Queen
2 Capítulo 2 - Friends will be friends
Notas iniciais
É claro que a Hermione tinha voltado e o Harry pensou que seria ótimo não avisar Ron disso.
E é claro que Ron a chamou da única coisa que ela não gostava.
Não era para ser um apelido ridículo, mas é claro que ela e todo mundo entendeu errado.
É claro que, depois disso, eles mal se viram.
E, obviamente, é claro que Ron cometeu um erro ao comentar com Markus que não podia jogar Overwatch porque tinha uma festinha de boas-vindas pra ir. Festinha que o Harry organizou para ela.
E é mais que claro que Markus abriu aquela boca grande e contou para a noiva dele que Hermione Granger estava de volta.
Claro que depois disso, a bendita noiva perguntava sobre Hermione em cada conversa que eles tinham.
Nossa, às vezes era por isso que as pessoas não ficavam amigas de suas ex-namoradas ou ex-namorados, porque a ex já tinha te visto de todas as formas e agora achava que tinha intimidade. Ou, às vezes, era só a Lilá que era sem-noção mesmo.
É isso mesmo. Ron Weasley tinha namorado Lilá Brown durante o ensino médio, um namoro muito grudento e pouco saudável que acabou virando uma amizade muito legal: amizade que agora ele estava se arrependendo de ter mantido.
Ron não acreditava que àquela altura do campeonato, ele ia dar razão à sua irmã Gina, afinal ela que sempre dizia que era uma roubada ser amiga da ex e do atual dela.
Pois é.
Pode parecer meio estranho mesmo, mas para Ron foi uma coisa que acabou acontecendo. Ele e Lilá tinham terminado, e ele conheceu Markus em uma feira de quadrinhos e mangás; os dois viraram amigos quase instantaneamente por causa dos interesses em comum e depois de um tempo, Markus arranjou uma namorada que o Weasley até achou que era inventada porque nunca tinha visto nem a foto. Meses depois, seu amigo decidiu lhe contar a verdade: Ele estava apaixonado por Lilá, mas só descobriu que eles tinham tido alguma coisa quando disse à Brown que ela precisava conhecê-lo.
Markus tinha ficado com medo de Ron se afastar, e Lilá achava que Ron a odiava.
Nenhuma das duas coisas era verdade.
Além do quê, Ron não tinha muitos amigos que gostavam das coisas de nerd que ele gostava. Seu melhor amigo de infância, Harry, só gostava mesmo de moda, futebol, e cinema, e seus irmãos achavam seus gostos meio inúteis, então era bom ser amigo de Markus.
Mas se ele e a Lilá eram meio que “compre um, leve dois”, o Weasley estava começando a pensar que amizades acabam, não é?
Faz parte da vida.
— Ron? Você está me ouvindo, criatura?
Não, ele não estava ouvindo.
Ele estava considerando se valia mesmo a pena continuar ser amigo do casal 20.
Porque ele não aguentava mais.
— Você não está ouvindo! Eu vim aqui só pra te dar um “bom dia” e um café, e você me ignora?
Ron revirou os olhos.
— Até parece que veio aqui para isso. Você veio para me encher o raio do saco por causa da Hermione, de novo!
— Se você já sabe por que ainda não tomou uma atitude? – perguntou Lilá levantando as sobrancelhas e colocando as mãos na cintura.
— Que atitude, minha filha? – resmungou Ron, se levantando de sua mesa e ficando de frente para sua quase ex-amiga.
— A Hermione está aqui e eu sei que você gosta dela. Faz alguma coisa, Uón Uón.
Ron respirou fundo,
Uma vez.
Duas vezes.
E disse:
— Achei que nós tínhamos deixado esse apelido horroroso para trás.
— É claro que deixamos, só trago de volta quando preciso.
Ron revirou os olhos e perguntou:
— Você não trabalha, não?
— E por que você acha que estou aqui?
— Para me perturbar?
Ela sorriu e disse:
— Isso também, mas eu tenho um ensaio daqui a pouco.
— Então... Tchau.
Foi a vez dela revirar os olhos, mas ainda disse antes de sair:
— Desculpa ficar no seu pé, mas eu acho que você e a Hermione não viveram tudo que ainda deveriam, Ron.
— Nós ainda somos amigos, sabia?
— Sabia, mas você também sabe que não era disso que eu estava falando.
.
.
.
Ron queria muito ficar pensando no que a Lilá disse e na Mione, mas a Potter tinha lançado sua coleção de volta às aulas (que tinham começado em agosto e setembro) e também parte da coleção de outono e não tinha época mais cheia de coisas para fazer.
