Quatro caras e Alex

5 Quatro caras, Alex e o jantar


Notas iniciais
Olá, queridos! Trago mais um capítulo feito com muito carinho (e que deveria ter sido postado antes, mas não vamos comentar sobre isso). Espero que gostem :)

Acordar cedo era, definitivamente, um carma. Por tudo mais sagrado nesta vida, por que as pessoas achavam normal acordar todo dias antes das sete da manhã, se arrumar para sair do conforto do seu lar e passar um dia inteiro trabalhando? Will não sabia a resposta e provavelmente xingaria quem tentasse mostrá-la para ele àquela hora da manhã. Com os olhos presos em seu largo relógio de pulso, ele descia as escadas distraído — estava tão acostumado com aquele ritual matinal que seu cérebro provavelmente já sabia onde cada degrau começava e terminava, dando-lhe a confiança para simplesmente não prestar atenção no que fazia. Quando seu pé direito encontrou o chão da sala, ele ergueu a cabeça apenas para se deparar com uma cena que ele sabia que interromperia seu cronograma: em pé, no meio da sala, enviando um olhar desafiador para a cozinha, estava uma Alex de legging preta e jaqueta de couro vermelha.

"Hm, legging." pensou, com um sorriso malicioso, e em seguida um opressor "Foco, bastardo.".

— Por favor, me diga que você não está sofrendo um derrame. — indagou, passando direto por ela e se dirigindo à cozinha.

— Boa noite para você também. — ela retrucou, sem mover um único músculo.

Por um momento, ele a encarou, com uma expressão confusa — mas a mesma se desfez quando ele lembrou que, devido ao seu emprego, ela constantemente trocava o dia pela noite. Lembrou-se do que acontecera na primeira vez que eles haviam a corrigido e, exatamente por isso, resolveu não falar nada.

— Você está usando uma gravata. — disse ela, com uma voz sonolenta.

— Você também. — respondeu, rindo e enchendo uma grande caneca de café preto, o qual ele adorava tomar sem açúcar pela manhã.

— Droga. — Alex arrancou a peça do pescoço e a jogou sobre o sofá. Em seguida, se jogou sobre a mesma sem a menor cerimônia. — Eu sempre esqueço de tirar isso.

Balançando a cabeça, Will arrastou uma das cadeiras da cozinha para mais perto da sala e se sentou, tomando um gole de seu café. Mesmo que aquilo não fosse divertido, seria, pelo menos, um alívio para seu ódio-grátis-matinal.

— O que diabos você estava fazendo parada no meio da sala? Dormindo?

A mulher respondera, porém, como estava com o rosto enterrado na almofada do sofá, tudo que ele entendera foram grunhidos.

— Desculpe, mas eu não falo a língua dos barulhos estranhos. — disse, irônico.

— Eu disse... — ela iniciou, obrigando-se a sentar-se no sofá. — Que estava pensando no que fazer para o jantar hoje à noite.

— Jantar? — perguntou, intrigado. Era um dia de semana qualquer, então, o que havia de especial naquela noite especificamente?

Droga, ele provavelmente estava esquecendo alguma coisa.

— Sim. — respondeu, encolhendo os ombros e desviando o olhar.

De repente, ele teve a sensação de que algo pior do que esquecer estava por vir.

— Alex, o que foi que você fez?

— Por que todo mundo vive me perguntando isso? — indagou, ofendida.

— Não mude de assunto.

Ele falava sério e ela, por sua vez, estava determinada a não falar mais nada. Percebendo isso, Will cerrou os olhos e passou a encará-la fixamente. Sabia que não demoraria muito até que ela cedesse e começasse a...

— Está bem! — bem, aquela havia sido rápida. — Eu posso, talvez, circunstancialmente... — pausou, mordendo os lábios e diminuindo o tom de voz. — Ter convidado a família Jones para um jantar, hoje à noite...

Não, ela não havia feito isso.

— Você... O que? — perguntou, incrédulo.

— Foi um acidente! — exclamou, escorrendo no sofá para o mais longe possível do homem que parecia à beira de um colapso nervoso. — Eu encontrei com a Sr.ª Jones no caminho de volta do trabalho, ela virou a cara para mim, eu comecei a fazer perguntas e quando eu vi ela já estava marcando um horário!

