Quebranto.
79 A Quarta Cor é o Vermelho.
Notas iniciais
Victoria.
Aquela noite poderia ser ainda pior, imaginei, se não estivesse tão anestesiada pela dor seca e oca, da perda de Dimitri. Liderei as meninas, e contornamos uma construção completamente decorada em madeira, com grandes janelas de vidro que milagrosamente não haviam sido destruídas com o tempo. Também notamos que apesar de muitos, os zumbis espalhados pelo porto estavam em péssimo estado de conservação, além de extremamente apáticos com a temperatura mais baixa. Isso me fez refletir que, talvez em lugares de frio extremo, fosse muito mais seguro viver. Apesar de todos esses fatores, não nos atrevemos a permitir que nos vissem. Vilma e Tânia trataram de transportar os bebês, que estavam dormindo. Os pequeninos deviam estar exaustos, após Nanda os ter amamentado, contra as recomendações de nossa enfermeira. Juntas, observamos com certo temor e pesar, as pousadas, restaurantes, bares e pequenas construções da área comercial que cercava o Porto da Barra, cuja beleza sempre fora algo que eu amava admirar, quando visitava o lugar com meu pai. Pensar nele foi estranho, principalmente considerando que ele e Dimitri haviam aberto vários estabelecimentos no local, alguns inclusive com meu nome. Por coincidência, era justamente numa das franquias do Victoria's onde estávamos nos escondendo. Era um dos poucos restaurantes completamente intactos, apesar de saqueado e arrombado como os outros. Nosso caminho foi facilitado com os dons silenciosos de Fernanda, que "desligava" o cérebro de qualquer zumbi que se aproximava de nós, com uma potente descarga de um toque. Nunca a imaginei como alguém tão forte, e tenho certeza de que ela também não.
Quando entramos em nosso esconderijo temporário, o lugar exalava um cheiro agridoce, áspero e pungente. Álcool e suor. Havia sido habitado, a julgar pelas garrafas e embalagens vazias de comida. Nos espalhamos pelo salão principal, observando as dezenas de mesas de madeira e cadeiras delicadas espalhadas contra as janelas, formando barricadas e deixando o centro do restaurante totalmente limpo, como a pista de dança da boate de Topázio. Uma das janelas estava quebrada, e esta era a única barricada rompida. Uma mancha de sangue estava espalhada e ressequida pelo assoalho polido, e seus pingos seguiam uma rota contínua até a cozinha do estabelecimento. Fitamo-nos, deixando que o silêncio comunicasse nossos temores. Sem pronunciar-se, Nanda dirigiu-se através da porta suja e com marcas vermelhas, de mãos aterrorizadas. Agradeci aos céus pela iniciativa dela. Nora estava perdida em algum recanto da minha mente, e eu não parecia menos dispersa. Precisava descansar, embora não tivesse sono algum. Eu sentia-me física e emocionalmente exausta, e minha aparência não devia estar das melhores, já que Ana me olhava o tempo inteiro. Sentada ao lado de Vilma, ela estava cariciando a cabecinha morena de Apolo, enquanto Tânia mantinha Artémis calada, entretendo-a. Desde cedo, era a mais barulhenta dos três bebês. Não era difícil imaginar quem seria a líder da pequena gangue que aqueles três formariam. Acabei abaixando-me ao lado de Ana, e sem dizer nada deitei a cabeça sobre seus joelhos. Entendendo a mensagem, ela passou a acariciar minha nuca com suas unhas delicadas. Logo a porta dupla da cozinha foi aberta, e Nanda saiu do local. Seus braços estavam respingados de sangue, e os longos cabelos ruivos soltos. Seu rosto adquirira um tom mais maduro, até mesmo assustador, com os olhos branco e negro. Os olhos verdes lhe concediam mais jovialidade, antes. Creio que poderia estar projetando minhas próprias impressões, também. Ela parecia tão normal quanto antes, exceto pelos vasos sanguíneos escuros e as unhas negras em seus braços.
– Hey, Vicky, está tudo bem em descansar. Mesmo. Vamos ficar vigiando. — Nanda aproximou-se de mim, sentando-se à minha frente. — Parece que os zumbis que achei lá dentro eram os antigos donos desse lugar. Um deles foi mordido e atacou os outros quando se esconderam lá dentro.
– Sim, parece coerente. As barricadas são muito boas, no entanto. Acho que alguém forçou a entrada, pra roubá-los. Devem ter tentado minimizar os danos, por isso só uma das janelas foi quebrada. Entraram, pegaram tudo o que queriam, e deram no pé. Os corpos que você encontrou estavam em bom estado? — Ana disse tudo num tom bem suave, e sua voz tinha um poder sobrenatural de me tranquilizar.
– Em ótimo estado. Faz todo o sentido. Tinha esquecido de como você é inteligente — elogiou-a Nanda, acomodando-se ao meu lado. — Então podemos supor que tem um grupo de pessoas próximo. Alguém que roubou essa gente antes de chegarmos aqui. Pessoas que também estão no porto. Ainda que possam ser nossos amigos, e sei que alguns dos nossos fariam isso, acredito que sejam estranhos.
– Prefiro achar que sim. Sinceramente — suspirei, fechando os olhos. — Amanhã precisamos encontrar o Princesa Sônia. Já vimos que as embarcações atracadas são pequenas, as maiores se parecem muito com iates, além de um navio maior esquisito, todo verde. Esse podemos descartar, o nome é Odisseu. O resto não deu pra ler, então vamos ter de nos concentrar. Nós três vamos atrás do barco. Tânia e Vilma ficam aqui. Não as quero expostas.
– Tudo bem. — Ana assentiu, usando seu lenço amarelo para amarrar um rabo de cavalo. — Vamos sair o mais cedo possível.
– Não se arrisquem demais — recomendou Tânia. — Caso pareça muito difícil, ou avistem algum grupo de pessoas, voltem na surdina. Não podemos correr o risco de algum vivo descobrir que temos a chave de um dos barcos. Poderia tentar nos impedir, e não temos arma alguma. Seríamos rendidas facilmente.
