Quatro Bruxos - Hogwarts, Uma História
7 Capítulo 6 - Predição
Notas iniciais
A madrugada naquela aldeia bretã estava quente como se o sol houvesse acabado de nascer. Era um lugar diferenciado, com pessoas também distintas. Ali a magia era uma dádiva, e não uma maldição. Os mágicos viviam em harmonia, supostamente longe de tudo aquilo que o Rei condenava. Rowena estava sozinha próxima à gruta sagrada. Era nela onde os mágicos pediam ajuda a Merlin, que alguns anos atrás fora como um pastor para aquela pequena sociedade. Alguns bruxos deixavam bilhetes, outros rezavam em pensamento. Alguns até diziam que Merlin era tão próximo de Deus, que podia estar em todos os lugares do mundo, ao mesmo momento.
O céu estava negro, quase sem estrelas. A garota, segurando o diadema prateado que ganhara em seu aniversário de dez anos, viu um menino pequeno, sentado sobre uma pedra em frente a gruta. Ela nunca o tinha visto antes. Era pálido, olhos azuis a gentis. Olhou para ela como quem pretende dizer “olá”, mas timidamente.
– Qual o seu nome, garotinho? – Rowena Ravenclaw se aproximou.
– Tenho muitos nomes. – ele disse abrindo um sorriso. – Mas você pode me chamar de Tempo.
Rowena riu. Quando era criança, também inventava nomes para si mesma. O garoto parecia ter em torno dos sete anos de idade, mas algo nele era extremamente envelhecido. Talvez sua alma.
– E onde estão seus pais? – a bruxa sentou ao seu lado.
– Eles vão aonde eu vou. Não devem estar longe. – o garoto disse tranquilo. Sua voz soava firme, sem destoques.
– Estranho um menino de sua idade andar sozinho a essa hora. – Rowena censurou, mesmo tendo a certeza de que o mesmo era mágico assim como ela, e poderia ter feito algo para aparentar aquela juventude.
– Notou que já se passaram sete anos desde que Merlin esteve nesta aldeia?
– Lembro como se fosse ontem. – Rowena olhou para o seu diadema.
O garoto deu uma risada.
– Está na hora de você colocar isso aí na cabeça de novo. – Tempo disse, convencido.
– É só um enfeite.
– Não, não é. – o garoto disse sério. – É o seu terceiro olho, por isso o diamante ao centro.
– O que? – Rowena se esforçou para entender, mas a cada palavra que Tempo dizia, a que vinha a seguir era ainda mais enigmática.
– Isso que ouviu. Você nasceu com um dom extraordinário, mas que foi tirado de você quando nasceu. Merlin o devolveu para você através desse diadema. Então use-o, lhe trará a glória de ser lembrada por toda a eternidade.
Rowena levantou da pedra, e encarou o garoto de baixo a cima. Ele vestia uma túnica cinza grafite, semelhante à de um monge.
– Como sabe de tudo isso? Afinal, o que é você?
– O que eu sou? – a voz do garoto pareceu mais suave, quase como um eco. – Sou o minuto, a hora, os meses e os séculos. Fui dividido assim pelos homens dessa vida, e devo admitir que acho bem pertinente, levando em conta que sou interminável. Sou o aviso, sou o instante, o pensamento constante que passa por toda a matéria do universo. Eu não tenho idade, pois nunca nasci. Não tenho forma e não tenho voz. O garoto que você está vendo e ouvindo é uma projeção que estou criando na sua mente agora mesmo, pois não há melhor forma de comunicar um espírito que não seja através da imagem e do som. Merlin faz parte de mim, mas esse é apenas um nome. Ele tem o dom de realizar milagres, assim como Jesus, que igualmente possui alma tão pura e tão iluminada, a ponto de se sacrificar pelo bem das demais criaturas que habitam este espaço.
Rowena ficou estática. O garoto se tornou translúcido, a ponto de quase desaparecer.
– Eu sou infinito. – ele continuou. – Eu sou o infante finito. Também pode me chamar de Deus.
E apagou-se, completamente.
