Quando voltarmos para casa
9 A luz que atravessou o céu
Notas iniciais
Katarina
Eram quase onze da noite quando Katarina saiu de sua casa para colocar o lixo na lixeira.
A rua estava silenciosa, um poste piscava.
Se os sentidos dela não fossem aguçados do jeito que eram, ela não teria percebido o homem encapuzado em cima do telhado da casa.
Katarina não andava mais armada e arrependeu-se por isso. Nos últimos anos, ela tinha deixado de lado todo o seu treinamento, e vivia como uma humana comum.
Continuou com sua tarefa normalmente, ainda de costas, tentando ignorar quem quer que fosse. Mas então decidiu verificar. Coragem era algo que ela tinha de sobra.
Quando se virou em direção a casa, o homem ficou de pé e retirou o capuz. Pela luz da Lua, o rosto dele pôde ser visto, e Katarina suspirou, aliviada.
— Talon! – Ela sorriu. E então o homem pulou no chão.
— Eu senti saudades. – Ele disse, enquanto a abraçava.
— Por que você nunca me procurou? Tentei te encontrar em todos os lugares. – Katarina olhou para ele com tristeza, após soltar-se do abraço.
Talon suspirou. E então explicou.
— Quando me adaptei a esta dimensão, na época que viemos parar aqui, tentei procurar você. Mas então vi que você estava com Garen, e ele nunca iria me aceitar por perto. Sabe o quanto ele odeia noxianos, você é a única exceção. Achei melhor deixar vocês serem felizes, sempre fui uma pedra no meio do relacionamento. Mas estive cuidando de você de longe.
— Talon, Garen não tem que achar nada. Você é meu irmão, e estamos em outra dimensão. A rivalidade de antes deve ser deixada para trás.
— É sobre isso que eu vim falar.
— Como assim?
— Suponho que você já saiba o que está acontecendo: sobre LeBlanc e o portal.
— Então é verdade? Eu e Garen recebemos um vídeo de Diana, mas não acreditamos.
— Sim, é. E eu queria te pedir para não se envolver com isso. – Talon disse, mas com cuidado para que Kat entendesse aquilo como um conselho, e não como ameaça.
Só que Katarina odiava quando as pessoas tentavam mandar nela.
— Você está do lado da LeBlanc, não é? Como você pôde? E você acha mesmo que vou levar sua ameaça a sério? – Ela mudou o tom de voz, desapontada.
— Não foi isso que eu quis dizer, Katarina. É perigoso demais.
— Eu sei que é. E você meteu seu nariz nisso mesmo assim. Onde quer chegar com isso, Talon?
— Você está entendendo errado. Estou ajudando LeBlanc sim, mas porque, por incrível que pareça, estou sendo obrigado. Kat, você acha mesmo que ela saiu convidando amigavelmente as pessoas para obter ajuda? Ela chega, te obriga a ouvir a versão dela da história e você tem duas escolhas: ou ajuda, ou morre. Posso estar fazendo algumas coisas ruins, mas não pretendo voltar com LeBlanc. Anseio pelo dia em que ela entre naquele portal e se vire com a Runeterra. Isto trará paz para mim e para o resto que deseja ficar. Esta dimensão pode ser totalmente diferente, mas garanto que está menos destruída e as pessoas são um pouco menos ignorantes do que na Runeterra. Quando eles voltarem, a guerra acontecerá de novo. E eu sei que você está feliz aqui como nunca esteve lá, então não se meta neste problema, por favor. Pelo seu filho.
Talon e Katarina não eram irmãos, mas ele tinha sido criado pelo pai de Kat. Os dois haviam crescido juntos e se preocupavam um com o outro. Naquele momento, ele estava sendo sincero, e tinha uma pontinha de razão em seu discurso.
Katarina surpreendeu-se quando ele mencionou o bebê. Como ele havia descoberto sobre a gravidez dela, era um mistério. Talvez ele realmente estivesse sempre presente e cuidando de Katarina.
— Eu... – ela não sabia o que responder.