– Vamos ser cuidadosas. E não as deixaremos sozinhas por muito tempo — prometi, sorrindo.
– Eu protejo a Tânia e os bebês. — Vilma puxou sua faca da cintura, e todas rimos. Tânia a puxou para um abraço.
Fomos dormir mais por necessidade, do que por vontade. Nanda dormia muito pouco, com seus impulsos elétricos mais ampliados do que poderia imaginar. Não se importou em ficar de vigia, apesar de tanto. Não parecia que alguém correria o risco de caminhar pelas ruas livremente, com o amanhecer tão próximo. E, como já havíamos restaurado as barreiras na porta frontal, além de coberto o rombo na janela quebrada, estávamos tão seguras quanto possível. Não foi difícil captar que nossa segurança seria de pouca relevância para o meu sono, já que apesar de todas as minhas preocupações, só despertei com a claridade da manhã. O sol inundava a todo o local com um tom de luz avermelhada e calorosa, quase uma lágrima de preguiça do astro, ao ser desperto antes da hora. Olhando ao redor, notei que todas as outras já haviam despertado, também. Tânia estava utilizando uma das mesas para trocar as fraldas de Luca, que era também aquele que mais nos dava trabalho com problemas intestinais. Suas cólicas eram terríveis, e ficávamos desesperadas ao pensar que poderia abrir o berreiro, quando na maior parte do tempo, o pobrezinho limitava-se a reclamar e fazer biquinho. Artémis era outra história, percebi. Haviam lágrimas em seu rosto, enquanto Nanda a dava de mamar. Com certeza devia ter feito um escândalo digno de novela, para receber o que queria. Não comíamos nada desde a refeição parca do dia anterior, entretanto. Preocupei-me com Fernanda.
– Vicky, toma isso aqui. — Ana entregou-me um coco, aberto e com direito à canudos de plástico. — Deixaram para trás. Fiquei com medo de estarem ruins, mas parece que o grupo anterior os recolheram da praia aqui em frente. Beba, está boa. Haviam mais cinco desses. Todas bebemos um pouco. Este é só seu.
Agradeci, e só então percebi o quão faminta estava. Eu odiava água de coco, embora amasse qualquer condimento ou doce que o tivesse na receita, antes. Faziam anos desde que eu não comia, cheirava, ou bebia qualquer coisa do tipo. Sorvi a fruta com a fúria e desespero dos famintos, agradecendo com ruídos e obtendo uma expressão engraçada como resposta. Quando terminei (menos de três minutos depois), levantei-me e esfreguei os olhos. Nanda estava entregando Artémis para Tânia, e fechando a blusa de botões. Ana já parecia pronta, colocando uma das nossas mochilas nas costas, e amarrando os cadarços do coturno militar que estava usando.
– Não tem água encanada aqui, e o espelho do banheiro está quebrado. Como não dá pra nos limparmos nem parecermos menos horríveis, sugiro que a gente comece nossa pequena excursão da maneira que estamos — sugeriu, erguendo uma sobrancelha. — Não temos nenhum encontro marcado, mesmo.
– Se conseguirmos achar o barco certo, ainda precisaremos de alguém que saiba velejar de verdade. Dimitri sabia, e está morto. Ricardo ainda está desaparecido, e era o único que sabia além dele — lembrou-nos Fernanda. — Não se iludam. Isso é só reconhecimento. Vamos voltar pra cá depois, e rezar com toda a fé do mundo pra que Maria envie nossos amigos até nós. Ela sabe quão ferradas estamos, sozinhas. — Rindo, Nanda apalpou seu crucifixo, sem querer. Amei vendo-a agir daquela forma, normalmente. Parecia a velha Nanda, outra vez. — De mãe para mãe... Por favor, nos ajude.
Ela fez o sinal da cruz, e nos preparamos para sair. Ana e eu afastamos a enorme mesa de recepção da porta frontal, e saímos do restaurante assim que Tânia conseguiu empurrá-la de volta para o lugar correto. Bem juntas, nos preparamos para correr. Só então notamos que, apesar de o movimento das criaturas estar ainda maior, e dez vezes mais assutador do que durante a noite, eles estavam dirigindo-se quase todos à uma das construções mais antigas e atingidas por tudo que se passara, nos últimos dois anos. Parecia que os ladrões do Victoria's haviam sido descobertos. Ouvimos o som de um tiro, mas achei que isso seria natural, considerando o que estava acontecendo. Mas também devo dizer que achei pura burrice. Todos os mortos começaram a seguir naquela direção, ansiosos por um pedaço de carne tenra e macia para ser apreciada.
– Não sou eu quem vai reclamar disso, Vicky — alertou-me Ana. — Vamos em frente, devagar podemos chegar até a praia, e de lá correr até o cais do porto. Vamos achar esse Princesa Sônia, com a ajuda dos desgraçados mais azarados do mundo.
