Quatro Amigos

6 Sexta parte


Os azuis dos olhos de Carlos cintilavam quando ele começou a falar:

Eu só queria... dizer que eu tenho muita sorte de ter vocês como amigos Os três garotos não conseguiam acreditar naquelas palavras, era isso que chamavam de alucinação coletiva? Quer dizer, véio, vocês são tão ferrados que para eu me sentir bem é só lembrar da vida de vocês. Dá alivio na hora, melhor que maconha.

Cala boca, Carlos, você só fala merda Douglas acusou. Estava quase começando a gostar de você.

Gostar de mim, Dogão? Sai fora ow, aqui não vende rosca quente não.

Credo, menino, você parece um coice ambulante Raul falou e não aguentou e começou a rir sozinho.

Um coice nas bolas, né? Um daqueles bem dados Martin concordou, rindo de leve da cara do garoto.

Com quem você está saindo, hein, doidão, para saber como é que é um coice bem dado nas bolas? Segura suas potrancas, irmão.

Hey, quinta-série, mas respeito com as garotas, principalmente as minhas.

Você tem tantas assim, Martin, garanhão? Douglas questionou casualmente, sorrindo de lado enquanto espreguiçava as costas. Uma parte dos braços tinha se sujado de areia branca e seria impossível limpar sem também sujar as mãos ou as roupas.

Vocês me entenderam. É que não é legal falar assim de mulher, pô. Sem elas não somos nada.

Até hoje o Carlos sobreviveu Raul comentou e recebeu um olhar nervoso do menor. Queria brincar com ele para provar a si mesmo que conseguia não ser apenas protetor e levar as coisas mais na brincadeira.

’Tô vendo que o Martin é um rapaz de princípios, defensor do mulheril, um homem para casar Douglas debochou conseguindo alguns risinhos. Por que você não apresenta sua irmã para ele, Carlos?

’Tá louco? Minha irmã já é casada.

Você não tem duas? Raul lembrou sabiamente.

A outra está grávida, você quer? E levantou o rosto para o mais velho em pé à sua frente, parecia que estavam em um leilão, só faltava o menino negociar o valor em coxinha.

As mãos de Martin agarraram o rosto do pequeno e os dedos começaram um tipo de massagem esquisita, apertando e esfregando o rosto rechonchudo, pele branca da pele dele ficando rosada pelo estimulo de circulação no sangue, como se fossem várias pessoinhas sambando no rosto de Carlos, mas não doía nem incomodava muito.

Ela também não casou? Douglas assuntou.

Carlos afastou aquelas mãos com tapas e depois fez uma careta de desgosto.

Sai doido, larga meu rosto! Ah, então, acho que ela deve ter engravidado de um saco de batata, porque de um homem que não foi. Vai ser mãe solteira, está morando com a minha tia porque nosso pai não quer nem olhar para a cara dela. O filho da peste do namorado dela não pensou duas vezes em juntar seus Nikes furados e se mandar.

Eita poxa, você filhos de pastor não são fáceis não, hein? Sua irmã não tem só uns dezesseis anos? Martin questionou, surpreso.

Carlos deu de ombros. Ficar sentado naquele balde estava deixando sua bunda dormente.

Algo assim. Mas ela não tem culpa, porra.

Alguma culpa ela tem sim, desculpa, mas ela devia ter se protegido Douglas falou.

Raul o olhou meio sem acreditar naquela frase. "Ela deveria ter se protegido"? Sério mesmo? A culpa era só dela então?

O cara também, né? Mas na hora do gostoso ninguém lembra, aí sobra para quem? A mulher, né. Você acha isso justo, hã? Carlinhos rebateu.

Raul negou com a cabeça, mesmo que a pergunta não tivesse sido para ele. Estava participando da discussão apenas como um telespectador. Era mais divertido ficar vendo onde aquilo poderia dar.

