Queen

1 Capítulo Um


Notas iniciais
Olá meus amores o/ Então, a história tem dois capítulos que postarei juntos. Fiz a fic para um desafio então deixa eu compartilhar com vocês como é que isso aconteceu. Eu aceitei o desafio da página [Painlees Design, link nas notas da história] e fiquei por um tempão com aquilo na cabeça, sem conseguir uma ideia decente. E então eu sonhei. Eu sonhei um sonho que de repente se encaixou no que queria e comecei a escrever. Porém, já estava em cima da hora, então estou muito aliviada em conseguir postar a tempo. Por favor, se leu, deixe um comentário e faça uma autora feliz :3 Espero que gostem. Beijinhos da tia Rose

Eu estava em um dos únicos momentos de descanso que tinha quando recebi a notícia. Meus olhos mal tinham se fechado quando acordei com minha mãe me balançando pra lá e pra cá. Seus olhos azuis me encaravam com demasia animação. E eu soube. Arregalei os olhos levemente e me levantei de supetão da cama nada macia em que outrora ressonava tranquilamente.

—Não.

—Sim.

Passei a mão pelos cabelos sem saber o que fazer. Os pensamentos rodavam minha cabeça e eu tonteei. Eu e minha mãe não poderíamos estar falando da mesma coisa. Não era possível. Simplesmente não era possível. Os cabelos acinzentados entre meus dedos indicavam que não, eu não estava sonhando então realmente estava acontecendo.

—Não pode ser. Uma plebeia como eu, isso nunca aconteceu antes.

—É melhor se vestir porque o emissário está aqui e ele veio em pessoa te dizer que você é a escolhida. Entre as doze. Você é a princesa. Você vai ser nossa rainha.

Levantei de supetão e me olhei no espelho. Estava pálida. O espelho oval de casa mostrava a garota assustada, simplesmente surpresa. E pelo visto, a garota que seria rainha. A camisola curta mostrava o desenho de ondas que vinham do meu ombro até acima do meu seio direito, mostrando o meu poder. Água. Eu era da água, um dos poderes mais rejeitados. Os poderes da natureza, em geral, são rejeitados, então como eu venci? Como eu me tornei a escolhida dentre os doze reinos?

Encarei meu reflexo. A primeira coisa que eles olharam, para escolher uma menina de cada um dos doze reinos, foi à beleza. E eu não podia negar a beleza. Todos diziam que tinha sido abençoada. Meus cabelos acinzentados escorriam até o fim do quadril em ondas que me lembravam as do mar. O rosto tinha traços delicados, os olhos levemente puxados de um azul profundo que ás vezes parecia violeta ou cor de rosa, dependendo do ângulo. O corpo era toda delicado e a pele, apesar da falta de cuidados frequentes, parecia de seda. Ainda assim, eu não esperava passar nem daí.

~X~

Quando a comitiva real passou separando dez meninas para que somente uma fosse escolhida, pela aparência, uma única representante de Slorghum, o reino daqueles que possuem poderes da natureza (vulgo a ralé da rale), eu e Ellyn, minha melhor amiga, fomos levadas. Ellyn era dotada de poderes do fogo e seus cabelos demonstravam isso. Cor de fogo, ondulados até a cintura como chamas. Ela era alta, diferente de mim que sempre precisei de altura, seus olhos eram verdes, felinos. O nariz empinado, uma postura impecável, mesmo morando em Slorghum. Ela parecia uma rainha, eu não. Pensei que seria ela a passar, mesmo que nem eu e nem ela quiséssemos ser rainhas. Quem dirá levando em conta o que tinha acontecido comigo há anos. Só queríamos que acabasse logo.

