Quarentena

1 Capítulo Único


Notas iniciais
oi gente - se é que tem alguém lendo essa palhaçada que eu vou postar pois n tenho vergonha na cara. - queria que a principio voces levassem essa fic na brincadeira e como uma forma de descontrair durante a quaretena e o período de isolamento social. vejam essa one como uma forma de descontrair em meio a um momento pesado e negativo.
espero não ter ofendido ninguém com essa história, e por fim, espero que vocês gostem dessa palhaçada aqui.
~vamos torcer para que eu não apague nos próximos dias por conta da vergonha alheia ~

boa leitura amores ♥

“Eu não aguento mais ficar trancafiada nessa casa!” A menina exclamou se jogando em um dos sofás da sala, seu corpo afundou no tecido macio enquanto a mesma grunhia olhando para o teto.

Já fazia algum tempo de que sua família tinha adotado o método de isolamento social para não se contagiarem com o novo vírus, e Flávia como uma boa estudante de medicina veterinária tinha plena noção de que aquela era a medida certa a se tomar, porém não podia evitar se sentir terrivelmente entediada. Ela já tinha feito tudo que estava a seu alcance, no primeiro dia assou um bolo e fez um recheio de doce de leite maravilhoso, depois colocou toda a matéria da faculdade em dia, tinha feito sua unha e pintado com sua cor favorita – vinho -, tinha até mesmo terminado de ler aquele livro que estava empacado em sua estante. E agora, cinco dias depois que tinha ficado trancafiada em casa, ela só desejava poder fazer algo para que o tempo passasse mais rápido.

Tinha sido ruim até para a Dona Fonseca, que era uma professora de história do ensino médio e que tinha combinado de se encontrar com um colega nova de trabalho. E ainda mais para o pai da menina, que não pode entrar em quarentena e teve de continuar trabalhando.

Sua mãe já estava acostumada ao ouvir os resmungos da filha pela residência, então apenas a ignorava enquanto cantarolava a primeira música do Cazuza que lhe vinha a cabeça. O pai ainda estava trabalhando, e o irmão mais novo corria pela casa brincando com seus carrinhos aproveitando as “férias” adiantadas pelo governo.

De alguma forma aquele clima tinha se tornado quase que fúnebre para ela. Flávia era uma garota da cidade, São Paulo nunca tinha ficado tão sem graça para ela como agora. As ruas tinham perdido seu movimento, os vizinhos não levavam mais seus filhos para brincarem no parquinho da esquina, e ela não ouvia mais o barulho do carro do churros já faziam dias.

Como era possível que sua cidade tivesse ficado tão monótona?

Bufou, desbloqueando a tela de seu celular pela enésima vez ainda naquela tarde quente de março. A princípio ela abriu o Instagram, mas nunca achava nada demais naquela rede social, então rapidamente se mudou para o Whatsapp, ficou alguns momentos olhando para a tela do celular sem vontade alguma de responder as mensagens de seus amigos ou de colegas da faculdade perguntando sobre como seriam aplicadas as matérias online. Então, se viu – novamente – abrindo o Twitter. Era quase que como um ciclo vicioso. Se não estava assistindo o jornal em busca de novidades, ou lavando suas mãos furiosamente no banheiro, estava no Twitter.

A garota deslizou seu dedo pela timeline sem saco para ler o que as pessoas estavam falando sobre quem tinha sido eliminado no Big Brother, então resolveu procurar ler qualquer tweet que não fizesse referência aquele programa. Foi aí que ela se deparou com um tweet de uma conta que ela nem se lembrava de sequer ter seguido, dizendo o seguinte “alguém para me levar pra praia nessa quarentena? Daria tudo para sextar em Santos agora.”

Ela deu uma revirada de olhos que pareceu internalizar todo o seu desgosto no âmago de sua alma.

“Que garoto burro”, resmungou.

Olhou novamente para o teto branco, e então devido ao tédio de sua situação, resolveu responder aquele sujeito aleatoriamente e chamá-lo de irresponsável por sequer considerar uma quarentena como férias.

Acabou o seu tweet tentando explicar da forma mais polida e profissional possível o porquê de ele não poder sair de casa, afinal ela tinha local de fala para aquilo, era uma estudante da área da saúde. Assim que apertou no enviar, bloqueou a tela do celular e ligou a televisão. Estava passando um filme que ela já tinha visto diversas vezes, O Clube dos Cinco, mas acabou assistindo até o fim.