Claro que não é justo, nenhum cara tem que largar uma mulher só porque ela ficou grávida.

Foi inevitável para Douglas lembrar-se do irmão, seus pais haviam se separado pouco depois do nascimento deste e aí sobrou tudo para os ombros da mãe.

Agora seu pai vinha dizendo que ela não tinha condições de cuidar dos filhos só porque estava doente, mas aonde estava aquele homem zeloso pela integridade dos filhos quando Rafael ficou três dias internados em um hospital público e caótico com pneumonia? Ou quando caiu e machucou a sobrancelha em um brinquedo e precisou levar pontos? Onde estava seu pai quando Douglas foi assaltado e chegou em casa tremendo e com o coração querendo sair pela boca? Ele não estava, mas sim sua mãe, que sempre fez de tudo para proteger seus filhos, mas que também estava lá cuidando deles quando aconteciam coisas que ninguém poderia controlar. Seu pai nessas horas? Bem, ele estava solto no mundo, se apaixonando novamente, tendo outros filhos e sendo feliz sem olhar para trás.

Desta vez, era sua mãe quem precisava ser protegida e ele seria homem suficiente para ficar, porque tinha aprendido isso com uma mulher.

Um homem de verdade tem que ter responsabilidade falou.

Os três olharam para Douglas que tinha o rosto duro, mas a voz calma, e concordaram.

De todo modo, não preciso nem dizer que a melhor opção é sempre evitar uma situação dessas usando camisinha Martin falou olhando para cada um ali e, como poucas vezes acontecia, agiu como o mais velho e experiente deles. Nós somos jovens e uns idiotas, já imaginou algum de nós sendo pais de alguém? Ou responsáveis por manter alguém vivo? Não, nem pensar, o Douglas mesmo ia deixar o menino tanto tempo no sol que iria fritar os neurônios do moleque. Sem falar que isso vai ferrar com os nossos planos. Sua irmã mesmo, Carlos, por exemplo, sem querer parecer que estou julgando sua família, mas ela está estudando ainda?

Sim, na verdade, ela só está de três meses e vai conseguir terminar esse ano de boa, mas isso não significa que não vai ‘tá fodida ano que vem. Quer dizer, a escola que ela está até ajuda porque aqui no Brasil adolescentes engravidando é mais comum que gritos de "vai Corinthians!", mesmo assim, a Rebecca teve que largar um estágio que tinha começado porque mudou de cidade e, meu, foi muito feia a conversa dela com os nossos pais, até eu fiquei com dó da criatura. Ela praticamente foi obrigada a sair da nossa casa e se não fosse essa tia, pô, ia pagar as fraudas rodando bolsinha na esquina.

Situação braba Douglas murmurou, ninguém sabia mais o que dizer sobre aquilo. Além da situação ser caótica, também era bastante surpreendente ver Carlos falar de sua família tão naturalmente, talvez pela primeira vez com tantos detalhes Por isso precisamos focar nos nossos estudos, mais que qualquer outra coisa. Você, Carlos, não perca tempo, corre atrás de suas notas para não perder o ano. Vai aparecer muita coisa para nos atrapalhar ainda, mas não podemos perder o foco.

Isso mesmo, carinha Martin dizia para Carlos. Se tem uma coisa que meus pais me ensinaram é que não conseguimos fazer nada sem conhecimento e vontade. Esse país já sacaneia quem é pobre oferecendo um ensino inferior, um sistema caótico e opressor, mas, agora, se ninguém tomar nenhuma atitude, ficar só sentados reclamando e esperando oportunidades bater à porta ao invés de correr atrás do prejuízo, nada nunca vai mudar. Dá tempo ainda, vai na diretoria, conversa com os professores e dá um jeito de melhorar as notas, mas não perde o ano não, você só vai estar atrasando sua vida.