Foi o que tentamos fazer. Sim, tentamos, porque nada saiu como planejado. Ana sabia que tínhamos pouco tempo, então a rapidez tinha de compensar o senso de direção prejudicado e o barulho provocado pelo nosso avanço. Corremos através da rua, a céu aberto e totalmente despreparadas para ataques surpresa ou qualquer outro tipo de perigo inesperado. Por sorte, por mais duas vezes ouvimos disparos, e fomos quase que completamente ignoradas pela multidão que já estava bem mais à frente. Alguns poucos nos viram, mas lentos como estavam após meses de decomposição, mal representavam perigo. De longe, consegui ver perfeitamente o lugar que eles haviam cercado. Os zumbis pareciam determinados a chegar ao interior do restaurante parcialmente incendiado. Finalmente alcançando o porto, caminhei pela longa estrutura de madeira envelhecida do cais, ignorando os rangidos de protesto e murmúrios inquietos que eram emitidos sob o meu caminhar. As meninas espalharam-se ao meu redor. Cada uma de nós preocupada em mirar uma direção diferente, buscando o nome correto. Não sei exatamente quanto tempo demoramos para perceber que não havia barco algum com aquele nome. Aos poucos, alguns zumbis começavam a perder interesse nas outras pessoas espalhadas por ali. Os que por alguma razão haviam ficado para trás na peregrinação até o foco dos tiros, já estavam completamente focados em nós. Nervosa e insegura, apertei com força a chave em minha mão. O chaveiro extremamente amarelo parecia mais brilhante que nunca, mas o nome da embarcação que procurávamos já estava quase completamente apagado, comido pela maresia no vento. Àquela altura eu já estava praticamente na beirada do cais, bem próxima da água. Fernanda e Ana estavam mais atrás, e já não olhavam mais para os navios de pequeno porte parados por ali. Ao contrário, Ana estava parada ao lado de quatro jet skis yamaha caídos na areia. Aparentemente estavam em perfeito estado de conservação, mas não entendi como poderiam nos ajudar, se não fosse removendo a gasolina que utilizavam. Foi então que percebi. Os quatro tinham adesivos amarelos estampados, com cor idêntica à do meu chaveiro.
– Olha de perto, Vicky! — mostrou-me Ana, apontando para o adesivo. Nanda veio correndo juntar-se à nós, bem a tempo de que eu pudesse ler o que estava escrito, estampando os jets. "Aluguel de Jet Skis Princesa Sônia". Eu devia saber que o chaveiro já estava desgastado mesmo antes de eu encontrá-lo. Só não esperava que meus planos fossem destruídos de modo tão ridículo. Nunca houvera barco algum, plano de fuga algum. Eu trouxera meus amigos para a morte, de novo.
– Ok, agora que já descobrimos do que se tratava, temos que voltar para dentro! — Nanda apontou para a rua, onde a multidão de mortos começava a nos notar. — Agora!
Quando sequei as lágrimas nos olhos e corri atrás de Ana, uma explosão vinda do alto da estrada desequilibrou-me. Nós três nos mantivemos de pé com um apoio triplo, e por mais que quiséssemos admirar a torre de fumaça que se erguia no local da explosão (aparentemente ficava na direção de onde vínhamos), resolvemos que garantir nossa integridade física era um pouco mais adequado. Continuamos a correr, até que ficássemos tão fora de perigo, quanto podíamos estar. Meu plano era um lixo e provavelmente provocaria mais mortes. Não era como se eu estivesse preocupada. Eu mesma quase havia morrido, por uma missão inventada por mim. O que me trazia os nervos à flor da pele, era pensar nos víamos tão próximos de outras pessoas, a ponto de sentirmos aquele tipo de explosão. Poderiam muito bem não ser gentis, nem sequer agradáveis. E, sem armas ou a menor força de vontade, eu não queria enfrentar pessoas perigosas ou ainda pior, tão indefesas quanto nós. Contudo, a expectativa de rever algum amigo num momento tão solitário, era tentadora. Podiam ser o nosso pessoal. Lembrarei pra sempre a forma como Ana apertou minha mão, pensando exatamente a mesma coisa. E nenhuma de nós duas precisou dizer algo. Sabíamos do que se tratava.
Manuela.
Quando amanheceu, senti todas as minhas articulações doerem, conforme a consciência retornava ao meu cérebro através das falhas nebulosas da dormência. Em minhas pernas, senti a rigidez do sono, e por alguns instantes pensei sentir todos os meus dedos das mãos flexionaram novamente, mesmo as partes do mindinho e anelar esquerdos, que eu perdera. Ao meu redor, tudo parecia tranquilo. Sabrina e Valéria estavam bebendo água de canecas de plástico, enquanto Hugo suspirava ao meu lado, ainda amarrado. Ele tinha os lábios ressecados e a aparência ainda pior. Seu rosto estava pálido. Se eu não estivesse errada, parecia-me que a pressão arterial dele caíra, devido ao esforço das privações impostas por Herbert. E por falar nele, este parecia bem mais disposto e tranquilo do que no dia anterior, aceitando de bom grado a ajuda de Irma enquanto vestia uma farda completamente escura. Notei então que Valéria e Sabrina usavam trajes semelhantes, sendo a mercenária mais velha a única excessão. Nervosa, observei com espanto quando todos os quatro começaram a vestir uma espécie de máscara de ar, anexada à um capacete tão negro quanto o resto da roupa. Eu não poderia mais identificar quem era quem. Não que estivesse interessada nisso, mas era terrível estar cercada por pessoas tão protegidas e armadas, pensando em como enganá-las. Não conseguiria fugir sem levar um tiro. E eles sabiam disso.
– As roupas que o conselheiro nos deu couberam. — Herbert estava rindo, dentro do seu capacete. Ele era o mais robusto entre os mercenários, e depois que ouvi sua voz, consegui memorizar quem ele era.
– Sim. As roupas que separamos para o William couberam na Valéria. Sabrina está ótima com um dos trajes extras que trouxemos — comentou, dirigindo seu olha a mim. — É uma pena que não tenha se unido a nós. Guardei uma das armaduras pra você, Manuela.
– Quem disse que não me uni? Apenas mantive Hugo calmo, para que ele não causasse problemas — disparei, erguendo-me. Hugo emitiu um ruído de indignação, embora não estivesse convencendo nem a mim. Mesmo assim, adiantei-me até que estava bem próxima de Irma. Uma mão forte fechou-se em meu pescoço, empurrando-me contra a parede. Com um movimento rápido da perna direita, derrubou-me de joelhos à sua frente, subjugando-me com uma mão nos meus cabelos.
– Não somos imbecis, garota. Você vai ficar amarrada, e vai se comportar muito bem. Sua carinha jeitosa não vai te salvar de levar uma bala se eu ficar descontente. Ok? — Assenti, sabendo que nada do que eu fizesse poderia convencê-lo. Eu não era como a Carol. E Herbert não era egocêntrico, ou ensandecido como Topázio, que achava que ninguém se oporia a ela. Ele era um assassino, e um muito bom no que fazia. Quando acertou meu rosto, despenquei no chão com um baque surdo, respirando com dificuldade por cerca de dois segundos.
