Que as cinzas nos persigam
1 O passado não esquece
Notas iniciais
— Você sabe por que você está aqui, Calum?
Um par de belos olhos verdes me olhavam com um misto de preocupação e curiosidade genuínas, lentes pesadas os ampliavam e os fazia parecer ainda mais preocupados. Sua dona era uma mulher jovem, tecidos claros lhe cobriam o corpo esguio, em vestidos simples, mas sofisticados, fornecendo-lhe um ar um tanto quanto etéreo. Seus longos cabelos escuros, trançado com fios de ouro lhe caíam sobre o ombro, contrastando contra a pele clara e o tom pastel de seu vestido. Era nossa instrutora de estratégia militar e combate pessoal, Lana como gosta de ser chamada, trabalha como mentora – instrutores que adotavam um papel quase materno ou paterno – de alguns cadetes, inclusive minha, e mais uma vez me vi diante daquela preocupação genuína, sentindo a culpa apertar o peito sabendo das dores de cabeça que a causara.
— Eu sei, eu sei – a minha voz saiu rouca e um pouco arrogante demais pro meu gosto– E honestamente eu odeio dar mais trabalho pra você Lana, mas não suportei ouvir ele falando aquilo, eu fiz o que eu pude naquela missão, e ele agir como se eu tivesse fugido… eu perdi um pouco o controle, desculpa– falei desviando o olhar, enquanto sentia o olho queimar com lágrimas que jamais cairiam.
— Você sabe que eu entendo, missões são perigosas e você precisa internalizar que não foi culpa sua e fez o que pode. O Thomas é jovem ainda, mal entende o valor da própria vida, como um certo cadete que eu adotei sob minha asa no Terceiro Ciclo. – Ela sorriu pra mim e não pude deixar de lembrar de como eu era imprudente quando mais novo – Mas por favor Callum, toma cuidado com os inimigos que pode estar angariando. Vocês vão provavelmente entrar no mesmo regimento, não é inteligente fazer inimigos com ninguém do Quinto Ciclo, vocês vão servir ao lado um dos outros e com a fragilidade que a paz tem apresentado é muito possível uma guerra se iniciar, maior parte das vítimas de uma guerra se dão de fogo aliado, não se esqueça – Fiquei em silêncio enquanto pensava no aviso que tinha acabado de ouvir, não confiaria em alguém como o Thomas protegendo minhas costas, especialmente com uma lâmina afiada.
— Não se preocupe tanto com isso por agora, como vai passar o feriado? – seu tom foi suave e cuidadoso, mas não consegui salvar as palavras que morreram na ponta da língua. Ela sabia das dificuldades que eu e a Maya temos enfrentado e por causa deles, pela primeira vez desde o 3 Ciclo, nosso grupo ficaria dividido, a Alice – velha amiga da Maya e namorada da Clara – passaria com a Maya enquanto a Clara decidiu passar comigo. No final do dia, a culpa é minha, não tenho sido o melhor parceiro e me pergunto se ela ao menos pensa em me perdoar. Ficamos de conversar e decidir para onde iríamos depois que ela voltasse. Até lá estamos no limbo e eu fico feliz pela Clara ter se dado o trabalho de me fazer companhia, afinal ela passou a oportunidade de passar tempo com a Alice, e eu sei o quanto ela a ama.
— Esse ano vai ser diferente, vou passar sozinho com a Clara– minha voz soou distante e um pouco rouca e por reflexo esperava algum tipo de zoação, mas só vi um sorriso suave.
— É bom termos em quem confiar– nessas horas que me lembro o porquê de gostar tanto dela – Bom feriado, não esqueça de descansar, com a Festa do Solstício se aproximando você sabe que eles esperam grandes coisas de você.