Assim como Carlos tinha feito com ele antes, Douglas esticou os braços e apertou de leve seus ombros para confortá-lo, mas este soltou um grunhido alto e se levantou com um salto. Os meninos o olharam de forma estranha. Ninguém entendeu que Carlos fez isso porque Douglas havia apertado seu ombro que foi machucado na escola naquela manhã.

Calma, cara, vou fazer nada contigo e riu por ter sido surpreendido. Parecia que tinha dado choque no menino.

Preciso ficar em pé, nesse balde não cabe minha bunda, daqui a pouco entra no cu. Tentou disfarçar a cena de um segundo atrás, caminhando para alongar as pernas.

As sábias palavras do filho do pastor Martin debochou, ao que puxava o loirinho para perto e bagunçava seu cabelo.

Vai ficar me tirando por causa disso para sempre, né? Bosta, não deveria ter contato nada, vocês são muito imaturos resmungou indignado e todo mundo riu disso.

E lá iam e vinham as ondas, dançando, a Lua toda cheia de marra no meio da noite, toda linda e vigilante. A brisa faltava e, também, umidade no ar, mas você já esteve numa praia deserta à noite? É lindo, não se precisa de mais nada. É como se desse para se sentir o dono de toda aquela imensidão, e tem coisa melhor para seres tão minúsculos, mas obcecados pelo poder, como nós humanos, que sentir-se o dono de um pequeno infinito?

O mar é feito de lágrimas, infinitas lágrimas perdidas no tempo da humanidade, e na praia do sul do estado de São Paulo, numa noite de semana, quente e silenciosa, aquelas águas de sal tinham donos. Quatro donos.

O que vocês acham que vai acontecer com a gente? Raul pensava que qualquer resposta dos amigos fosse melhor que a dele. Não estava otimista, na verdade, o futuro lhe parecia esmagador, o vilão de sonhos inocentes.

Carlos sentia-se inquieto, uma vibração crescente em seu peito. Queria sair correndo e nunca mais parar. Sentir a mesma liberdade de uma competição de atletismo, quando tudo que existia era o asfalto, seus pés e a linha de chegada.

Ele não sabia se quando começasse a correr onde chegaria, onde seus pés simplesmente o levariam sem destino, mas a ideia o agradava. Não importava realmente onde aquilo ia dar, o melhor era a sensação de correr, de ser livre, poder escolher ir adiante, mesmo sem pensar, porque seguir em frente é coisa natural para gente. Como um pássaro no abismo que não cai mas voa, nós, seguimos em frente, torcendo para que nosso caminho dê em um bom final.

Não importa ele respondeu, remexendo os pés. Aquelas palavras pareceriam vagas para outras pessoas, mas os quatro se entendiam. Não dava para perder tempo pensando no que ia acontecer no futuro, sabe? A vida é agora, ficamos nos preocupando, fazendo planos, nos adiando por medo, e para quê? O amanhã é só uma promessa.

Douglas que estava com os lábios desenhados em um pequeno sorriso, pegou o balde ao seu lado e começou a batucá-lo, procurando o ritmo certo.

Eles precisavam extravasar um pouco.

As mudanças acontecem segundo por segundo, porque até mesmo parados, estamos sempre correndo de encontro a alguma coisa. O destino pode ou não existir, mas confie que você exista. Tem gente que vai vivendo e parece que nem acredita nisso, como se tudo fosse ilusão. Essas pessoas, das vidas de aparência, estão se perdendo, a teia dos dias se enrolando em seus pescoços, enquanto lutam para sobreviver.

Os livros nos contam histórias que afirmamos ser mentirosas, mas, e a sua vida, como você prova que é real?

Douglas batucou, batucou, batucou. Os sons que arrancou do pequeno objeto se conectaram com a linguagem da música, contando uma história.

As mãos grandes e frias dançando em sua superfície lisa. Douglas começava sua serenata para a noite, solitário no começo, mas logo sendo seguido pela voz doce de Martin, que conhecia aquela batida e a letra que a acompanhava. Os pés inquietos de Carlos ganharam vida própria, foram até Raul e o puxou.

