Quanto Menos Souber, Melhor
1 Presente de Amigo mais que Secreto
O Quanto Menos Souber, Melhor
Kagami tinha aquela mania desagradável (que não só incomodava os outros, mas principalmente a si mesmo) de ouvir conversas dos outros que não lhe diziam respeito. Ainda assim, nada era proposital — ele só tinha um grande azar de sempre passear pelos corredores quando diálogos importantes aconteciam nos vestiários. Foi assim que descobrira sobre os joelhos de Teppei no início da Winter Cup, o que talvez não tenha sido a pior dos exemplos, mas também fora assim que acidentalmente descobriu a informação que mudaria sua vida para sempre.
Era uma quinta-feira pós treino, desses dias em que ficavam na quadra treinando seus passos até seus casacos de frio não serem o suficiente para se acobertarem do vento gelado das noites de inverno. Por ter mais alguma blusa guardada em seu escaninho, Kagami correu de volta para o vestiário logo que chegou nos portões da escola.
— E como você está, Kuroko? — ouviu a voz Hyuga um tanto quanto preocupada soar pelos corredores já relativamente escuros.
— Melhor. Obrigada por se preocupar — o outro respondeu, educado como sempre. Fizeram alguns minutos de silêncio e, antes que o de fora pudesse interromper a estranha conversa, Tetsuya voltou a falar: — se não vê-lo por um tempo, está tudo tranquilo. Ficaria contente se pudesse me ajudar mais uma vez nesse requisito.
— De tantas pessoas de nosso time, — Hyuga disse, concordando em ajudar, — logo você está passando por problemas amorosos! Ninguém nunca imaginaria.
Tropeçou alguns passos para trás antes de usar a parede como apoio. Kagami estava mais surpreso do que nunca! Kuroko estava sofrendo por amor? Não conseguia acreditar. Curioso e descuidado, decidiu ignorar todos os conflituosos pensamentos dentro de si para ouvir mais daquele assunto tão interessante.
— Não tenho certeza se é bem um problema, uma vez que não tenho como resolvê-lo — respondeu, um pouco menos calmo do que sua voz normalmente era. — eu só preciso de um tempo sem ele. Sozinho.
— Não precisa vir ao treino amanhã, se quiser — o capitão aconselhou, fechando seu escaninho e caminhando em direção a porta. Taiga, escondido alguns passos atrás da porta, correu do modo mais silencioso que pôde até o corredor seguinte, rezando para que os dois não o visse na quina. Kuroko, como o esperado, agradeceu a oportunidade, porém afirmou que viria para o treino de todos os jeitos por ser sua prioridade. — Ah! Apenas por curiosidade: por que decidiu falar desse assunto comigo?
Não pensou para responder — porque você, capitão, é o único de nós que namora.
Já andando pelos corredores, viu Hyuga argumentar de diversos modos diferentes como ele e a Riko não tinham esse tipo de relação e era um equívoco do menor acreditar naquela baboseira. Tetsuya não respondeu ou deu nenhuma de suas risadas silenciosas comuns naquele tipo de situação; seu amigo estava evidentemente triste e Kagami sequer tinha reparado antes.
Depois de ter certeza que ficara sozinho, foi até o vestiário pegar a outra blusa de frio que muito queria, e andou em passos rápidos para sua casa.
Então, Kuroko estava apaixonado.
Sabia, claro, que o amigo não era desprovido de sentimentos do modo que aparentava ser, uma vez que vivia demonstrando a importância da amizade entre eles e do basquete em sua vida sempre que possível. Kuroko mostrava, mesmo de sua forma peculiar, todas as coisas que sentia até agora: frustração, tristeza, raiva, alegria. Por isso, várias coisas corriam sem ruma pela cabeça do ruivo neste momento.
Primeiro, claro, estava morrendo de vontades de descobrir quem conquistara o coração do melhor amigo. Deveria ser uma pessoa incrível. Dessas que de algum jeito tinham a melhor personalidade e era bem determinada a tudo. Possivelmente, uma pessoa contente, que vivia sorrindo. Pensou em todas as pessoas que conhecia em comum com Tetsuya, fazendo todas as permutações amorosas possíveis. Depois, em algum momento daquele mar de nomes, percebeu que durante a conversa que ouvira, Kuruko havia mencionado um “ele”. Um homem? Alguém da geração de milagres? Alguém do próprio time? Kuroko era... Gay?