O final dos treinos diários já o havia sido anunciado tinha tempo quando saí, o sol já se mostrava preguiçoso e já não aquecia, oferecendo apenas luz aos poucos transeuntes que ainda estavam vadiando na Academia. O pátio estava deserto, com exceção de um ou outro herdeiro pegando uma carruagem e dois guardas de uniforme militar no portão. Na lateral do belíssimo muro ornamentado com imagens de lendárias batalhas de outrora encravadas na pedra, estava uma pequena massa escura contra o muro. Não demorou muito para conseguir distinguir um emaranhado de longos cachos, os quais sabia que pertenciam à uma garota de quase 24 anos, traída por sua estatura e fazendo de seu iminente aniversário parecer ser uma mentira para os desconhecidos. Talvez para se distanciar da comparação à uma criança, seu estilo migrou para um estilo menos delicado, usando sempre calças de couro, uma camisa preta folgada na região do peito e apertada na cintura com um corset, seu pescoço decorado por um pingente de lua minguante pendia de uma gargantilha de prata. Seus cachos lhe cobriam o rosto enquanto se curvava sobre um caderno com um lápis enquanto fazia rápidos e delicados movimentos sobre o papel, um som confortável preenchia baixinho o ar à sua volta – era difícil negar que estava curioso para ver como – então disse enquanto lhe tocava o ombro:
— Terra para Clara– um risinho me escapou quando ela, perdida, deu um pulinho de susto e a mão que segurava o lápis escorregou, maculando o até então perfeito retrato de sua amada. Era possível ver com clareza seus olhos pretos com um olhar leve e relaxado, diferente da usual pensividade, tensão e até agressividade nele, que junto com a leve tensão da boca um tanto fina do desenho formava um sorriso discreto, mas belo. Suas maçãs do rosto como sempre acentuadas e com um leve sombreado para imitar um rubor, agora maculado com um longo risco causado que chegava até a orelha. Era interessante ver a rija e severa Alice pelos olhos de sua namorada, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo preguiçoso, relaxada. Sempre me entendi bem com ela, apesar que, desde quando me desentendi com a Maya, ela tem me evitado um pouco e sido fria comigo, ironicamente.
Ela me olhou depois de se recuperar do susto irritada, dois onixes me fitaram entreabertos, provavelmente sua dona como sempre se perguntava se deveria me esmagar com uma pedra. E, como sempre, essa dúvida não foi considerada por mais de alguns segundos, suas olheiras, que lhe marcavam levemente a pele cor de bronze sugeriam ter dormido tarde terminando algum desenho, se contraíram levemente quando seus lábios cheios comprimidos de concentração relaxaram e formaram um sorriso. No entanto não demorou muito para se lembrar do desenho e o pânico lhe dominou o olhar quando o olhou e viu como ele tinha sido borrado e riscado, que foi rapidamente trocado por concentração enquanto usava o seu Dom pra retirar o grafite do papel, formando uma espécie de núcleo que gravitava e atraía os excesso do grafite do papel, e posteriormente o realocava no desenho, e logo o desenho, antes – mesmo sem a minha interferência – muito rascunhado e riscado via-se com clareza o rosto da Alice.
— Você precisa parar de fazer isso – Ela me olhou séria apesar de seu tom de voz beirar uma risada – Otário – não pude deixar de rir, qualquer pessoa teria medo de testá-la, mas eu a conhecia o suficiente pra saber que ela tava segurando um sorriso. A verdade é, a Clara tem uma infâmia de ser agressiva e até mesmo perigosa, mas poucas pessoas sabem o quanto ela é doce e extremamente gentil, sua expressão relativamente assustadora e sua atitude fria e direta funcionam como espantalhos para as pessoas que não conversam com ela.
— Não é culpa minha se é tão fácil – respondi sorrindo enquanto a puxava num abraço apertado.
Sempre fomos próximo, todos inclusive acreditavam sermos um casal quando ingressamos na Academia quase 10 anos atrás, sempre brincamos um com o outro e muitos confundiram nossa amizade com outra coisa. Foi apenas durante o 3º Ciclo que ela e Alice entraram em um relacionamento que finalmente pararam com essa atitude ridícula.
