Quebranto.

77 A Segunda Cor é o Amarelo.


Notas iniciais
Olá pessoal! Capítulo demorou mais um pouquinho, mas está pegando fogo! Espero que gostem! Boa leitura.

Victoria.

O ar parecia suspenso numa eterna e densa abóbada negra. Era como se abaixo das estrelas, o ar estivesse cada vez mais pesado e menos nutritivo, ainda que cada vez mais frio. Toda a umidade comum ao local, parecia envergonhada diante da escuridão, que era quase exagerada mesmo de onde eu estava. Esfreguei meus braços arrepiados com inquietação, encostando as costas contra a janela e sentindo o vidro frio emanar seu toque cálido através das minhas roupas. Eu estava imunda. Botas repletas de barro, camisa manchada de pó e sangue, jaqueta quase impraticável. Meus jeans então... Nem quis trocar de roupa, para ser sincera. A ideia de estragar peças limpas, vestindo-as completamente suja, pareceu-me uma heresia. Ainda mais na conjuntura atual, em que não podíamos desperdiçar mais nada. De olhos fechados, comecei a sentir a ardência típica sob as pálpebras, quando dei-me conta de Vilma sentara-se ao meu lado. Ela segurou minha mão com a sua, e suspirou antes de sorrir. Apesar de sonolenta, não quis decepcioná-la, e despertei novamente. Dei-me conta então, de que havíamos passado muito pouco tempos juntas, desde antes de perdermos a pousada. Lembrei também, que o irmão dela deixara-a sob minha responsabilidade, e de Nanda. E que por muitas vezes, eu delegara minha tarefa a outros. Não que Tiago não fosse um doido esquisitão, mas as promessas que fazemos aos mortos prcisam ser honradas, para que a vida faça sentido. Era o que meu pai sempre dizia. O mais engraçado, era que ultimamente eu andava pensando muito na minha família, mais do que o comum. Carlos, meu pai, mamãe...

– Você está bem, Vilma? — Ela pareceu surpresa ao me ouvir falando, e levantou o olhar, sustentando o meu com uma serenidade quase angelical.

– Estou sim, Vicky. Feliz por você e o Dimi terem voltado bem. Mas não consigo deixar de pensar no meu irmão, nem em Ricardo. Ele não voltou mais. Pode ter morrido, sozinho. E a Nanda também, está muito esquisita. Não entendo como pode rejeitar três bebês tão lindos... — balbuciou, delicadamente.

– Às vezes, quando uma mulher passa por um grande trauma, pode ter problemas no pós-parto. A vida de Fernanda tem sido somente traumas, desde que nos lembramos. Ela foi estuprada, sustentou uma gravidez no covil de Topázio, se apaixonou novamente, lidou com problemas de saúde sérios, perdeu Gabriel durante o parto, e ainda foi forçada a se transformar numa inumana, para não morrer — suspirei, alisando os cabelos castanhos de Vilma. — Consegue ver? Uma mudança como a que eu vivi, ou como a que ela está vivendo, não é algo que simplesmente passa. É um processo muito demorado. Temos que dar-lhe algum tempo.

– Tânia disse que já estamos indo para o porto. Vamos mesmo deixar o Rico para trás? — Eu sabia que a resposta só podia ser uma. E ela também.

– Vamos. Estamos parados há muito tempo. Ele sabe qual o nosso destino final, nos encontrará lá. Tenha fé, ele vai ficar bem — tranquilizei-a, apesar de não acreditar em nada daquilo.

– Sabe, eu e Dante vimos o Rico e a Manuela juntos, na pousada. Eles estavam se beijando, e nus. Dante pediu que eu não contasse a ninguém, porque poderia magoar o Hugo. Mas todos eles podem ter morrido agora. — Aquilo me pegou totalmente de surpresa. Ricardo e Manuela? Deus... Senti uma sensação desconfortável no estômago, quase prevendo o que viria a seguir. — Eu também acho que Hugo ficaria muito magoado, não é?