Bom, volta às aulas e natal, que geralmente era um pesadelo.
Era estranho para o Weasley lembrar do mês de dezembro e pensar apenas em trabalho; era estranho porque, quando era mais novo, amava esse mês, tanto por causa das férias de fim de ano quanto por causa do Natal. Era ótimo só ficar em casa e comer, comer e comer mais um pouco. Todos os seus irmãos apareciam e traziam presentes que ele adorava.
Porém tinha uns cinco anos que não passava o Natal na casa da família porque o estresse com seu pai era muito grande, agora ele sempre fazia a Gina levar os presentes que tinha comprado para todo mundo e combinava jantares com um irmão de cada vez em janeiro. Até porque na última vez que tinha encontrado sua irmã para almoçar no dia 25, soube que ela e os pais brigaram quando ela só chegou lá pra sobremesa.
Ron tinha vontade de revirar os olhos só de pensar, afinal seus pais sempre exigiam que todo mundo estivesse lá na véspera para jantar, mas como sempre sobrava muita comida e casa era grande, acabava que todo mundo ficava por lá mesmo. O que não deveria significava que os filhos (todos adultos) não pudessem sair por causa de outros compromissos.
Enfim, para evitar a fadiga, Ron estava se abstendo de aparecer por lá ou de “roubar” um de seus irmãos no dia 25. De qualquer forma, não é como se ele não morresse de trabalhar, porque juntava o Natal e a preparação para o ano seguinte.
— Ron, está na hora da reunião para decidir como vamos trabalhar no site em outubro.
— Contando que alguém venha com alguma ideia que não seja baseada no Dia das Bruxas, eu até penso em participar – respondeu Ron.
Joanne, também uma das diretoras do departamento, só riu do seu comentário e o puxou para a mesa de reuniões.
Lógico que eles teriam que falar do Halloween, mas não precisava ser o mês inteiro, não é?
E era essa questão que parte de sua equipe estava discutindo quando ele a viu andando em sua direção.
O que Hermione estava fazendo ali?
E por que não parecia nada bem?
– O que foi, Mione?
— Eu preciso de você.
— Mas aconteceu alguma coisa? Precisa ir ao médico?
— Não, não. Eu estou bem, ou quase. Mas eu preciso de ajuda – falou ela em um tom quase histérico, ainda que baixo. – Eu demiti o fotógrafo que ia fazer a sessão de fotos para a campanha agora e não conheço ninguém para substituí-lo. Aí, a Lilá falou que você é fotógrafo também, eu sei que você é ocupado, e que provavelmente não vai poder me ajudar, entretanto talvez você conheça algum profissional que possa vir aqui, e salvar a minha pele e o meu emprego, porque eu tenho certeza de que a Lily vai me demitir.
— Calma, Mione, respira primeiro. Você quer uma água?
— Não! – respondeu ela, depois percebeu que tinha falado alto e que algumas pessoas estavam encarando os dois, então abaixou a voz de novo: – Eu preciso de um fotógrafo, não de água, Ronald. Pelo amor de Deus!
— Ok. Vamos passar na minha sala, pegar minha câmera e vamos ver se a equipe de filmagem já está lá embaixo no estúdio.
— Que equipe de filmagem? – questionou Hermione. – Ah, para gravar entrevistas com as modelos e os bastidores das fotos, né?
— Isso mesmo, queen – disse Ron, piscando para ela e indo em direção à uma das salas no fundo.
Hermione estava tão nervosa que nem tinha reparado que o andar não era realmente todo aberto, mas que possuía sim, algumas salas no fundo. Ela seguiu o Ron porque não estava recebendo muito bem os olhares curiosos das pessoas dali.
Quando a Granger entrou na sala, ele estava pegando algo em sua mesa, enquanto conversava no telefone com alguém.
— Sim, é isso mesmo. Podem começar as gravações que eu estou descendo, e fala com a Anna para ir se preparando que ela vai assinar pela primeira vez um dos ensaios da Potter... Sim, eu vou ser uma das pessoas responsáveis também, não se preocupa... Sério? Não sabia que a Granger tinha esse poder todo, não, mas se a Lily não aprovasse, ela não estaria ali... Chego em cinco.
É claro que a equipe estava falando dela.
Ele tinha chegado há dois meses e já queria mandar no povo? Não era à toa que todos já estavam fofocando e a Granger nem podia culpá-los.
— Mione, meu anjo, acorda – chamou Ron, colocando as mãos nos ombros dela. – Vai dar tudo certo, mas para isso acontecer preciso que volte a ser a pessoa mais inteligente que eu conheço de novo. Podemos surtar depois que acabar, mas agora preciso da sua cabeça no jogo.