Fomos levadas a um salão no castelo desabitado, reservado a Família Real quando passassem uns dias em Slorghum (ou seja, quase nunca). Não havia muito. As paredes eram todas espelhadas e o chão de um vermelho vivo parecia veludo, mas era bem sólido e até escorregadio. Eu e Ellyn de mãos dadas, sempre. Quando fomos levadas estávamos trabalhando na lojinha de ervas de meu pai (não dava muito, mas era o que tínhamos) então não estávamos exatamente apresentáveis. Doze pessoas surgiram, dentre homens e mulheres, pelo visto cada um seria o encarregado de uma de nós.

Uma mulher se aproximou e me levou para um quarto. Tinha um guarda-roupa enorme, muitos espelhos pela parede, uma cama que poderia caber cinco de mim e mais três de Ellyn com ricos acolchoamentos, poltronas, cadeiras, estantes, coisa demais para olhar enquanto a mulher e mais três que eu nem vi chegar começaram a trabalhar em mim. Meus cabelos, meu corpo, meu rosto. Maquiagem, depilação, sobrancelha, banho, perfume, tanta coisa ao mesmo tempo que eu quase fiquei zonza. Nunca tinha passado por tanta coisa para embelezar antes. Nunca tinha me importado com isso.

Colocaram-me uma lingerie de um azul belíssimo, azul real, rendada. Muito linda sim. Esperei o resto das roupas, mas elas não vieram.

—Está pronta. Uma obra prima.

—Mas... E as roupas?

As mulheres olharam confusas uma para a outra e depois riram de mim. Risadas leves, não de escárnio, mas pela minha ingenuidade. Eu tinha sido tão ingênua naquele momento que até eu me surpreendo.

—Caesar vai te analisar assim, garota. Afinal, a futura rainha tem que ser bonita por completo.

Naquele momento senti vontade de vomitar. Isso era um absurdo. Obrigar-nos a participar de uma seleção que algumas não queriam, nos deixar expostas assim contra nossa vontade e na frente de um homem? A ânsia de vômito subiu. Isso não era nada digno. E porque uma rainha tinha que ser escolhida pela sua beleza? Isso não significava nada em um trono! Ah, esqueci, mulheres são isso não são? Um enfeite, nada mais do que objetos para procriar. Senti vontade de vomitar novamente.

—Você empalideceu. Ânimo garota, você está impecável, com certeza tem grandes chances de ganhar.

Não quero ganhar, não quero, não quero. Só quero que acabe. Por favor, eu só quero ir pra casa.

Fui guiada novamente ao salão encontrando as meninas da mesma forma que eu. Ellyn correu para o meu lado, entrelaçando nossos dedos. Estava linda. Eu nunca teria chances perto dela e que bom. Seus olhos felinos e verdes profundos tinham sido destacados, a boca cheia estava avermelhada. As outras meninas também estavam lindas, mas para mim Ellyn chamava todas as atenções. Tive a certeza que ela seria a escolhida sem nem precisar pensar duas vezes. E sentia muito por isso. Por mais que eu soubesse que uma pessoa de Slorghum jamais chegaria ao posto de rainha, ainda assim temia pela minha amiga.

Um homem entrou e eu supus ser Caesar. Automaticamente comecei a tremer. Minha respiração acelerou e Ellyn apertou levemente minhas mãos. Eu não conseguia. Não conseguia fazer aquilo. Estar tão exposta na frente dele. Caesar era alto, forte, de cabelos azuis arrepiados e olhos castanhos analisadores, que pareciam encontrar defeitos até nas mais belas garotas. Senti ânsia de vômito de novo. Meu coração disparava contra o peito com tanta força que eu tinha a certeza que qualquer um ali poderia o ouvir, embora não pudessem.

—Ariane Buxton. –Ele chamou e eu vi uma garota de longos cabelos castanhos dar um passo a frente.

Eu era “S”. Teria tempo para me acalmar. Mas simplesmente não conseguia. Não poderia nem se quisesse. Ele chegava tão perto das meninas. Analisava cada detalhe delas. Não é possível que só eu achasse aquilo um absurdo. Era tão humilhante. Como se fôssemos objetos, mercadorias a serem analisadas.