– Sim. Ele ficaria — fitei-a com atenção. Vilma sustentava meu olhar com destreza. Ela não havia terminado.

– Então como pode fazer o mesmo com Diogo? Digo, ele não sabe, mas é algo que com certeza o magoaria muito. Não precisa negar, eu vejo o jeito como o Dimitri te olha. Sou uma garota de doze anos, e mesmo antes do fim do mundo, a gente já amadurecia antes dos meninos, né? — Eu estava chocada. E morta de vergonha. — Conheço o Diogo há mais tempo do que você, desde que eu era bem mais nova. Ele está vivo, e você também sabe disso. Como acha que ele vai reagir quando te encontrar e souber disso?

– Essa é uma pergunta muito difícil. E assustadora, mesmo pra uma menina de doze anos — ela sorriu, junto comigo. — Às vezes esqueço de como você cresceu, querida. Acha que pisei muito na bola? Estou totalmente perdida...

– Você gosta dos dois, e os dois gostam de você. Poucas garotas têm tanta sorte — rindo, ela colocou um pouco de cabelo atrás da orelha. — Mas lembra de quando você e a Carol gostavam do Luca? Não era bom pra vocês. Não deixe o Diogo e o Dimitri passarem pelo que você passou. Você precisa escolher.

Vilma beijou o meu rosto e afastou-se, deixando-me completa e totalmente perplexa. Tânia e Ana pareciam tranquilas, cochilando com os bebês no colo. Havia um moisés no ônibus, mas não havia espaço o suficiente para todos os três, ao mesmo tempo. Dessa forma, apenas Artémis fora deixada para dormir sozinha, já que era a mais calma entre as três crianças. Ela estava próxima da mãe, que também dormia. Já os pequenos meninos pareciam inquietos nos colos sonolentos que os sustentavam. Próxima ao banco do motorista, pude ver perfeitamente quando Dimitri tomou Apolo dos braços de Tânia, para que ela pudesse dormir. Acalentando o bebê com ternura, ele pareceu ainda mais jovem. A barba por fazer, os olhos serenos e azuis, as roupas esfarrapadas e o cabelo quase desalinhado só o faziam parecer ainda mais especial. O que não parecia de forma alguma, um ponto de vista consolador ou promissor. Vilma estava certa. Eu havia sido estúpida ao acreditar que Diogo estava morto. E ainda mais tola por ouvir Nora. Ao menos, ela parecia tão adormecida quanto antes, depois que eu satisfizera sua vontade. E eu pensando que tinha de fato o controle, que podia extrair sua força e frieza sempre que necessitasse... O que eu realmente tinha, era um acordo com ela. Um pacto de simbiose produtiva e benéfica para ambas. Até que eu me dividira em dúvida e pesar, forçando-a a mais uma vez, resolver a situação e garantir que eu continuasse funcionando. Não importava a quem ela tivesse de magoar. A segunda personalidade mais egoísta que eu poderia ter. Enquanto Dimitri aproximava-se, senti cada vez masi falta da antiga Victoria. Mesmo insegura, ciumenta e vítima do TOC, eu parecia muito mais honesta e autêntica, naquela época. Senti saudades da minha essência, e subitamente percebi que não precisaria resgatá-la, se nunca a tivesse perdido. O que só provava o quão erradas tinham sido minhas últimas ações.

– Sem sono, Lady Frittoli? — provocando-me, Dimitri balançou o bebê em seus braços. — Um enlatado pelos seus pensamentos.

– Estava pensando em todas as coisas malucas que fiz. Você foi uma delas, e a mais grave também. Mesmo que eu tenha gostado, e tido tanta vontade quanto você, preciso que saiba que isso não vai mais acontecer — cuspi tudo, lutando para manter a coragem de pé, ainda que ela estivesse extremamente cansada e desmotivada. — Pode aceitar esta decisão?

