Quebranto.
42 O mundo é menor nas trincheiras.
Notas iniciais
Victoria.
– É logo ali. — apontou Jonas, com o dedo indicador em riste, indicando nosso destino. Tentei ignorar os corpos de zumbis pendurados nos posts e construções da Rua das Pedras. Se aquele lugar já fora bonito, agora estava um horror.
Quando finalmente Jonas nos indicou que podíamos parar, suspirei profundamente. O mais curioso, era que em todo nosso caminho até o ponto em que ele fora interceptado com Carol e Sabrina, não havíamos encontrado um único zumbi, ou animal. Nem mesmo um Inumano. E eu devia admitir que estava surpresa. O otimismo havia deixado de ser uma de minhas características marcantes fazia certo tempo, e em nada teria me surpreendido encontrar a farmácia saqueada abarrotada de monstros. Mas não encontramos. Paramos a van ao lado da loja, e descemos a maneira mais rápida e silenciosa possível. Eu, Jonas, Diogo, Ricardo, Mozart e Ana. Um enorme grupo, com uma urgência ainda maior. Estava claro que nenhum dos nossos estaria ali, naquela espelunca. Mesmo que tivessem fugido não teriam caminhado até aquele exato local a pé e sem proteção. Carolina era esperta e medrosa demais para isso. No mínimo, devia estar tentando ganhar a confiança do povo desconhecido, para não ser morta. Típica postura rastejante. Um jeito nada digno de se manter viva, mas que parecia funcionar para mulheres como Carol desde que o mundo era mundo. Senti o impulso vindo de Nora, para que eu dissesse exatamente isso à Jonas. Mas ele estava louco por minha amiga, jamais levaria o que eu achava numa boa. Pra ser sincera, acho que qualquer mulher feminista de verdade teria náuseas com as jogadas e artifícios de Carol. E depois de tudo o que ela havia me feito, e mesmo tendo a perdoado, é muito estranho confessar que estava torcendo para não encontrá-la mais? Passamos a noite toda procurando pelas nossas amigas, nas redondezas. Já estava amanhecendo quando retornamos à farmácia. E nem sinal delas, ou de criaturas.
Ok, talvez eu estivesse sendo uma vadia também. Quase tanto quanto Carol. Afinal, éramos amigas há anos antes do fim do mundo, e mesmo quando Luca se foi, daquela forma conturbada, permanecemos bem. Eu sequer erguera a mão contra ela, coisa que mesmo Ana não se poupou de fazer. E além disso, tinha Sabrina. Mesmo que eu não conseguisse compreender como alguém tão inteligente e capaz quanto minha amiga pudesse ter se tornado tão dependente e passiva, tinha consciência de que a namorada de Ana era um membro importante para o grupo. Além de boa de briga, a garota era uma sobrevivente por natureza. Tinha instintos de sobrevivente, coisa de que precisávamos de quiséssemos encontrar o barco que eu descobrira com Diana. Precisaríamos dela para seguir em frente. Tínhamos de achá-las, de qualquer jeito.
– Temos que seguir em frente. O jeito vai ser ir até essa tal boate. — decidiu Diogo, sacudindo a cabeça. O sol estava começando a esquentar, e ele parecia cansado. — Não tem nada aqui.
– Tudo bem. Vamos fazer o que for necessário. — concordou Rico, tranquilizando Ana, que parecia aflita. Apertei a mão dela, e trocamos um sorriso, em silêncio. Caminhando à nossa frente, Jonas parecia transtornado, quase em pânico. E eu sabia que aquilo ia além da paixão por Carol. Ele estava se sentindo culpado pelo sequestro delas, por não tê-las protegido. Mesmo que eu achasse isso fofo, era um tanto machista. Preferi não pensar muito no assunto, e segui em frente, colocando a espingarda em minhas mãos sobre um dos bancos da van, antes de me impulsionar para dentro do veículo.
Mas antes que eu finalizasse meu movimento, um ônibus virou a esquina. Enorme e impecavelmente limpo, ele deslizou até parar ao lado da van, sem fazer alarde algum além dos faróis altos. Eles haviam parado por nós. O veículo parou de emitir qualquer som, quando cinco pessoas completamente montadas para a guerra desceram do mesmo. Apesar disso, seus rostos não pareciam agressivos. Nem de perto lembravam os olhares dos motoqueiros que havíamos encontrado antes. Quatro homens e uma mulher. E que mulher! A garota que os acompanhava trajava um sapato de saltos dourados, um shortinho jeans e uma jaqueta de couro marrom, que cobria seus braços completamente. Uma blusa de alças branca jazia discreta por baixo. Um pouco incomodada, imaginei como ela não sentia frio, sem nada para cobrir as pernas. E também, não parecia ser alguém que tivera que lidar com zumbis antes. Aquelas coxas de fora eram mais atrativas que peru no natal. E fáceis de serem mordidas, ou arranhadas. Já os rapazes, pareciam soldados. Com exceção de um deles, que era também o mais bonito e rebuscado. Parecia-se com um dos amigos de papai, que eu costumava ver de relance. Dimitri Morozov. Era quase idêntico. Mas o Dimitri que eu vira lá em casa não tinha cabelos ondulados, nem era tão musculoso. Devo admitir que era o único amigo de papai que eu achava gato (e o mais novo também), e por isso, sempre prestei muita atenção. Certa vez minha mãe até quisera me apresentar à ele, a casamenteira, mas eu me negara por timidez e por uma crise terrível de TOC.