— E aí? Que rolou? – falei para ela sobre a conversa com a Lana enquanto andávamos até a minha casa. Quando terminei de falar ela ficou em silêncio um pouco e falou: – Bem, ainda bem que você sabe que congelar a língua de alguém exagero. O Apollo te parabenizou inclusive, te acordo com ele se ele não tivesse tomado cuidado em desfazer seu trabalho as últimas palavras do Thomas teriam sido desperdiçadas fazendo piadas com aquele ataque horrível no porto semana passada. – Ela falou tentando me criticar, mas seu tom entretido e o sorriso de canto que o acompanhava completamente traía seu propósito.
— Seria hilário, mas não cabe a mim fazer esse favor pro mundo. Obrigado– eu falei enquanto mexia irrequieto no pequeno anel de ouro que uso em meu pescoço em um cordão de couro.
— Concordo, ainda bem que sabe disso, lembra também que toda essa bravata dele é ele acreditando ser mais poderoso que realmente é. Inclusive me lembra um certo idiota– ela me deu um soquinho no ombro com um sorriso e continuamos a seguir a estrada pouco movimentada.
Não pude deixar de sorrir, ela me conhece bem e conheço bem o olhar para não esquecer como já pensei igual. Fora isso seguimos em um confortável silêncio, preenchido e quebrado ocasionalmente por nossos passos e de outrem, algumas carruagens também passavam por nós, os cocheiros desinteressados e entediados no ofício. Sempre no feriado era comum algumas famílias viajarem, algumas seguiam os filhos para comemorar o início de um Ciclo novo, outras queriam aproveitar o espetáculo visual e festivo que eram os Festivais, meu pai deve estar provavelmente acompanhando os alunos a serem iniciados no próximo. Como Conselheiro Imperial, ele tem essa ridícula obrigação de acompanhar Vossa Majestade Argenta em todas as demandas oficiais do Império e o início e o final dos Ciclos infelizmente estão inclusos.
O caminho, perfumado e decorado pelas árvores e flores que surgiam com a chegada da Primavera em alguns dias, longo como é só se torna prazeroso devido esse motivo, afinal as carrancas de velhos senhores abastados, jovens mimados e empregados que claramente amam seu ofício em nada somam à paisagem arborizada, diria até que se não fosse a beleza natural até minha casa, me recusaria a fazer a longa caminhada. Minha Casa é antiga, portanto, seu coração também, a Mansão do Grande Lago da Noite, é exatamente o que seu nome sugere, uma grande estrutura de carvalho escuro, assentada em uma elevação da grande propriedade. Era em nada convidativa, observava distante a própria cidade como alguma guardiã espectral, ao longe detalhes em ouro e prata eram observados em adornos nas janelas e na estrutura externa da construção maciça de madeira. Enquanto nos aproximamos, os adornos ficavam mais claros como detalhes para lembrar córregos cintilando com a luz solar e lunar, acima da porta uma grande coruja acompanhada de dois chacais entalhados da madeira e adornado em prata e obsidiana observavam o caminho que levava à ela, interesse e curiosidade implícitos nos olhos dos animais assustadoramente realísticos, mas eram também como ameaças, a morada não precisava de portões ou muros, seus próprios residentes eram precisos e mortais como os animais que observavam todos a que chegavam à propriedade. O Coração da minha Casa já havia visto séculos passarem, inúmeros governantes e residentes passarem ao outro lado para se encontrar com os deuses, já sobreviveu e dela já lideraram ataques, e depois desse tempo todo se prostra orgulhosa e maciça, parecendo dizer em deboche “Não se engane mortal, estou aqui há mais tempo que poderia sonhar e vou continuar depois que seus descendentes abandonarem esse plano”. Era por fora justamente o que seu nome sugeria, fria, distante e sombria.