Não que houvesse problema o amigo ser gay. Não mesmo. Quer dizer, tinha vários amigos gays nos Estados Unidos, inclusive o próprio Himuro, mas nunca havia pensado no sexto membro daquela maneira. De alguma forma, aquilo tudo mudou alguma coisa em seu peito, esquentando-o.
De qualquer modo, estava impressionado como não notara nenhuma diferença no amigo nos últimos dias ou meses. Não o viu apaixonado, encantado ou desiludido. Não o viu sofrer e se entristecer, muito menos, precisar de conselhos. Não que Kagami fosse a melhor opção para se desabafar sobre assuntos amorosos, mas, ainda assim ... Sentiu-se menos competente como amigo por não perceber tamanhos acontecimentos na vida do branquelo.
Suspirou.
— Kagami-kun! — Kuroko gritou, do outro lado da quadra, após lançar um cyclone passe que, por descuido do outro, acabou acertando-o diretamente no nariz. Foram todos apressados até o colega de time jogado no chão, desatento.
— Como você está avoado hoje, Kagami! Preste mais atenção nos treinos! — Riko gritou nervosa, apesar de aparentar preocupado. — Vá para a enfermaria dar uma olhada nisso. Kuroko vai te acompanhar até lá, já que você anda dormindo acordado.
Levantou, ainda estonteado, sem responder nada a ninguém antes de se colocar a andar em direção a enfermaria. Kuroko, um pouco mais quieto que o normal, andava ao seu lado despercebido.
— Está tudo bem, Kagami-kun? — decidiu por perguntar — você não costuma se atrasar, principalmente nas sextas-feiras, que tem suas aulas preferidas.
— Ah, sim — Taiga afirmou distraído. Realmente, era raro vê-lo chegar atrasado para qualquer coisa do modo que estava hoje pela manhã. A culpa não era sua, apesar de tudo, e sim daquela sua péssima mania de ouvir conversas dos outros que não lhe diziam respeito, deixando-o a noite inteira acordado pensando em coisas que não deveria. — Kuroko, posso te fazer uma pergunta meio estranha?
Viu o amigo concordar silencioso. Respirou fundo e decidiu arriscar do modo mais estúpido que conseguiu elaborar, mesmo que isso pudesse se entregar mais do que gostaria.
— Você já passou por alguma desilusão amorosa? — soltou, sem pensar muito. — Que-quero dizer, você já gostou de alguém e não teve o sentimento correspondido?
A resposta demorou um tempo considerável para vir, a ponto de Kagami ter pensado que fez a aproximação do pior jeito possível.
— Não sei dizer — contou — nunca contei para pessoa que gosto que guardo sentimentos por ela. Não saberia dizer se a resposta seria positiva ou negativa. Você está com algum problema?
— Não! Ahn, um amigo meu, sabe, está passando por essa situação e eu não sei o que fazer — se explicou, coçando a cabeleira vermelha, nervoso.
Não conversaram mais. No fim, não houve problema nenhum com Kagami de acordo com a enfermeira, mas ele bem sabia que estava cheio deles por dentro; havia muito mais acontecendo do que apenas a bola pesada no seu nariz.
No fim da tarde, decidira passar a sua lanchonete preferida para comer alguns hambúrgueres na presença do seu melhor amigo. Pediram o de sempre e sentaram no mesmo lugar de sempre.
Kagami sempre se sentira muito confortável na presença de Kuroko, uma vez que, quando juntos, não precisavam ficar conversando todo o tempo para ocupar o silêncio. Neste dia em especial, aquilo foi ainda melhor do que normalmente, já que dificilmente conseguiria manter uma conversa inteligível com tantos pensamentos em sua mente.
Ainda em silêncio, observou o amigo tomar o milk-shake de baunilha, lembrando-se das descobertas intrigantes que fez no dia anterior. Kuroko gostava de um cara. No início, pensava que nunca havia pensado nele gay, mas, ao matutar mais sobre, concluiu que nunca havia pensado em Tetsuya de um jeito romântico. Nunca pensara que, um dia, como quem não quer nada, o menor poderia se apaixonar e se envolver com qualquer tipo de pessoa.
Reparando um pouco, era bobagem pensar como fazia antes. Não tinha nada de errado no Kuroko; muito pelo contrário, ele era consideravelmente bonito. Até mesmo aquela treinadora bonita da geração dos milagres, Momoi, havia se apaixonado por Tetsuya, não é mesmo? Ele tinha feições bonitas. Tinha os lábios finos e, provavelmente, doces como seu milk-shake preferido. Seus cabelos eram incrivelmente macios e, seus olhos...