Não reparei que estava sorrindo para o nada como uma idiota, lembrando da minha vida pregressa. Não até que o garoto com a cara de Dimitri me abraçou forte e rodopiou, para horror de Jonas, que o fitava com um ódio visceral. Diogo também não gostou nada, mas em meio aos giros, apenas o vi franzindo o cenho. Os companheiros do rapaz também não pareciam ter entendido direito, até que ele me largou e então focalizei seus olhos. Era mesmo o amigo de papai. Era o Dimitri! Sem pensar em mais nada o abracei apertado, apenas para me afastar depois, totalmente sem graça.
– Victoria... Frittoli, né? — ele indagou, com os olhos brilhando. Assenti. Seu sorriso iluminou o mundo. — Graças a Deus! Pensei que nunca mais veria alguém familiar de novo! Como veio parar aqui, garota?
– Longa história. Mas bem, você não tinha certeza de que era eu? E mesmo assim abraçou antes de perguntar? — eu disse, sorrindo. Dimitri parou para pensar, e soltou uma gargalhada. Aquilo era surreal demais. Então seu rosto ficou sério, e ele me olhou atentamente, colocando uma mão em cada lado de meu rosto, escrutinando-me. Fitando meus olhos.
– E isso? Como foi? — ele parecia preocupado. Triste. — Doeu muito?
– Digamos que não fui rápida o bastante. — sorri, acalmando-o. — E sim, doeu bastante. Mas outra hora te dou os detalhes. — olhei por cima de meus ombros, nervosa. — Dimitri, esses aqui são meus amigos. Estamos procurando por duas amigas, que foram sequestradas.
– Sequestradas? Foi isso que o careca disse a vocês? — riu-se Dimitri, apontando para Jonas. Meu amigo fechou a cara, e avançou, sendo contido pro Ricardo. Ana arregalou os olhos, assustada e encolhida ao lado de Diogo. Mozart parecia ter o olhar meio perdido, fazendo o que ele sabia fazer melhor. Ficar invisível. — Suas amigas estão bem, em segurança. E queremos o mesmo para todos vocês, Vicky. — senti Diogo suspirar quando Dimi usou meu apelido. Ele ainda não percebera totalmente nossa conexão.
– Diogo, esse é o Dimitri, um dos amigos de negócios mais próximos de papai. Ele tem metade da rede de restaurantes que meu pai comprou aqui em Búzios. Ou tinha. — virei-me para Dimi. — Esse é o Diogo, Dimitri. Meu namorado.
– E Allan sabe disso? Não parece que meu amigo ficaria muito contente. — ele debochou, fitando Diogo com uma superioridade toda empresarial. Corei de vergonha. — Esses aqui são o meu pessoal. O fortão é o Alexandre, o Marcílio é o bombom com dreads, e o velhote ali é o Paulino. Essa sereia aqui é a Thaís. — disse Dimi, sorrindo. Deus, ele era mesmo uma versão 2.0 de Diogo. Até usava apelidos maldosos para lidar com as pessoas.
– Queremos saber onde estão nossas amigas. Agora. — exigiu Ana, emburrada. — Vocês as levaram sem consentimento. Como podemos confiar em vocês?
– Temos um abrigo, com segurança garantida contra qualquer criatura. Estamos recrutando mais pessoas. Nossa líder quer proteger o máximo de gente que puder. Estamos longe da capacidade total do nosso esconderijo, então ainda podemos aceitar mais gente. — explicou a mulher com corpo de dançarina e cabelos de surfista.
– E que garantias a sua líder nos dá de que esse lugar é seguro, e que vocês são honestos? — desafiou Ricardo.
– É simples. Um de nós volta pra boate com eles, e um deles fica com a gente. Depois que tivermos certeza de que Carol e Sabrina estão bem e lá por vontade própria, podemos considerar unir os grupos. — sugeriu Ana, voltando às raízes de sua sagacidade. Menos de um dia longe de Sabrina, e ela já brilhava novamente.
– De acordo. — anuiu Dimitri, com um sorriso enviesado. — Eu, Thaís, Marcílio e Paulino vamos com vocês até a Praia da Tartaruga. É, Carol nos contou onde vocês estavam. Somos confiáveis. Nós vamos com vocês buscar os outros e Alexandre leva a morena aí pra ver as amigas, já que a ideia foi dela. Depois nos encontramos na boate e decidimos o que fazer. O que acham?
– Eu vou com a Ana. — avisou Jonas, irredutível. Dimi semicerrou os olhos na direção dele por alguns momentos, então acenou com uma risadinha.
– Ok, grandão. Vá ver sua garota. — ele acenou para Alexandre, que subiu no ônibus e ligou o veículo. Então Ana me abraçou rapidamente e caminhou na direção do 1001.