– Não precisava fazer isso — observou Irma, com o rosto tenso. Sabrina e Valéria continuavam paradas no mesmo canto de antes, sem emitir som algum de dentro de suas armaduras, dignas de uma tropa de choque. — Da outra vez, agimos sem pensar. Agora, temos que ter a cabeça fria. Juntos, em harmonia, vamos esperar a chegada da doutora. Ela não vai aguentar ficar aqui por muito mais tempo, mesmo com o nosso amigo esperando por ela na Fortaleza. Vimos que ela curou uma inumana. Vai querer prosseguir com seus experimentos, e tentar imunizar humanos em seguida. Não podemos permitir isso, ou vamos continuar do lado de fora, com esse mundo horrendo ao nosso redor. Só teremos uma única chance.
– Então é melhor irmos logo. Tem zumbis se aproximando daqui — avisou-lhe Valéria, de costas para mim enquanto espiava de uma janela.
– Você e Sabrina ficam aqui. Eu e Irma vamos fazer uma busca pelas redondezas, atrás da Faye. Cuidem dos reféns. Lembrem-se, só precisamos de um dos dois, vivo. Aquele que encher o saco primeiro, podem matar — como se explicasse como chamar a emergência ou usar o dinheiro de reserva à sua babá, Herbert retirou-se do meu campo de visão, seguido de perto por uma relutante Irma, que era definitivamente mais alta e magra do que ele.
Eu poderia estar errada, mas se fosse para ler algum daqueles sinais, arriscaria dizer que a mulher mais velha perdera não só a liderança, mas também o controle daquela situação. Tensa, observei o rosto de Hugo passar da exaustão, para a raiva contida, quando Valéria aproximou-se de nós. Ela acariciou os cabelos dele, puxando no fim, de maneira sádica. Sabrina não estava olhando, preocupada demais em dar cobertura para os dois mercenários que corriam pela rua da frente. É claro que ao vê-los, todos os zumbis do porto começaram a vir andando na direção de nosso pequeno e precário esconderijo. Irma e Herbert sumiram, invadindo o espaço de uma pequena pousada que ficava mais à frente, e através da janela na qual estava apoiada, pude notar que os dois se moviam com precisão e tranquilidade, apesar do perigo próximo. Valéria afastou-se de Hugo, e foi unir-se à Sabrina na vigília pelos outros membros de sua equipe. Foi só então que meu olhar retornou para Hugo, que estava transpirando muito. Ele fazia muita força com as mãos, enquanto tentava de qualquer maneira afrouxar o aperto das amarras que o mantinham cativo. Num rompante, que nem mesmo eu esperava, a fita isolante e a corda que o prendiam arrebentaram. Hugo gritou como um demônio, e arremessou-se contra Valéria, agarrando-a pela cintura, tentando roubar-lhe uma das facas. Ela também gritou, engalfinhando-se com ele, quando Sabrina virou-se na nossa direção. A arma dela era enorme, e estava apontada para Hugo. Mas ela não atirou. Assustada, fiquei de olhos arregalados, pensando no que fazer. Sabrina não estava agindo. Logo Valéria perceberia, já que começava a gritar por ela. Levantando-me com dificuldades, agradeci pelo escândalo que Hugo estava fazendo, xingando Valéria sem parar. Consegui me mover, mesmo com as mãos atadas. Firmando os pés, ainda zonza por passar tempo demais no chão, atingi Sabrina com um encontrão de meu ombro direito, e ela caiu de joelhos. Sua surpresa era real, mas não havia qualquer resistência em sua postura. Sem dó, dei um chute e suas costas, e ela tombou pra frente. Chutei outra vez. Mais outra. Sabrina gritou e se contorceu. Aquilo de alguma forma me deu mais ódio. Chutei de novo. Agachei, e puxei a faca presa ao coldre de caça, em sua perna. Afastei-me dela enquanto usava o objeto para rasgar a fita isolante forte como aço, ao redor dos meus pulsos. Algo picou minha carne, e percebi que havia cortado-me no processo. Não me importei nem um pouco.
Valéria estava se jogando contra o chão, batendo com as costas de Hugo no assoalho e quase livrando-se dele, quando cheguei perto. Infelizmente ela me notou antes que eu pudesse agir, e me derrubou ao chutar uma das minhas pernas. Minha panturrilha direita protestou quando tombei para a frente, mas não me atrevi a soltar a arma branca em minhas mãos feridas e fracas. Com a perícia de uma anta, fiz o que pensei ser enfiar a faca na perna de Valéria. Apenas a ponta da lâmina se fixou, e a garota gritou quando torci o cabo da faca. Ela tentou me agarrar numa fúria desenfreada, mas Hugo ainda a segurava por trás. Estávamos os três ali, numa brutalidade sem sim em meio ao chão sujo e queimado. Sabrina começou a se erguer. Ela não hesitaria outra vez. Com toda a minha força, esbofeteei o rosto de Valéria, de mão aberta. Zonza, ela revirou os olhos, e Hugo a empurrou para o lado. Ele debruçou-se sobre a mercenária, tirando-lhe a faca presa à cintura, e uma pistola com silenciador, enfiando esta por dentro da própria calça jeans. Com minha mão boa, peguei minha faca de volta, e mal pude perceber o que estava acontecendo, enquanto Hugo me puxava por um braço. O restaurante parcialmente incendiado onde estávamos passou como um borrão diante dos meus olhos, e descemos aos tropeços até o térreo. Ali, zumbis forçavam as entradas já precárias. Haviam muitos. Deus, eu não sairia dali viva. Hugo parecia discordar. Ele derrubou várias cadeiras que bloqueavam uma das janelas, movendo-se com uma velocidade e fúria que eu nunca pensei testemunhar vindo dele. Conforme os mortos debruçavam-se sobre os cacos de vidro para entrar no estabelecimento, e caíam uns sobre os outros, ele os atingia nas têmporas, nos olhos, ou diretamente no crânio, no caso de pobres criaturas tão decompostas, que mal pareciam humanas. Sangue respingava em sua roupa, e seu cabelo loiro foi tingido de vermelho. Arfando e pingando sangue, foi abrindo caminho entre os corpos putrefatos, puxando-me consigo.