—Você vai conseguir. –A ruiva murmurou pra mim, em um tom acalentador. –Está tudo bem, já vai acabar. Você vai conseguir.

—Ellyn Greene.

Ellyn deu um passo à frente e Caesar foi até ela. Analisou-a da cabeça aos pés, tocou seus cabelos, media sua altura, seu busto, sua cintura, seu quadril, analisou seu rosto, sempre anotando em uma caderneta. A ruiva tinha uma postura extremamente descontraída, relaxada, como se estivesse bastante à vontade de lingerie na frente daquele homem.

Finalmente outro nome foi chamado e ela voltou a seu lugar, segurando minha mão como sempre.

—Viu? Ele não vai encostar em você... Okay, talvez nos seus cabelos. Mas nada de mal vai ter acontecer. –Sussurrou pra mim novamente e eu tentei acreditar nela. Mas meu corpo não acreditava. Cada vez que se aproximava do “S”, sendo meu nome o último da lista, eu tremia mais, minha respiração ficava mais arfante.

“Você nunca mais ser fraca na frente de um homem”

Essa frase ricocheteou na minha cabeça no mesmo instante em que a voz grossa chamou meu nome:

—Sabrina Page.

Aquela frase teve um efeito impressionante em mim. Caminhei à frente com uma postura impecável, como se dissesse “você não é melhor que eu, eu sou melhor que você” mesmo ele sendo um enviado real e eu apenas uma plebeia de calcinha e sutiã. Olhei pra ele de frente, olhando-o nos olhos, fato que percebi que o pegou de surpresa. Talvez seja pela cor dos meus olhos que mudava conforme ele ia se movendo. Senti suas mãos indo em direção aos meus cabelos e tive que dominar o instinto de me retrair. Caesar foi bastante delicado com os fios, como se estivesse tocando em uma obra de arte. Mediu minha altura (1,55, isso eu já sabia), minha cintura, meu busto, olhou meu rosto tão de perto que pude ver as sardas quase invisíveis que ele tinha no nariz. Anotou algo na caderneta e então eu pude voltar ao lado da minha amiga.

A ruiva me olhava com certa descrença, como se não acreditasse em como eu me modifiquei de uma hora para outra. Nem eu acreditava. Embora eu sempre fosse obstinada. E aquela frase, aquela frase me deixava teimosa, eu queria segui-la para o resto da minha vida e iria.

—Meninas, vocês são todas impecavelmente lindas. –Caesar começou, com cuidado, em um tom de voz delicado. –Tem sido uma escolha difícil desde que entrei nessa jornada. Vocês todas poderiam ser rainhas, todas tem a aparência de uma, nunca duvidem disso. Mas, a que mais me chamou atenção, a que mais se encaixa no perfil de aparência que eu imaginei é... –Claro que ele tinha que dar uma pausa de suspense. Quase revirei os olhos. Quase. –Sabrina Page.

Meu coração foi levado à boca enquanto todos os olhos voltavam-se para mim. A surpresa praticamente bateu na minha cara. Eu senti como se fosse um tapa. Arfei, olhando para o homem como se não estivesse acreditando. Porque não estava. Ellyn foi quem puxou as palmas, seguida pelas outras, enquanto eu ainda tentava entender a razão. A verdade é que eu não queria aquilo. Não me sentia feliz por ter passado em um teste humilhante e fútil. Mas tudo bem. Uma garota de Slorghum jamais será rainha.

~X~

Quando finalmente vesti o vestido mais apresentável que havia no meu guarda-roupa e desci para a sala, me surpreendi a ver Caesar me esperando. Meus passos me levaram correndo até ele e o homem me girou no ar. Eu era quase uma formiga perto dela. 1,55 contra 1,93. Chegava a ser covardia. Ele poderia me girar dessa forma apenas com três dedos.

—Vossa Majestade. –O azulado ajoelhou-se a minha frente humildemente e eu apenas consegui sorrir.