— Kagami-kun? Está tudo bem? — Kuroko perguntou, preocupado, ao ver o amigo se engasgar com um pedaço de hambúrguer.
— Sim, sim, eu só... — acabei me assustando com meu próprio pensamento.
Foi embora o quanto antes. O número de ideias estranhas passando pela sua mente perturbava-o. Decidira não ir a aula no dia anterior e considerou verdadeiramente faltar no treino.
Suspirou algumas vezes antes de entrar na quadra — precisava se concentrar para o jogo contra Aomine que aconteceria daqui a alguns dias.
Por isso, fez todo o esforço possível para não reparar no Kuroko durante todo o treino. Pediu ao Izuki para ajudá-lo durante os passos e tentou se esquecer de cada detalhe do amigo que parecia ficar cada vez mais nítido a cada minuto que passava. Maldita conversa! Se pudesse, escolheria nunca ter ouvido nada daquilo e, assim, as coisas continuariam perfeitas como sempre foram.
Kuroko, por sua vez, estranhou o comportamento do mais alto. Por que será que estava evitando-o durante todo o dia? Não foi às aulas, não respondeu suas mensagens e sequer o cumprimentou quando chegou para o treino. Chateou-se. Teria Kagami se apaixonado por alguém e, por isso, estava agindo estranho desde o dia anterior? Sentiu seu coração apertar, deixando-o triste.
— Kagami-kun? Kagami-kun! — chamou o ruivo pelo portão da escola. — Me espere um insante!
Kagami caminhava com Teppei e Izuki em direção à sua casa na esperança de evitar o tão perigoso contato com Tetsuya, todavia, assim que ouviu o menor chamá-lo na primeira vez, despediu-se dos amigos para a inevitável conversa.
— Ei, Kuroko. — respondeu, seco, medroso.
— Aconteceu algo? — indagou o outro, preocupado. Kagami fez que tanto faz com os ombros, dando a oportunidade de outra pergunta: — seu amigo resolveu seu problema?
— Ah, não. Ele está com uma situação bem parecida com a sua, aliás, porque ainda não confessou pra garota que gosta que está apaixonado — arriscou, — mas já considera que foi rejeitado e por isso tá sofrendo à toa.
Kagami cruzou os dedos, esperando que consiga as respostas que queria dessa vez.
— Bom, às vezes, ele só é inseguro, e acha que falar não vai deixar as coisas mais fáceis — explicou Kuroko.
— Ah, eu estou tentando convencê-lo de falar, sabe? Acho que vai ser melhor. Ele tem andado bem triste e mesmo que — não conseguiu terminar a fala. Kuroko havia parado alguns passos atrás de si.
— Você sabe, não é? — questionou, nervoso — sabe que eu estou apaixonado por você e, por isso tem agido tão esquisito?
Assustou-se. Demorou uns instantes para assimilar todas as informações. Apaixonado por...? Kuroko, apesar de se aparentar calmo como sempre, estava claramente angustiado, falando diversas coisas que não faziam sentido para si.
— Por mim? Está apaixonado por mim? — a pergunta aquietou Kuroko que, no instante em que a ouviu, se odiou por ter perguntado desse jeito, falando mais do que deveria. — Eu só... Tinha ouvido uma conversa sua com o Hyuga outro dia, mas...
Sorriu. Era engraçado porque, se nunca tivesse ouvido aquela conversa, nunca teria pensado no Kuroko de um modo romântico e, principalmente, nunca teria sentido seu coração morno esquentar mais do que nunca dentro de si. Nunca teria obtido uma declaração de amor e nunca estaria rindo feito bobo no meio da rua, em frente sua escola, com diversas pessoas passando.
Curvou-se, encontrando Kuroko mais confuso do que nunca, sorriu involuntariamente e o beijou.
— O que...
— Eu sempre soube que se declarar era a melhor opção para o meu amigo. — Kagami explicou, rindo de como Tetsuya estava desnorteado com toda a situação, bagunçando seu cabelo colorido. — Vamos lá pra casa, que tal? E aí, podemos conversar sobre isso melhor.
Kuroko concordou, envergonhado, o coração explodindo dentro da blusa. Encostou os dedos frios nas mãos largas do Taiga, seguindo-o alguns passos atrás. Kagami sentiu um conforto que nunca pensou ser capaz de sentir antes.
Suspirou — dessa vez, porém, contente.
No fim, saber das coisas não era tão ruim assim.
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