Notas iniciais
Boa leitura!

Hyuga Junpei era um homem complicado. Possuía manias e políticas muito rígidas, e todos ao seu redor deveriam se adaptar a elas. Seus amigos e família já estavam acostumados com sua personalidade, e isso para ele era o suficiente. Bom, pelo menos até às 23h59min do dia 15 de maio. Depois disso, ele entrou em um estado de reflexão, pensando em toda a sua vida até então. Suas escolhas e sua personalidade; de repente, tudo parecia errado. Seu coração pesou, principalmente ao olhar para o lado na cama, vendo o espaço vazio que ali estava. Imediatamente, pensou em Kiyoshi, e sentiu o sono bater.

Conheceram-se no ensino médio e no começo, não ia com a cara dele. Ele tinha uns papos muito estranhos e vivia insistindo para jogarem basquete juntos. Kiyoshi Teppei era muito irritante, mas por alguma razão, passou a gostar dele. Passaram a jogar basquete e criaram um laço extremamente forte por conta disso. Tomavam a dor um do outro, e mesmo sendo tão diferentes, conseguiam se dar bem (na medida do possível). Passaram por muita coisa e no último ano de escola, os dois ficaram juntos.

Kiyoshi e Hyuga se gostavam, mas muita coisa teve que acontecer para que eles começassem a namorar. Hyuga era muito orgulhoso, e não admitia estar apaixonado por outro homem; e logo aquele homem. Demoraram anos para se resolverem, mas acabou dando certo. Namoravam há mais de oito anos, moravam juntos desde o início do relacionamento. Mas apesar da estabilidade, ainda tinha um problema muito grande que os envolvia.

Hyuga não o havia assumido.

Estavam apaixonados, e isso era inegável. Mas por conta da insegurança, do medo do julgamento e de seus próprios princípios, Junpei decidiu que não iria expor o namoro para ninguém, nem mesmo para as pessoas mais próximas. Impôs isso a Teppei, e ele foi complacente com a decisão. Mas no seu aniversário de 30 anos, Hyuga percebeu o quão imbecil foi ao colocar essa “condição” em seu namoro. Começou a achar surreal o fato de que Kiyoshi aguentava ficar às escondidas com ele, como se estivessem cometendo um crime. Céus, como era imbecil!

Já era dia lá fora, mas Hyuga sequer havia dormido direito. Estava um caco, mas ainda era quinta-feira e não podia se dar o luxo de dormir até mais tarde. Era professor, e precisava estar na escola logo. Tomou banho e se arrumou rapidamente, não conseguindo afastar seus pensamentos de Kiyoshi.

Fazer trinta anos abriu um pouco a mente de Hyuga em relação ao seu namoro. Quer dizer, estava velho demais para ficar se escondendo. Antes de sair para o trabalho, Junpei pensou em sua rotina e em como ela afetava seu relacionamento. Acordava bem cedo durante a semana, se arrumava e ia para a escola onde lecionava, tomando um café expresso no caminho. Assim que chegava na instituição, mandava uma mensagem de “bom dia” para o namorado. Kiyoshi era segurança em uma empresa, e quase sempre trabalhava a noite. Seus horários raramente batiam, e por conta disso, passavam muito pouco tempo juntos. Mas ao meio-dia, quando Hyuga saía da escola, Teppei sempre estava parado no portão, o esperando para caminharem juntos.

Aquelas caminhadas sempre eram a melhor parte da rotina. Colocavam o papo em dia e tentavam matar a saudade da forma mais discreta possível. Kiyoshi uma vez tentou caminhar de mãos dadas com Hyuga, mas foi duramente rejeitado. “Não na frente dos alunos” repreendeu, e complacente, o mais alto concordou. Hyuga sentiu o coração apertar ao se lembrar disso. Nunca andaram de mãos dadas, ou trocaram carícias em encontros. Nem abraços, nem beijos, nem elogios...