Senti um dos mortos caídos agarrar a minha perna, e lutei contra o impulso de gritar, com nojo e repulsa. Aquele Hugo valente, corajoso e frio era alguém que eu não conhecia. Ou talvez nunca tivesse imaginado que ele fosse capaz de lidar tão bem com uma situação daquelas. A verdade era que eu não conhecia tão bem as pessoas com quem convivia, quanto eu imaginava. Hugo e eu nunca havíamos sido próximos, principalmente depois do que eu fizera com Ricardo, criando uma barreira entre nós. Tiros encheram o ar quando Sabrina e Valéria tentaram nos acertar, mas elas pararam quando viram que havíamos conseguido sair do restaurante. Estávamos do lado de fora, mas nossa situação continuava ruim. Uma horda nos cercava. Mais à frente, por sorte, ouvimos Irma e Herbert atirando contra outras pessoas. Possivelmente nossos amigos. Entretanto, quando uma espécie de bomba explodiu em algum lugar, por pouco não fomos arremessados contra o chão. E sem qualquer equilíbrio ou capacidade de raciocínio, os mortos não tiveram chance. Caíram como baratas tontas, alguns até se desfazendo ou rompendo, nas regiões do corpo mais decompostas. Vendo aquilo como um sinal divino, corremos como loucos na direção oposta à dos monstros e dos tiros. Curiosa, mas apavorada, continuei seguindo Hugo de perto, enquanto ele continuava a correr na direção do cais. Quase passei direto por ele, quando o maluco estagnou do nada, apontando para a frente. Ia perguntar-lhe o que diabos queria dizer, quando segui seu dedo. Ana, Victoria e Fernanda passaram correndo pelo nosso campo visual, entrando direto num dos restaurantes bem ao lado de onde estávamos. Nos olhamos e compartilhamos um sorriso de alívio e esperança. Talvez houvesse alguma chance de sairmos vivos dali, afinal. Continuamos em frente, e meu coração parecia querer entrar no compasso das asas de um beija-flor.
– Obrigada por não me deixar morrer — decidi agradecer, ciente de que se Hugo fosse rancoroso e extremamente ciumento, poderia ter me deixado morrer. A verdade era que eu estava feliz por ter ido com ele. Criar uma conexão com alguém tão diferente, pode ser enriquecedor. E, no que competia à Ricardo, estava muito mais que resolvida. Não seria capaz de sequer olhar para ele, novamente. E suspeitava de que durante algum tempo, Hugo também não. — De verdade.
– Nós fizemos um pacto — ele sorriu. — Você me mantém vivo, eu te mantenho viva. Não teria conseguido sem você. Foi muita coragem enfrentar a Sabrina, ela nunca perde uma luta. Como conseguiu derrubá-la? — Foi então que percebi.
– Não consegui. Ela não reagiu, deixou que eu a derrubasse. Também não atirou em você, quando teve chance. Ela está arrependida, Hugo — conclui, apesar do gosto amargo em minha boca.
– Eu imaginei que ela fosse se arrepender. Só não sei se isso é o suficiente — havia tristeza em sua voz, e não ódio. Eles deviam ter sido bons amigos, mesmo. Paramso em frente à porta por onde Victoria havia passado. Hugo começou a bater. — Vicky! Nanda! Ana! Abram aqui, por favor! É o Hugo!
Quando Victoria e Fernanda finalmente abriram a porta, sorrindo ao nos ver, pareceu que o mundo fazia sentido novamente. Então, enquanto entrávamos no esconderijo de nossas amigas, Hugo pôs a mão no estômago e curvou-se para a frente. Apesar do sorriso em seu rosto, notei que ele estava pálido. Uma macha rubra que eu não notara, já gotejava em sua blusa verde escura, onde estava rasgada pela laceração. Uma mordida? Não pude reagir diante daquilo, sem ter ideia do que fazer, ou de como me portar. Tânia, Vilma, Ana. Os filhos de Nanda. A alegria daquele reencontro tingiu-se da cor do fim. Tingiu-se de vermelho, quente e líquido, como o sangue de Hugo a pingar no chão.
Diogo.
Mesmo com o porto repleto daquelas criaturas nojentas, era um lugar fácil de transitar. A maioria já estava tão apodrecida e acabada, que já nem tinha graça se livrar deles. Não que isso estivesse nos impedindo, de qualquer modo. Já devia ser o início da tarde quando deixamos Faye no comando de tudo, com o ônibus. Elas explodiriam a bomba assim que estivéssemos fora do caminho dos zumbis, dentro de algum dos restaurantes ou pousadas à beira-mar. Aquele lugar poderia ser o que fosse agora, mas nunca deixaria de ser bonito. Mesmo com aquela destruição toda, e o cheiro de merda e podridão no ar. Outra coisa da qual eu não ia sentir a menor falta da Fortaleza. Mesmo que o lugar e nada fossem a mesma coisa, até agora. Eu confiava naquela médica, sabia que estava dizendo a verdade. Principalmente depois de ver um lixo como aquele Herbert tentando matá-la. Puta burrada me unir à pessoas como aquelas. Apesar do sol de rachar, Dante, Arantes, Rico e Otto pareciam bem. Pelo menos estávamos ali pra trazer o Hugo de volta. Manuela também, se ela não tivesse ficado doida e aliado toda a inutilidade dela aos mercenários. Seria melhor pra nós do que pra eles, se isso acontecesse. Liderando o caminho, Rico nos apontou o cais onde podíamos enxergar o Odisseu, barco da Faye. Mesmo assim o lugar parecia muito distante, então paramos ao lado de uma pequena pousada, para descansar. Escalamos a cerca viva (super viva, já que havia crescido sem controle por quase dois anos) do lugar, e pousamos numa área de luxo com piscina, com vista para o mar. Claro que as cercas elétricas já estavam desativadas há muito tempo, então não foi surpresa nenhuma encontrar todo o lugar completamente saqueado. A água da piscina já era um brejo, totalmente inútil e mais uma vez, fedorenta. Haviam poucos odores agradáveis, naqueles dias. Inclusive os nossos.