Todos ficamos muito desconfiados, mas ao mesmo tempo tranquilizados pelas garantias recebidas. As vidas de quatro membros da boate estavam em nossas mãos, e quatro dos nossos estavam com eles. Não era a situação ideal, mas era melhor do que não termos certeza alguma em que nos agarrarmos. Diogo estava visivelmente desconfortável enquanto tomávamso assento com os novos e inesperados companheiros na van de Ricardo. Para deixar claro que ele não precisava sentir-se ameaçado, entrelacei meu braço com o seu e deitei a cabeça em seu ombro, apesar das armas que estávamos carregando atrapalharem um pouco. Enquanto Rico saía com a van da calçada da farmácia destruída, imaginei qual seria a cara de Otto ao ver nossos novos amigos. É claro que ele também se lembraria de Dimitri, dos jantares lá em casa. Seria algo divertido, e muito inusitado. Certamente, as coisas na praia deviam estar bem mais calmas do que ali. Com o dia brilhando forte, devia ser um início de tarde maravilhoso, na Praia da Tartaruga.
Otávio.
Um maldito inferno. Além do sol de lascar que parecia insistir em esturricar meu cérebro, quase enfartei com o grito de Tânia, quando ela jogou um copo que segurava contra um bando de zumbis que começava a caminhar em nossa direção. Deus sabia o quão aliviado eu estava por ver uma faca na mão das crianças. Mas aquilo, obviamente, não seria o suficiente. Não com todos aqueles, dentre nós, que realmente seriam capazes de fazer a diferença. Hugo parecia um pouco paralisado, fitando nossos inimigos, enquanto eles vinham. Como numa trincheira de batalha, senti o mundo diminuir ao meu redor, resumindo-se apenas à sobrevivência. Diana moveu-se rapidamente, enquanto gritava por Nanda e Gabriel. Mas na minha mente, suas palavras saíam em câmera lenta. Hugo me olhava, enquanto puxava o pequeno revólver de Ricardo de sua cintura. Eu, por minha vez, peguei a barra de ferro que se tornara minha amiga de longa data.
– Crianças, vão com a Tânia e a Fernanda para o quiosque, agora! — gritou Hugo, destravando sua arma. Diana estava mexendo na camionete de Diogo, voltando logo em seguida com uma faca e um revólver na mão. Ela nos ajudaria. Na minha visão periférica, pude ver Vilma puxando Fernanda pela mão e subindo as escadas com ela e Dino. Tânia tentou segui-los, mas teve seu caminho bloqueado por alguns bichos. Hugo começou a atirar contra os que estavam mais próximos dela, e nossa amiga gritava de pavor.
Perdi totalmente o que estava rolando ali perto, quando o primeiro zumbi atirou-se contra mim. Tratava-se de um homem loiro e meio devorado no rosto, aparentemente jovem quando fora morto. Haviam várias marcas de mordidas em seus braços, e provavelmente ele morrera rodeado pro zumbis. Girando minha barra de ferro com o máximo de força que pude reunir, atingi o cadáver em cheio, e meio podre, seu crânio afundou sem resistência. Sem fôlego com o esforço, ouvi Hugo gritar. Ele havia tropeçado e caído ao tentar de afastar de uma idosa zumbificada. Na areia, agora ele se debatia com a mulher sobre si, a poucos centímetros de finalmente mordê-lo e me tirar mais um amigo. Cego pelo pânico, ignorei meus adversários e corri em sua direção. Quando um estampido encheu o ar, levei um susto e coloquei a mão sobre o peito. Certeira, Diana atingira a adversária de Hugo, livrando-o da morte. Sem tempo para agradecimentos ou uma reação mais veloz, apenas puxei-o pela mão e corri na direção de Tânia. Encolhida num canto, ela se escondia perto de Gabriel, enquanto o menino agarrava uma menininha zumbi e enfiava sua faca de caça no olho da criatura. Sem diferenciar aqueles bichos uns dos outros, comecei a golpear sem parar, sentindo os músculos dos meus braços protestarem, e ignorando-os com a adrenalina que acelerava o meu coração.
Desviando-se dos monstros, Tânia trancou-se na ambulância, e cerca de cinco mortos passaram a chocarem-se contra o veículo, sacudindo-o na esperança de abocanhá-la. Hugo gastou a última bala de seu revólver matando um andarilho prestes a morder meu tornozelo, que eu não notara, e então joguei a faca que eu trazia na cintura para ele. Gabriel fitava o quiosque onde Fernanda se refugiara com as crianças o tempo todo, apavorado ao notar que cerca de quatro criaturas haviam conseguido subir com êxito a escada que levava ao mesmo. Mas ali, estávamos os três cercados. Nenhum de nós poderia fazer nada. Mais afastada, Diana tentava combater os bichos, mas viu-se impossibilitada de agir ao esgotar sua munição. Sua única chance foi correr, já que ela não poderia encarar os bichos fisicamente. Com um ardor sedento na garganta, cheguei à conclusão de eu não aguentaria esmagar crânios por muito mais tempo. Cada pancada mortal, exigia boa parte da pouca força que eu tinha. Hugo chutava e esfaqueava ao máximo, mas ele era bem mais estabanado do que nossos outros lutadores. Apesar disso, ele sabia exatamente os pontos onde a faca penetraria, e poria um fim nas criaturas. Gabriel não parecia estar prestando atenção em si próprio. Só olhava na direção de Nanda, e socava os zumbis, afastando-os. Vez ou outra conseguia usar sua própria faca corretamente, mas antes que todas aquelas coisas estivessem mortas (a horda que nos atacara devia ter cerca de uns trinta mortos), todos estaríamos exaustos.