—Caesar, por favor. Eu não me casei ainda e mesmo casada você sabe que eu jamais exigiria você ajoelhado em minha frente.

—Eu sei baixinha, mas não pude evitar. –Ele riu enquanto se levantava. Céus, acho que ajoelhado já era quase da minha altura. –Fiquei tão feliz em vim te trazer essa notícia. Eu sabia que seria você. Sempre soube que seria você.

—Eu não.

~X~

Assim que fui escolhida, Caesar puxou um robe de seda azul que tinha sido tirado sabe-se lá de onde e coloquei em volta de mim. Eu mesma o fechei. O tecido era mais macio que a minha cama. Mas isso não me importava, eu já me sentia melhor apenas por não estar praticamente nua na frente de todas aquelas pessoas, inclusive de um homem.

—Meninas, muito obrigada pela presença de vocês. A família Werner agradece. Suas roupas serão devolvidas e serão guiadas onde foram encontradas. Senhorita Page, por gentileza, me acompanhe.

Tinha tanta coisa passando pela minha cabeça naquele momento. Mas eu sabia que aquilo não daria em nada. Então apenas o segui. Eu tinha certeza que jamais passaria da segunda fase, a decisiva, porque eu era a escolhida do reino mais rejeitado e pobre dos doze reinos. Nunca entendi porque os poderes da natureza eram tão rejeitados. Acaso não era ela quem nos supria? Sem ela nunca iríamos sobreviver. Queria poder debater com as pessoas de outros reinos que nos viam como inferiores, mas mesmo se isso fosse possível, sabia que não seria ouvida. Uma mulher com poderes da natureza? Eu era o ser mais inferior que poderia existir, de acordo com o resto do mundo.

—A senhorita será a representante do seu reino ao cargo de Rainha. Como a senhorita deve saber, o príncipe Favian está completando a idade de pegar a coroa. Isso será realizado em seu casamento. Para tal coisa, é necessária uma rainha saída do Reino. E ela deve atender a certos requisitos.

—Bela, recatada e do lar. –Resmunguei bem baixinho.

—Perdão, o que disse?

—Nada, pode continuar.

—Enfim, o primeiro requisito é a beleza, no qual a senhorita acabou de se destacar. A segunda fase terá desafios que a senhora não saberá que são desafios, no seu dia a dia. Testará sua sabedoria, ética, moral e recato. Isso acontecerá com todas as garotas escolhidas, em seus respectivos reinos. Aquela que terminar os desafios primeiro com louvor será Rainha. Mas entre a primeira e a segunda fase vocês terão aulas de etiqueta, comportamento, genealogia das famílias reais e nobres, para caso sejam as escolhidas. Eu serei encarregado pelas aulas da senhorita. Ficará quinze dias aqui no castelo, sua família já está sendo informada.

—O que? Eles precisam de mim! Isso não é justo! Arrastarem-me para cá sem a minha permissão e depois dizer que tenho que ficar enclausurada nesse lugar por quinze dias. Já ocorreu em sua cabeça que eu tenho uma vida lá fora? Tenho pais que precisam do meu trabalho para comer! Eu tenho um trabalho! Eu não posso ficar aqui por quinze dias!

Minha revolta já tinha me tomado. Aquilo estava se tornando um absurdo após o outro e eu não tinha a menor paciência para lidar com absurdos. Se meus pais perdessem um trabalhador na loja assim sem mais nem menos seria um baque grande. Eu precisava trabalhar e eles não tinham o direito de parar a minha vida por um capricho, para me preparar para um casamento que eu rejeitava e que jamais alcançaria.

Caesar pareceu bastante surpreso com a minha reação bastante veemente. Seus olhos se arregalaram enquanto me olhava. Sabia que o tinha surpreendido. Supostamente era para eu estar saltitante de alegria por poder passar um tempo no castelo de Slorghum e por ter sido a escolhida e supostamente eu não deveria ter esse tipo de gênio, afinal, eu sou uma mulher. Que direito tinha eu de reclamar de regras feitas por um homem? Eu estava esperando uma resposta mais ou menos nesse nível.