– Acabaram com esse lugar... — Otto estava resmungando. — E eu pensando que ia conseguir achar alguma comida ou roupa nova, antes de sair de Búzios...
– Não quer se apresentar de maneira inadequada, na Fortaleza? — zombou Dante. — Sequer sabemos se vamos sobreviver à hoje.
– Ainda bem que nem todos são tão otimistas quanto você, Dante. Seria um mundo cor de rosa, mágico — provoquei. — Fechem o bico como o Ricardo, e esperem os desgraçados chegarem.
– Concordo com o Diogo. O silêncio é essencial numa emboscada. — Arantes estava pendurado na cerca viva, praticamente agarrado nela. Ele apontava sua arma, utilizando a mira para procurar pelos nossos alvos. — Eles vão aparecer a qualquer momento. Talvez nem precisemos sair daqui.
De fato, não precisamos. Mas "a qualquer momento" traz uma ideia de tempo bem menos vasta do que o que de fato demorou, até que tivéssemos sinal de qualquer coisa viva no porto. Foram quase duas horas. Arantes não quis dar o braço à torcer, e se recusou a descer do maldito arbusto, até que dois dos mercenários cruzaram a sua linha periférica. Apesar de incerto sobre a identidade dos dois que estávamos vendo, achei por bem atirar. Sabrina havia feito a escolha dela. Eu não morreria por piedade, essa era uma regra estabelecida de mim para mim mesmo, há anos. Desde que eu fora obrigado a matar três adolescentes, num pequeno mercadinho do Trocado. Ali eu tinha feito uma escolha. Sobreviver. E ainda que minhas opiniões com relação à proteger o meu grupo, e meu amor por Victoria só fossem surgir depois, eram agora algo que fazia parte de mim. Algo que eu nunca deixaria para trás, depois de ser perdoado por Otávio e Cecília. Carolina seria a mais difícil, mas eu acreditava que com o tempo poderia comovê-la, de algum jeito milagroso. Arantes foi o primeiro a disparar, de cima do arbusto. Seu tiro atingiu um dos mercenários no ombro, mas o desgraçado nem caiu. Estavam usando algum tipo de armadura, com placas à prova de balas. Atiraram de volta com muito mais poder e velocidade do que podíamos imaginar. Dante e Rico se adiantaram em auxílio de Arantes, e acabei jogando meu revólver para Dante, já que o dentista estava usando o dele. A outra arma ficara para trás com Carol, e seria muito melhor empregada na defesa à vida de Faye. Otto e eu poderíamos nos virar bem com facas e barras de ferro. Com a distração daqueles dois, inclusive, seria muito mais fácil resgatar o Hugo e ficar de olho nos arredores, em busca de sinais de Victoria. O ônibus delas estava perto, e eu tinha que acreditar que ela ainda estaria viva.
– Arantes! Segura as pontas! Nós vamos atrás do Hugo! — O sargento ergueu o polegar num gesto positivo, e chamou atenção dos seus dois auxiliares. — Vocês aí, venham! Vamos levar esses desgraçados para onde os queremos! Bem perto dos mortos! — Ele pulou de cima do arbusto, caindo atrás de um carro, a única barreira entre ele e seus adversários.
Não quis olhar por muito mais tempo, temendo estar desperdiçando um tempo valioso, que estava sendo comprado com o suor de meus amigos. Até o Ricardo parecia disposto a ir às últimas consequências pela segurança de Hugo, mesmo com seu jeito bocó de sempre. Dante parecia estar competindo com ele, o que acabava sendo bom para o plano. Otávio já estava há meio caminho para a porta principal da pousada que tínhamos invadido, caminhando por dentro do local devastado com uma indiferença urgente. Imitando-o, fiz o máximo para ignorar as passagens bíblicas escritas com sangue, nas paredes do local. Os corpos espalhados por toda a parte também não me afetaram, embora fosse claro o suicídio coletivo. Apenas detive-me quando vi um policial caído. Tentei verificar se havia alguma arma, mas não encontrei coisa alguma, apenas um par de algemas sem chaves. Deixei para lá. Otto aguardava a minha chegada, e ao contrário do que eu pensava, passou direto pela porta principal, que já era assediada pelos mortos. Ele encontrou um banheiro próximo à recepção da pousada, com uma janela grande o suficiente para que pudéssemos passar.
– Diogo, você passa pela janela e eu atraio os zumbis pela porta, até o Arantes. Se eles me seguirem, vai ser mais fácil pra você vasculhar o resto do porto. Vicky pode estar bem perto, não há tempo a perder! — Enxotando-me, fez sinal para que eu seguisse em direção à janela.
– Não fode, Otávio! Até parece que vou deixar sua bunda mole pra trás. Se você morrer, Victoria não vai querer me ver nem pintado de ouro! Vai logo, e deixa de encher meu saco! — O agarrei pela blusa e puxei em direção à janela. Sem discutir, Otto ficou vermelho de raiva e passou pela abertura no vidro quebrado. O segui.
Juntos, cruzamos o beco estreito entre a pousada e mais algumas construções chiques de madeira, vidro e decoração de veraneio, como só Búzios sabia produzir. Mais à frente, uma aglomeração de zumbis chamou minha atenção, mas antes que eu pudesse comentar à respeito, a explosão do ônibus nos pegou de surpresa. Todas as criaturas próximas foram derrubadas pela força do ato, e anotei mentalmente um elogio pela perspicácia de Faye. O problema é que, em meio à confusão de cadáveres reanimados caídos e despedaçando, divisei Manuela e Hugo. Como se estivesse numa ilusão de ótica, fiquei como um paspalho, paralisado enquanto os dois seguiam na direção oposta. Otávio chamou meu nome duas vezes, até que seguiu meu olhar e saiu em disparada, atrás deles. Corri também, finalmente voltando a funcionar.