Por dentro era um pouco diferente, se por fora as cores escuras e tamanho serviam para amedrontar e afastar, por dentro era acolhedora e as cores mais escuras eram aconchegantes, principalmente com os contrastes com cores mais quentes, o cheiro amadeirado de incenso de mirra preenchia o hall de entrada espaçoso, a escadaria grande para o segundo andar possuía o grande retrato do fundador oficial da Casa e os corredores que levavam para alguns dos inúmeros cômodos da casa, apesar de vazia e parecer ainda maior do que realmente é, não deixa de ser casa. O objetivo original de ser a alma mater. da família era inclusive bem visível no tamanho, era inclusive fácil imaginar o salão de jantar cheio com familiares distantes, uma reunião familiar que faz a espaçosa sala de estar parecer habitada, bailes belíssimos tematizados com as quatro estações, vários empregados andando pelos corredores cedendo seu tempo e presença aos serviços da casa, fazê-la parecer imaculada e eterna, enquanto seus patrões pareciam tão imortais quanto a própria residência. No entanto a residência não via tais eventos, séculos antes de eu ter nascido, eventos como esse acontecem em nossa residência na capital no império, por aqui têm-se apenas o casual jantar com alguma outra Alta Casa quando meu pai está na cidade, afinal para muitas Casas nossa família, não passava de mais uma decadente casa que conquistou sua posição através de venda de terras e especiarias, e não como uma das Altas Casas.
Agora a residência estava vazia, a falta de empregados e principalmente outros moradores criava um silêncio absoluto, e nem eu ou a Clara realmente estávamos interessados em quebra-lo. Seguimos o habitual caminho até o meu quarto, a Clara como sempre observava maravilhada a estrutura interna da construção, perdida nos adornos em metais e pedras preciosas assim como as muitas pinturas de paisagens e retratos que decoravam a entrada da casa, especialmente o grande candelabro acima da escada. Tentamos ao máximo fazer pouco barulho, subir as escadas de maneira inconsequente e quebrar a fina camada de silencia dentro da mansão parecia um crime, como se estivéssemos perturbando fantasmas antigos e a qualquer momento um parente de séculos atrás iria sair de um dos retratos e reclamar do barulho. Já no segundo andar o tapete que forrava os corredores acalmou nossos corações por abafar nossos passos os quais deixavam minha querida companheira ainda mais encantada com a qualidade técnica das obras de arte e de algumas esculturas dos mesmos animais da entrada. Me pergunto, inclusive, como é possível ela ter sempre a mesma reação para algo que ela viu facilmente centenas de vezes.
O longo corredor de paredes escuras adornadas era iluminado por pequenas pedras-luz – pedras leitosas que se acendem com um pouco de concentração – em suportes nas paredes e pela luz dourada do pôr do sol que entrava timidamente pela janela no final do corredor, o qual ficava inclusive um pouco claustrofóbico com apenas a minha porta, dentre as outras oito á direita da janela.
Meu quarto sempre foi um cômodo espaçoso, seu pé direito alto abrigava espaço para um mezanino singelo – era possível ver a silhueta da escada à circular à esquerda – onde uma pequena biblioteca se encontrava, inúmeros livros – alguns antigos outros mais novos – organizados nas prateleiras de carvalho, assim como um belo candelabro de prata. As grandes janelas de sacada que se estendiam do chão até o segundo andar, estavam cobertas por belíssimas cortinas levemente douradas – era possível ver o sombreado de uma mesa –, o que fazia do quarto nada além de formas levemente abraçadas pela luz do sol que entrava timidamente pela porta. Enquanto entrávamos comandei as pedras-luz, que imediatamente começaram a responder lançando uma luz pálida sobre o cômodo, as formas começaram a ganhar cores e textura, as paredes foram ganhando as cores azuis do oceano, uma gigantesca estante de ébano ganhou vida à minha esquerda, se estendia até o segundo andar e agora era possível ler o título de alguns dos livros – pelo menos os que o possuíam – assim como identificar mapas jogados e desorganizados na prateleira. Perto da janela, no primeiro andar, era possível identificar melhor a mesa e como era coberta por diários de homens há muito mortos em batalhas há muito lutadas, algumas de suas páginas cobertas por línguas estrangeiras, arcaicas ou até mesmo do império enquanto outras eram cobertas por desenhos de mapas de batalhas ou do posicionamento das tropas e os que sobraram possuíam desenhos de belas mulheres, homens, animais e paisagens. Na parede à direita, sua bela lâmina longa de dois gumes pálida, se estendia por quase um metro e era adornada por runas em ônix ao longo do sulco, seu guarda-mão em V lembrava um par de asas argênteas que protegiam um cabo de couro decorado com pequenas ondas encravadas e o pomo em formato de losango parecia receber as ondas em seu metal, uma cama grande e desarrumada se encontrava ao seu lado. Uma pequena lareira se encontrava no ponto oposto da cama, uma pequena mesa de centro e duas poltronas a acompanhava.
