Quebra de Acordo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Quando Belle finalmente conseguiu terminar de arrumar tudo, já beirava a madrugada e ela nunca tinha se sentido tão cansada como se sentia. Ela nunca tinha trabalhado tanto assim em sua vida. Ela se perguntava se todos os dias seriam assim dali para frente.
–Ainda acordada? –Rumplestiltskin apareceu na cozinha e perguntou calmamente.
–Estava terminando de arrumar, senhor. –Belle abaixou a cabeça e fez uma pequena reverência.
–Já está bom. Essa cozinha nunca esteve tão limpa assim. Vá descansar em seu quarto que amanhã o dia será cheio. –Ele falou, enquanto se servia com um copo de água.
Era tudo o que Belle mais queria fazer, descansar, mas a verdade é que nem sabia onde faria isso. Só tinha conhecido dois cômodos daquele enorme castelo: A cozinha e a sala. Ela nem sequer sabia que teria direito a um quarto.
–Eu não tenho quarto, senhor. –Ela falou de cabeça baixa.
–Como não? Não lhe mostraram seu quarto como eu pedi? Ah, mas amanhã teremos algumas punições aqui... –Ele falou, com um pouco de ódio e até prazer no final. –Venha, vamos que eu mesmo lhe mostrarei o lugar.
Rumplestiltskin a segurou pelo braço e a conduziu para fora da cozinha, para o corredor. Do lado de fora Belle compreendeu que era para segui-lo. Ele andava calmamente e explicava, de forma simples e sem entrar nos cômodos e o que eram cada um deles. Andaram por um tempo até chegarem a um pequeno quartinho. Ficava próximo às masmorras e aquilo assombrou um pouco Belle. Na verdade, o quarto parecia uma. Era pequeno, apertado e apenas com uma fresta, que mal dava para passar o braço, como janela. Se não fosse a pequena cama de palha e uma mesinha, poderia ser considerado mais uma masmorra. Era naquele lugar que dormiria?
–Bem vinda ao seu quarto. –Ele falou, com certo entusiasmo.
Belle adentrou o local e pode perceber que era mais sombrio do que aparentava. A única iluminação provinha de um candelabro que ela colocou sobre a mesa. O local era úmido e cheirava a mofo. Perguntava-se há quanto tempo não abriam aquela enorme porta de madeira para que entrasse um pouco de ar fresco naquele lugar.
–Vou deixar que se acomode. Amanhã, se desejar, pode deixar o quarto do seu agrado. –Rumplestiltskin falou e se afastou.
Belle fechou a enorme e pesada porta e se permitiu afunda naquela cama velha que nem coberta tinha. Ela, pela primeira vez no dia, chorou. De certa forma e mesmo não querendo, amaldiçoou o momento em que alertara e salvara Rumplestiltskin da morte certa. Ela não sabia que esse ato mudaria tanto sua vida.
***
Belle acordou sobressaltada com alguns gritos de dor vindos do lado de fora. Levantou num salto e se forçou para abrir a porta. Quem quer que fosse, já tinha parado de gritar. Ela apenas viu o Conde voltando das masmorras.
–Senhorita Belle, perdoe-me pelo barulho. Não quis acorda-la. –Ele falou.
–Escutei alguém gritar. –Ela falou, quase em um sussurro.
–Isso foi apenas um rato que não sabe cumprir ordens e que ficará um tempo acorrentado. Aquele rato que era pra ter te mostrado o castelo ontem. –Ele disse com um sorriso maldoso.
Belle engoliu em seco. Mais uma culpa que ela teria que carregar: Agora alguém havia sido torturado por sua causa. O Conde, que antes lhe parecera inofensivo, agora se mostrava uma verdadeira Fera.
–O que deseja que eu faça hoje? –Ela perguntou, se segurando para não chorar.
–Há tantas coisas que até pode escolher, mas eu gostaria que aprendesse a fiar e tecer. A responsável por essa área está velha e cada vez mais lenta. Sua neta também parece desinteressada pelo assunto, mas, desde que me paguem o combinado, podem fazer o que quiserem. –Ele falou, com desdém.
–Como o senhor desejar.
Após servir um lanche para Rumplestiltskin e tentar comer um pouco, Belle foi até a casa da fiandeira. Um cavalariço a acompanhou e lhe mostrou o local, por ordens do Conde.
–Olá, jovem, vai querer algo? –Uma velha senhora que fiava um pouco de lã em uma roca perguntou ao ver Belle entrar.
–Eu vim aprender a fiar.
–Não sou professora, sinto muito.
–O Conde Rumplestiltskin me enviou para aprender.
Pela primeira vez a senhora parou de fiar, levantou-se e caminhou até Belle.
–A Fera te mandou? –Perguntou, incrédula.
–Sim. –Belle respondeu, desanimada.
–E como posso ter certeza de que não é uma mentira?