Hermione respirou fundo e deu um sorriso de lado:
— Metáfora de futebol? Sério, Ron?
Ele riu e ofereceu a mão para ela:
— Vamos?
O Ron ia ajudá-la e ele conhecia muito da empresa, o próprio Harry já tinha comentado, e pelo jeito, ele era mesmo um fotógrafo profissional e conhecia todo mundo da equipe de produção, o que era perfeito. Ainda assim, Lily disse que ela tinha resolver a bagunça na qual tinha colocado as pessoas que estavam trabalhando naquele ensaio, então também cabia à ela deixar todo mundo confortável e garantir que tudo saísse da melhor maneira possível.
Ela segurou a mão e Ron e disse:
— Vamos.
.
.
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Era difícil lembrar de um dia tão cansativo como aquele.
O ensaio fotográfico tinha começado com pouco atraso, às nove e meia, mas graças a Ron tudo tinha dado certo: ele e a Anna Diaz ficaram como os fotógrafos oficiais e cuidaram de tudo na mais perfeita tranquilidade.
Diferente de Hermione que praticamente pulava no lugar a cada momento que alguém a chamava no início, porém, depois que passou o susto – já na hora do almoço, Hermione estava ajudando na organização do ensaio e na ordem das modelos de acordo com explicação que Lily tinha oferecido à Granger no início de dia.
A única coisa estranha foi a falta de notícias de Lily e Harry: Hermione mandou mensagens e ligou para eles, mas não conseguiu falar com nenhum dos dois até umas três da tarde, quando todo mundo já estava se despedindo e pronto para encerrar o dia.
No fim das contas, o ensaio tinha sido um sucesso, as modelos estavam super confortáveis e rindo durante todo o processo, o que causou em Hermione uma certa nostalgia a respeito das fotos de que tinha tirado lá há tantos anos com Harry e Ron.
E por falar em Ron... Bom, ela nem sabia como explicar como ele estava confiante e certo de tudo que fazia naquelas horas; ele era super profissional e tratava cada um e cada uma ali com o maior respeito, mas também conseguia fazer piadas bobas, deixando as pessoas ao seu redor de bom-humor, incluindo Mione.
Ela se pegou olhando para o Weasey às vezes, ainda tentando entender quem ele era, e por que tinha tanta dificuldade de ver o seu antigo amigo naquele cara tão... tão talentoso e brilhante. Não que o seu Ron Weasley não fosse, mas antigamente não ligava para nada relacionado a roupas, maquiagens ou fotos, e ele era meio tapado.
Só que não era hora de ficar pensando naquilo, porque depois de dar os parabéns à toda equipe ali, Lily Evans-Potter disse que o trabalho de Hermione ainda não tinha acabado: ela ainda tinha que escolher as fotos que tinham que ser editadas e apresentadas para a diretoria antes do lançamento oficial na internet e nas lojas também.
Portanto ali estava Hermione Granger, sentada em sua sala, com inúmeras fotos já reveladas e não sei quantas mil no computador a sua frente.
— Não foi para isso que me contrataram, viu? – resmungou ela, tentando decidir quais eram as melhores escolhas para cada look montado.
— Pelo jeito, a dona Hermione ainda fala sozinha.
Hermione virou sua cadeira e deu de cara com Ron na porta de sua sala:
— Pensei que você precisava de um café e um sanduíche, milady.
— Você não tinha que resolver umas coisas lá no 13º andar?
— Nossa, eu deixo meu trabalho para te ajudar e depois venho te trazer um lanchinho e é assim que você me trata, queen?
Hermione estava tão esgotada mentalmente que nem reclamou daquele apelido.
— Obrigada – disse ela, sincera. – Não sei o que eu teria feito sem você hoje. Eu estou te devendo um favor, ok? Dos grandes.
Ron teve que rir antes de se sentar na cadeira em frente à amiga.
— Mione, você não me deve nada, deixa de ser boba. Quantas vezes você salvou minha pele na época da escola?
Hermione colocou a mão direita no queixo, fingindo pensar no assunto.
— Se é assim, você ainda me deve uns favores, né, Weasley? Tenho certeza que você e o Harry teriam bombado em pelo menos umas três matérias sem mim, então se você está aqui hoje, pode me agradecer.
— Nossa, você oferece uma ajudinha, mas as pessoas vêm e te chantageiam por causa de algo que aconteceu há mil anos – falou ele, tentando parecer ofendido.
Hermione pegou o copo de café que Ron oferecia e tomou um gole, depois disse, irônica:
— E desde quando dívida tem prazo de validade, meu filho?