— Aquela é a pior família do mundo! — berrou, se levantando. Em algum momento, seu café amargo havia sumido de suas mãos. — Eles nos odeiam, Alex.

— Exatamente. — concordou, se levantando também. — Esse jantar pode mudar a opinião deles sobre nós e vice versa. Eu posso mostrar que somos vizinhos bons, simpáticos e acolhedores. — preparando-se para correr, ela completou. — E é por isso que eu acho que você deveria sair hoje à noite.

— O que?

— Sabe... — disse, passando por ele a passos cautelosos e se dirigindo à cozinha. — Sair com seus amigos, beber um pouco, encontrar uma garota legal... — ao avistar o faqueiro, ela percebeu a péssima ideia que tivera ao se dirigir àquele cômodo e resolveu dar meia volta, mas já era tarde demais e um Will com sangue nos olhos já bloqueava seu caminho.

— Você está me expulsando da minha própria casa? — perguntou, descrente. — Só pode ser brincadeira.

— Will, nós dois sabemos que você vai ser um problema nesse jantar. — um pouco sincero demais para o momento, ela pensou assim que as palavras saíram de sua boca. — Por favor, eu ainda não tenho amigos na vizinhança e isso é importante para mim.

— Pois bem, se é importante para você, é importante para mim também. — debochou. — Vejo você na hora do jantar, querida.

Dito isso, ele percorreu a sala a passos firmes e saiu batendo a porta da frente, pronto para mais um maravilhoso dia de trabalho e um jantar ainda melhor.

***

Clarita Jones era, definitivamente, uma mulher que assustava qualquer um. Absurdamente pequena, além de rechonchuda, a mulher de meia idade sempre exibia uma face carrancuda e, ao invés de respirar como qualquer outro ser humano normal, ela soltava longas bufadas impacientes. O marido, por sua vez, tinha o dobro de seu tamanho, era esguio e insistia em ser chamado de Jeff — mesmo que todos soubessem que aquele era provavelmente um apelido. Sobre o filho adolescente do casal, que abrira a boca apenas para flertar com Alex, a anfitriã do jantar preferia não comentar nada — estava começando a pensar que sortudos eram Billy e Carter, que ficaram presos em seus respectivos trabalhos ao invés de trancafiados na mesma sala de jantar que o retrato perfeito da Família Addams.

— Boa noite. — Alex cumprimentou sorridente, abrindo a porta para a família.

— Boa noite. — a matriarca cumprimentou de volta, enfatizando a primeira palavra.

Sabendo o que ela queria dizer, Will indagou:

— Ou talvez não.

Como ele já deveria esperar, Alex o repreendeu com uma discreta cotovelada na altura do diafragma, o fazendo tossir pesadamente.

— É uma bela casa que vocês tem. — elogiou o Sr. Jones, quase batendo a cabeça na luminária da sala.

— Obrigada. — Alex agradeceu, sentindo-se como se pudesse respirar perto do homem.

— Assim como a moradora. — emendou o filho do casal, Daniel, sorrindo maliciosamente para a moça.

Pronto, lá se fora seu momento de respiração. Sem graça, ela não conseguia pensar em uma resposta.

— É uma pena que ela não é a única que mora aqui. — Will retrucou.

Sem saber se agradecia ou se assustava por vê-lo sorrindo — mesmo que forçadamente —, Alex agradeceu em sua mente quando ouviu o barulho do timer do forno.

— Entrem, sentem-se. — ela disse, guiando a família até a cozinha e certificando-se de manter distância do adolescente maníaco durante o percurso.

Jeff se sentou em uma cabeceira da mesa e sua esposa mal humorada ao seu lado. Daniel acomodou-se ao lado da mãe e sorriu novamente quando percebeu que o único lugar vago era cabeceira ao seu lado e a única pessoa de pé era Alex, que, percebendo onde se metera, calçou suas luvas de cozinha apressadamente.

— E, diretamente do forno, vem aí uma lasanha à bolonhesa caprichada. — ela anunciou em tom descontraído, tentando quebrar a tensão formada à mesa entre a família, Rayan e, especialmente, Will. — Espero que gostem.