– Posso. Uau. Vicky, pensei que já tínhamos combinado isso — ele pareceu realmente surpreso, e confuso. — Não quero te causar nenhum mal, nem culpa. E definitivamente não quero que você se arrependa do que fizemos. Eu te amo, Victoria. Não me importa se nunca mais ficarmos juntos. A noite passada é tudo o que tenho. Não espere que eu finja que não aconteceu. Não me tire isso.

– Você precisa esquecer — respirei fundo, mordendo o lábio inferior, provando a mentira nos meus lábios. — Eu não te amo. E já me arrependi do que houve. Metade da culpa é de Nora. Se não fosse por ela, eu teria me controlado e nunca estaríamos tendo essa conversa.

– Eu não acredito em você. — O rosto de Dimitri parecia uma máscara de tristeza. Foi avassalador perceber que eu era responsável pela tristeza dele. — Não estou dizendo que vou contar algo pro Diogo, ou ficar te perseguindo o tempo inteiro. Mas achei que você fosse mais do que isso. Desde o momento em que decidi que meu amor por você era maior que a raiva por você ter nos posto em risco na pousada. Você foi responsável pela morte de três pessoas, e eu te perdoei. E quando fiz isso, escolhi ter qualquer parte sua na minha vida, mesmo uma única noite. Mas você está arrependida, não é? Nunca signifiquei nada pra você.

– Dimitri, espera...

– Eu não achei que fosse dizer isso pra garota alguma na vida, mas você me usou, Victoria. — Tentei me aproximar, porém Dimitri ergueu uma das mãos, mantendo a distância entre nós. — Eu me expressei mal. Eu permiti que você me usasse. Sou o único culpado por fazer papel de idiota. — Passando por mim, Dimi aproximou-se da porta do ônibus. — Pode segurar o Apolo?

Aninhei o pequeno bebê em meus braços, pasma com a forma rápida com que tudo fugiu ao meu controle. Meu coração estava mais disparado do que eu esperava, e eu tinha certeza de que o aperto em meu peito não pertencia à Nora. Diabos, eu era mesmo uma fraca. Mas não podia voltar atrás. Como Vilma dissera, de forma mais sábia do que ela podia imaginar, eu tinha de escolher. E a escolha já estava feita por mim antes mesmo que eu pensasse nela. Eu só não queria que Dimitri tivesse raiva de mim. Mas não podemos controlar tudo à nossa volta. Não somos senhores dos nossos destinos, nem de nossas ações. Principalmente quando se trata de alguém como eu, totalmente descontrolada. Apolo reclamou quando parei de mover os braços, começando a acordar. Rindo, comecei a levá-lo para o meu assento, quando Artémis começou a chorar. Muito. Virei-me na direção do moisés, e logo Tânia acordou. Foi um movimento instantâneo, quase involuntário. Era um dos reflexos de mãe, talvez. Ana também despertou, beijando de leve a testa de Luca, tentando mantê-lo dormindo. Virei-me para olhar em volta no exato instante em que Fernanda acordou com um movimento brusco. Posso jurar que vi uma faísca azul escapar de uma das suas unhas, mas pode ter sido só a minha mente me enganando. Ela olhou ao redor com o fôlego acelerado, até que seus olhos focaram em mim.

– Vicky, temos que fazer esse bebê calar a boca! — Levei uns bons segundos para perceber que ela estava referindo-se à própria filha. — Agora! Me dá ela aqui!

– Combinamos que você não ia tocar neles por enquanto, Nanda. Suas mãos... Além disso, não sabemos se é bom amamentá-los sendo uma inumana — minha espinha estava coçando de medo.

– Quem falou em tocar nela? Quero cobrir a boca, pra esse barulho parar! — Nanda estava gritando, e seus olhos pareceram vibrar na ausência de luz. Uma forma de energia amarela se escondia em suas pupilas, de maneira assustadora. Estava completamente surpresa por ver aquele olhar de raiva em seus olhos , quando o assunto era a sua própria filha.

– Fernanda! Já chega! — A força na voz e Tânia sobressaltou até a mim. — Não vou tolerar esse comportamento! Não me interessa a dor e o fosso emocional no qual você está submergindo. Não vou permitir que trate seus filhos assim!

