Já estava quase dormindo quando a Lívia bateu na minha porta.

–Laura, o jantar já está pronto.

–Eu tenho mesmo que descer.

–Claro que tem, o seu pai vai ficar uma fera se você não aparecer lá em baixo em dois minutos.

Meu pai á um moreno alto muito bonito. Realmente quando eu o olhava eu via o que fez uma top model largar as passarelas por ele, além do dinheiro é claro. Mas ele era rígido e isso entre tudo fez com que o casamento dele desandasse. Além de ser muito ocupado, meu pai era muito ríspido com a esposa e a única filha. Ele não sabia demonstrar afeto se é que ele sente algum sentimento naquele coração de pedra.

Independente de tudo ele é o meu pai e eu sempre o defendia com unhas e dentes, embora ele nunca me desse atenção. Ele sempre quis um filho homem, e pelo fato de eu ter nascido menina e minha mãe ter se recusado a ter outros filhos ele me culpava, me tratava mal e ate mesmo me ignorava. Quando eu era menor isso partia o meu coração. Eu via os outros pais indo buscar seus filhos na escola e o motorista sempre ir me buscar porque meu pai não tinha tempo pra mim.

Mas isso só me magoava no passado, que foi quando eu mais precisei de meus pais. Agora eu aprendi com o tempo a ser forte.

–Já tô descendo.

Desci lentamente já me preparando para toda a encenação.

–Boa noite filha_meus pais falaram juntos.

–Boa noite.

–Jonathas, você vai para o morro amanha.

–Eu vou Vivian, mas eu não demorarei muito não. Aquela gente me da nojo. Aqueles traficantizinhos que se acham os donos do mundo, aquelas meninas que...

Ele parou no meio da frase refletindo com sigo mesmo.

–O que você achou de lá Laura?-meu pai me perguntou.

–Bom.

–Só isso que você tem a dizer, que achou lá bom.

–Sim-falei entre garfadas.

–Filha, por favor, esse projeto é importante para o nome da nossa família. Se você fizer besteira, a besteira irá respingar em todos os membros desta família.

–Não irei fazer besteira papai.

–Acho bom você não fazer nenhuma besteira mesmo. Pela primeira vez na sua vida mostre que é digna de levar consigo o sobrenome dos Becker.

–Sim papai. Posso me retirar?

Tinha ficado mal com esse ultimo comentário do meu pai. Minha vontade era de me trancar no quarto e chorar. Mas eu tinha que ser forte.

–Não, mostre educação e aguarde que todos terminem.

E assim tinha se esgotado todos os assuntos daquela família mais que feliz.

Minha mãe tinha visto toda aquela humilhação e tinha ficado em silencio. Isso era o que mais me magoava nela. Claro que o abandono também doía mais o descaso e a falta de interesse em me defender doía muito mais.

Lembro quando a Lívia foi ao colégio pra reclamar com um menino que tinha xingado a Sol, vi como ela ficou chateada por sua filha ter sido maltratada. Eu tinha mais ou menos uns dez anos e naquele momento eu soube que minha mãe nunca faria a mesma coisa por mim.

Terminado aquele tormento, subi rapidamente e me tranquei no meu quarto. Não queria mais saber de nada nem ninguém, como previsto aquele dia foi intenso e amanhã seria a mesma coisa, já que seria a festa de inauguração da ONG. Só queria saber de dormir e descansar um pouco.

Meu telefone começou a tocar, era o Caio. Ótimo, não queria falar com ele neste momento, toda a sua melação era a ultima coisa que eu estava precisando agora. Desliguei meu celular e fui dormir.

Um par de olhos verdes invadiu o meu sonho.