Eu disse: deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? Não tô fazendo nada, você também, faz mal bater um papo assim gostoso com alguém? Martin cantava no ritmo, um pouco desafinado no começo, mas quem ligava? Carlos e Raul dançavam discretos, não juntos, nem separados, a música ditando seus movimentos. Douglas batucava assistindo os amigos, até que foi contagiado por aquela empolgação simples, se levantou com o balde, batucando, batucando. Vai, vai, por mim...”

Douglas também começou a cantar, as duas vozes se unindo em uma só.

Balanço de amor é assim, mãozinhas com mãozinhas pra lá, beijinhos com beijinhos pra cá. Vem balançar, amor é balanceio, meu bem, só vai no meu balanço quem tem, carinho para dar...

Os quatro formaram uma roda, logo todos acompanhando com as mãos o ritmo das batucadas de Douglas, e cantavam juntos:

Vai, vai, por mim, balanço de amor é assim, mãozinhas com mãozinhas pra lá, beijinhos com beijinhos pra cá. Vem balançar, amor é balanceio, meu bem, só vai no meu balanço quem tem, carinho para dar... Os pés sambavam de formas diferentes na areai branca, a Lua vigiando aqueles garotos felizes Vai, vai, por mim, balanço de amor é assim, mãozinhas com mãozinhas pra lá, beijinhos com beijinhos pra cá. Vem balançar, amor é balanceio, meu bem, só vai no meu balanço quem tem, carinho para dar... Carinho para dar...

A batida acabou, mas Carlos não perdeu tempo:

Conheço outra Douglas o olhou atento o esperando para acompanhá-lo, como uma orquestra de um homem só, os dedos tamborilando o instrumento musical improvisado A cigana leu o meu destino, eu sonhei! Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante, e eu sempre perguntei: o que será... o amanhã?

Douglas reconheceu a música ‘O amanhã’ de Simone, um samba lindo, e sorrindo, fez a base da batida e o acompanhou cantando:

— "Como vai ser o meu destino?

Já desfolhei o mal-me-quer.

Primeiro amor de um menino...

E vai chegando o amanhecer, leio a mensagem zodiacal

E o realejo diz... que eu serei feliz.

Sempre feliz..."

Martin puxou Raul pelos braços e realmente começou a dançar com ele, colados. E daí? Eram os donos da praia. Sorriam um para o outro.

Douglas cantava de olhos fechados e as quatro vozes se uniram naquela noite perdida em um pedacinho do mundo.

Como será amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser... Como será?... Como será o amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser...

Mas a cigana!...

A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei
O que será?
O amanhã?
Como vai ser?
O meu destino?
Já desfolhei
O mal-me-quer
Primeiro amor
De um menino...

E vai chegando o amanhecer
Oh! Oh! Oh! Oh!
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz...

Entre todos, era Carlos que tinha a voz mais melodiosa, suave e afinada. Costumava cantar no coral da igreja e aprendeu algumas coisas. Foi ele também que escolheu a próxima música, mas desta vez, todos pararam para olhá-lo. A voz tão linda saindo pela boca pequena e rosada e as notas vibrando no ar. O tempo pareceu passar lento. Não havia mais batuques, ninguém mais bagunçava a areia branca.

Foi um momento surpreendente e singelo.

Os dedos de Raul tocaram os braços de Douglas, uma mão segurou seu pulso com leveza. Martin caminhou mais perto de Carlos, levado por aquelas palavras. Suas expressões eram impossíveis de descrever. Sentiam o coração apertado. O balde de plástico caiu para o chão sem que Douglas se dessa conta, enquanto lágrimas caiam dos olhos de Carlos e suas palavras ressoavam no universo.

E ele cantou, forte e certo, para a Lua e cantou, também, para os seus amigos, e sua voz era a mais triste e mais bonita que qualquer um jamais tinha escutado.