—A senhorita tem razão. –Dessa vez fui eu a surpreendida. Meu queixo teria ido ao chão, se isso fosse possível. –Vou mandar alguém para tomar seu posto nesses quinze dias. Tudo bem assim?

—Tudo. –Minha voz saiu em um fio tamanha a minha surpresa. –Ah... Nós vamos passar todo esse tempo juntos, correto? Então essa coisa de “senhorita” não vai funcionar. Por favor, me chame de Sabrina.

~X~

—Vamos para a Capital daqui à uma hora. Não precisa levar nada, tudo estará a seu dispor. Use seu tempo para se despedir.

—Caesar, você tem certeza disso? Absoluta. Isso não pode estar certo. Qual foi o último desafio?

—Os brincos que você devolveu. Achou-os no chão, uma pessoa como você... Aquilo poderia te dar tanto dinheiro e ainda assim você os devolveu. Foi o último.

—Isso não está certo. Isso não está certo, como uma garota de Slorghum vai se tornar rainha? Isso é impossível.

—Eles não queriam. –O azulado concedeu, se sentando comigo nas cadeiras da sala de casa, suspirando. –Mas você tinha cumprido primeiro que as outras. Regras são regras. Eles pensaram em esconder o seu resultado, mas era tarde demais, eu já tinha mandado anunciar que tínhamos uma rainha. Não deixariam que tomassem o seu trono.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Parecia um pesadelo. Não o trono. Por mais que a rainha fosse um mero enfeite por ser mulher, ainda assim, eu teria dinheiro para suprir a minha família e fazer com que jamais passassem fome novamente. E eu tinha tantas ideias para sugerir. Talvez eu conseguisse alguns aliados, que assim como Caesar, achava ridícula a ideia de inferioridade das mulheres, que conseguissem levar minhas ideias. Mas... Favian? Parecia um pesadelo sem fim.

—Eu vou me despedir. Parece que vai ter que me aturar para o resto da vista Caesar.

—E não é?

~X~

Caesar era um professor extremamente paciente comigo, mesmo nas coisas que eu não levava o menor jeito. Eu demorei horas para decorar os talheres e o uso para cada um deles. A genealogia, famílias nobres então? Para eu decorar todas as pessoas demorou dias e dias, mas ele sempre foi extremamente paciente comigo. E divertido. Por incrível que pareça, ele me fazia rir no meio de toda aquela chatice.

—O que você gosta de fazer? Eu sei que gosta de ler, escrever, cantar e de água. Mas fora isso? –O azulado me perguntou em uma das minhas pausas enquanto andávamos pelo jardim.

—Você acreditaria se eu te contasse.

—Por que não tenta?

—Eu gosto de lutar.

Ele olhou para mim com descrença. Quando se tem 1,55 de altura e é mulher isso é bastante estranho. Por isso eu não costumava falar em voz alta. Até porque “não é coisa para uma garota”. Quem dirá para uma rainha. Porém, eu não almejava aquela posição mesmo e a feição divertida dele valia muito a pena.

—Eu posso testar? Prometo não te machucar.

Dei uma gargalhada sonora. “Não me machucar”. É cada uma que a gente ouve. Levantei de uma vez junto com ele. Olhei para o vestido que usava, ele dificultava meu trabalho:

—Não é justo, não consigo sequer me movimentar com essa montanha de panos. Eu posso dar um jeito nisso? Vai estragar a peça.

—À vontade.

Dei de ombros e tirei de entre o sapato e a calça que usava (sempre as usava, me sentia mais a vontade com elas mesmo que por baixo dos vestidos) um pequeno punhal, que sempre usava. Proteção própria é tudo nessa vida. Ele pareceu surpreso. Rasguei a parte de baixo do vestido inteira e me livrei dela. No momento estava só de calça e com a parte de cima do vestido que me serviu de blusa.

