e pigarreou.
— Daria.
— Lucky — o menino se pôs de pé e sorriu. Ele era bem alto e esbelto, seu corpo era pálido e um tanto musculoso. Estendeu a mão para cumprimenta-la, mas a ruiva o ignorou completamente.
— Onde está o seu Cavaleiro? — Disse, seca.
O menino de cabelos brancos levantou uma sobrancelha e se virou para sua irmã.
— Hum, ele é um cara... difícil — disse a última palavra com certo desgosto. — Infeliz ou felizmente ele já tem certo controle sobre seus poderes, devido à sua idade.
— Quantos anos ele tem? — Jade se levantou da grama, cruzando os braços.
— Vinte e dois. Não foi difícil de rastreá-lo, o cara deixa uma trilha de corpos por onde passa. Pelo que eu vi, ele é um perfeito lobo disfarçado em pele de cordeiro.
Daria esbugalhou os olhos.
— O que quer dizer com isso?
Lucky coçou o rosto e parou uns segundos para pensar.
— Ele tem cara de ser legal, de ser decente. No início ele parecia ser só um cara assustado, mas depois que eu entendi o lado psicopata dele — levantou as sobrancelhas —, tenho que dizer que não foi nada bonito.
— Você já o conheceu?
— Que pergunta estúpida, Jay-Jay. Claro que sim, somos melhores amigos agora — disse, rindo. Aquilo lhe rendeu um soco no braço, o que o fez rir mais ainda. — Vamos, vou lhes apresentar para ele.
— Espere — Daria disse —, temos que achar Daemon e Marilyn.
— Daemon está aqui? — Ele olhou para sua irmã com uma cara de interesse, como se estivesse para fazer algum deboche. Jade ficou vermelha e tornou a dar um soco em seu irmão.
— Cale a boca, ele está com uma kiä agora.
— Eu achei que fosse antiético se envolver com o seu Cavaleiro — o menino levantou uma sobrancelha.
— E quem disse que a kiä é dele? — Daria ri, se pondo a andar. — É da Jade.
Antes que Lucky pudesse falar mais alguma coisa, Jade vai atrás de Daria e começa a andar ao seu lado.
— Eu não tenho nada com Daemon.
— Como se eu ligasse — a ruiva respondeu, indiferente.
— Mas gosta dele — o imtzäki se pronunciou rindo, levando um olhar fulminante de sua irmã. Então Daemon estava se envolvendo com a kiä de sua irmã, que irônico.
— Se você não calar essa boca, eu vou calar por você.
O menino deu de ombros e continuou andando.
— Algum sinal da profecia?
— Infelizmente — Jade calou-se por uns segundos —. Seu nome é Aliyah, ela foi a primeira a chegar. Após isso, se tornou mais fácil de localizar os outros. Por enquanto ela é inofensiva. Nunca sabemos se ela se deixará consumir pelas trevas.
— Espere, o herdeiro de Abraham é uma mulher?
Daria virou-se para Lucky com um olhar desacreditado.
— Algum problema com isso?
— Não — ele se apressou a falar —, claro que não. Isso vai ser bem interessante — ele ficou em silêncio por alguns segundos — e sexy.
Jade não segurou a risada.
— Céus, Lucky. Se componha.
— Sério! Imagina, uma rainha da escuridão. Nossa, só de pensar nisso...
— Cale a boca — sua irmã disse com desgosto na voz, o que fez o menino rir.
*Bristol, 01 de junho, 02:36 PM PoV Marilyn Schwanskymann
Os olhos negros de Lyn observavam, curiosos, Daemon. O homem estava sentado num banco da praça, com os olhos fechados e a cabeça estava inclinada para cima. A ruiva havia saído para comprar pirulitos. Tinha uma fricção muito grande por eles, e sempre que podia, estava com um na boca. Era primavera, a estação favorita da garota. Tudo estava florido e colorido, muito agradável. Ela sorriu ao sentar do lado do imtzäki, que abriu os olhos.
— Do que ri?
— Primavera. É tudo tão... mágico — ela fechou os olhos e inspirou o ar puro e perfumado.
Percebendo que estava se deixando levar, levantou-se e começou a andar.
— Marilyn? — Daemon andou atrás dela, mas o que quer que ele havia para dizer, foi interrompido pelo toque de seu celular. Parou por um segundo e o atendeu. — Daria? Acharam? Que bom, nos encontre no mesmo lugar que estacionamos. — Ele desligou a chamada e olhou para a kiä. — Encontraram um imtzäki, é melhor nós irmos.
A kiä assentiu com a cabeça e continuou andando, mas Daemon a segura pelo braço, o que a faz parar.
— O que é que você quer? — Disse, bruta.
— O que você quer? — Daemon a soltou, encarando seus olhos que mais pareciam um buraco negro.
— Quero que você entenda algo simples: o que quer que tenha acontecido entre a gente, foi carnal. Eu não gosto de você, nem te conheço. Então por favor, pare de tentar tanto. Chega a dar pena.
Aquilo foi um tapa na cara de Daemon, e Marilyn sabia disso. A verdade é que ele a intrigava de certa forma, além do fato de, claro, ser um colírio para seus olhos. O imtzäki tinha uma aura que deixava a garota desconfortável, vulnerável. Mas é como ela disse: não o conhecia, e preferia continuar daquele jeito. Criar laços era criar fraquezas, e Marilyn não tinha fraquezas.
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