– Vocês não entendem! Não entendem! — Gemendo, Fernanda cobriu os ouvidos com as mãos, e algumas de suas unhas negras arranharam as maçãs de seu rosto. Fiquei totalmente penalizada por vê-la naquele estado. — Não são os bebês que estão me irritando. Tem alguma coisa vindo, por culpa do choro! Um barulho forte, está me deixando louca. Como um zumbido... Não está ouvindo, Victoria? É como um golfinho, como um...

– Sonar. Sim, estou ouvindo — afirmei, notando o zumbido que parecia chocar-se contra o ônibus inteiro. — Tem alguma coisas vindo na nossa direção, se guiando por um sonar. É como um morcego.

– Parecem agulhas nos meus ouvidos, essas vibrações... — Fernanda estava encolhida, abraçando a si mesma. Tânia e Ana fitavam-na horrorizadas. Vilma pegou Artémis no colo, e chegou perto de mim.

– Vicky, Dimitri está lá fora sozinho! Me dá o Apolo! — Tomando o menino dos meus braços, ela virou-se para Ana. — Vem! Vamos nos esconder no banheiro. Proteger os bebês!

Duas das janelas estilhaçaram-se com um ruído forte. Cacos de vidro voaram na minha direção, e o ônibus vibrou com o golpe. Na penumbra, vislumbrei uma enorme asa membranosa partindo em direção ao céu, passando direto pela janela atrás de Nanda. Pancadas no teto do veículo fizeram com que o mesmo chacoalhasse, e desequilibrei-me ao tocar no ombro de Fernanda sem querer, e levar um choque. Ela sequer notou minha queda, chorando como se não pudesse suportar a agonia que o sonar daquela criatura horrível. Vilma e Ana finalmente trancaram-se na pequena cabine sanitária, e Tânia trocou comigo um olhar de pânico. Sem pestanejar, decidi que não haviam razões para fugir daquele monstro. Eu chegara longe demais para hesitar em proteger aqueles que amava. Restavam tão poucos membros da minha família junto de mim... Corri de volta para a porta da frente, e a cada passo uma nova janela estourava sob o peso e a pressão dos golpes voadores daquela criatura indefinida e aterradora.

– Victoria — a voz de Dimitri foi como um alarme no meio do breu. — Volte pra dentro! — Ele tinha a única arma com munição nas mãos. Só pude vê-lo, quando ele ligou a lanterna em suas mãos. — Essa coisa é muito feia, mas me ignorou completamente. Por quê?

– Ele quer os bebês! — Apontei para o ônibus. — Jogue a luz nesse bicho!