– Maldição, eles conseguiram escapar sozinhos! — Otávio riu, maravilhado. Ele provavelmente não tinha visto o mesmo que eu.
– O Hugo foi mordido. A blusa dele estava rasgada e sangrando — dizer aquilo em voz alta expulsou um tremor da minha espinha. Aquela era o tipo de coisa que conseguia me deixar na merda. Perder um amigo.
– Tá de sacanagem, né? — Otto parou, e me encarou. Seus olhos enxeram de lágrimas, e apesar de tentar me controlar, percebi que também estava comovido, quando confirmei num aceno. — Não! Puta merda... Não...
Tirei os olhos do chão, quando um zumbi aproximou-se de mim. Acho que fiquei um bem tempo sem sentir as articulações da mão direita, mas fechei o punho e soquei a cara do desgraçado. Tinha cabelos brancos, devia ser um velho ranzinza quando vivo. Só o que vi, no entanto, foi a massa de carne e ossos amassando contra minha mão, e caindo inerte. Acho que consegui controlar o que estava sentindo depois daquilo, considerando a dor que ficou na minha mão. Limpei-a na blusa, e continuei correndo na direção do cais, para onde os dois haviam ido. Otto não disse mais nada, seguindo em frente de maneira resoluta. Até que uma bala ricocheteou no chão, bem próximo de onde eu estava. Virei o olhar no minuto em que mais dois mercenários surgiam, saindo de um restaurante parcialmente incendiado, há apenas alguns metros de onde estávamos. Sem pensar duas vezes, derrubei Otávio no chão e me atirei de lado, quando um dos dois atirou contra mim sem trégua. Juro que fiquei meio surdo, com o som das balas passando a centímetros do meu ouvido. Meu braço bateu com toda a força no chão, e senti uma ardência de fogo arrasar do meu cotovelo ao ombro, enquanto o asfalto quente ralava tudo em que tocava. Caí, e não consegui mais levantar até que as duas figuras de preto se aproximaram de mim. Uma delas apontou a arma bem para a minha cabeça.
– Amarre ele, Valéria — a voz de Sabrina solicitou, mas ela não parecia muito afim de perder o prazer de estourar meus miolos. — Herbert vai querer um refém. Pelo menos vai compensar a perda da Manuela e do Hugo, e você vai poder matá-los, tendo esse daí.
– Tô pouco me fodendo, pro que Herbert quer. Esses desgraçados já me encheram. Vou matar todo mundo e roubar o barco sozinha. Cansei desse lugar. Vocês não sabem nada de mim. Nem do que sou capaz de fazer! — Com o olhar mais debochado que pude arranjar, olhei bem na cara dela e sorri. Embora eu não tivesse certeza se a estava olhando nos olhos, por causa da máscara escura, fiquei satisfeito quando ela me bateu com a arma. Otávio já estava se arrastando para longe, e Sabrina estava fingindo não ver. Talvez tivesse alguma esperança pra ela, afinal.
Quando confessei a mim mesmo que as chances de sobreviver eram muito poucas, fui surpreendido por uma saraivada de balas. Tiros sem a menor hesitação, ou medo. E tiros silenciosos. Estrategicamente jogado de barriga contra o asfalto escaldante, tive um susto com o que encontrei. Ana segurava uma pistola com silenciador, com Nanda e Vicky, uma de cada lado. Confesso que foi uma cena bem intimidante, mas principalmente perturbadora. Um dos tiros acertou Sabrina bem no pescoço, e ela cambaleou para trás, engasgando. Valéria gritou de susto e correu na direção oposta, mas zumbis que se aproximavam a agarraram. Não sei como eles puderam devorá-la com aquela armadura, e francamente não me importo. Eles encontraram um jeito. Victoria veio correndo na minha direção, e parecia tão linda quanto eu me lembrava. Ela estava chorando. Nanda estava viva, também. Mesmo tendo ouvido Ricardo contar sobre o que havia acontecido a ela, era difícil vê-la com aqueles olhos tão iguais aos da Victoria. Ela tinha umas unhas bem legais também. Levantei-me meio desajeitado, e abri os braços para Vicky, rindo feito um palhaço. Ela abraçou Otávio, passando direto por mim. Fernanda parou na minha frente, rindo da minha cara antes de me abraçar também. Ana era a única que não parecia muito feliz, debruçada sobre o corpo de Sabrina, que engasgava com o próprio sangue. Ela já estava sem capacete, e parecia querer dizer algo desesperadamente. Ana a beijou, arrasada.
– Eu sei, Sá. Também te amei demais. — Sabrina parou de se mexer quando Ana afundou a faca com cabo cor de vinho, de Vilma, em sua têmpora. Aquela foi uma cena bem triste, e confesso que me senti muito mal pela Sabrina. Mesmo com minha antipatia natural por ela. Acho que outras pessoas passariam melhor a emoção do momento. Mas tudo o que eu senti foi um vazio, por aquela perda. No fim, toda a busca da loira a tinha levado para um fim trágico, pelas mãos da pessoa a quem tinha devotado sua vida. Notei que Sabrina parecia comigo nesse aspecto, e isso me disse algumas coisas, ali. Eu não queria terminar como ela.
– Irmãos vêm primeiro. — Otávio se desculpou, dando de ombros. Ele passou por mim com um sorriso, e percebi que eu também sorria, quando Victoria veio, logo depois dele.
– Você está péssimo, sabia? — implicando, ela correu e me abraçou. A envolvi nos meus braços, puxando-a pra cima pela cintura. O corpo dela sempre encaixava no meu, sendo tão baixinha. Mesmo com tudo aquilo, era bom saber que ela estava viva. A mantive junto a mim bem forte, respirando o cheiro de sol nos seus cabelos. — Achei que eu nunca mais fosse te ver!