Ron sorriu e bom, pelo menos o sorriso era como ela se lembrava.
— Agora, come, sei que você mal almoçou e já são quase sete horas.
— Obrigada, Ron. De novo. E boa noite.
— Como assim? – perguntou ele, confuso.
— Você está indo, não é?
— Na verdade, vim oferecer minha ajuda na escolha das fotos. O que acha?
Hermione olhou para ele sem entender.
— Sei que é seu trabalho e não quero passar por cima de você, é claro que não, mas se quiser uma ajuda...
— Não é isso, Ron. É que você deve estar super cansado também, não precisa se incomodar, já salvou minha pele hoje.
— Mas eu amo tirar fotos, não foi um sacrifício nenhum.
— Tem certeza?
— Se eu não tivesse, não estaria oferecendo, Granger.
Depois dessa resposta, Hermione mostrou a língua para ele e virou a tela do computador para começarem a trabalhar juntos: Ron também foi explicando alguns dos processos que a empresa seguia, assim como as melhoras fotos para cada plataforma da Potter.
Quando perceberam, já tinha bebido mais café do que deveriam e já era mais de nove da noite. Ron estava fazendo um desenho baseado em uma das fotos e Hermione deveria terminar de organizar as escolhidas pelos dois, porém não conseguia deixar de prestar atenção no que seu amigo fazia: o olhar concentrado, um pouco do cabelo caindo no olho (que tinha escurecido um pouco com os anos), o braço direito tatuado com desenhos do que parecia ser parte de uma floresta, além das fases da lua, uma ampulheta e aquilo era uma rosa dos ventos também? Seus olhos foram descendo para a mão do Weasley e como ela trabalhava rápido criando um desenho lindo.
— Você está encarando – disse Ron num tom baixo.
Hermione nem tentou negar.
— Ah, desculpa – pediu desviando o olhar.
— Se você quiser, pode continuar. Existem coisas piores na vida do que ter uma mulher incrível como você me secando.
Hermione deu um tapa forte no braço dele depois dessa.
— Ei!
— Deixa de ser ridículo. Eu só estava... Só estava...
— Tentando entender? – perguntou Ron, com cuidado.
Hermione suspirou.
— Isso. Como você sabia?
— Porque você fazia a mesma cara quando lia algum livro muito complicado ou estudava uma matéria nova – respondeu ele com calma.
Hermione deu uma risada meio incrédula.
— Bom, parece que você ficou melhor do que eu em ler as pessoas com o passar dos anos.
— Não é sobre saber ler as pessoas, é sobre conhecer você.
— Então eu fui a única que não mudou porque eu não entendo – disse ela, frustrada. – Eu não entendo!
— O que você não entende?
— Quem é você! – respondeu ela, um pouco mais alterada do que queria – Não entendo por que você parece com o meu amigo, e ao mesmo tempo não parece.
— O que a gente faz quando não sabe de algo? – Ron parecia achar tudo aquilo muito interessante.
Ela suspirou antes de responder:
— Pergunta.
– E o que você quer saber?
— Tudo. Como você chegou nesse trabalho, que faculdade você fez, por que diachos é amigo da Lilá, por que está cheio de tatuagens que não entendo, e desde quando você é fotógrafo profissional!
O Weasley deu um sorriso de lado e disse:
— Sempre o tom de surpresa, não é, Hermione?
O que lhe rendeu outro tapa.
— Você estava esperando para usar essa frase contra mim, seu idiota!
Ron riu e sentou-se virado para ela, os dois tinham desistido de ficarem a mesa e já estavam sentados no tapete da sala da Granger, encostados no sofá.
— Você quer saber como cheguei aqui, né? – ela balançou a cabeça, afirmando – Bom, começou com você indo embora.
— Como assim?
— Eu e o Harry éramos meio preguiçosos quando o assunto era estudar, né? E eu sempre dizia que só fazer isso quando precisasse. Bom, quando você foi embora, eu precisei. Comecei a prestar mais atenção nas aulas e ir para biblioteca, parte de mim achava que você ia ficar orgulhosa, e queria ter te contado, mas você foi embora com um pouco de raiva de mim por causa da Lilá e da minha implicância também.
— Eu sinto muito – disse Hermione.
— Não precisa pedir desculpas, nós éramos adolescentes, não é? E eu era bem tapado. Como foi que você disse mesmo? Que eu tinha emocional tão profundo quanto uma pedra? Ou foi colher de chá?
Hermione riu.
— Eu não quero supor nada, mas você gostava de mim, não é?