Quando pensamos que não faltava mais nada, ouvimos o grito agoniado de Nanda, e eu gritei de dor e desespero. Ela e as crianças, não. De todos nós, eram aqueles que menos mereciam um destino cruel. Qualquer morte era melhor do que aquela. Ninguém queria morrer nas mãos dos mortos. Quando Nanda gritou outra vez, urrei. Eu estava, pela primeira vez, realmente fora de mim. Não sei descrever o que senti naquela hora, pois não há um nome que se encaixe no sentimento. Foi o mais puro e refinado ódio. Contra aqueles bichos, e contra toda a ador que já haviam me causado. Sem medir minha força, atirei-me contra eles, mesmo ouvindo os protestos de Hugo. Tanto ele quanto Gabriel tinham os olhos marejados. Mais ao longe, ouvimos um esgar dolorido de Diana, que havia saído de nossas vistas, correndo dos zumbis. Sem querer imaginar a hipótese de ela também ter sido morta, comecei a repetir sistematicamente. Empurrar, bater e esmagar. Empurrar, bater e esmagar. O som estrondoso de algo caindo surpreendeu-nos, quando o corpo do primeiro zumbi tombou sobre o parapeito do quiosque. Logo, outros dois bichos foram arremessados, e os gêmeos desceram para a praia. Tanto Vilma quanto Dino, estavam cobertos de sangue. Mas não havia sinal de Nanda. Se algo tinha acontecido, fora direcionado a ela.
– Dino, ajuda a Diana! — mandou Vilma, e o garoto mudou seu rumo, seguindo na mesma direção que nossa amiga. Vilma rumou na direção dos zumbis que cercavam a ambulância de Tânia, e assobiou alto. Os bichos viraram-se em sua direção, e ela lançou uma de suas duas facas. Certeira, logo a menina derrubou um dos cinco monstros que começaram a segui-la. Outros quatro se aproximavam, e estavam andando surpreendentemente rápido, naquela areia toda.
Vilma chocou-me, ao se jogar contra as pernas de um dos zumbis, fazendo com que o monstro caísse e derrubasse outros dois. Desajeitados, os mortos não conseguiam se erguer por nada. Aproveitando a chance, a menina lançou sua última faca, derrubando o zumbi que faltara dos quatro. E, enquanto os zumbis lutavam para se erguer e nós lutávamos para manter a atenção dos bichos em nós, Vilma correu e puxou sua enorme faca da cabeça do primeiro zumbi que derrubara. Ainda no chão, ela logo acabou com os outros, mortalmente. Totalmente salpicada de vermelho, a garota sumiu num borrão veloz, indo na direção de um Dino e uma Diana exaustos, que se reaproximavam. Àquela altura, a horda havia sido reduzida à sete zumbis espalhados pelo mar de corpos no local. Os poucos que havíamos derrotado sem destruir a cabeça. Apesar de presos sob os corpos dos outros, ainda poderiam morder e matar qualquer um que passasse por ele. Juntos, começamos a caminhara entre eles, até todos terem morridos. Ofegantes e desesperados, nos reunimos numa espécie falha de círculo, e então Tânia abriu a porta da ambulância. Pequenos sons de objetos sendo arrastados e um copo quebrando nos atraíram, quando Nanda surgiu na varanda do quiosque. Estava esbaforida, mas acenava, cansada. Não tive cara para esconder meu alívio. Apesar disso, eu estava pasmo com Vilma, e sua demonstração de força e comando. Eu jamais deduziria isso nela antes, só de olhar. Mas agora sim.
– Nanda gritou quando matamos os zumbis. — disse Dino, sem ar. — Ficou totalmente surpresa com nossa velocidade. — gabou-se.
– É verdade, Vilma? — indaguei, rindo.
– Mais ou menos. Nanda gritou porque dois zumbis tinham agarrado o Dino, e ele não podia se mexer. Eu só entrei na brincadeira, disse o que eu queria que fosse feito, e acabou. Consegui livrar a cara de Dino, e me obedecendo a gente conseguiu livrar Nanda dos bichos e ajudar vocês. É bom que ninguém foi mordido. — ela despejou, e eu tive que me entreolhar com Hugo. Havíamos acabado de escapar da morte, sendo salvos por crianças de doze anos. Não fosse por eles, talvez só dois ou três de nós houvessem sobrevivido.
– Nem acredito que estamos bem. — sussurrou Gabriel, no que eu concordei com um gesto.