Flávia acabou adormecendo no sofá, e quando acordou seus cabelos cacheados tinham sido domados por um frizz assustador. A garota bocejou se ajeitando no sofá, pegando o celular no automático. Surpreendeu-se ao perceber que o estranho tinha a respondido.

“Relaxa docinho, porque ao invés de me ensinar termos médicos, você não vem aqui cuidar de mim?”

Ela abriu a boca chocada com a audácia do sujeito, sentiu seu corpo tremer de raiva ao perceber que ele tinha feito um trocadilho com a sua foto de perfil, que era justamente a Docinho das Meninas Super Poderosas.

“Vai tomar no cu”, respondeu sem paciência, soltando seu celular no sofá e indo em direção a cozinha preparar algo para comer – depois de lavar as mãos, é claro.

Abriu a geladeira e ficou ali parada, olhando para o nada, ainda indignada em como aquele garoto poderia ser tão sem noção a ponto de dar em cima de alguém que ele nunca tinha sequer visto na vida. Por fim suspirou resignada, já devia estar acostumada com a maturidade de garotos, que para ela era a mesma coisa que nada.

Fez rapidamente um sanduíche e se serviu com um resto de refrigerante, pegou sua comida e sentou-se novamente diante da televisão – esperando que sua mãe não a visse e desse uma bronca na mesma. Ligou a televisão no canal de notícias, assistiu tudo atentamente enquanto comia dando o seu melhor para não sujar o sofá. De toda forma, ela não se surpreendeu com o que viu na tela. A situação piorava cada vez mais na Europa, o que significava que consequentemente iria piorar no Brasil. Assim que a reportagem foi interrompida por um pronunciamento do presidente, ela desligou a televisão sem vontade alguma de vê-lo falar.

Já tinha terminado de comer, e novamente, estava entediada.

Olhou para o ecrã do celular. O estranho tinha respondido.

“Poxa se for com você, eu largo a quarentena e vou”.

Por mais insano que fosse Flávia se pegou rindo, e logo repreendeu a sua risada. Aquele era um estranho sem noção tinha usado uma conversa sobre quarentena como se fosse o tinder. Ela não deveria rir do fato que ele era desprovido de neurônios.

A garota pegou seus cadernos e resolveu revisar a matéria que já tinha tido na faculdade, passou um tempo a mais estudando sua matéria favorita do semestre, Biologia Celular, mais conhecida como Citologia. Ela adorava tudo que tinha a ver com células, como elas funcionavam, como ficavam doentes, como se protegiam.

Depois de algumas horas distraída estudando, Flávia se viu novamente vagando por sua timeline do Twitter, e novamente se deparou com uma postagem do mesmo garoto que agora dizia “coronavírus? Não senhor, eu tenho carentevírus”.

Seu cérebro dizia para não dar corda para aquele ali, já tinha uma noção de que ele não devia bater muito bem. Mas acabou respondendo.

“Sem cura pra você então.”

Não demorou dois minutos para que ele respondesse, seguido de um emoji feliz.

“Minha cura é o seu beijo poxa”.

“Qual o seu nome?”, ela perguntou.

“Pedro”, respondeu.

“Vai tomar no olho do seu cu Pedro”, ela respondeu usando o mesmo emoji com o sorriso.

Flávia ficou surpresa quando mesmo depois de toda a grosseira o tal de Pedro curtiu sua resposta, e continuou a respondendo.

“Já falei que adoraria fazer isso com você. Aliás, qual o seu nome?”

Ela se viu revirando os olhos novamente, era verdade que ela nunca tinha conhecido um Pedro que não fosse meio dodói das ideias. Todos eles eram ou irritantes ou irresponsáveis. E na sua faculdade nem se falava, tinha um Pedro para cada sala de aula. Era como uma cota de Pedros que o governo tinha dado como extremamente necessária. Se ela fosse no Parque do Ibirapuera e sacudisse uma árvore, com certeza iria cair um Pedro sem noção de lá.

Pensar no Parque do Ibirapuera fez com que ela suspirasse triste, já fazia um bom tempo que ela não ia naquele parque, até porque não era tão perto assim de sua casa. Mas, céus, como ela daria tudo para poder sair de casa e fazer alguma coisa, qualquer coisa, que era normal no seu dia a dia.