— Gostava muito – admitiu ela, e não foi tão difícil fazer isso como ela sempre achou que seria. Não era ruim falar daquele assunto. No passado. A confusão que Hermione ainda sentia em relação ao Ron do presente era coisa para outra discussão, para quando as coisas fizessem um pouco mais de sentido. – Mas eu também era boba, não precisava ficar com raiva de você só porque eu nunca tinha tido coragem de fazer nada e você estava interessado em outra pessoa.
— Mas o negócio é que eu morria de ciúmes de você com qualquer cara, ainda que me pegasse com a Lilá no meio do corredor da escola.
— Verdade... Você era babaca, né, Ron?
Ele riu e concordou.
— Um pouco. E confuso, porque era minha melhor amiga desde sempre ali, era difícil me admitir atraído por você.
— Porque eu era só uma nerd e a Lilá era uma das garotas mais populares da escola? Por que não fazia bem para sua reputação como jogador? – não havia raiva, nem mágoa, nas palavras de Hermione, mas essa era a única explicação no qual ela conseguia pensar.
— Não, porque você era a garota mais inteligente que eu conhecia, você era brilhante. E eu era uma fraude, Hermione.
— Lógico que não! Do que você está falando?
— Eu só comecei a jogar futebol porque era o esperado. Eu estufava o peito para falar de uma carreira que eu ia seguir porque era isso que tinha ouvido que eu tinha que fazer desde que era criança. E mesmo assim, ainda vivia na sombra dos meus irmãos porque eles eram mais inteligentes e melhores do que eu em tudo. E estava começando a viver à sombra da minha irmã mais nova, que era a estrela lá de casa. Não me entenda mal, Mione, eu os amo muito, mas era sufocante para mim, e eu achava que não tinha outra opção.
Ron respirou fundo porque ele não queria ficar muito emocionado, afinal já tinha superado essa parte de seu passado.
— Então como eu poderia pensar em ter algo com você, uma das pessoas que eu mais admirava, quando só fingia o tempo todo? Claro que eu também gostava da atenção do pessoal da escola porque me achava invisível em casa.
— Por isso, quando uma das garotas mais lindas da escola escolheu você, por que, não, né?
— Exatamente, mas não entenda mal, eu gostei muito da Lilá, mesmo que nosso relacionamento tenha passado longe de ser um dos mais saudáveis.
— Eu sinto muito que você achava que não podia compartilhar isso comigo. Nem com o Harry, provavelmente.
— Eu tinha medo de que vocês parassem de falar comigo quando soubesse o quão inferior a vocês eu me sentia.
Hermione não aguentou mais e abraçou Ron, sentados como estavam.
— A gente sempre te amou muito, você sabe disso, não é, Ron?
— Eu sei. E o Harry foi a pessoa que me apoiou em tudo que quis fazer depois que decidi que o que meus pais queriam não era pra mim. Ele até foi comigo no estúdio fazer minha primeira tatuagem, acredita? – Hermione sorriu, sem aparentar surpresa, era a cara de Harry. – Enfim, voltando para a explicação do início... Quando você foi embora e eu tive que estudar de verdade, comecei a ficar muito nervoso a respeito de tudo e odiava quando meu pai fazia algum comentário ridículo porque o Harry gastava todo o tempo livre dele em aulas de desenho e mini cursos sobre moda. Eu comecei a invejar um pouco a sorte dele, não porque ele era podre de rico, mas porque eu sabia que Harry só estava fazendo aquilo porque gostava muito.
Ron pareceu perdido em pensamentos por um segundo e depois continuou:
— E aí eu ficava mais nervoso e com raiva porque achava a inveja um sentimento mesquinho. Acabei caindo em um ciclo vicioso onde quanto mais eu estudava e tirava notas boas, com mais raiva ficava porque estava caminhando exatamente para onde meus pais queriam, e aí sentia inveja do Harry que amava suas aulas extras, e ficava mais raiva ainda porque odiava aquele sentimento. Isso tudo levou a mais brigas com a Lilá, que também enfrentava os problemas dela, mais tempo enfiado na biblioteca com medo do Harry ver como eu era uma pessoa horrível, e mais tempo jogando futebol para fugir da minha própria casa. E quando eu pensava em você, achava que você deveria estar feliz por ter se livrado de mim, mesmo sem querer... Acabou que o Harry e a Gina me ajudaram. Eles me levaram numa feira de anime e quadrinhos para que eu me distraísse, e lá ouvi algumas palestras de desenhistas e outras pessoas que trabalhavam com mídia e entretenimento, e era tão legal!