– E quase não viu mesmo. Só estou vivo graças ao Otávio, e... — ela não me deixou terminar, enchendo meus lábios com os seus. Suspirei. Ouvi alguém pigarrear.
Nanda estava tendo problemas, desligando um cérebro de zumbi após o outro, com suas unhas. Não sei se minha explicação foi suficiente. Ela estava DESLIGANDO os zumbis! A Nanda! Cara, aquilo sim era apavorante. Otávio estava abraçando a Ana, puxando-a pra longe do corpo de Sabrina, enquanto ela parecia perdida em si mesma. Irritado, corri até eles e a peguei no colo à força, puxando-a para longe dos monstros enquanto a coitada esperneava nos meus braços. Victoria indicou o caminho, e corremos para o restaurante. Fitei incrédulo a placa com seu nome, confirmando que o tal pai rico dela, não estava pra brincadeira. Dimitri ia querer tirar uma com a minha cara. Eu tinha duvidado que ele fosse mesmo um empresário parceiro do tal Frittoli. Respirando fundo, larguei Ana no abraço de Victoria e corri para ajudar Nanda e Otto a fecharem o portão, fazendo força contra a pressão exercida pelos mortos, que também não era grande coisa.
– O que aconteceu?! Descobriram que tiroteio era aquele? — Tânia paralisou quando me viu. Seu olhar varreu o cômodo até Otávio, e seu olhar se iluminou. — Oh, meu Deus! O Senhor está trazendo todo mundo de volta! — Ela veio na minha direção, e abraçou Otávio. De novo. Aquele moleque era irritante. — Diogo! Venha cá! — Não fui menos recepcionado, no entanto. — Acabamos de encontrar Hugo e Manuela — contou-nos, pesarosa. — Ele não está bem.
– Foi mordido, não é? Eu vi — falei, de modo duro e seco. Nem ferrando ia ficar frágil ali, outra vez.
– Mordido? Por Deus, não! Esfaqueado. O que não é muito melhor. Havia uma substância tóxica na lâmina da mulher que o feriu. Segundo Manuela, é um pó extraído de uma flor mutante, desse novo ecossistema maluco. Beijo das Sombras. — Tânia continuou indo em frente, ignorando que suas palavras haviam retirado o peso do mundo, de cima dos meus ombros. Otávio estava radiante, agarrado em Victoria e Ana, que também sorria ao abraçá-lo, à despeito da dor. — Aqui estão todos.
Manuela estava sentada ao lado de Hugo, que fora deitado no chão. Ela tinha um bebê em seu colo, muito ruivo. Parecia uma miniatura do Luca, o que me fez rir com a nostalgia daquilo. Eu nunca tinha gostado muito do cabelo de fogo, mas também não queira que ele tivesse morrido. O ferimento na barriga de Hugo havia sido suturado e costurado com os suprimentos da melhor enfermeira pós-apocalíptica do mundo. Tânia sorriu orgulhosa quando nos aproximamos. Vilma pareceu animada, quando nos viu. Haviam mais duas crianças no seu colo, e ela me parecia nova demais para ter tanto trabalho. Ana passou por mim e a deu uma mão, abraçando um dos bebês contra o peito, lutando contra as próprias lágrimas. Rapidamente, tivemos de contar sobre a morte de Sabrina, e atualizá-las sobre tudo o que estava acontecendo. Victoria pareceu furiosa quando eu contei que havia abandonado Carol, Manuela e Cecília, e Ana também. Elas ficaram intrigadas com a história de Faye, mas não pareceram particularmente desconfiadas. Pelo visto confiavam no nosso julgamento. Também contei dos mercenários, e todos pareceram compreender melhor quem Valéria era, considerando que ela fora a responsável por ferir Hugo. Quando terminei toda a nossa parte da história, Vicky me contou coisas bem tensas, também. Dimitri estava morto. E o Princesa Sônia não era um barco.
– Parece que as coisas estão uma confusão, como sempre — concluiu Nanda, num fio de voz. — Temos que ir ajudar o Dante e o Ricardo, Diogo.
– Eu sei. Precisamos eliminar os outros mercenários, e trazer o grupo da Carol de volta pra cá. Rezem pro Arantes não ter morrido. Ele e o filho eram os únicos que sabiam navegar num barco daqueles — lembrei, sentindo-me um idiota por tê-lo deixado para trás.
– O que estamos esperando? Vamos lá! — Vicky adiantou-se. — Otto, fique aqui com a Ana, ok? Prometo que vou trazer a Cecília em segurança — ela o beijou no rosto. — Nanda, quer vir junto?
– Acho melhor ficar e defender o pessoal — as duas trocaram um olhar cúmplice, e o que pareceu era que Nanda queria ficar e defender os seus bebês. Não o pessoal. Por algum motivo, aquilo deixou Vicky muito feliz, e decidi não questionar algo que não entendia.
No início do entardecer, e enquanto o sol se punha no horizonte, enchendo todo o porto com o vermelho do seu poder, eu e Victoria corremos contra o tempo. Estávamos os dois, juntos de novo. E, mesmo com todos os mortos no caminho, e toda a destruição espalhada pela cidade, vi beleza no seu rosto, e na luz laranja avermelhada que banhava o mar. O vermelho inundava o mundo, e nada parecia mais propício do que aquele momento. Apertei sua mão na minha, enquanto lutávamos para fazer valer à pena todo aquele esforço, e todos os sacrifícios. Ainda era possível ver as aglomerações que devoravam o corpo de Valéria, e o corpo ainda quente de Sabrina. Um final indigno, como todos os outros fins. Não existiam, naquele mundo, retiradas heróicas, nem aplausos. Apenas a brutalidade e banalidade da morte e da vida. O vermelho e o branco. Nossas mãos se separaram. Vi a expressão de Vicky alterar-se, e reconheci Nora. Ela também estava disposta a terminar aquilo tudo. O que não sabíamos, era que a pior parte daquela confusão estava apenas começando...
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