Meia hora depois, estávamos arrastando os corpos dos mortos. Não dava pra deixar aquela podridão toda espalhada pela praia. Totalmente em choque por ter quase sido morta, Diana pediu para descansar com Fernanda, no quiosque. Ninguém achou ruim, e por isso aquele foi o primeiro lugar que limpamos. Na praia, estávamos fazendo uma pilha, para queimar enquanto ainda era dia. Peguei os braços de uma mulher bonita que havia tido o azar de ser zumbificada, e Tânia pegou os pés. Enquanto começávamos a transportá-la, o corpo se partiu ao meio sem qualquer motivo aparente, e um jato de sangue com pedaços de tripa espirrou em cima de mim, atingindo meu rosto em cheio. E ali se foi tudo o que eu havia comido desde o dia anterior. Correndo com o nojo desorientador, e com o medo de engolir e me contaminar com o vírus, fui na direção da água e me banhei com roupa e tudo.
Ao voltar à terra, sentei-me numa das pedras da praia, distraindo-me com conchinhas vazias que pontilhavam o chão. Com o rosto entre as mãos, fiquei olhando para a areia, meditando. Onde diabos estariam os outros? Eles sim saberiam lidar com os corpos, ou ajudar na hora de queimá-los. Ao longe, eu podia ver os gêmeos jogando um pouco de álcool retirado da picape de Diogo sobre os corpos, enquanto Tânia acendia um fósforo. A fumaça e o cheiro de carne carbonizada rapidamente subiram, e então nossos amigos se afastaram. Gabriel já havia subido ao quiosque fazia um tempo, desde que seus serviços braçais haviam tornado-se desnecessários. Sentadas, as crianças fitavam as labaredas, e Vilma pousava a cabeça no ombro do irmão, que abraçava-lha os ombros. Lindas crianças, aqueles dois. Não fosse a sujeira e o sangue que praticamente lhes cobriam, eles poderiam ser considerados totalmente comuns. Como se o Apocalipse nunca tivesse existido. Tânia seguiu Gabriel, deixando os gêmeos em sua meditação, e ao observá-los de longe, distrai-me completamente. Por isso o susto que levei, ao sentir a mão de Hugo em meu ombro. Rindo, ele sentou-se ao meu lado, olhando pro mar com os cabelos loiros pingando suor. As pontas ainda estavam pretas e desbotadas em algumas partes, onde antes haviam sido coloridas. Mesmo assim, o cara gótico que a gente conhecera parecia uma sombra do que Hugo fora. Agora ele estava diferente.
– Valeu por me ajudar. — ele disse, tirando sujeira de baixo de suas unhas. — Juro que cheguei a me despedir da vida, lá atrás.
– Não foi nada. Você faria o mesmo por mim. Estamos juntos nessa. — sorri, encostando-me na pedra, esticando a coluna. — Meus braços parecem que vão cair. Foi bem punk esse ataque. Vamos ter que avisar aos outros que não estamos tão seguros por aqui.
– É verdade. — Hugo fitou o mar por mais um tempo, então estremeceu levemente. Totalmente pego de surpresa, me senti um pateta quando ele começou a chorar, profusamente. Sacudindo os ombros, ele tremia dos pés à cabeça sentado naquela pedra. E então, pela terceira vez em pouco tempo, o abracei.
– Hey, calma. — pedi, e tenho certeza de que minha cara pareceria no mínimo, cômica. — Vai ficar tudo bem.
– Nós quase fomos mortos, Otto... E eu sei que existem coisas que ficam melhores pra sempre escondidas, é só olhar pro Mozart, mas eu também sei que a vida é curta demais pra esconder tudo o que sentimos... — ele parecia totalmente for de si. Era isso. Hugo estava em choque.
– O que quer dizer, Hugo? — eu estava realmente assustado.
– Isso. — e então ele me beijou.
Ok, só mesmo eu pra não ter percebido que ele estava se referindo a mim no lance dos sentimentos, mas hey! Eu não posso me gabar de ser um expert em assuntos românticos, muito menos com relação a outros garotos. Mas não serei hipócrita. Totalmente pego de surpresa, correspondi ao beijo. Até lembrar de Ricardo, e de todos os outros motivos que tornavam aquilo, errado. Não o fato de sermos dois rapazes. Mesmo sendo hétero, eu não tinha qualquer sentimento de repulsa a isso, nem nojo. Mas eu sabia que não amava Hugo. E eu ainda estava frágil por Julia, tanto quanto ele estava pelas brigas com Ricardo, pela ameaça de Mozart e pelo ataque dos zumbis. Éramos, naquele momento, um turbilhão de emoções e medo. E se não parássemos logo, aquilo poderia evoluir para algo bem mais perigoso. Como se sua mente ecoasse a minha, Hugo se afastou. Totalmente horrorizados, nos fitamos por um tempo, e então ele me abraçou de novo, chorando.
– Me desculpa Otávio, de verdade... — ele pediu, secando o rosto com a própria blusa.
– Tudo bem, Hugo. Acredite ou não, eu também te beijei. E te entendo. Mas você sabe que isso não pode ser mais do que um beijo, não é? — indaguei, sorrindo.
– Eu sei, sim. — ele concordou. — Vem, vamos levar as crianças pro quiosque e esperar os outros.