Dimitri obedeceu-me. Mas não era um animal modificado que víamos, mas um inumano completamente demoníaco. Asas repletas de membranas e ossos estendiam-se numa envergadura reptiliana de quase três metros cada, e haviam garras no lugar de seus dedos, além de fibras e pele no lugar dos olhos. Não estava vestindo roupas, mas não parecia precisar delas. Eu não saberia dizer se tratava-se de um ser feminino ou masculino. Entre morcego, lagarto e homem, aquele era simplesmente o ser mais terrível que eu já vira desde o primeiro dia de fim do mundo. Quando o foco de luz atingiu o seu rosto deformado, no entanto, ele guinchou tão alto que senti meus tímpanos vibrarem. Movendo-se no ar com movimentos sinuosos como os de um dragão medieval, atirou-se em nossa direção. Dimitri atingiu seu peito com dois tiros, fazendo com que o inumano ensandecido detivesse seu ataque no ar, girando sobre si mesmo como num pequeno tornado de ossos afiados. Logo, já estava novamente atirando-se para o solo em nossa direção. Algo pareceu estalar em meu cérebro, e saí do modo Victoria. Eu percebi os movimentos da criatura, de maneira mais objetiva e com muito mais precisão. Abaixei-me no momento certo, empurrando Dimitri para o lado de modo que o inumano morcego passasse direto entre nós dois.
Dimi gritou quando caiu, e pude ver seu braço direito totalmente ralado. O inumano morcego deu a volta e veio novamente em nossa direção. Ele não parecia ter a mínima intenção de desistir, pelo contrário. Minhas alternativas eram limitadas, principalmente quando Dimitri atirou, e a arma travou totalmente descarregada. Tirei minha faca da cintura, e aguardei. Quando as garras nos pés da criatura estavam à centímetros do meu rosto, e suas asas sacudiam meus cabelos, atirei o objeto. A lâmina atravessou a membrana fina de sua asa direita, e o humanóide caiu com um baque surdo no asfalto imundo. Vi uma luz no fim do túnel quando Dimitri aproximou-se do monstro e o chutou na cabeça. A criatura rolou para um lado, contorcendo-se com um gemido contido. Senti certa pena daquele ser deformado, imaginando que um dia já fora um ser humano comum. Uma de suas asas pareceu atender à um reflexo de preservação, no entanto, atingindo Dimitri num dos ombros, e derrubando-o. O monstro rapidamente ergueu-se, e aproveitando-se de minha distração, planou sobre meu corpo, atingindo meu peito com um forte chute. O ar escapou dos meus pulmões, quando caí de costas no asfalto e lutei para me recompor, sangue descendo de um corte em minha bochecha para a garganta. Com certeza meus seios estariam repletos de hematomas, agora. De dentro do ônibus, ouvi novamente o som do choro dos bebês, que também pareciam incomodados com o sonar da criatura. O ser soltou um novo urro animalesco, ao sentir as vibrações dos trigêmeos. Arrastei-me para longe do inumano morcego, tentando chegar cada vez mais perto da minha faca caída à uns bons metros de distância. Ele meramente virou as costas para mim, ignorando-me como o crocodilo que convive pacificamente com os pássaros-palito, embora possa devorá-los com o simples fechar de sua boca. Contudo, eu não planejava viver em protocooperação com um monstro assassino. Mesmo tonta ergui-me e apanhei a faca caída no chão. Cuspi sangue à esmo, enquanto corria de volta em sua direção, gritando para chamar a atenção do inumano.
Ele virou-se no exato instante em que eu fincaria minha faca em suas costas, e arreganhou a boca cheia de dentes afiados, num grito de ultraje e desafio. Quase caí para trás, e ele deu-me uma força, atingindo meu estômago com sua asa ferida. O osso pontudo na ponta cortou meu ventre, e caí de joelhos totalmente zonza com a dor surpreendente. Uma das asas assustadoras ergueu-se como uma sentença de morte sobre mim. Fechei os olhos ardendo com as lágrimas de ferimentos físicos, e de feridas que eu partiria sem curar. Quando o membro extra do monstro desceu sobre mim, foi ele quem vacilou. Dando um passo para trás o inumano morcego pareceu tão assustado quanto eu, e quando vi o cabo de minha faca através de seu peito, percebi o que havia acontecido. Dimitri estava caído ao meu lado, com o golpe dirigido à mim transpassando seu tórax, e não o meu. Dimitri caiu com um filete de sangue escorrendo pelo canto de seu lábio, e de certa forma a palidez em sua pele pareceu torná-lo ainda mais bonito. Encolhido e andando de costas, o inumano morcego encostou-se ao ônibus enquanto respirava com dificuldade. Não tive forças para me mover, para atacá-lo. Busquei em meu interior e tudo o que encontrei vindo de Nora, foi o silêncio do choque e a imensidão do medo. Fraca e apavorada, comecei a chorar quando o nó em meu estômago desatou numa torrente de fogo e gelo, correndo pelas minhas veias e anuviando minha mente. Sorrindo, Dimitri parecia cansado e encolhido, subitamente tão humano e sensível que mal pude conter-me. O beijei nos lábios, abraçando seu corpo ferido e alquebrantado.