Raul quase podia jurar, a Lua tinha cedido um pouco do seu brilho para aqueles olhos azuis...

Ventou forte, e só a novidade deste acontecimento embalado com aquelas palavras tão intensas e emocionadas, fez com que houvesse um arrepio coletivo.

Mais lágrimas desceram dos olhos de Carlos, a letra da música contava a sua história. Tinha escolhido de propósito, era sua maneira de desabafar os seus problemas.

As mãos foram para a regata ele se despiu.

A luz da Lua revelou o seu segredo. A letra contava a sua história.

Tinham lhe batido tanto... E tantas vezes...

Por quê, Deus? Por que batiam nele?

Tentou se esconder em lugares desativados na escola, mas nunca estava seguro. E quanto mais medalhas ganhava, quanto maior seu rendimento no clube e bons resultados em competições, mas vezes eles o procuravam. Odiavam-no, diziam que desejavam sua morte, que ele não merecia viver. Batiam no corpo, somente, para não dar na vista, com chutes, socos, uma vez usaram madeira e, ainda, humilhavam-no de todas as formas possíveis, o tratando como uma besta, diziam que se ele contasse para alguém seria a sua morte, mas por quê?

Por que o odiavam tanto?

Ele não aguentava mais apanhar... Seu corpo estava sendo destruído.

No entanto... por mais estranho que pareça, isso só o motiva para correr cada vez mais rápido a cada competição. Seus números eram imbatíveis, estava sempre melhorando. E corria por medo, por desespero... Fugindo de todo aquele ódio, sentindo-se, mesmo que por apenas alguns instantes, livre.

Carlos só parou de cantar quando recebeu um abraço de seus amigos. Raul também tinha lágrimas nos olhos. As palavras se diluíam no silêncio até que só restassem suas respirações.

Desculpem Carlos falou quando a dor quis esmagar seu peito Eu devia ter contado antes, mas... É tão ruim... Desculpem Sua voz era cortada por emoções, tristeza, vergonha...

Eles tinham tantas perguntas... Quem? Desde quando? Por quê?

Mas era Carlos que estava ali ferido, com a alma sangrando. Aquela pequena criança...

Algumas respostas podiam esperar.

Agora vai ficar tudo bem, está ouvindo? Martin segurou o rosto do mais novo com as duas mãos tremulas. Estamos com você.

Carlos assentiu e chorou.

Douglas olhou para o mar sem fôlego.

Aquilo era um infinito de lágrimas refletindo suas vidas.

Alguns minutos se passaram misturando-se em reflexões e melancolia, até que Douglas se decidiu.

Temos que entrar falou e os outros o olharam.

O que? Martin perguntou confuso.

No mar, temos que entrar.

Por quê? Raul não entendeu.

Douglas olhou demorado para Carlos.

Vamos, loirinha, vamos entrar pediu.

Nem fodendo, velho. O rosto podia estar molhado pelo recente desabafo, as cicatrizes que por tanto tempo teve que esconder agora visíveis, mas ele ainda era o mesmo. Ou não era? Você enlouqueceu de vez, cuzão.

Douglas sorriu e tirou a blusa.

E isso é um problema? Rebateu.

Raul fez uma expressão pensativa, então deu de ombros e também começou a se livrar das roupas.

Eram os donos do mundo, porra.

Martin viu àquilo sem acreditar. Suas roupas caras?

Ah, que se foda. Jogou a mochila na areia, desabotoou a calça jeans, se livrando dela em seguida.

O que vocês estão fazendo seus retardados? Eu não vou entrar nesta merda. ‘Tão loucos? Desde quando eu entro em missão suicida? Porra, isso não é jeito de me confortar. ‘Tão pensando o que? Vamos lá comprar pastel... Véios, eu não vou entrar não, sinto muito.

Os três já estavam só com suas peças intimas.

Douglas olhou para Carlinhos.