– De acordo. Deus nos ajude se eles viram o que fizemos... — comentei, e então Hugo sorriu. De repente, o clima havia retornado ao que era antes, entre nós. Amizade. Algumas coisas simplesmente eram o que eram. E aquela, era uma coisa que ficaria bem melhor como estava. Algumas pessoas jamais serão mais do que podem. Jamais mudarão totalmente para estar conosco. E Hugo sabia que eu não poderia oferecer aquilo que ele buscava. De uma forma interessantíssima, não restou nenhum ressentimento entre nós. Era como se, de fato, o beijo tivesse posto um ponto final em qualquer dúvida. Éramos grandes amigos. Ponto.
Como se o mundo fosse muito menor ali, seguimos em frente na direção da precária escada de madeira que nos levaria aos outros. Sorrindo comigo mesmo, tive de concordar: Na linha de frente, o tempo parece mais lento, e a vida mais urgente. Eu nunca sentira tamanha adrenalina. Bem, talvez quando encontrei Lupa. Mas aquilo havia sido diferente. Não havia uma Nora para nos salvar, nem lutadores capacitados para nos defender. Havíamos sido nós, os fracos cidadãos comuns, a nos livrarmos daquelas criaturas. Nós havíamos visto, sentido e suado das trincheiras. Nenhum membro do nosso grupo, era incapaz. Não mais.
Carol.
Quando Ana e Alexandre retornaram, fiz algo que eu julgava quase impossível. Corri e abracei minha velha amiga, como se ela fosse a melhor coisa que eu já vira na vida. Surpresa, Ana correspondeu o meu gesto com um leve sorriso, e se afastou para me olhar melhor. Claramente, ela estava surpresa com meu bom estado. Eu sabia que estava bela, mas foi muito mais fácil acreditar ao vê-la me olhando daquele modo. Logo depois Sabrina se aproximou de nós, e eu dei espaço para as duas. Elas se beijaram dolorosamente, como se tivesse ambas, nascido de novo. Revirei os olhos diante daquele afeto todo, mas eu estava sorrindo por dentro. Era bonito ver algo tão genuíno de perto. Eu mesma acreditava que seria capaz de fazer o mesmo com Jonas, assim que o visse. Mas não foi dele que me lembrei ao ver minha amiga com sua namorada. Foi de Luca. No fim das contas, eu tinha certeza de que eu o amava bem mais do que Victoria. Mas como ondas agitadas no presente, não movem o passado, sorri para Topázio, que observava o nosso encontro de maneira solidária. Ela sorria, com uma imponência e benevolência quase maternais. Aquela mulher era basicamente, sobrenatural.
Nem preciso dizer que quase surtei ao ver Jonas entrando, acompanhado de um Alexandre emburrado. Ele também parecia nervoso, como se estivesse invadindo uma base inimiga, ou coisa do tipo. Sexy e assustador. Ao me ver, ele correu em minha direção, e me rodopiou no ar. Me beijou antes que eu pudesse reagir, mas optei por perder-me em seus braços. Rindo, quebrei o beijo para olhá-lo melhor. Parecia preocupado, e cansado. Pobrezinho.
– Você está bem, Carol? De verdade? Me desculpe por não te defender! — ele implorou, beijando meu rosto em diversos lugares.
– Está tudo bem, querido. Tudo ocorreu como devia. Uma força maior nos guiou até aqui. — olhei para Topázio, que sorriu em aprovação. Que bom que ela estava contente. — Vamos todos ficar a salvo. — eu disse, irradiando felicidade. Jonas pareceu estranhar aquilo tudo, e passou a analisar para as pessoas e para o ambiente ao redor.
– Que bom que Ana e Sabrina se reencontraram, assim como Jonas e Carolina. — sorriu nossa anfitriã, e então Ana separou-se de sua parceira para fitá-la. Jonas também deu-lhe total atenção. — Permitam-me dar-lhes as boas-vindas, queridos. Eu sou Topázio, e peço que considerem viver conosco, aqui na Privilège.
– Obrigada. Sou a Ana. — sorriu Ana, sem jeito. — Mas, eu não entendo... Como não existem monstros ao redor desse lugar?
– É o dom inumano da Topázio. — contei aos dois. — Mais tarde explico melhor.
– Exato. Haverá muito tempo para apresentações. Agora, precisamos nos preparar para a chegada dos outros amigos de vocês. Alexandre me disse que Dimitri resolveu acompanhá-los até o acampamento na praia, e que entre seus amigos há alguém que nosso Dimi estima muito. Então, logo estaremos todos reunidos. Espero que decidam ficar conosco, mas se não, ficarei feliz em ajudá-los com algumas provisões para a viagem. — com um sorriso angelical, Topázio deslizou pelo salão principal. Todos estávamos agrupados à sua volta. — Lavínia, meu doce, poderia organizar um jantar para receber nossos amigos? Conto com você para deixar tudo na mais perfeita ordem.
– Tudo bem, Topázio. Vou caprichar. — sorriu a professorinha, indo para a cozinha da boate.
– E vocês, sintam-se em casa. Vou à minha sala particular para rezar à Deusa. Vou pedir um bom trajeto para nossos amigos que estão no exterior. Até que voltem à área de proteção sagrada, precisarão de toda a ajuda possível. — Jonas e Ana me olharam com uma cara de total descrença. Ignorei-os completamente.