– Hey, Vicky, seus cabelos são amarelos com o sol. Sua cor amarela é forte mesmo debaixo dessa escuridão toda. Você é meu sol, e eu não consigo imaginar um jeito melhor de morrer, do que ao seu lado... Me perdoa pelo que te falei... Você nunca seria capaz de me usar, eu só fiquei irritado com sua escolha — ele tossiu. — Mas ainda bem que escolheu Diogo. Acho que a vidente do grupo é você... Hehe...

– Dimi, esquece o que eu disse, também. Eu te amo, e agora não preciso mais esconder. Descansa, e lembra disso. Eu te amei demais, e nunca vou esquecer disso, porque é parte de mim. Não sei, não consegui aceitar que isso está realmente acontecendo, mas não vou abrir mão de você. Nunca. — Afundei a cabeça em seu peito ensanguentado, lembrando-me de Julia, que morreu da mesma forma, pelo irmão Saulo e por Otto. Sacrifício. Como o de Eloá, como o de Luca. Sacrifício. Amarelo e brilhante como o sol. Libertador, assustador...

– Eu te amo, Vicky... — os olhos de Dimitri perderam a cor, e meus cabelos emaranhados em seus dedos não pareciam mais o sol. E sim um amarelo morto, como a palha seca e morta.

Olhei para trás e encontrei a porta do ônibus totalmente aberta, e rachada de cima até embaixo. Tânia gritou dentro do veículo, e recolhi meu luto com a urgência do momento. Disparando atrás do inumano morcego, subi as escadas do ôibus de turismo, sentindo minha visão entrar em foco em diversos pontos ao mesmo tempo, como se meus sentidos estivessem completamente desgovernados. Cheguei à tempo de ver Tânia caída em frente à porta do banheiro, tentando proteger a passagem com o próprio corpo. Seu rosto estava suado e avermelhado por uma pancada recebida, o coque habitual desfeito numa torrente de cachos castanho-escuros. Fernanda estava encolhida e chorando com as mãos nos ouvidos, totalmente rendida. Não pude perder mais tempo. Dei um salto obviamente sobrenatural, arremessando-me contra a criatura, que cedeu sob a minha força incomum. Ele tentava espernear e se debatia. Suas asas mortais provocaram pequenos cortes nas laterais do meu braço, fatiando minha jaqueta de couro como se fosse uma camada de pele simples. Dei uma cabeçada em seu rosto deformado, e sua boca totalmente dentada abriu-se indignada. Seu joelho afundou-se em minha virilha, e perdi a firmeza nas mãos, rolando para o lado. O monstro ergueu-se sobre mim novamente, e sua boca horrorosa sorriu. Lembrei-me subitamente da expressão maníaca de Lupa, uma inumana há muito morta por Nora. E eu soube subitamente, também, que fim aquilo teria. Pois Nanda estava de pé sobre o ombro da criatura, lágrimas de sangue escorrendo pelo rosto devido aos efeitos terríveis daquele sonar infernal. Ela agarrou o pescoço do inumano, e suas unhas afundaram-se rapidamente na pele amarelada, sangue escorrendo entre elas. Uma luz azulada iluminou os ossos na garganta da criatura, e fumaça desprendeu-se de sua boca. Ele caiu para trás, tremendo por inteiro e findando seus espasmos com um último suspiro. Nanda tirou as mãos do corpo da criatura, e fitou-me arfando.

– Dimitri está bem? — Nanda parecia estar finalmente, pensando. Estava aliviada, ainda que claramente ferida. — Ele não conseguiu, não é?

– Não — chorei. — Deus, eu esqueci de impedi-lo de se transformar...

– Eu vou — ofereceu-se. — Essa eletricidade que sai de mim, alivia as dores nas minhas mãos. Quanto mais uso minhas unhas, mais serena fico. E além disso, eletricidade pode desligar um cérebro, fácil. Posso?

– Por favor, Nanda... Eu não consigo — admiti. Ela desceu, passando por mim com delicadeza e determinação. Sua mão tocou meu ombro novamente, massageando-me levemente. Não senti dor alguma, e percebi a chave dos dons dela. Precisava ser usado, ou a deixaria louca.