–Quem seria louca o suficiente para mentir sobre isso? Eu também não queria, mas acho que não tenho escolha.
–O que fez para ser obrigada a isso?
–Salvei a vida dele.
–Você fez o quê?!
–Salvei-lhe a vida. Um normando havia jogado terra nos olhos dele e o avisei antes de ser atingido.
–Quase nos livramos de uma Fera. Por que foi fazer isso, garota?
–Sinceramente, não sei. Acho que não pensei nas consequências.
–Você só pode estar falando a verdade. Talvez tenha sido melhor assim... Melhor um mal conhecido que um desconhecido. O Conde é duro, mas se souber lidar com ele podemos levar uma vida miserável. Qual o seu nome, jovem?
–Belle, senhora.
–Prazer, Belle. Aqui todos me conhecem por vovó.
–Vovó?
–Sou a mais velha dessa fortaleza. Vamos começar logo antes que o Conde apareça e nos puna.
A velha senhora começou a ensinar alguns truques para Belle. A moça não tinha muita prática, mas a senhora viu que era questão de tempo para que aprendesse. Antes de aprender a tecer, teria que aprender a fabricar os fios com o auxílio de uma roca. A jovem achava aquilo um pouco complicado, ainda não sabia controlar bem o fluxo de algodão e o fio sempre arrebentava. Uma ora ficava muito fino, na outra muito grosso. Prática e treino, insistia a senhora.
–Não sei se um dia isso sairá certo. –Belle falou.
–Questão de treino, Belle. Eu também não tecia bem quando comecei. –A senhora a acalmou.
–Mas não sei se tenho esse tempo. Não sei se o Conde irá querer esperar.
–Você salvou a vida dele, é o mínimo que merece por isso.
–Queria que ele esquecesse que fiz isso...
Uma jovem moça trajando uma linda e chamativa capa vermelha entrou pela porta, apressada e esbaforida.
–Ruby, quantas vezes já te pedi para não entrar dessa maneira?! –A vovó a repreendeu.
–Me desculpe, vovó. Eu só vim buscar uma coisa. –A moça disse, pegando um pedaço de pele de cervo que estava sobre uma mesa.
–Você precisa praticar.
–Depois. Agora tenho coisas mais importantes para fazer. Ruby falou antes de sumir pela porta.
–Essa menina... Vai acabar se matando como a mãe dela. Seu espírito é selvagem. Ela não nasceu para ficar girando uma roda pelo resto da vida. –Vovó lamentou.
–Ela parece ser uma boa pessoa.
–É, mas tenho medo do que o destino lhe possa reservar.
As duas mulheres continuaram conversando enquanto fiavam. Por um momento Belle esqueceu do seu destino, mas foi só um momento mesmo já que Rumplestiltskin entrou sem bater e a fez lembrar de tudo. Belle e Vovó rapidamente pararam de falar e abaixaram o olhar.
–Essa velha já conseguiu te ensinar alguma coisa, querida? –Ele perguntou, de modo sarcástico.
–Um pouco. Acredito que levará um tempo para que eu realmente aprenda. –Belle, com tristeza, respondeu.
–Com isso não se preocupe, terá bastante tempo para aprender. –Falou antes de se retirar e parar na soleira da porta. –Mais uma coisa: Eu vou caçar coelhos para o jantar. Esteja no castelo dentro de uma hora. –Disse e finalmente saiu.
Belle se aguentou por uns instantes antes de deixar uma leve lágrima escorrer por seu rosto e a vovó perceber.
–Sinto muito, Belle.
–E eu mais.
Belle ainda ficou mais uns minutos com a vovó e depois foi para o Castelo. Quando chegou à cozinha havia dois coelhos abatidos à sua espera. Ela se perguntou se teria que destrinchar um animal todo dia. Enquanto os nobre comiam carne, os pobres vassalos tinham que se contentarem com alguns poucos grãos de milho ou farinha. Era uma vida injusta.
Depois de prontos, levou os alimentos para a enorme sala. Dessa vez apenas o Conde e seu filho estavam na enorme mesa. Os serviu e voltou para a cozinha para terminar seus afazeres.
Após um tempo, retirou a mesa e somente Baelfire permanecia em seu lugar. Rumplestiltskin já não se encontrava mais na sala.
–A janta estava deliciosa, Belle. –Ele a elogiou.
–Obrigada. –Belle agradeceu com um pouco de vergonha.
–Tenha uma boa noite! –Baelfire falou antes de se retirar.
Belle terminou de retirar a mesa e, após lavar os utensílios, foi para seu quarto, sua masmorra. Chegando lá se surpreendeu ao ver que havia, próximo a sua cama, uma roca e um pouco de lã. Deduziu que isso deveria ser coisa do Conde para que ela treinasse. Deixou aquilo de lado e afundou na cama. O dia já havia sido longo o suficiente para praticar uma coisa que ela nem gostava.
Continua.
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