Topázio retirou-se, indo orar em sua cabine na parte inferior da boate, nos subterrâneos que ligavam aos esgotos e ao porão, onde ela se escondera quando se tornou uma Inumana. Desde então, segundo Manuela, aquele era o seu lugar sagrado. Somente quem ela convidada podia entrar naqueles limites. Sem dar a mínima pro que ela fazia lá embaixo, nem dei atenção a isso, desde que eu estivesse segura. Uma mulher capaz de afastar os monstros de nós, merecia o direito de ser respeitada e paparicada. E mesmo que eu não acreditasse naquela frescura pagã de Deusa isso e Deusa aquilo, estaria ali de bom grado. Porque a opção era muito pior. Não me importava pra quem Topázio rezava. Só me interessava continuar respirando. E isso eu continuaria a fazer, custasse o preço que fosse.
A Jovem Cega.
Estava escuro há muito tempo. Desde que eu podia me lembrar daquela nova vida, havia sido condenada ao frio e à solidão. A cegueira não me era assustadora. Mais mortal que qualquer dano físico, era o terror que me fazia tremer e chorar, todos os dias. Ali, acorrentada, eu havia perdido a noção do tempo. Tudo era apenas o intervalo entre meus soluços, as doses seguintes de drogas injetadas à força em meu corpo, e meu sono de cansaço. E, por mais que fosse tentador desistir daquilo tudo, não havia nada que eu pudesse fazer para acabar com meu próprio sofrimento. Conseguindo me mexer apenas minimamente, nem mesmo tirar minha própria vida, era uma opção. Eu já não falava há meses. Não lembrava do som de minha própria voz. Deus, eu só queria que aquilo acabasse. Mas em meus sonhos, nos mais esperançosos deles, podia ver uma jovem loira, e um rapaz alto e muito bonito. Ele tinha cabelos loiros escuros, e parecia alguém em que se pudesse confiar.
Oh, era bom lembrar-me das cores. Todas elas juntas, em harmonia. O sol batendo e espalhando seu prisma através da água, e mesmo ofuscando minhas vistas, sendo belo. Aquilo tudo parecia, agora, um sonho antigo, mas infinito. Porque eu me lembrava das cores. E eu as amava, quase tanto quanto os meus sonhos. Lá, ninguém me faria mal. Ninguém me tocaria contra a vontade. Ainda conseguia me lembrar do dia em que o mundo escurecera totalmente, para mim. Era a noite mais divertida em toda a minha vida. Eu e meus amigos nunca antes havíamos estado numa boate tão linda e tão cara quanto a Privilège. E todos havíamos esperado por aquilo, durante todo o mês de dezembro. Shamira, Luana, Iam e Max. Todos mortos na mesma noite. Na noite em que aquelas criaturas horríveis haviam surgido, como um turbilhão de morte e desespero. E enquanto todos fugiam da boate, ou tentavam matar os monstros, eu havia sido mordida. A dor, fora terrível. Sem esperança alguma, eu me escondera no porão, com uma outra mulher, e meu namorado. Iam também havia sido mordido, e sua pele negra parecia pálida como a morte. Já a mulher, era bem mais velha e mais bonita que eu. Juntas, havíamos esperado. Sofrido com nossos ferimentos, queimado e morrido juntas. Mas ambas retornamos.
A única diferença, é que, quando o mundo renasceu, eu estava cega. Cega, mas viva. E plena, repleta de um sentimento de poder e paz, que eu jamais poderia explicar. Iam, agora zumbificado, mantivera-se afastado de mim e de minha amiga até que havíamos acordado completamente. Totalmente pasma com o comportamento da criatura, aquela que se apresentara a mim como Topázio, resolveu tentar aproximar-se do antigo Iam. Para nossa surpresa, ela quase fora morta. Ele a atacara ferozmente, até que, novamente próxima a mim, ela se salvara. De uma forma totalmente inusitada, havíamos descoberto juntas, que eu me tornara um repelente para monstros. Já ela, modificada como eu, não parecia diferente além da aparência de seus olhos. Segundo o que Topázio me dissera, tanto eu quanto ela tínhamos um olho branco e outro preto. Algo totalmente assustador.
Juntas, finalmente decidimos sair à superfície, e encarar o que estivesse lá fora. Àquela altura, já haviam se passado quase três dias. Mas então, eu ainda era capaz de contar o tempo. Desesperada e com medo de ser exposta nas minhas condições, fui convencida por Topázio a aguardar por ela ali embaixo, até que eu estivesse bem, e ela tivesse encontrado alguma ajuda. Então, num estado quase que vegetativo, a esperei. Dormindo e sem sentir fome durante um longo tempo, finalmente a ouvi de novo. Mas quando retornou, Topázio não estava sozinha. Com a ajuda de um homem, ela me acorrentara à parede, e havia me segurado. Com uma picada profunda, senti o homem preenchendo minhas veias com uma substância quente, e ao mesmo tempo, fria. Com uma dormência quase prazerosa, aquilo se espalhara pelo meu corpo, dominando meus sentidos e ações. E tudo aquilo durou, e durou... Heroína, cocaína, álcool, comprimidos antidepressivos, ecstasy, LSD's, tantos alucinógenos que eu perdera a conta.