Se viu com saudade da sua faculdade, mesmo com toda aquela galera que cabulava aula para passar dois períodos seguidos bebendo no bar. Ela que costumava odiar o bar que ficava ao lado do seu campus, agora estava sentindo vontade de ir lá beber uma bebida geladinha.

“Pedro, eu recomendo fortemente que você passe num psicólogo.” Ela digitou rapidamente e apertou em enviar.

O mais engraçado daquela história era que ela estava se sentindo ansiosa para receber uma resposta do garoto, apesar de ele ser incrivelmente sem noção, estava conseguindo fazer com que ela se distraísse por alguns momentos.

Contudo a resposta dele não veio, o que a decepcionou, por um motivo que nem ela sabia.

A noite chegou para a residência dos Fonseca. A família se reuniu para jantar, o pai da menina contava como tinha sido seu dia de trabalho, reclamando sobre alguma coisa que seu chefe tinha feito. Todavia a mente da menina estava tão longe que ela acabou não prestando atenção.

“E então filha, você não vai reclamar dessa vez?” sua mãe perguntou com um sorriso divertido no rosto.

A menina olhou para a mãe sem expressão.

“O que eu posso fazer mãe? Reclamar não vai fazer com que o vírus pare de se propagar.” Respondeu entristecida.

“A Flávia não está reclamando?!”seu irmãozinho mais novo gargalhou “Ah, eu não acredito nisso nem que me paguem. Espera só, amanhã ela já vai estar choramingando pela casa”.

A garota revirou os olhos, dando a língua para Davi.

Assim que a janta terminou e a louça já estava devidamente guardada, Flávia deu boa noite para seus pais e seu irmão, e foi se deitar em seu quarto. Como de costume ela pegou o celular, respondeu algumas pessoas e ficou na espera pela resposta do tal Pedro que nunca vinha.

“Alguém por favor me ajude a fugir de casa eu não aguento mais a quarentena”, ela postou e então deixou o celular cair em sua testa.

Passaram-se alguns minutos até que seu aparelho vibrasse, apressadamente Flávia desbloqueou o celular esperançosa mas acabou soltando um resmungo quando percebeu que quem tinha a respondido no Twitter fora seu amigo Rodrigo.

“Amiga para de fogo no cu, você não é estudante de med vet? Faz esse favor pela população paulista e fica dentro de casa flor.”

Flávia respondeu o amigo pedindo para que ele a deixasse reclamar, já que esse era o intuito daquela rede social. E foi nesse exato momento que ela recebeu duas notificações dele.

Pedro tinha curtido a resposta de Rodrigo, e ainda por cima tinha citado o tweet.

“Quer dizer que ela mora em São Paulo e faz Veterinária? Caralho Chorão, eu realmente sou o bicho.”

Um sorriso de canto surgiu no rosto de Flávia enquanto ela se preparava para responder aquele idiota.

“E quem disse que eu vou me entregar para você na segunda, ou muito menos na terceira vez?”

Mal ela imaginava que Pedro, do outro lado da conversa ria da cara dela, com uma resposta na ponta da língua.

“Já dizia Charlie Brown JR, é como tudo deve ser.”

Agora ela já não mais revirava os olhos, apenas ria das coisas que Pedro lhe falava.

“O nome dela é Flávia, a propósito.” Vitor respondeu a Pedro, que prontamente o agradeceu. Já Flávia replicou o tweet do amigo com vários emojis bravos “TRAIDOR”.

Não se passou muito tempo para que Pedro a chamasse na DM, aquele patamar ela já não se importava mais com o humor estranho do garoto ou a sua mania de citar Charlie Brown do nada. Na verdade, aquilo estava de alguma forma a divertindo.

“Olá Flávia, prazer”.

“Eai Pedro, desprazer”.

Dali em diante os dois começaram a conversar pela DM, e Flávia mal viu o tempo passar enquanto trocava algumas farpas com Pedro enquanto a madrugada passava. Eles tinham passado tanto tempo conversando, que ela nem sabia onde tinham parado quando acabou cansando e dormindo com o celular na mão.

Percebendo que a menina tinha adormecido, Pedro mandou uma última mensagem.

“Boa noite, cuidado pra não sonhar comigo.”

...

