Quatro Bruxos - Hogwarts, Uma História
4 Capítulo 3 - Por Desvios
Notas iniciais
Godric/Rowena
Os dois jovens caminharam durante o resto da tarde. Rowena estava exausta. O soldado prometeu que a levaria para casa, de modo que não a incomodassem ainda mais depois da confusão no centro.
– Ainda não me disse o seu sobrenome. – Rowena perguntou, sem demonstrar muito interesse.
– Gryffindor. – o soldado ruivo sorriu. – Eu sei, não é muito comum. Minha família é antiga, mas não deixou muitos descendentes. Agora sou só eu.
– Então também é órfão. – Rowena levantou o olhar, em tom conclusivo. – Não conheci meus pais, morreram poucos dias depois que nasci.
Houve silêncio por alguns instantes, mas a bruxa logo retomou a conversa.
– Você trabalha para o rei. – Rowena emanou um sorriso de desprezo. – Como consegue?
– Sobrevivência. Até onde eu sei, o mundo é dominado pelos não mágicos há muitos anos. São violentos e pouco tolerantes, possuem armas de fogo, tecnologia avançada. Mas é preciso aprender a lidar com eles, ou você não sobrevive. – Godric reparou a expressão assombrada da jovem. – Me diga, Rowena, você odeia os não mágicos?
– Não, não odeio. Gosto de pessoas com caráter, e ter caráter independe de ser mágico ou não.
– Concordo. Há muitos não mágicos bons nesse mundo. E um dos motivos que trabalho para o rei, é para ajudar os bruxos como nós. Faço tudo o que posso para protegê-los. Não sei se ficou sabendo, mas um bruxo notável foi morto esta semana, a Inquisição do Santo Ofício o queimou vivo.
– Becrux Black?
– Sim.
– Aquele homem era do tipo bárbaro de bruxo. Soube que a família dele escraviza elfos para fazerem o serviço doméstico. Um absurdo! E isso está se tornando um hábito, pois já vi outros bruxos fazerem o mesmo.
– Existem muitos bruxos desumanos por aí. – Godric fechou os olhos, como se estivesse tendo uma lembrança.
– Eu só quero seguir minha vida de modo objetivo. Sei que sou especial e farei algo mudar.
Os dois chegaram a um amontoado de rochas. O por do sol as iluminava de tal forma que as pontas das pedras parecessem chamas. Godric já sabia onde estavam. Era o local em que os aldeões culturalmente não aceitos moravam, e muitos deles eram bruxos e, se não eram, conviviam com eles em harmonia. Preferiam se isolar do restante da população por medo da opressão do rei. Alguns bruxos mais radicais mantinham suas casas em lugares completamente isolados, como uma montanha ou uma floresta.
– Por acha que é especial, Rowena? Por ser uma bruxa? – Godric a encarou, quase rindo.
– Foi Merlin quem disse. – ela disse, junto a um olhar convicto.
Godric desprendeu o riso, incrédulo.
– Merlin é um mito.
– Não, não é. Foi ele mesmo quem me ensinou a arte da adivinhação.
O jovem soldado sentiu um arrepio. Já fazia tempo que não ouvia o nome do mago Merlin de forma tão espontânea. Quando Godric era pequeno, ouvia seus pais falaram sobre ele, como ele protegia seus iguais, ou lutava pelo bem comum entre os mágicos e não mágicos. Havia muitas histórias contando sobre seus feitos, mas nenhuma era de total certeza. Alguns diziam que ele vivia em diversas épocas ao mesmo tempo, por isso indicava caminhos e tentava conscientizar as pessoas que lhe pediam ajuda, como se já previsse o que poderia ocorrer a cada desvio mal feito.
– Nesse caso, acredito que temos muito que conversar. – Godric se despediu, com um suave aperto de mão. – Boa noite, Rowena.
Helga
Ela já tinha caminhado muito, durante um dia e uma noite inteira. A égua Charlotte andava ao seu lado, devido ao cansaço. E Helga jamais a forçaria a continuar carregando seu peso. Depois de pararem perto de um riacho, a bruxa desmaiou, provavelmente de fome. Acordou algumas horas depois em uma cama. Um quarto pequeno, onde pela janela já era possível ver a noite chegando.