Mantendo-me fora de mim e drogada, Topázio garantira para si, os créditos pelo meu dom. Ao ouvir suas conversas e discursos através das paredes, gritei e gritei, de revolta e dor. Quem era o homem que a ajudava, desde o início daquilo tudo? Eu jamais ouvira sua voz, e nem podia dizer como seria sua aparência. Mas ele era quem trazia os remédios. Era ele quem havia tornado Topázio, uma deusa. De alguma forma, segundo o que eu ouvira, ao ficar em um estado de torpor, eu atingia um alcance bem maior com meus poderes. Quanto mais drogada eu estava, mais protegidos os outros ficavam. Mas aquilo, dia após dia, estava minando minha vida. Com o tempo, no entanto, condicionei-me a aceitar. A entender. Eu não tinha chances de ter uma vida lá fora, de todo modo. Cega, eu seria apenas um estorvo. Mas Topázio me mantinha segura. Topázio me mantinha guardada. Escondida. Viva. Ela me dava comida.
Foi só depois de muito tempo, que coisas estranhas começaram a ocorrer. Apesar de minha cegueira, eu via olhos nas sombras. Pessoas, acontecimentos e tragédias. Mortes, de indivíduos que eu jamais conhecera, e com os quais não poderia sonhar. Drogada e constantemente alucinando, vi rostos que eu jamais esquecerei. E também, vi coisas que somente depois aconteceriam. De uma forma esquisita, eu já sabia exatamente tudo o que Topázio diria nas minhas visitas, antes de vê-la. Ao mergulharem-me no pântano da morte, meus captores haviam ampliado meus dons. De um jeito assustador. Naquela tarde... ou noite? Naquele momento, eu sabia que Topázio desceria as escadas do porão, após discursar para novos moradores. Mais súditos para ela.
– Olá, queridinha. — cumprimentou-me, com sua voz de sinos quase que treinada para me atormentar. Fraca, apenas suspirei. — Espero que esteja mais confortável hoje. Saiba que teremos mais gente em breve. Não é maravilhoso, querida? Com seus sacrifícios, você protege cada vez mais seres humanos. Sua vida é a proteção de muitas outras. Não é uma coisa especial?
– Topázio. — chamei, cansada. — Aplique logo a dose de heroína que você está segurando atrás das costas. Eu não vou a lugar nenhum, mesmo... — balbuciei. Ela riu.
– É verdade. Você não vai. Mas sabe, Cecília, nós duas passamos por tantas coisas juntas, e depois de mais de um ano com nossas conversas reveladoras, sinto que devo algo a você. — Topázio puxou meus cabelos, ou o que restara deles, e injetou a droga no meu braço exposto. O efeito da substância começou a se espalhar pelo meu corpo, e eu sabia que Topázio sempre me torturava daquela forma. Prometia fazer algo que eu pedisse, mas a heroína nunca permitia que eu completasse meu pedido. Eu dormia ou desmaiava antes, e ela ia embora. Não naquele dia. Meu corpo tivera, como ela havia dito, mais de um ano para suportar todo tipo de coisa. Não estava mais tão frágil quanto antes. — Vamos, pergunte o que quiser e prometo responder com sinceridade.
– Quem é o homem que te ajuda a fazer tudo isso, desde o ano passado? Quem é seu verdadeiro braço direito? E qual é seu verdadeiro poder? — indaguei, quase totalmente fora de mim.
– Meu único aliado real, se chama Alexandre. Não que isso faça alguma diferença para você, meu doce. E meu poder? Bem, já se perguntou como sou capaz de convencer tanta gente? Bem, digamos que ter Borderline por uma vida inteira de sofrimento, está compensando agora. Sou capaz de convencer as pessoas, do que eu quiser. E você sabe bem disso. Afinal, eu só faço o melhor por você. — disse Topázio, gotejando veneno. E, por mais que eu soubesse que tudo era mentira, eu não podia evitar. Estava acreditando nela.
– É verdade, Topázio. Me desculpe. — pedi, sem entender como eu podia estar dizendo tamanho absurdo.
– Tudo bem, meu anjo. Sei que você não é ingrata por mal. Agora já vou indo. Tenho novos amigos para receber, e novos moradores para doutrinar. Que a Deusa esteja com você. — eu podia ouvir o sorriso em sua voz, enquanto ela ia embora, carregando o nome de minha Deusa com sua mentira, e maldade. Enquanto agonizávamos juntas, eu a confortara com os ensinamentos da Wicca. Ela então subvertera toda a beleza da minha crença, numa espécie de seita assustadora com a qual dominava a mente das pessoas, convencendo-as dos maiores absurdos.
Quando a porta metálica bateu, soube que minha captora só retornaria no dia seguinte, com minha refeição diária. Mas ali, na minha prisão escura, onde eu via constantemente os rostos com os quais eu já sonhara, eu só podia rezar para que de um jeito ou de outro, meu cárcere estivesse finalmente, chegando ao fim...
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