Os dias se passaram e de alguma forma inexplicável, Flávia e Pedro conseguiram desenvolver uma amizade bem estranha porém engraçada. A Dona Fonseca não via mais sua filha reclamando pela casa, porque a mesma estava ocupada rindo olhando para a tela do celular, o que tinha sido uma mudança drástica no comportamento da menina. Os dois se cumprimentavam de manhã com a trocação costumeira de farpas, uma ora ou outra Pedro conseguia dar o seu jeito para dar em cima da menina, que apenas o ignorava ou tirava sarro dele, e assim a conversa seguia.

Até mesmo os amigos mais íntimos de Flávia tinham reparado na mudança, Rodrigo tinha feito questão de divulgar no grupo dos amigos no Whatsapp que a Fonseca estava conversando com um garoto que tinha conhecido no Twitter, e era por isso que ela não tinha tempo para responder as mensagens no grupo.

E bem... Quando Rodrigo tinha o nome de uma pessoa na internet, pronto, era o suficiente para ele fazer uma pesquisa digna de FBI.

“Amiga, queria você ou não, eu vou descobrir quem é esse tal de Pedro que você tá conversando. Já parou pra pensar que ele pode ser um pedófilo?” o amigo indagou preocupado durante uma ligação.

Flávia riu, alegando que a culpa era dele por ter divulgado informações dela para Pedro sem que nenhum dos dois o conhecesse. Até disse para o amigo deixar a investigação de lado, mas aquilo não aconteceu.

No dia seguinte Rodrigo ligou novamente, e de acordo com ele, tinha informações fresquinhas.

“Pois bem Flávia, tenho algumas notícias. A primeira é que o Pedro não é fake. A foto ridícula de perfil dele no meio da praia não existe em nenhum outro lugar do Google. Outra ponto a ser embasado é que ele também está na faculdade, e pelos posts mais recentes dele, ele faz biologia marinha. Agora o tombo vem amiga, adivinha em qual universidade?”

Flávia levou a mãe a testa, sentindo uma leve dor de cabeça ao ter que absorver o tanto de informação que o amigo estava atirando contra ela tão rapidamente.

“Não sei, nunca perguntei.” Respondeu com sinceridade.

“Na mesma faculdade e no mesmo campus que a gente”.

A garota abriu a boca surpresa.

“Como você descobriu isso?” Indagou. Sempre se surpreendia com as capacidades de investigação de Rodrigo.

“Ué, eu achei o Instagram dele. Tá tudo lá na bio.”

“Como assim o Instagram dele Rodrigo?”.

O amigo riu do outro lado da linha.

“Ele usa a mesma foto no perfil do Insta, por isso foi fácil de achar.”

“Eu tenho medo de você Rodrigo Barbieri” Flávia disse sombriamente do outro lado da ligação, porém seu amigo apenas dava risada da situação. “Mas eaí, o que tem demais no Insta dele?”

“Por que a pergunta? A senhorita está interessada?”

“Cala a boca”, ela murmurou ao mesmo tempo em que um leve rubor se espalhava por suas bochechas.

Passaram-se alguns breves momentos de silêncio para que Rodrigo finalmente continuasse a falar, e conhecendo o amigo, ela sabia que ele provavelmente estava gesticulando a beça em sua casa enquanto falava com ela.

“Nada demais. Ele tem algumas fotos de costas para as paisagens, e uma foto do pescoço para baixo tocando violão. Sabe ele parece aquele tipo de boy conceitual que sabe surfar e andar de skate. Acho que ele é um bom partido amiga.”

Flávia ignorou a fala do amigo.

“Rô, você acha que ele está me stalkeando? Porque a gente já se seguia no Twitter”.

“Amiga, acho que você esqueceu que você segue mais de duas mil pessoas no Twitter e vive fazendo dando follow back. A nossa universidade é enorme, e, aliás, as chances de ele ter te achado no Twitter só com o seu nome são nulas. Até porque o seu nome de usuária é ‘estudante cansada’, vai por mim. É mera coincidência.”

A garota acenou com a cabeça, não queria jogar aquelas informações para cima de Pedro e descobrir se o garoto de fato estava a stalkeando. Primeiramente porque ele iria rir da sua cara, e achar que ela estava afim dele só por ter tido todo o trabalho de stalkear e achar a conta dele no Instagram. E segundo porque as chances de alguém de sua faculdade encontrá-la no Twitter de fato eram nulas.