Você que sabe disse calmo, com aquele tom que todos já estavam acostumados, a expressão suave. Então caminhou para o mar.

Martin ainda estava um pouco descrente, mas...

Se joga, criança murmurou antes de se afastar.

Carlos olhou para Raul, perplexo.

Até você? Essa água deve estar um pesadelo! Tentou argumentar.

Raul deu de ombros.

E o que não é pesadelo? E caminhou calmo para as águas, deixaria que elas limpassem seus medos.

Eles estraram devagar e ao mesmo tempo, a água não estava muito gelada por causa do mormaço.

Carlos olhou em volta, não tinha mais ninguém ali. Seus amigos eram loucos.

Ele se agachou para pegar a regata que vestia antes do chão, suja de areia agora. Olhou para aquele tecido velho e gasto...

Tomar no cu essa merda!

Do que ele tinha tanto medo?

Jogou a regata no chão. Tirou os tênis, o shorts...

Sempre teve medo.

Medo de tudo.

Medo de dar o primeiro passo, medo de se perder... De ser julgado, ser menos que qualquer outro.

Mas quem o estava julgando ali?

Eram só eles...

Vem, quinta-série! Te ensino a nadar cachorrinho Martin gritou, o grandão jogando água nos amigos.

Carlos riu e caminhou em direção daquela imensidão.

A água nem estava um pesadelo. Estava normal. Seu corpo quente gostou de ser abraçado por aquela sensação desconhecida. Foi como se o mar afogasse seu desespero e pegasse todas as suas aflições e as levassem para o esquecimento.

E lá estavam eles, numa noite de quinta-feira numa praia do litoral sul de São Paulo, juntos outra vez. A vida continuaria no dia seguinte, Carlos acordaria atrasado para a escola, pegaria carona com seu pai; Douglas sairia de madrugada e caminharia três quilômetros até o colégio; Raul ouviria seus pais discutindo no café da manhã antes de ir para a faculdade e Martin ouviria músicas todo o caminho de ônibus até seu cursinho.

Sexta-feira chegaria, sábado, domingo... Semanas virariam meses, que virariam anos, que virariam uma vida inteira. Logo viria o vestibular, a pressão da família, buscas por empregos, as cobranças para alcançarem suas metas...

Mas tudo isso ainda era só uma promessa, porque naquela noite o que existia era simplesmente a lua, a dança das ondas... e quatro amigos.

~ Não é o fim ~

Alguns anos depois...

Ele me olhou de um jeito diferente e... eu meio que só percebi. Ficou claro. Depois de anos sendo só amigos, não dava mais para se enganar.

Eu já não estava conseguindo disfarçar que estava apaixonado por ele.

Mas, eu não fiquei surpreso. Não consigo explicar para vocês o que eu senti. Foi como se eu sentisse alívio de um peso que eu nem sabia que estava carregando... Fiquei com medo, feliz... Foi a coisa mais louca que me aconteceu.

Mas eu demorei para pedi-lo em namoro.

Dois minutos.

É verdade. Haha.

Vocês têm tanta sorte de terem se encontrado, gente. Muita sorte. Queria eu poder viver algo assim...

Talvez você esteja olhando de maneira errada, perdendo tempo tentando descobrir quem é a pessoa certa, mas isso nem importa de verdade, sabe? O amor pode estar em qualquer lugar, não tem essa de pessoa certa ou errada. Vai ser quem você quiser, quem te fizer feliz.

Eu não sei se dou conta de escolher.

Estaremos aqui para te fazer companhia, não se sinta só. Você pode nos procurar a hora que quiser.

É, você já sabe onde nos encontrar. Estaremos esperando por você.

~ Porque não existe fim para o que está só começando ~

“Como será amanhã?

Responda quem puder.

O que irá me acontecer?

O meu destino será como Deus quiser”

Notas finais
Se você chegou até aqui, obrigado :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!