A casa por dentro é uma antítese do que parecia por fora, enquanto por fora não seria o melhor dos lugares para se encontrar viajando sozinho de noite, por dentro é de longe o melhor lugar para se estar, é casa.
— Lar, doce, lar – eu disse enquanto jogava minha bolsa ao lado da porta – Pode colocar suas coisas com as minhas.
— Obrigada – me imitou enquanto entrava no quarto – Sua casa, sempre foi assim?
— Mais ou menos, tiveram uma ou duas pequenas guerras que tentaram atear a casa em chamas, mas fora isso, sim – dei de ombros e comecei a história que meu avô contava – A história que meu avô me contava sobre a casa, ele falava que descendemos de uma antiga Alta Casa, o meu ancestral veio morar por aqui, na região sabe? E acabo construindo a casa, mas teve uma guerra na família que simplesmente fez ela se dividir toda e a acabou se isolando. Depois ainda vieram algumas outras batalhas contra outras famílias e até atacaram aqui umas vezes, e reconstruíram as partes danificadas, mas é, acho que ela era um pouco diferente, mas no mais manteve a essência.
— Faz bastante sentido – ela se aproximou da mesa de estudos, folheando delicadamente as páginas observando os desenhos de algum marinheiro, uma mulher e duas meninas sorrindo para quem as via – Você sabe o nome desse seu ancestral?
— Bem, eu tentei dar uma pesquisada nos arquivos da família, li alguns diários mais antigos e o máximo que achei era de um homem chamado de Cauã que se casou com uma Tal’yúna, mas não tenho certeza que seja ele – Apontei para um dos diários com os rostos de uma coruja e dois chacais marcados na capa de couro – Aparentemente o dono desse diário foi quem se reconectou com as outras Altas Casas e apoiou a unificação do país, ele comenta como se sentia inseguro sobre confiar na família real justamente por causa dessa guerra que esse nosso ancestral teve. Nas palavras dele – eu pego o diário e leio – “O inabalável Cauã, esposo e amante da formosa Tal’yúna, já dizia em seus diários para nunca confiarmos nos outros do clã, devo eu, mesmo assim, ignorar teu sábio conselho após a terrível Guerra de Tauari e Ébano e jurar lealdade à um dos filhos de Tauari?” – eu terminei de ler e encontrei os olhos de Clara focados e atenciosos em mim, mesmo envergonhado continuei – Se a gente considerar como o resto da família o tal dos Tauari, talvez seja a mesma pessoa.
— Isso é realmente bem interessante e faz sentido – consigo ver ela respirando fundo para criar coragem pra fazer o que parecia ser uma pergunta – Mudando de assunto, como estão as coisas entre você e a Maya?
Já esperava eventualmente essa pergunta, mas não vou mentir, não estava minimamente preparado.
— Mal – suspiro pesadamente e continuo – Bem mal, a gente não briga e honestamente eu preferiria uma briga gigantesca a ficar nesse joguinho de silêncio com ela. Nesse Festival mesmo, você sabe que ela vai passar com a Alice sozinha, por que ela disse que vai pensar em como seguir em frente com a gente.