Levantou da cama vagarosamente, e viu um prato com comida sobre o criado mudo. Instintivamente, o devorou em questão de pouco minutos. Perguntava-se como foi parar naquele lugar. Ouviu barulhos vindo do lado de fora do quarto. Alguém estava se aproximando da porta. Rapidamente, pegou o primeiro objeto que conseguiu alcançar, um castiçal, e o posicionou diante de si, de modo que pudesse se defender de quem quer que fosse.
– Não tenha medo, criança. – disse uma mulher idosa. Era um tanto gorducha, cabelos grisalhos presos em um coque. – Não lhe farei mal.
Helga devolveu o castiçal ao balcão.
– Desculpe, mas... Onde estou?
– Em minha casa. – disse a velha mulher. Sua voz era fina e riscada, como um assovio falho. – Não se preocupe. Sua égua foi cuidada e alimentada, agora está descansando lá fora.
– E quem é a senhora? – Helga perguntou sem jeito. A última coisa de que se lembrava era do momento em que andava ao lado de Charlotte pela mata fechada, a fim de fugir do Lord Lovat.
– Meu nome é Maria. Meu neto a encontrou quando foi pescar e me chamou. Então resolvi lhe ajudar, vi que estava muito fraquinha. Qual é o seu nome?
– Helga Hufflepuff.
– E quantos anos tem, menina?
– Quatorze.
– Dois anos a mais que meu neto. – concluiu a idosa, sorrindo. – Toda a nossa família morreu de varíola, agora sou a única pessoa que ele tem. Cuidamos um do outro. Onde estão os seus pais?
– Tudo que sei é que meu pai voltou para Germânia, e não quis saber de ter uma filha. Já minha mãe, trabalha no feudo do Conde Dietrich. Eu... – Helga ficou quieta por alguns instantes. – Eu fugi de lá.
– Sei onde fica, não é muito longe. Mas por que você fugiu? Você sofria lá?
– Não chegava a ser sofrimento, afinal vivi a vida toda cercada por aqueles muros e aprendi a me acostumar. Mas também estava muito longe de felicidade. Os trabalhadores são como escravos, trabalham em troca de pouquíssimo alimento, e não podem ultrapassar os muros. Tive a oportunidade de escapar, e escapei. Agora preciso arranjar um meio de buscar minha mãe.
Maria sentou na cama e fez sinal para que Helga se juntasse a ela.
– Tem mais alguma coisa que queira me contar, Helga?
A garota sentiu um tremor. Aquela pergunta, embora dispersa, soou como um baque direto a um assunto bem específico. Apenas sua mãe sabia de sua identidade mágica. Ficara sabendo de casos em que o Rei mandou matar bruxos e bruxas apenas por serem o que eram. E se aquela mulher fosse extremamente católica? Religiosa a ponto de acreditar que mágicos eram seres essencialmente das trevas?
– Não, senhora. Nada que tenha importância.
Salazar
Os dois dinamarqueses, pai e filho, caminhavam no meio de um bosque não muito longe do centro. Estavam caçando qualquer animal que considerassem comestível, ou seja, qualquer mamífero. Já fazia alguns anos que moravam na Bretanha e, assim como muitos bruxos tradicionais na Ilha, não se importavam muito em se esconder da sociedade não mágica. Famílias como a Black, Peverell ou Dumbledore, não faziam tanta questão em mascarar suas origens e preferiam agir com fatuidade e, se preciso, brutalidade. A família Slytherin surgiu no extremo norte da Europa, ao nordeste da Dinamarca. Uma família de bruxos vikings milenar, que acabou se destruindo ao entrar em uma guerra com os não mágicos, que formavam uma maioria esmagadora no país. Então Soren e Salazar, dois dos poucos sobreviventes da família, fugiram para a Bretanha.
Ao chegarem a uma clareira, o garoto de quinze anos viu uma coisa se mexer entre as folhagens do outono caídas sobre o gramado. Sacou uma espécie de espada do bolso, levemente curvada, com o cabo feito de prata.