— Quando este inferno acabar e o grupinho tóxico de LeBlanc for parar no inferno, eu converso com Garen e iremos resolver o problema. Seremos uma família normal. Mas agora eu preciso ir. Prometa-me que irá conversar com ele.
Kat engoliu seco. Garen estava quase sendo convencido pelos e-mails de Diana. Mas ela tentaria.
— Eu vou tentar. – Respondeu, pensando na possibilidade de se arrepender.
Quando ela voltou para dentro de casa, encontrou Garen no sofá com o notebook no colo. Ele sorriu ao vê-la. Basicamente, ver Kat deixava-o feliz, não importando a circunstância.
— Se eu não te conhecesse, já teria chamado a polícia pensando que tinha sido sequestrada. – Garen riu.
— Mais fácil eu bater nos sequestradores.
— Sim, eu sei. Mas então, está tudo bem?
— Acho que sim, mas precisamos conversar. É sobre o portal. – Katarina sentou-se ao lado dele.
— Ah, falando nisso, Diana mandou outro e-mail. E este me deixou preocupado. Veja.
Garen virou o notebook e Katarina viu um vídeo de Diana, machucada, explicando que estava a caminho da Inglaterra. Era possível perceber que ela realmente estava dentro de um avião, e que a situação estava tensa.
Naquele momento, Kat não soube o que dizer ao marido.
Annie
“ Ela olhou para trás, sem parar de correr, e a única coisa que viu foram as árvores iluminadas pela luz da Lua cheia. Ainda ouvia gritos e os sons de pessoas correndo.
Annie não fazia ideia para onde estava indo. Não tinha mais forças nem para se defender. Estava carregando Tibbers, chorando e muito machucada. Ainda traumatizada, ouvia sons de pessoas que não estavam ali.
Foi obrigada a parar quando tropeçou em um galho seco e machucou seu pé. Sentou-se em um canto, escondendo-se entre os arbustos da melhor maneira que conseguiu, e começou a chorar. Até quando a maldita guerra duraria?
Ainda com a cabeça entre os joelhos, ela não percebeu Bardo se aproximando. Quando o notou, ele lhe transmitiu confiança e a pegou no colo.
Bardo carregou Annie até um ponto afastado da floresta e de toda a confusão.
Os dois entraram em uma caverna e, lá dentro, Soraka recebeu a garota com um sorriso. Zilean estava ao lado dela.
— Olá, linda. – Soraka disse, abaixada em frente a garota, enquanto passava os dedos nos cabelos curtos e rosas de Annie. – Venha, vou cuidar de você.
O trio transmitia tanta confiança e calma para a garota que ela não hesitou quando Bardo ofereceu-se para segurar Tibbers. Geralmente, ela não deixava ninguém tocar no ursinho.
Soraka deu um banho de espuma em Annie e curou todas as feridas que ela possuía. Depois de comer, Annie dormiu feliz, em um quarto muito bem decorado dentro da caverna. Ela nunca havia sido tratada desta forma desde a morte de seus pais.
Quando acordou, o trio estava conversando na sala principal da caverna.
— Venha cá. – Soraka disse, olhando para ela.
Annie aproximou-se devagar e Soraka continuou:
— Você é importante para nós, Annie. Nós três vamos tentar salvar a Runeterra, e você será a nossa criança.
Annie, com doze anos, não entendeu o que a mulher quis dizer.
Olhou para o lado e viu Bardo se aproximando com o ursinho nas mãos.
— Irá entender esta responsabilidade quando a hora chegar. Por favor, não deixe ninguém mudar você. Você não precisa escolher um lado, nunca precisou e nem precisará. Mesmo assim, você continua sendo justa e fazendo o certo. É isto o que te torna tão importante e confiável. Sabemos que não falhará. – Soraka concluiu.
Annie pegou o ursinho e não disse nada, apenas observou os três que estavam a sua frente.
— É hora de ir. Me desculpe por isso, mas é necessário que você não se lembre de nada por enquanto. Pode interferir em sua futura decisão. – Zilean disse, enquanto tocava a testa dela devagar.
— Vai ficar tudo bem, não se preocupe. – Soraka sorriu.
Então Bardo pegou na mão de Annie e os dois saíram andando.