“Eu comecei a pensar que talvez, só talvez, eu pudesse gastar tempo com aquelas coisas que eu já gostava, pelo menos como hobby. E eu podia desenhar de verdade: coisa que eu só fazia no canto dos meus cadernos. Um dia fui numa aula de desenho com o Harry e eu não podia ter amado mais, só que era uma aula cara e é lógico que, mesmo se meus pais pudessem pagar, eles não iriam porque consideravam aquilo uma perda de tempo. É claro que eu não sabia que isso era um plano do Harry: uma semana depois, mais ou menos, quando eu estava na casa dos Potter, a Lily perguntou se podia ver meus desenhos, e tanto ela quando o James se ofereceram para pagar o curso pra mim, caso eu aceitasse ver um terapeuta”.
— Sério, Ron? Que bom.
— Sim, mas na hora eu só fiquei envergonhado, falei que não estava entendendo, e que eu estava bem, nunca tinha ido tão bem na escola, nem no futebol. Eu queria sair dali porque tinha certeza de que eles estavam vendo como eu era um caro falso e estressado e que lógico, queriam que eu ficasse longe do filho deles. Acho que, só por esse tipo de pensamento, dava pra ver que eu precisava mesmo de ajuda. Eles não insistiram no assunto, mas depois Harry veio falar comigo e disse que não tinha nada de errado em buscar auxílio.
“Eu continuava não querendo falar daquilo, mas teve um dia que eu quase surtei e foi durante um jantar de Natal. Meu pai estava falando orgulhoso como eu poderia fazer estágio no banco no qual meu irmão trabalhava e que assim eu já ia me preparando para o futuro. O que meu pai não sabia era que eu estava, sim, fazendo um curso de desenho e eu teria que largar se fosse para o tal do estágio. É que o James estava pagando para mim, mesmo que eu não tivesse aceitado ver um psicólogo”.
Hermione nem piscava enquanto ouvia a história, mas o coração dela estava apertado porque ela nunca soube que o Ron se sentia tão pressionado assim pela família.
— Nem sei como eu cheguei na casa do Harry, mas era madrugada de Natal, e eu meio que saí sem que ninguém visse. No outro dia, na hora do café da manhã, eu aceitei a ajuda da família dele, contando que, se eu tivesse que fazer alguma coisa como Direito ou Administração, eu ia surtar de vez ou acabar morrendo. Pode parecer meio exagerado, mas era o que sentia na época. Eu lembro que me sentei com o Harry e a Lisa na frente de um computador porque ela falou que a gente só sairia dali quando achasse a carreira perfeita para mim.
Hermione teve que rir, conhecia poucas pessoas tão decididas como a filha mais nova dos Potter.
— A Lisa está no Estados Unidos, né?
— Sim, está terminando a faculdade de arquitetura lá – respondeu Ron. – E foi isso... eu tinha vergonha de gastar o dinheiro dos Potter, mas sabia que se eu dissesse algo para meus pais, a gente ia brigar e eu podia dar “tchau” para a terapia e o curso de desenho.
— Ron, mas você tinha que ter falado com eles se não estava bem de saúde.
— Eu nem precisei falar, acredita? – falou Ron com um sorriso irônico – A gente tava em março e tínhamos que nos inscrever para a faculdade. Eu estava estudando horrores, mas também usando isso como desculpa para não fazer o maldito estágio. Só que meu pai encontrou um dos nossos professores em uma festa e ele parabenizou o sr. Weasley porque eu tinha me tornado um aluno exemplar e tinha certeza de que eu conseguiria, sim, a bolsa de estudos para Artes e Design. Meu pai achou que deveria ser algum engano, mas o professor confirmou que até tinha escrito uma carta de recomendação.
“Mione, quando meu pai chegou em casa, faltou me bater, porque ele ficou muito nervoso e disse que não ia me dar um centavo se eu estivesse falando sério a respeito daquilo. A gente brigou feio e eu decidi que não ia ficar mais lá em casa depois que formasse. Só que eu não queria pedir nada mais para os Potter, nem trazer problema para eles porque meus pais chegaram a ir jantar com eles tentando convencê-los a parar de interferir na minha educação”.
— E a relação do seus pais com o Harry? Sei que eles o adoravam.
— Ficou meio estremecida na época, mas no fim, eles decidiram que a culpa era toda minha e que os Potter me viam como um caso de caridade.
— Tenho certeza que não era isso, Ron – afirmou Hermione.