Fizemos uma reverência juntos e assim que levantamos eu já ataquei. Girei e usei meu cotovelo para atingi-lo na boca do estômago, local que eu sabia ser frágil. Ele perdeu o ar, tentou me atingir, mas por eu ser pequena, sou rápida. Desviei do possível soco e passei uma rasteira, aproveitando seu tempo de distração retomando o ar. Ele não caiu e não era minha intenção. Minha intenção era que se curvasse porque eu não alcançava seu rosto quando estava ereto. Dei um soco de baixo para cima em seu queixo. Normalmente isso apaga o adversário, mas não dei com a força necessária para tal, apenas para o atordoar me dando tempo de girar e acertar seu peito com um chute. Como ele já estava atordoado caiu e eu coloquei meu pé em cima de garganta.

—Como é que era a coisa de não me machucar? –Perguntei com uma sobrancelha arqueada e um tom irônico na voz, mas logo abri um sorriso e estendi a mão para ajudá-lo a se levantar.

—Eu não acredito nisso. Como aprendeu a fazer... Tudo isso?

—Foi uma distração. É para colocar para fora a raiva. Faço isso desde o quatorze anos e no momento sou campeã das brigas de rua.

—Deve ter muita raiva contida aí dentro.

—Eu vivo em um mundo onde sou inferior simplesmente por ser uma mulher. Eu não quero fazer isso, não quero cuidar de casa, não quero ter minha vida voltada para os filhos, não quero ser governada por homens, eu não quero ser submissa, eu não nasci para isso. Eu vivo em um mundo onde meu reino é abandonado, deixado de lado, pessoas morrem de fome, não tem as mínimas condições de vida de um ser que respira. Somos abandonados, esquecidos porque temos poderes considerados inferiores. Eu não sou inferior. Eu não sou inferior por ser mulher, eu não sou inferior por controlar a água e certamente eu estou com raiva.

Despejei tudo de uma vez. A verdade é que o que me fez entrar para as brigas foi outra coisa, algo que eu não poderia falar, que eu não queria falar. Mas a minha raiva, a minha raiva era real e eu sempre explodia quando falavam dela. Eu tinha todos os motivos do mundo para estar com ódio e eu o sentia, inflamava dentro de mim, dentro do meu peito. E dane-se o que ele falasse sobre isso. Dane-se o discurso machista que faria. Dane-se. Eu não estava ligando.

—Você vai ser nossa rainha Sabrina. –Mais uma vez Caesar me deixava com o queixo no chão. Figurativamente, claro. –Você vai. E vai mudar tudo pequena. Você verá.

~X~

Minha mãe estava em chamas com a notícia e enquanto esperávamos Ellyn chegar para eu poder me despedir dela. Meus pais pareciam extremamente felizes e Caesar conversava com eles, explicando tudo o que aconteceria, a forma como aconteceria. Entendia eles estarem tão felizes, queria estar como eles, mas não podia. Não depois de tudo o que tinha acontecido.

Ellyn abriu a porta e ao ver Caesar, entendeu. Não precisamos dizer uma palavra para que nós duas nos dirigíssemos ao meu quarto. Sentei na minha cama, desabando praticamente e deixei as lágrimas escorrerem. A ruiva se ajoelhou na minha frente, segurando minhas mãos:

—Sah...

—Eu não sei como vou encará-lo novamente. Como vou fazer isso Ellyn? Como posso fazer isso? Eu não vou conseguir. Estão me fazendo casar com ele.

—Eu não sei... Mas de uma coisa eu sei. Você não pode esquecer o que ele fez com você. Nunca Sabrina Page, você não ouse esquecer.

~X~

A família real, aos meus quatorze anos, tinha ido passar uma temporada em Slorghum. Os motivos para algo tão estranho eram simples: Slorghum estavam tendo uma onda de protestos, rebeliões quanto à desigualdade, pobreza, fome, falta de liberdade de expressão e também quanto à posição das mulheres. Eu estava envolvida em todos eles, mesmo sendo tão nova. Sem que meus pais soubessem, eu e Ellyn estávamos em todos e eu era uma das organizadoras da maioria.