“Agora algo me diz que você queria que fosse verdade porque-“

“Cala a boca Rodrigo” ela cantarolou desligando na cara do amigo.

...

No meio tempo que se passou, Pedro e Flávia ficaram realmente próximos a ponto de assistirem filmes por ligação. A princípio Pedro era insuportável, porque os dois tinham decidido assistir “Homem Aranha” do Tobey Maguire e ele ora ou outra começava a dar sua opinião em forma de piada sobre qual dos quatro homens aranha era o melhor. Foi uma discussão que levou um dia inteiro para que os dois entrarem em um consenso de que na verdade o melhor homem aranha era o Miles, de “Homem Aranha no Aranhaverso”.

Depois, como já estavam em uma vibe meio nerd, os dois resolveram assistir Star Wars juntos. E claro, eles discutiram. Enquanto Flávia gostava mais da primeira trilogia, Pedro era fanático pela prequel. Mas ao menos os dois concordavam que a nova trilogia da Disney era no mínimo ruim.

E por fim os dois começaram a conversar no Whatsapp, lugar onde Pedro a enchia o saco enviando figurinhas sobre o tal coronavírus e o frequente hábito da menina de lavar as mãos.

Depois de longas duas semanas infernais, que foram suavizadas pela troca de mensagens e ligações realizada entre os dois. As coisas começaram lentamente a voltar ao normal. Era fato de que algumas pessoas vieram a óbito por conta da doença, e que boa parte da população tinha sim respeitado todo o processo de quarentena e isolamento social.

Mesmo assim a doença não tinha se dissipado, ainda haviam pessoas doentes e o vírus ainda estavam em ação, contudo de forma moderada para que os hospitais tivessem leitos o suficiente para que as pessoas pudessem ser atendidas quando houvesse necessidade. E agora a população estava na espera da divulgação da vacina, que ainda iria demorar, o que implicava que a população apesar de estar de volta para a rotina, ainda devia tomar cuidados básicos de higiene e respeitar o espaço pessoal alheio.

“Suas aulas voltam amanhã?” Pedro perguntou do outro lado da ligação.

Era domingo, o último domingo do mês de março mais especificamente. Flávia já tinha tudo organizado para poder voltar para a sua costumeira rotina de trabalho – faculdade – casa.

“Sim, mal posso esperar para sair de casa. E as suas aulas?”

“Também voltam amanhã.”

A voz dele pelo lado da ligação soava rouca e um pouco preguiçosa, como se ele não estivesse realmente com vontade de ir para a aula no dia seguinte.

“Ok Docinho, vou deixar você dormir. Dá para perceber o cansaço na sua voz”.

Flávia franziu o cenho, já tinha se acostumado com aquele apelido brega que Pedro tinha lhe dado por conta da sua foto de perfil, só tinha estranhado ao perceber que de fato ela estava cansada. Mas aquilo era de se esperar já que se passava da uma da manhã.

“Uma pena que a gente não fugiu nessa quarentena.”

Ela riu.

“A gente não precisa de uma quarentena para fugir”.

“Meu Deus, o que acabou de acontecer? Flávia Fonseca finalmente respondeu um flerte meu? Não acredito”, ele disse dando risada do outro lado da ligação.

“Pedro, faz o favor da calar a boquinha”.

“Infelizmente eu não posso calar a minha boca na sua, então tudo bem, você se safou dessa vez”.

Os dois riram.

“Boa noite seu idiota”.



“Mano Flávia, você pode pelo amor de Jesus Cristo, parar de esfregar as suas mãos nesses álcool em gel feito uma maníaca? Você sabia que a sua neurose com limpeza pode virar um comportamento obsessivo?” Rodrigo disparou a falar enquanto a colega saía da sala de aula esfregando uma mão na outra em direção a cantina da Universidade.

“Pode parar por aí! Já sei que você vai começar a falar um monte de coisa de psicanalista.”

Rodrigo fez uma careta, por ser um estudante de Psicologia e por de fato, demonstrar certo interesse na corrente Freudiana, Flávia sempre que podia tirava sarro do amigo. Para ela qualquer coisa que remotamente estivesse ligada a sexo, poderia ter alguma referência com algum escrito de Freud.

“Mas e aí, como vai com o seu namoradinho?” ele perguntou cutucando a menina que sorriu ao mesmo tempo em que revirava os olhos.