– Só Deus sabe o quanto estou feliz por ter ver bem, Victoria. Pobre Dimitri... Precisamos seguir em frente, por ele. — Tânia colocou-se de pé, e bateu as próprias roupas. Ela abotoou a camisa até o final, e amarrou de volta os cabelos. Ela era bonita, de sua forma única. Uma senhora elegante, uma mãe amorosa. Como Madeline ou Diana, mas Tânia possuía em si a força da primeira e a firmeza da segunda. Ela era capaz de lidar com aquele mundo. — Agora... Temos que tirar essa coisa daqui. Não quero os bebês perto desse corpo nojento. Vamos arrastá-lo para fora.

A ajudei automaticamente. Tânia tranquilizou Ana, e a manteve com Vilma no banheiro, até que tínhamos limpado o máximo possível. Jogamos um lençol sobre o corpo de Dimitri, onde era possível ver uma pequena perfuração na têmpora. Uma única unha de Nanda. Ela permaneceu de braços cruzados e olhar marejado, enquanto Tânia acendia com um fósforo, o álcool lançado sobre o corpo caído na estrada. Não podíamos nos dar ao luxo de enterrá-lo, então ele teria uma pira. No ônibus, juntamos com a única e decadente vassoura disponível os cacos de vidro, e os colocamos à um canto. A mancha de sangue do inumano não demorou a secar, e as outras saíram do banheiro. Ana prendeu o fôlego ao ver o corpo queimando do lado de fora, e Vilma abraçou-me com força, chorando por mim e por ele. A beijei no topo da cabeça, afagando seu corpo junto ao meu, contente por vê-la bem e segura. Tímida, Nanda nos fitava de longe, os olhos ansiosos na direção dos bebês. Sorri para ela e peguei em sua mão, puxando para junto de mim. Tânia nos observou com um olhar surpreso e contente, emocionando-se ao secar uma lágrima. Nanda também chorou, apertando minha mão com força e alegria. Ela pegou Luca do colo de Ana, e beijou os outros dois bebês no de Tânia.

– Meus filhos... Me perdoem por ter sido uma idiota...

Era óbvio que eles já haviam perdoado. Não são apenas as mães que amam incondicionalmente seus filhos. Qual filho não deseja o amor da mãe? Era um alívio ver aquelas crianças bem. E uma confirmação. Que terrores mais aquele lugar poderia esconder? Tínhamos que sair dali o mais rápido possível. E foi o que fizemos. Tânia dirigu o ônibus com certo receio, embora afirmasse que não devia ser tão diferente de uma ambulância. Deixamos para trás a pira de Dimitri, que com certeza queimaria até as cinzas. Já era dia quando ao longe, avistamos o Porto da Barra, com suas dezenas de restaurantes e embarcações atracadas, além de marcas de um incêndio e veículos acidentados. Havia também um navio meio submerso, com a proa apontando para fora do mar, à deriva. Além disso, não pude contar quantos zumbis estavam vagando em meio ao local, que parecia ter passado por momentos bem difíceis. Por sorte, nós podíamos vê-los e eles não. Tânia estacionou o ônibus de modo à bloquear a estrada, e começamos a preparar as coisas para descer do veículo. Estava começando a última e mais difícil etapa daquela viagem aterrorizante. Ainda anestesiada pela morte de Dimitri, preparei-me para limpar aquele porto inteiro se fosse preciso. E não precisava ouvir a voz de Nora para saber que pela primeira vez, independente do que eu fizesse, ela estaria de pleno acordo comigo.

Notas finais
Bem... Acho que dividi opiniões, né? Okay, digam-me o que acharam deste capítulo, e o que acham que pode acontecer nos próximos! Adoro ler as opiniões de vocês. Obrigado por me acompanharem até aqui. Muito obrigado mesmo. Espero que tenham gostado. O próximo capítulo vai ser bem especial. Até o próximo! Kisses by DroppingPieces!