E eis que, por ironia do destino, minha família estava precisando de dinheiro, a lojinha ainda estava no começo e estávamos literalmente passando fome. Foi quando fui aceita em um emprego de empregada no Palácio. O salário era bom. O trabalho era muito visto que o castelo era enorme, ainda assim, para mim valia muito a pena. Contanto que eu pudesse alimentar minha família, estava bom.

E foi quando aconteceu. Eu estava limpando um dos quartos enormes quando o príncipe Ravian entrou. Alto, de cabelos loiros reluzentes, olhos verdes grandes que me analisaram da cabeça aos pés, um nariz afilado e dentes perfeitamente brancos. Impressionaria qualquer uma, mas não a mim. Eu os detestava, detestava a família Real, detestava. Então fiz a minha reverência a contragosto e continuei limpando a estante. Eu deveria ter notado que ele tinha girado a chave na prova, deveria ter notado seus olhos maliciosos sobre o meu corpo. Deveria ter notado tanta coisa, mas eu estava tão focada no meu trabalho e com as rebeliões que estavam sendo violentamente reprimidas pela família real que nada disso me passou pela minha cabeça.

Eu só fui me alarmar quando senti as mãos dele segurando firmemente sua cintura e as seguintes palavras:

—Se você colaborar vai ser melhor.

Eu entendi no momento. Tentei me desvencilhar, mas ele era ridiculamente mais forte que eu então me imobilizou com facilidade. O tecido frágil do meu uniforme virou frangalho sobre as mãos pesadas dele antes que eu pudesse piscar. Debati-me de novo e o tapa no meu rosto me derrubou diretamente no chão frio. Tentei me movimentar para o lado, mas logo estava imobilizada. E depois dor. Só dor. Eu nunca pensei que algo pudesse doer daquela maneira. O físico doía também, mas minha alma... Eu a sentia quebrando, se despedaçando em poucos segundos. Achei injusto. Uma alma demora tanto tempo a ser lapidada para que possa se quebrar em poucos segundos. Foi isso que aconteceu.

E nojo. Eu sentia muito nojo também. Eu sentia nojo dele. Sentia nojo de mim. Eu não sabia onde terminava ou onde começava. O nojo se misturava com a dor e mesmo depois dele ter saído, me deixado jogada no chão, isso não passou. Foi pior. Nojo, dor. Onde um começava, onde terminava? Por que parecia que eu estava queimando? O sangue manchou o chão, o meu sangue. Eu não conseguia pensar, não conseguia me decidir, não conseguia me levantar. Meu coração batia forte contra o peito e dentro de mim ardia.

Eu queria gritar. Mas o grito não saía. Meu mundo estava queimando e eu não conseguia sequer me levantar do chão. O chão gelado. Meus olhos encararam o teto límpido e eu não saberia dizer por quanto tempo eu estive ali. Não saberia dizer o tamanho da dor, do desespero. O resto do dia tinha sido um borrão doloroso. Mentiras contadas aos pais sobre os hematomas no rosto, o quarto trancado. Mais dor. A dor só crescia. Deveria ter passado não? Mas só aumentava. Parecia que não passaria nunca. Eu não conseguia respirar. Dentro do meu quarto, eu simplesmente não conseguia respirar. Sentia nojo novamente, um asco tão grande de mim, dele, de tudo que aconteceu que precisei vomitar. E vomitar de novo. E ainda queimava, ainda me consumia. Eu precisava estar de pé, eu precisava trabalhar no outro dia, eu precisava ajudar a organizar mais rebeliões, eu precisava parar de chorar, eu precisava levantar do chão perto da cama, eu precisava parar de sentir. Então porque não parava?

~X~

—Eu não vou esquecer. E escute o que eu digo: Eu nunca mais serei fraca na frente de um homem.