Notas iniciais
Pois é. Boa leitura.

Já eram quase quatro e meia da manhã.

Horário bonito.

Provavelmente só por que o navio ainda não fora atacado naquela noite.

Ou por que Jason conseguia sentir o céu se clareando, por menor que fosse o efeito, do lado de fora.

Não se lembrava que horas havia ido pra lá. Ou quando ele criara o hábito de ir pra lá, mas ia.

Vez ou outra, no meio da noite, seus pés o levavam pelo chão frio até onde queria e lá ele entrava, sendo bem recebido na maioria das vezes.

Agora estavam deitados na cama, um pouco espremidos, mas não desconfortável, encarando o teto.

De vez em quando deixava seus olhos fugirem para o lado, mas só um pouquinho, e então via como ele estava contente.

Era difícil explicar a simetria do sorriso que carregava nos lábios. Ainda mais difícil era explicar o alívio de vê-lo sorrir daquele jeito.

A única coisa ruim era saber o motivo.

Não é que não ficava feliz por ele, porque ficava, só era difícil de acompanhar.

Rápido demais, pensava enquanto o peito se rebelava com um incômodo que já conhecera algumas vezes, mas só então entendia.

E dessa vez era mais forte.

Era um incômodo agressivo.

E tinha um gosto ruim.

— Eu queria que você a conhecesse – murmurou Leo, ao que parecia ser o final da história. – Você iria adorá-la, Jason. Ela é, tipo, completamente linda.

— Você já disse isso.

— E a comida que ela prepara é maravilhosa! – exclamou ele, com um leve riso. – Formamos uma boa dupla.

Com certeza.

Apenas não concordava.

— Comida não é grande coisa – murmurou Jason, sem emoção na voz.

Ele riu.

O som era quente.

— Você só diz isso, porque sua comida é horrível...

Talvez até fosse, mas de que importava?

Assim, ele continuou falando.

Com empolgação, com adoração.

Certa devoção, talvez.

Era tão irritante.

Mas não conseguia desviar o assunto.

Afinal, de certo modo, ele queria saber mais. Queria saber como ela falava, como andava, como olhava para ele, como sorria, como mexia as mãos, como piscava, e até mesmo como era o som de sua risada.

Lindo.

Era esse o adjetivo que ele sempre usava, com as devidas variações de gênero.

E quanto mais ele falava, mais Jason queria ouvi-lo falar.

Não fazia o menor sentido, uma vez que o próprio som de sua voz o estava irritando.

— Ela me beijou – contou Leo em voz baixa e essa parte era nova.

Não a ouvira antes, só agora.

Só agora ele dissera.

Respirou e esperou.

Sabia exatamente onde seus olhos curiosos e inquietos estavam.

Podia senti-los em cada canto de seu rosto, procurando sua reação.

Não cedeu, como ele certamente queria.

Apenas deixou que ele olhasse. Por quanto tempo quisesse. Afinal, não se importava.

Focou sua atenção no teto.

Teto bonito.

E era um pensamento feliz.

O de ver um teto bonito.

Tinha um pouco de poesia no teto.

Mas foi assim do nada.

Um corpo sentou-se em sua barriga, cada um dos joelhos pressionando suas costelas sem perceber, os pulsos foram presos por dedos ossudos.

Inútil.

Sairia dali facilmente se quisesse.

O problema.

Não queria.

O rosto mal iluminado exibia um sorriso cheio de maldade e deixou-se encará-lo sem reação.

Não demonstrar reação era sempre o certo a se fazer.

Mas seu estômago, maldito, estava agitado e quente.

— Ah, Jason – sussurrou Leo, tombando um pouco a cabeça para o lado. – Você está com ciúme?

Arqueou uma sobrancelha.

Ciúme?

Estava Jason com ciúme?

Por que estaria com ciúme?

Leo sempre fora assim. Já estava acostumado. Já sabia.

Ele sempre flertara com todas as garotas nas quais punha os olhos. Um dia acabaria dando certo, naturalmente. Não tinha por que sentir algo tão patético e inútil como ciúme.

Apenas pessoas inseguras sentiam tal coisa.

No entanto, que autoconfiança tinha naquela situação?