— Hm, está cheirando muito bem. — disse Jeff, esticando ainda mais seu longo nariz sobre a travessa. Apesar de claramente subordinado à esposa, ele parecia ser um homem de bem.

— Você disse à bolonhesa? — perguntou Clarita, levemente acusadora.

— Sim. — Alex respondeu lentamente, como se confessasse um crime.

— É uma das especialidades desta jovem. — Rayan cutucou a amiga com o cotovelo, deixando claro que estava pronto para apoiá-la contra aquela megera.

— Eu adoraria provar se isto é mesmo verdade... — a mulher dizia, intercalando o olhar entre a comida e os três morados sentados à mesa. — Se não fosse alérgica a carne bovina.

Em silêncio, Alex processou a informação.

— Quem diria, alérgica a própria espécie. — sussurrou Will.

— O que disse?! — Clarita perguntou em um tom alterado, querendo confirmar se o que ouvira certo.

— Que é uma péssima alergia. — interveio Alex, controlando a situação. — Sorte que eu sempre mantenho uma saladinha pronta na geladeira.

— Por acaso acha que eu sou gorda para precisar comer salada?

— Não, não foi o que eu quis dizer. — disse Alex rapidamente, levantando-se. — Posso preparar outra coisa, como a senhora desejar.

— Lagosta. — disse a mulher fazendo um biquinho ao pronunciar a palavra.

— Lagosta? — retrucou Alex, descrente.

— Sim.

— Eu comi a última semana passada, madame. Sinto muito. — indagou Rayan, que se sentia um merecedor genuíno do Nobel da Paz. Que seus amigos o perdoassem, mas ele estava se divertindo com a situação.

— Que tipo de casa não tem lagosta? — Clarita perguntou a si mesma, indignada.

— A nossa. — respondeu Will depois de um bom tempo em silêncio, irritado. — Algum problema?

— Will! — repreendeu Alex, agarrando a barra de seu vestido florido.

— O que? — ele se levantou para se igualar a ela, que estava de pé há algum tempo. — Você realmente acha que eu vou deixar essa megera entrar na nossa casa e ficar falando esse monte de babaquice?

— Jeff! Você vai deixar esse insolente falar assim com a sua esposa? — insultada, a mulher virou-se apenas para encontrar o marido atracado a um prato de lasanha. De frente para ele, Rayan fazia o mesmo. — Imprestável.

— Você não tinha esse direito. — indagou Alex, fitando Will.

— Alto lá! Eu não sou o vilão dessa história. — retrucou Will, na defensiva. — Quer saber? Eu disse que isso ia dar errado e eu estava certo.

— Não, não. — em tom de correção, Alex continuou. — Eu disse que você ia estragar tudo e, advinha só? Eu estava certa!

— É errado que eu esteja excitado com tudo isso?

Todos os olhares se voltaram para o adolescente, que tentava segurar o riso de ansiedade. Bufando, Will simplesmente deu as costas para todos e saiu pela porta dos fundos, batendo a mesma. Por Deus, qual o problema que ele tinha com as malditas portas?

— Isso sim é um jantar polêmico. — comentou Rayan, de boca cheia. Quando viu Alex caminhar lentamente até o sofá e se sentar em silêncio, ele sentiu a necessidade de fazer algo. Por que? Ele não fazia a menor ideia. — É uma pena que acabou.

Determinado, ele se levantou e se dirigiu até a porta dos fundos. Porém, antes de mais nada, ele correu até à mesa e roubou mais um pedaço de lasanha pela última vez. Antes de fechar a porta atrás de si, ele pode ouvir a mini megera chamá-los de loucos — ou algo que rimasse com isso, nunca se sabe.

— Cara, você é cego ou só um babaca? — ele perguntou ainda com resquícios de comida na boca, assim que avistou o amigo sentado em uma das cadeiras de plástico abandonadas propositalmente no quintal.

— Se você esta aqui para tentar concertar alguma coisa, esse é um péssimo jeito de começar.

— Eu não quebrei nada para precisar concertar. — indagou, se defendendo. — Bem, eu acho que não.

— Rayan, foco. — disse Will, acordando o modelo.