– Que lugar é esse? – disse uma voz suave e sibilante. Uma voz que poucos, bem poucos, seriam capazes de interpretar.
Salazar olhou para trás e avistou o pai mirando sua varinha para um animal na árvore, provavelmente uma raposa. Mas a voz que ouvira não tinha vindo de lá. Ela vinha de baixo da folhagem, onde segundos atrás tinha visto as folhas se mexerem. Assim que as folhas se espalharam com o vendo, o garoto pôde enxergar parte do animal.
– Eu consigo te entender, serpente. Sou um bruxo, e não lhe farei mal. – disse Salazar, com a mesma voz sibilante, dita naquela língua serpentina.
A folhagem se mexeu um pouco mais, e debaixo dela saiu uma cobra acinzentada, com escamas um tanto mais grossas do que o normal. Não era tão grande, e parecia ter dificuldade para rastejar.
– Salazar, se afaste! – gritou Soren, puxando o filho para trás. – É um basilisco! Mas que beleza!
Salazar, sem entender nada e surpreendido pelo pai, deu um pulo. Soren soltou uma risada.
– Um filhote! – concluiu o bruxo, deixando de lado a raposa já morta. – Não vejo um desses há décadas. Como será que veio parar aqui?
Salazar deu de ombros. Como o basilisco era apenas um filhote, ainda não tinha maturidade o suficiente para abrir os olhos, portanto, menos mortífero do que um adulto, que mata com o olhar. O garoto já tinha ouvido falar dos Basiliscos, pois sua família toda sempre manteve relações com serpentes.
Subitamente, uma multidão de pessoas se aproximou da clareira onde a serpente mística e os dois bruxos estavam. E pela expressão em seus rostos e pelo que seguravam nas mãos, não pareciam querer ter uma conversa gentil.
– Aquele homem fala com as cobras, cria bebidas para confundir os sentidos e assassinou um cavaleiro do Rei usando apenas um graveto! – disse o homem vestido com uma túnica preta, havia um crucifixo de ouro em torno de seu pescoço. Apontava o dedo magro e ossudo para o bruxo dinamarquês. – Ele não pertence a esta terra! É um bárbaro!
Soren retirou a varinha do bolso, como quem saca uma espada. Salazar pegou o filhote de basilisco e o enroscou sobre seu corpo.
– Eles são muitos, pai. – disse Salazar, firmemente.
– Nós os mataremos, filho. Você sabe iremos conseguir, não sabe?
Salazar balançou a cabeça positivamente. E apesar de toda sua confiança, teve um mal pressentimento. Eram cerca de cinquenta civis, todos segurando tochas, facões, e qualquer coisa que pudesse ser utilizada para matar alguém.
– Peguem os bruxos! – ordenou o suposto padre, em seguida olhou para o filhote. – Matem aquela criatura e entreguem sua cabeça ao Rei! Não queremos demônios na Bretanha!
Soren lançou a maldição da morte no homem do crucifixo, que tombou no gramado, pálido. Alguns da multidão se apavoraram pela luz verde saída da varinha e correram para diversas direções, tentando ir o mais longe possível dali. Mas a maioria ficou. Lançavam flechas com fogo e mais tudo o que podiam nos dois bruxos. No início, pai e filho se defenderam, conseguindo matar boa parte daquelas pessoas em questão de minutos. Soren era a arma. Salazar era o escudo. O filhote de basilisco se mantinha agarrado a Salazar, enroscado entre seu tronco e braços, como um bebê se aninha ao calor da mãe.
Uma flecha de fogo conseguiu atravessar a pequena fresta entre o feitiço de proteção criado pelo jovem. Salazar ouviu apenas um barulho rápido, cortante, causado pela ponta de lâmina em chamas que furou Soren Slytherin no peito. Ao enfraquecer dos corpos e das mentes, mais flechas conseguiram atravessar a barreira mágica. Uma delas atingiu o antebraço esquerdo do filho.
– Corra, Salazar! – Soren gritou, em língua de cobra. Seus olhos cinzentos estavam semiabertos, seu corpo em chamas da cintura para baixo. – Eu já estou morto.
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