Durante o período de aulas naquela manhã, Hyuga passou a se perguntar porque era tão imbecil. Esconder algo tão importante não era saudável para nenhum dos dois, mas mesmo tendo consciência disso, ele não sabia se conseguiria assumir para todos o seu amor por Kiyoshi. Tinha uma reputação na escola, e odiaria ver os alunos e seus colegas o julgando e fazendo piadinhas.

Quando o último sinal bateu, o professor respirou fundo. Estava com medo de ver o rosto de Teppei após tudo o que pensou. Será que ele se sentia magoado? Tinha certeza que sim, pois o conhecia bem. Sabia que não era justo com ele, mas não tinha coragem para assumir ainda. Com esse pensamento, Hyuga foi em direção ao portão da escola, encontrando a imagem mais linda em que já pôs os olhos.

Kiyoshi Teppei estava bem vestido, com um buquê de flores nas mãos. Hyuga ajeitou os óculos na face, não acreditando naquilo que via. Apressou o passo e ficou de frente para o namorado, ficando sem fala ao ver seu sorriso caloroso.

— Feliz aniversário, Hyuga — disse ele de imediato, entregando ao namorado o presente. — Eu não sabia se deveria aparecer no seu trabalho assim, com essas roupas. Mas eu quis arriscar, afinal, hoje é um dia importante.

— Imbecil... — sussurrou Hyuga. As mãos passaram a tremer e o coração acelerar. Estava tão feliz que queria bater naquele homem até que ele desmaiasse. Abraçou o buquê de rosas vermelhas, querendo se esconder. — Imbecil!

— Desculpe, eu não quis te deixar bravo...

— Eu não estou bravo com você, imbecil! — Hyuga gritou, chamando a atenção das pessoas que passavam. Sentiu muita vergonha naquela hora, mas resolveu deixa-la de lado por um tempo. Encarou com dificuldade o rosto do homem que amava, encontrando ali uma adorável expressão confusa. — Eu estou me odiando agora...

— Por quê? — Kiyoshi se mostrou preocupado. Aproximou-se do namorado e tocou-lhe o ombro. Parecia querer confortá-lo, mas com receio. — Vamos conversar sobre isso em outro lugar...

Aquilo não estava certo. Kiyoshi era tão bom consigo, e mesmo depois de tantos anos não merecendo seu carinho, Hyuga o recebia diariamente. Mesmo que de forma discreta, como havia condicionado no início do relacionamento, todos os gestos de Teppei eram de uma gentileza única. Naquele momento, o professor sentia que nunca havia retribuído tudo aquilo. Mesmo que em casa o enchia de beijos, mesmo que em quatro paredes o matava de amor... nada daquilo parecia ser grandioso o bastante para ser considerado uma retribuição por tudo o que aquele homem fizera por si.

E por conta dessa vontade de recompensar seu namorado por ter sido tão carinhoso em seu aniversário, Hyuga sentiu-se inspirado. Segurou seu presente com uma das mãos e usou a livre para puxar a gola da camisa de Teppei. Ficou na ponta dos pés e puxou-o para perto, beijando sua boca com intensidade. Estava morrendo de vergonha, mas pouco se importava. Encaixou os lábios e intensificou o beijo, fazendo-o durar bastante. Quando se separavam, estavam sorrindo.

— Eu te amo, Teppei — confessou usando o primeiro nome do namorado, o que só fazia quando estavam sozinhos. — Não quero mais esconder isso.

Kiyoshi sorriu, e aquilo já foi suficiente para Hyuga. Estava finalmente pronto para quebrar a rotina. Ignorou os olhares das pessoas à sua volta e agarrou uma das enormes mãos de seu namorado. Entrelaçou os dedos com delicadeza e começou a caminhar.

E a partir daquele dia, os dois passaram a caminhar de mãos dadas. Se beijavam nos encontros e a trocavam elogios na frente dos outros. Hyuga não mais se importava com o julgamento das pessoas. Tudo o que queria dali em diante era retribuir o amor de Kiyoshi da melhor maneira possível. Ele lhe inspirava a ser alguém melhor todos os dias, e nada no mundo o fazia mais feliz.

Notas finais
Obrigada por ler e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!