— Eu sei que eles se importavam e se importam até hoje, mas isso não mudou a cabeça do meu pai... No fim das contas, eu passei na faculdade e comecei a trabalhar para pagar as outras despesas como comida e xerox – Hermione riu depois dessa, – eu morava em um apê com mais cinco e passava alguns fins de semana na casa dos Potter. E assim, eu fui indo.
Hermione suspirou.
— Desculpa ter te feito contar essa história.
— Relaxa, queen, que você não me obrigou a nada, eu quis te contar.
— Posso te dar outro abraço?
Ron riu e respondeu:
— O que está esperando?
Os dois se abraçaram de novo e Ron se virou par recolher as coisas espalhadas pela sala. Os dois trabalharam em silêncio, organizando as fotos e desligando o computador e o notebook que estavam usando.
— Tem mais coisa que você quer saber, né? – perguntou Ron, com um sorriso.
— Se você me conhece, sabe que a resposta é sim, mas não agora. Como eu te aluguei aqui para contar essa história, vou pagar nosso jantar. O que você acha de sushi?
— Acho que você vai se arrepender porque eu vou comer tudo o que eu não pude comer hoje por causa da correria.
Os dois riram e isso dissipou um pouco o clima sério, e assim que eles saíram da sala, viram que a luz no escritório/ateliê do Harry estava ligada.
— São quase dez horas – comentou a morena. – O Harry ainda está aqui?
— Pois é. Vamos chamar ele? – perguntou Ron.
— Você quer mesmo fazer com que eu gaste todo o meu dinheiro, né? – reclamou a Granger, brincando.
Os dois foram até a sala e abriram a porta.
— Ai, meu Deus! – exclamou Hermione ao mesmo tempo que Ron gritava
— Gina?!
Tinha uma mulher sentada na mesa de Harry com as pernas ao redor do próprio, enquanto ele parecia estar muito ocupado no pescoço dela. Os dois olharam para porta, assustados.
— Eu achei que não tinha ninguém aqui – comentou Gina, sem-graça, tentando limpar o batom borrado.
Harry estava ficando tão vermelho quanto o cabelo dos Weasley, e Ron parecia ter perdido a voz.
— Pois é, né, gente. Sentimos muito atrapalhar vocês e já estamos saindo – comentou Hermione, doida para sair dali.
Ron estava com os olhos arregalados, mas não disse nada quando Hermione o puxou em direção aos elevadores. Ele não conseguia acreditar naquilo. Como assim?
Desde quando sua irmãzinha estava pegando o Harry?
— Ron – chamou a Granger. – Você tá bem?
— Acho que eu vi parte da roupa de baixo da minha irmã e era vermelha– comentou Ron, baixo. – Socorro, eu vou desmaiar.
— Não desmaia, não, porque eu não tenho força para te carregar, meu filho – falou Hermione.
Ela não aguentou e riu. Que situação de novela foi aquela?
— Eu estou a ponto de ter um piripaque e você está rindo, sua louca?
Hermione continuava rindo.
— Você tem que admitir que foi engraçado.
— Minha irmã e o Harry... Meu Deus... – repetiu o ruivo. – Para de rir, Granger! Você não está entendendo a gravidade da situação?
O elevador chegou no estacionamento e eles saíram.
— Desculpa – pediu Hermione, ainda com um pouco de riso na voz. – Mas por que você chocado assim? Isso é ciúmes?
— Claro que não. Minha irmã sai com quem ela quiser, ela quem deve julgar se um cara é bom pra ela, não eu. E eu achar isso é o mínimo, eu sei.
— Concordo, mas por que esse desespero então?
— Só porque eu sei que a Gina é uma adulta que se diverte e namora quem ela quiser não quer dizer que eu preciso ver isso, né? Ainda mais com meu melhor amigo!
Hermione sabia que não ia conseguir segurar o riso, por isso mudou de assunto:
— Cada um vai no próprio carro, e você me segue até o restaurante?
— Claro, ótimo.
— Ou você quer que eu dirija porque você pode ter um... Como foi que você disse? Ah, um piripaque.
— Se você continuar rindo da minha cara, eu vou pra casa, tá? – disse Ron, fazendo bico.
A Granger levantou os braços como se tivesse se rendendo e se dirigiu até seu carro.
.
.
.
O restaurante não era muito longe, só uns 15 minutos de distância e os dois chegaram lá rapidinho porque quase não tinha trânsito.
Ron estacionou o carro ao lado do de Hermione e ela o pegou pelo braço para entrarem no restaurante. A Granger foi andando até uma das mesas do fundo, mas que ainda permitia ver o lado de fora pela janela, e o casal se sentou um em frente ao outro.
O garçom anotou os pedidos e quando os dois foram deixados a sós, Hermione não aguentou:
— E aí, Ron? Como foi ver o sutiã da Gina?