“Eu e o Pedro não estamos namorando! Eu nunca vi ele pessoalmente.”

“Webnamoro amiga, é algo super comum nos dias atuais.”

Flávia se virou para o amigo com uma sobrancelha erguida.

“E por quê diabos eu namoraria alguém a distância, sendo que nós moramos na mesma cidade e frequentamos a mesma faculdade?”

“Então quer dizer que você por algum momento considerou namorar o Pedro?” Rodrigo indagou bem alto, chamando atenção das pessoas enquanto caminhavam pelos corredores da faculdade.

A sorte dela era que Pedro era um nome absurdamente comum, mas mesmo assim acabou por surpreender seu amigo com um tapa estalado no braço.

“Aí! Puta que pariu, buceta, caralho Flávia”.

A garota sorriu maldosa.

Os dois foram até a cafeteria e logo entraram em uma fila na cantina para comprarem um salgado, perceberam que ainda assim as pessoas já mantinham certa distância uma das outras e era possível ver uma pessoa ou outra usando máscara no campus.

Não pode ficar dois minutos quieta que Rodrigo novamente a cutucou.

“Olha lá amiga, aqueles são os garotos que fazem parte da Atlética de Biologia Marinha.” Rodrigo deu um sorriso de canto enquanto mostrava para ela um grupo de diversos garotos, todos eles altos com aparência de quem malhava fervorosamente. “Você pode perguntar se eles conhecem algum Pedro”.

Ela recusou logo de cara. Em todo o tempo que passou conversando com Pedro, eles estavam ocupados demais se provocando para sequer perguntarem sobre faculdade. Tudo o que ela sabia sobre o curso e o período em que o rapaz se encontrava eram graças a seu melhor amigo.

A fila andou e ela finalmente pode comprar sua costumeira coxinha. Estava com tanta saudade do salgado, que ignorou a cara de nojo do amigo quando ela entupiu seu lanche com ketchup.

“Nojenta” ele resmungou, porém a garota apenas lhe estendeu o dedo do meio.

Comeram em silêncio, ora ou outra mencionando os memes que surgiram durante a quarentena. Assim que terminaram limparam as mãos e começaram a se despedir, já que Rodrigo teria aula de História da Psicologia enquanto Flávia iria embora porque não tinha mais nenhuma aula naquele horário.

“Não morra sentindo a minha falta” ela ironizou.

“Como eu poderia” Rodrigo revirou os olhos “Tõ ligado que você vai me abandonar aqui, nesse ninho de cobras, para ir para casa e ir falar com o seu namoradinho”.

“Meu Deus, você continua dizendo que ele é o meu namorado.” a garota exclamou exasperada porém Rodrigo apenas deu de ombros, alegando que aquilo iria acontecer uma hora.

Por fim os dois se despediram e Flávia pegou o transporte público de volta para casa. Mesmo com o fim da quarentena, ela ainda pode perceber que — pelo menos naquele horário — o metrô estava deveras vazio, e muitas pessoas ainda usavam máscaras para todos os lugares. Um meio sorriso surgiu no rosto da menina quando o trem parou na sua estação, a Parada Inglesa e ela finalmente pode sair da estação e ir andando para casa.

Quando chegou em casa Flávia foi recebida por sua mãe que estava bem atrapalhada enquanto arrumava a casa.

“Que que foi que a senhora tá toda atrapalhada?” Flávia perguntou olhando para a mãe com uma expressão engraçada no rosto. A mais velha por sua vez apenas fez uma careta para sua filha.

“É que hoje eu vou receber a Helena aqui em casa, e parece que o filho dela vai trazer ela de carro para cá, então vou preparar uns lanches para os dois. Aproveitando que você está aqui, venha comigo para a cozinha e me ajude.”

Flávia resmungou alguma coisa mas acabou indo até a cozinha ajudar sua mãe. A Dona Fonseca junto do auxílio de sua filha, preparou seu típico bolo de cenoura com calda de chocolate e de quebra colocou a mesa um cafézinho junto de alguns pães de queijo. Flávia, por ser filha de um nordestino e de uma mineira, sorriu. Era normal na família de seu pai servir café quase que sempre, a culinária baiana era mais presente nos almoços e jantares, enquanto nos lanches era a culinária mineira que se sobressaía.