Jason não se via naquele plano.

Não via, porque ele não estava ali. Leo não o colocara ali.

Aquele pensamento ardia, tinha curvas tortas pelos lugares errados.

Cavava o que não devia.

Desenterrava velhas certezas que tanto se empenhara em se livrar.

Tinha plena noção de quanto contato se despejava entre eles.

Mas não conseguia obrigá-lo a sair dali.

Não queria que saísse.

Deuses!, como era idiota...

E não, infelizmente, desta vez não era Leo o idiota.

— Quer que eu beije você também, Pikachu? – ele ria.

Os lábios encurvados de modo torto, costumeiro, e uma risada cheia de maldade.

Queria?

Era o que ele queria?

Um toque dos lábios, apenas isso. Talvez um rompimento de uma linha reservada.

Era isso? Quem sabe fosse.

Mas ele não falava sério.

Conhecia os detalhes da cena bem o suficiente para dizer que aquilo era uma brincadeira para lhe irritar ou constranger.

Não funcionou.

Seu rosto não ficou quente. Ele não estava irritado.

Seus olhos curiosos ainda relaxavam na curva invisível dos seus.

Seu sorriso escorria pelo canto dos lábios, abandonando-os lentamente.

Ele ficou sério.

Tão sério.

E era bonito.

Aquela seriedade era bonita.

A proximidade.

A proximidade era calor.

Um toque sem reflexão.

Só isso.

Ou talvez mais.

Tinha gosto de chocolate, mas parecia queimar.

Definição muito útil, precisava admitir.

Era só um arranhar de estrelas no silencio gelado. Como se caísse no fogo.

E talvez fosse isso.

Não, era isso.

Era fogo.

E despencava sobre ele.

Cada vez mais quente.

Mãos começaram a queimar também.

Era calor demais.

Toques demais.

Mas era bom.

Tinha vida.

Vida incógnita e passageira.

As veias pareciam cada vez mais agitadas.

Não era imune às reações físicas. Leo também não.

As outras, ele não sabia.

Cada pedaço de calor era errado. Seus pensamentos eram errados. Ele era errado. A cena, os movimentos, tudo.

E tanto quanto era errado, era bom.

Estava queimando.

De dentro para fora.

Tinha graça.

Era divertido.

No entanto, cada crepitação era um lembrete.

Queria queimar mais, podia queimar mais, devia queimar mais...

— Droga, Jason!

Ele se afastou de repente, cambaleando quando apoiou os pés no chão. Colocou as costas da mão direita sobre os lábios e se encararam.

Ainda tinha fogo. Ainda tinha luz.

Seriedade demais.

— O que diabos foi isso? – questionou-se Leo, em um sussurro irritado, andando de um lado para o outro.

Uma sobrancelha se arqueou.

— Acredito que você sabe.

Foi encarado com raiva, inquietação e confusão.

Ele não entendia? Como não entendia? Era simples.

E fácil.

Um idiota...

— Isso... – sussurrou Leo um pouco histérico, os dedos inquietos, procurando por alguma porca ou parafuso. Jason sabia onde estavam; bem ali, na mesinha de cabeceira, mas via graça em não lhe dizer. Não queria lhe dizer. – Isso é... droga, Jason!

Sorriu de leve:

— Isso nunca aconteceu.

Seus ombros relaxaram lentamente e ele voltou a se deitar ao seu lado. Sua expressão tinha um pouco de vergonha pintada.

Mas não fora inesperado, apenas um fato.

Coisas erradas acabam por acontecer. Cedo ou tarde, querendo ou não. Alguém sempre acabaria cedendo.

No caso, não soube qual.

Leo, que pisara primeiro? Ou ele, que o seguiu?

Era simples.

Era como uma resposta óbvia que não precisava de uma reflexão prévia.

— Fica só entre a gente... – sussurrou ele, com os dedos ainda inquietos. — Certo?

— Certo.

E por mais que já soubesse, agora tinha uma confirmação detestável.

Quando se tratava de Leo, nenhum momento podia ser eterno.

Não.

Era efêmero.

Mas também era vivo, era bonito.

Como se fossem uma explosão de cores.

Que agora se arrastava em cinzas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!