O Weasley engasgou e começou a tossir.
— Você tá louca?
— Era vermelho, não era?
Ron colocou as mãos nas orelhas e cantarolou:
— La, la, la, não ouvi!
Hermione não resistiu e continuou:
— Vermelho não era a cor favorita do Harry?
— Aaaaaaaaaaa, não ouvi, não ouvi nadinha! Continuo sem escutar – repetia o ruivo enquanto a Granger se dobrava de rir – Terminou?
Hermione respirou fundo para se controlar um pouco e respondeu que sim.
— Não lembrava que você era tão implicante assim.
— Às vezes não dá para resistir – respondeu ela dando de ombros.
— Quem diria, hein, queen? Mudou mesmo.
— E parece que esse apelido ridículo não mudou, né?
Ron olhava para ela como se estivesse tomando uma decisão importante.
— Ok, eu vou admitir já estamos sendo sinceros hoje.
— Do que você está falando?
O garçom veio e deixou os sucos que os dois tinham pedido e alguns rolinhos primavera.
— Do seu apelido, e porque inventei isso.
— Mas é por causa do Queen, né? Da banda... Você me chamou assim porque eu apresentei aquele trabalho sobre o Freddy Mercury.
— As pessoas ouviram e deixei que todo mundo pensasse assim, mas não era sobre música, era sobre xadrez – respondeu o Ron, dando um sorriso forçado.
— E o que uma coisa tem a ver com a outra?
— Queen é o nome de uma das peças do xadrez. A Rainha.
— O quê? Aff. Não acredito que você me chama assim por causa de uma pecinha de joguinho. Você ainda joga isso?
— Claro que jogo, é maravilhoso, e você sabe que eu sou bom nisso. Mas é a verdade, prometo. – falou ele sem graça como se estivesse revelando um grande segredo.
— Então tá, né? – falou Hermione sem ligar muito. Ela sabia que xadrez era um jogo difícil e de muita estratégia, mas ela tinha pegado ranço porque Ron era mesmo muito bom e achava engraçado que a mais inteligente da turma não sabia nada sobre o assunto.
— Você ainda tem raivinha do jogo, Mione? – questionou Ron, incrédulo – Não sabe pra quê a Rainha serve?
— Me deixa adivinhar: a rainha fica lá no fundo do tabuleiro e espera o rei fazer tudo e ganhar o jogo.
Ron não estava acreditando no que tinha acabado de ouvir. Não é querendo se gabar, nem nada, mas achava que mesmo as pessoas que nunca jogaram xadrez entendiam a importância da Rainha.
— Você não sabe mesmo nada de xadrez, não é?
— Sei, sim – falou com teimosia. – Sei que é um jogo machista, e que até alguns mestres do xadrez já disseram que esse jogo não é para mulheres, como se elas não tivessem capacidade. O que é ridículo, Ron!
— Em primeiro que não é só um jogo, é um esporte. E em segundo, você tem razão.
— O quê? – agora foi a vez de Hermione ficar chocada, ele nunca concordava com ela facilmente. Antigamente não costumava ser assim.
— Por centenas de anos, o xadrez era um jogo apenas de homens, o que fez muitos pensarem como esses mestres que você citou. O jogo em si não é machista, as pessoas que são. Mas sabe como a gente começa a mudar isso?
— Quebrando tudo? – sugeriu ela, com um sorriso.
— Eu gosto de suas tendências anarquistas, mas não. A única maneira de mudar isso é ensinando meninas a jogar.
Hermione abriu a boca para retrucar, porém não disse nada porque Ron tinha razão.
Droga!
— Não acredito – disse ele, brincando. – Eu venci uma discussão contra Hermione Granger? Alguém tinha que ter filmado isso.
Hermione tirou um pedacinho do rolinho primavera e jogou na cara dele. E Ron, como a pessoa madura que era, jogou de volta, o que fez os dois rirem.
— Se esse foi o seu jeito de me convencer a aprender xadrez, Ron Weasley, você conseguiu. – O sorriso de Ron ficou ainda maior e borboletas se reviraram no estômago de Hermione, situação que ela decidiu ignorar. – Mas não agora, deixa eu sobreviver a esse ano de trabalho e jogar xadrez vai ser uma de minhas resoluções de ano novo.
Ron continuava sorrindo.
Por que ele continuava sorrindo? Será que o idiota não percebia que isso não fazia bem para saúde dela?
— Promete?
— Prometo. Se você pegar leve, podemos jogar juntos.
— O prazer vai ser todo meu.
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