— Sim, claro. — balançou a cabeça. — Will, não é possível que você não tenha notado a necessidade que aquela mulher tem em agradar as pessoas e simplesmente tentar fazê-las felizes. Fala sério, até eu percebi. — sim, ele tinha a coragem de dizer aquilo com orgulho. — Eu não porque diabos ela faz isso, se é algum problema de infância ou mental, mas, sério, ela só quer fazer o maldito bem! Por que você acha isso um problema tão grande?

— Eu não acho...

De repente, ele se auto interrompeu. O que ele achava? De onde vinha todo aquele mau humor? Merda, sentia que se continuasse pensando sua cabeça poderia simplesmente explodir. Não importava sobre o que ele refletia, sempre acabava se sentindo um...

— Filho da mãe! — exclamou Rayan, assustando o amigo para fora de seus pensamentos. — E se aquele poste humano resolveu levar minha lasanha antes de ir embora?

Subitamente, ele se levantou e saiu correndo, trombando com Alex, que abria a porta no exato momento em que ele passava feito um furacão.

— O que diabos você... — ela não pode terminar, pois em questão de segundos estava falando sozinha. — Está bem, então.

Ela e Will deram uma longa risada do amigo, até encontrarem um ao outro. Alex deixou a porta se encostar sozinha e deu alguns passos para frente.

— Hey. — ela disse, com um pequeno sorriso no rosto.

— Hey. — ele repetiu, pensando se aquela não seria uma boa hora para que um buraco se abrisse no chão e o engolisse.

— Foi um jantar em tanto. — sem cerimônia, ela puxou uma cadeira para mais perto da dele e se sentou, deixando os ombros caírem.

— Sinto muito que não saiu como você planejava. — sim, realmente sentia e estava sendo sincero sobre isso. — Especialmente porque, você sabe, foi minha culpa.

— Não, não foi. — Alex o corrigiu; um hábito que ele, normalmente, odiava. — Você não era a bruxa sentada à mesa reclamando de tudo ou, graças ao bom Pai, o adolescente ninfomaníaco.

— Eu fui, um dia. — admitiu, rindo. Arregalou os olhos quando percebeu o que tinha acabado de falar. — Quer saber, esquece essa parte.

Ela gargalhou, recostando-se na cadeira.

—Eu estava tão errada quando disse que não tinha amigos nessa vizinhança.

— Você não está se referindo a...

— Estou falando de vocês, Will. — ela o interrompeu ainda rindo, antes que ele pudesse mencionar a família que havia assombrado seu jantar.

— Nossa, como você é lerdo, cara! — exclamou Rayan de dentro da casa, claramente com a boca cheia, de novo.

— Vai se ferrar! — gritou de volta.

— É disso que eu estou falando. — disse Alex, gesticulando. — Eu já tenho todos os amigos que preciso. E que vá para o inferno quem não gostar deles!

— Wow, devagar com o vocabulário, mocinha. — zombou. De repente, um pensamento cruzou sua mente. — Alex, eu acho que nós não somos muita coisa. Você poderia fazer amizade com a vizinha do 201, quem sabe.

— A mexicana simplesmente maravilhosa e, de bônus, solteira? — ela perguntou, sabendo onde ele queria chegar.

— Talvez. — respondeu, fingindo não ligar.

Alex riu de sua cara de pau.

— Eu posso convidá-la para jantar, qualquer dia desses. — concordou positivamente com a cabeça. — Só me lembre de lhe perguntar se é alérgica a carne bovina ou qualquer coisa do tipo.

Ele a fitou, horrorizado ao se lembrar de Clarita.

— Quer saber? Nós somos o suficiente. — disse, rapidamente.

— Você acha? — ela sorriu e se levantou. — Vamos, nós ainda temos uma lasanha para devorar.

— Eu realmente duvido que Rayan tenha deixado algo além da travessa para a gente lavar.

— E a outra lasanha que ainda está no forno? — ela perguntou, orgulhosa de si mesma.

Ele se levantou num pulo, esticando as roupas.

— Minha heroína.

Rindo, ele jogou um braço sobre ela e os dois partiram para uma sangrenta guerra com o estômago sem fim de Rayan.

Notas finais
E aí, o que acharam? Aguardo opiniões nos comentários! Até a próxima