Quando a campanhia tocou, a Dona Fonseca foi correndo atender. O que deu tempo suficiente para Flávia ficar admirando o bolo de cenoura de sua mãe. Ela apenas esperava que sua matriarca lhe desse um pedaço.

Foi nesse momento em que uma senhora quase que da idade de sua mãe entrou na cozinha, ela tinha os cabelos castanhos claros presos em um coque apertado e tinha o olhar gentil. E atrás dela estava um rapaz com pelo menos um metro e oitenta de altura, ele tinha olhos castanhos e cabelos louro escuro bem curtos. Ele cumprimentou Flávia brevemente com um sorriso.

“Sra. Galindo, essa é a minha filha de quem estive falando, Flávia Fonseca. E Flávia, este é o filho da Sra. Galindo, ele faz Biologia Marinha no mesmo campus que você, o Pedro”.

Demorou alguns momentos para que os dois assimilassem a informação com cautela, mas tudo pareceu se encaixar quando ela escutou a voz dele pessoalmente.

“Boa tarde Flávia” disse com um sorriso sem vergonha no rosto.

Era ele.

Era a voz dele.

Flávia quis rir ao escutar o sobrenome dele, com certeza Rodrigo faria piada de alguém que tem o sobrenome Galindo. Talvez até Pedro fizesse piada de seu próprio sobrenome.

“Pedro, quem diria”.

“Vocês se conhecem?” a Dona Galindo perguntou e os dois acenaram com a cabeça, sendo que em nenhum momento um desviou o olhar do outro.

“Sra. Fonseca acho que vou pegar sua filha emprestada.”

“A vontade Pedro” a mãe de Flávia sorriu, encantada com o menino.

Pedro se despediu das duas mulheres e puxou Flávia pela mão para fora da casa.

Quando finalmente se encontraram a sós, ele sorriu de orelha a orelha.

“Acho que agora que a quarentena passou, eu posso finalmente fugir com você, não?”

Flávia estremeceu, ainda embasbacada com a beleza dele.

“Eu adoraria” admitiu, ainda hipnotizada com os olhos castanhos dele. Ela ficou tanto tempo parado apenas o olhando admirada, que mal percebeu quando ele sutilmente uniu os lábios dos dois em um beijo. Talvez ela não fosse admitir a princípio mas aquele era um beijo que ambos estavam esperando já fazia algum tempo.

Pedro segurou o rosto da menina, que parecia se encaixar perfeitamente na palma dele, enquanto que ela enganchou seus dedos finos nos fios loiros do rapaz, puxando-os conforme sua vontade. Os lábios se moviam lenta e sofregamente, como se nenhum dos dois quisesse apressar o beijo ao mesmo tempo em que também não queriam parar o beijo.

Quando finalmente pararam de se beijar, Pedro entupiu o rosto de Flávia de selinhos. Indo de seus lábios levemente inchados, para as suas bochechas, testa até a ponta do nariz. O que fez com que ela risse.

Então Pedro segurou a mão da menina e fez algo que nem ela estava esperando: começou a cantar Skank.

Vamos fugir, pra outro lugar baby. Vamos fugir, pra onde quer que você vá, que você me carregue.”

Flávia se perdeu num misto entre admirar a voz dele ou simplesmente rir de sua personalidade caótica e aleatória. Então acabou entrando na dele e cantarolando a música enquanto entrava em seu carro.

“Agora sabe para onde a gente vai Docinho?” Ele indagou com um sorriso malicioso. Algo nela silenciosamente pedia para que não respondesse o que ele queria ouvir, porém ela cedeu.

“Para onde?”

“Tomar no cu” ele respondeu com seriedade, até que a cara enfezada no rosto de Flávia fizesse com que ele gargalhasse. “Vamos comprar sorvete, afinal estamos no verão.”

Flávia deu um soco de leve no braço dele e então sorriu.

“Foi bom ter passado a quarentena com você.”

Pedro fez um “awn” silencioso, e então sorriu de canto.

“Eu adoraria passar outras coisas com você. Principalmente aquelas que duas pessoas fazem entre quatro paredes.”

“PEDRO” ela exclamou com o rosto vermelho e novamente o rapaz riu.

“Estou brincando. Também gostei de passar a quarentena falando com você” disse dando um peteleco na ponta do nariz da menina que sorriu.



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