Ela me olhou com um olhar entristecido e disse:
— E como tudo isso começo Cal? Você não tem sido você desde que voltou da sua missão dois meses atrás, você sabe muito bem disso. – Seu tom beirava o de um grito e seus olhos ardiam por respostas enquanto a culpa de não poder falar sobre o que vi, o que descobri e o que aconteceu ardiam junto com seu olhar.
— Eu queria poder falar, ok? – Respondi, minha voz dolorida pelas memórias – Simplesmente não posso falar de nada do que aconteceu e honestamente a Maya tá certa de estar cansada porque eu simplesmente não posso falar pra ela por que ela perdeu o próprio pai, não posso contar pras famílias por que elas perderam irmãos, irmãos, pais e filhos. Eu fui o único que saiu vivo daquela maldita missão, e eu não posso dividir com mais ninguém – Com exceção de uma certa mulher cabelos cacheados de cor e cheiro de canela – o que eu vi naquela missão. Só vocês sabem que eu ao menos fui, a Maya até sabe um pouco mais por causa do pai, mas eu recebi ordens estritas para não contar para ninguém o que aconteceu. Esse é o pelo qual a Maya tá chateada e eu não posso fazer nada pra tentar ajudar.
O silêncio ficou alto no quarto, minha visão já embaçada pelas lágrimas me impediu de conseguir ver quando ela se aproximou de mim e demorei para entender que estava sendo abraçado. Não me sentia em casa, estava de novo naquele frio, observando o sangue manchar a neve branca e ouvindo ordens do comandante para recuar enquanto o cheiro de morte, sangue e fumaça preenchia o ar e a visão do massacre manchava uma belíssima planície coberta pela branca neve, paz e árvores, mas naquela noite ficou carmesim e inundada de corpos e medo.
Quando ela acendeu a lareira? Como que cheguei nessa poltrona? Não pude deixar de me perguntar quando me percebi sentado observando uma lareira tímida crepitar.
— Quanto tempo? – minha voz saiu trêmula e insegura da realidade.
— O quê? – Enquanto a dela soava distraída e distante.
— Eu perguntei por quanto tempo eu fiquei fora de ar – eu me viro e a vejo sentada na minha cadeira completamente absorta numa longa carta. Por um momento gelei, esperava que não fosse a carta da Kiara, mas pros meus horror, enquanto me aproximava dela pude reconhecer sua letra fina e afiada como uma lâmina – Eu posso explicar, eu juro, não é o que parece. – Disse já com as mãos elevadas em derrota.
Sua expressão se perdeu em algum momento entre choque, horror e raiva, com a carta escrita em muitas folhas aberta em suas mãos, podia sentir o leve tremor dos meu ossos enquanto a Clara lutava para não me esmagar de dentro pra fora com a sua Dominação. O choque a impediu de se levantar, mas não de olhar fundo na minha alma e falar com um rosnado:
— Eu acho muito bom você explicar como essa mulher sabe de tudo, até mesmo seu nome – ela me entrega a carta quase me dando um tapa no peito que estremeceu minha caixa toráxica, apontando pros papéis em minha mão e continua, agora, gritando – Seu filho da puta, explica por que quem escreveu essa merda de carta sabe tanto sobre você, é por isso que a Maya tá se afastando? Por que você é um babaca sem coração, que enquanto todos estavam preocupados, você tava se deleitando nos braços de uma outra mulher, é isso? – Lágrimas escorriam dos seus olhos inflamados pela raiva enquanto me esforçava para não manter o contato e juntar minhas lágrimas às dela.
Tudo que fiz foi me sentar de novo com a carta em mãos, lendo as primeiras palavras novamente “Querido Callum, foi muito bom ter recebido sua carta no endereço que combinamos e espero que esta se encontre em suas mãos...”. A realidade de que o segredo tinha sido descoberto era sufocante, mas também me sentia aliviado que não precisava manter mais segredo acerca de tudo. Assim me preparei para contar a história de como tudo começou, enquanto a Lua já começava a dominar seu espaço no céu estrelado, limpo de quais quer nuvens, e um corujar preenchia a noite.
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