Rowena permaneceu no mesmo lugar. Não sabia realmente o que estava sentindo depois que o garoto sumiu, mas sabia que era uma sensação maravilhosa, uma vontade de sorrir inestimável. Olhou mais uma vez para o diadema, colocando-o em frente aos olhos. As asas de águia contidas nele nunca pareceram tão brilhantes, e o diamante azul parecia ter vida, como um céu profundo esperando para ser descoberto. Sem demorar muito mais, colocou o diadema sobre a cabeça. O diamante ficou posicionado exatamente sobre o centro de sua testa. A partir daquele instante tudo pareceu mais claro. Lembranças muito antigas voltaram a sua memória subitamente, e outras imagens começaram a se formar em seus pensamentos. Imagens que nunca tinha visto, mas que sabia que veria em breve.
Rowena encarou o céu negro. Seus olhos, como se de alguma forma se ligassem a ele, escureceram-se até chegar ao preto. A imagem de uma adolescente, de longos cabelos loiros, veio a sua mente. Ela colhia flores em um campo de orquídeas, a noite, e carregava consigo um cálice dourado preso ao cinto. De um momento para outro, uma nova imagem passou por seus aforismos encarando ao céu. Um jovem ruivo, fardado, lutando com uma espada magnífica. Depois veio uma imagem turva, cinzenta, de um garoto pálido, em um ambiente com muito sangue, próximo a um lago.
Um trovão fez as visões de Rowena desaparecerem. A sensação de clareza continuou, embora os possíveis devaneios tivessem acabado.
– Predições. – ela disse a si mesma. – São eles quem eu tenho que encontrar.
O diadema em sua cabeça resplandecia uma luz incrível, forte a ponto de iluminar a escuridão daquele pequeno pedaço de gramado. Já devia ter passado da meia noite, e os aldeões estariam todos dormindo. O feixe de uma luz específica direcionou-se ao sul de Rowena, e parecia vir do diamante. Era como se estivesse indicando um caminho, uma rota a ser seguida. Andando em largos passos, o que aos poucos tornou-se uma corrida, a bruxa seguiu a direção indicada.
A luz sumiu, e tudo o que pode ver foi um pássaro caído ao chão. Um grande pássaro, cor de bronze. Uma águia, de olhos fechados. Inerte, mas não parecia ferida. Como se um vento rondasse apenas ela, seu corpo de animal tomou a forma de um graveto bronzeado, com uma garra na ponta.
– Uma varinha? – Rowena perguntou a alguém imaginário, embora soubesse que estava sozinha no campo. – Mas apenas magos escolhidos possuem varinha.
Para ela, poucos bruxos eram capazes de canalizar magia através de um cetro. Em toda a sua vida conheceu apenas algumas famílias de bruxos que tinham as tais varinhas. Dizia-se que a varinha era responsável por gravar a memória dos feitiços, e consequentemente, aperfeiçoa-los. Mas para ter uma, era requerido muita concentração e capacidade mental. Boatos referiam quem as fabricava, como um abençoado de Merlin.
O céu, bem pouco estrelado, transmitia uma energia adversa. Rowena apontou a varinha ao céu, e dela saiu um ser brilhante, como um protoplasma. Era grande, a aos poucos foi possível constatar que se tratava de uma grande águia. Novamente águia. Ela batia suas asas como se realmente estivesse voando, e seguiu para a mesma direção que antes indicara o feixe de luz no diamante. Rowena, sem instrução do que fazer, resolveu segui-la. Depois de alguns minutos a correr atrás da suposta águia luminosa, a bruxa se encontrou em um imenso jardim de orquídeas. Subitamente a águia, como se voltasse para dentro da varinha, sumiu.
– Mas que lugar é esse? – Rowena não se lembrava daquele local. Na verdade, nunca tinha estado lá.
Um assovio, alegre e doce, pode ser ouvido se aproximando. Era leve e agudo, tão perfeito a ser confundido com o som de um sabiá.
– Quem está aí? – Rowena disse, ainda segurando a varinha, não sabendo se sentia medo ou curiosidade.
Uma garota jovem, não muito alta, surgiu entre as orquídeas. Seus olhos extremamente escuros pareciam dois buracos na noite, contrastando o cabelo extremamente dourado.
– Sou Helga Hufflepuff. Vi seu patrono há vários metros. – disse a garota jovem, aliviada por ver uma bruxa assim como ela.
– Patrono?
– A águia. – disse a menina, sorrindo. – Eu jamais pude ver o meu. Você deve ser muito forte para ter conseguido conjurar um.
– Eu não conjurei nada.
Helga deu de ombros, muito tranquilamente.
– E qual é o seu nome? – Helga perguntou, embora seu olhar soasse desinteressado.
– Rowena Rawenclaw. E acho que já te conheço, Helga. Talvez de um sonho.
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