Estava escuro, e a garota estava confusa. Bardo caminhava devagar e então os dois avistaram uma luz forte e dourada.
Bardo parou, aquilo era o ponto máximo que poderia ir. Annie viu, de longe, pessoas correndo e brigando, todas indo em direção à luz dourada.
Apesar do caos em volta, ela decidiu ir. Sentiu que precisava, mesmo não entendendo nada, e então caminhou até a luz. Era um portal.”
Annie pulou de susto quando acordou com o som de um raio. Não se lembrava onde estava, e olhou em volta, confusa: estava no avião. As luzes estavam apagadas, todos estavam quietos ou dormindo. Chovia forte e o avião voava com dificuldade.
Parando para pensar, Annie lembrou-se. Não tinha sido só um sonho: eram memórias. E o toque de Zilean tinha feito ela se esquecer dos seus últimos momentos na Runeterra.
Sentiu que precisava contar para Diana, e levantou-se, ainda tomada pela adrenalina do sonho. Deu dois passos quando, de repente, ouviu um estrondo. O céu foi atravessado por uma luz dourada, que subiu do chão em direção às estrelas.
O avião sofreu uma turbulência forte. Pelas janelas, era possível ver o raio de luz estático. Os passageiros (seres da Runeterra), sentiram algo estranho. Annie caiu no chão, porque, diferentemente dos outros, ela sentia dor. Parecia que seu corpo queimava de dentro para fora.
Teemo, um pouco tonto, correu para ajudá-la, mas quando a tocou, queimou sua mão direita. Annie estava com o corpo quente, seus olhos brilhavam como chamas e seu cabelo voltava a ficar rosa devagar.
— O que está acontecendo? – Teemo gritou, olhando para Diana. Todos em volta estavam tontos, e ficavam em pé com dificuldade.
— Nossos poderes estão voltando. – Diana disse, com a mão na cabeça. – Posso sentir uma parte da Runeterra aqui. LeBlanc abriu o portal.
Syndra
Syndra abriu a porta do apartamento e hesitou antes de entrar: as luzes estavam todas apagadas. Zed deveria estar em casa.
Ela colocou a chave na mesinha de canto ao lado da porta, e segurou com as duas mãos a caixa de Donuts que estava trazendo.
— Zed, trouxe algo que você deveria experimentar. Achei que a loja estaria fechada, mas consegui comprar. – Disse de forma animada, enquanto acendia algumas luzes e entrava na cozinha.
Ela não ouviu um barulho. Sempre que Zed saía, ele avisava ou deixava um bilhete na geladeira.
— Zed? – Ela insistiu, andando pelos cômodos. – Pare com isso. Ei, algo aconteceu hoje. Eu estava voltando e uma luz dourada atravessou o céu, dá para ver ela até agora. Acho que tem a ver com o portal, me sinto estranha.
Syndra passou em frente ao quarto principal, mas sem acender a luz. Observando de forma breve, ela percebeu que um canto do cômodo estava mais escuro que deveria.
Pensou que Zed estivesse brincando de se esconder, então achou normal. Entrou no quarto, mas, quando foi acender a luz, sentiu uma mão em seu pescoço e foi jogada na parede do corredor. A caixa de Donuts foi parar no chão.
Quando se deu conta, o ninja estava segurando-a contra a parede e uma de suas lâminas apontava para o pescoço da mulher.
Ele tinha um olhar diferente e frio. Usava sua máscara, mesmo estando desgastada.
— Quem é você? – Zed disse de forma fria e seus olhos vermelhos cintilaram ao perguntar.
Syndra mal conseguia respirar e tentava, com dificuldade, explicar alguma coisa.
— O que está acontecendo, Zed? Por favor, me solte. – Perguntou, com a voz rouca.
— Responda a minha pergunta. – O ninja a pressionou contra a parede de forma mais firme.
— Syndra. Meu nome é Syndra. Zed, por favor...
Vendo que ele não ia soltá-la, Syndra concentrou seus poderes e suas esferas surgiram, arrastando Zed para a sala. Ela começou a flutuar e seus olhos acenderam como duas lâmpadas. Um brilho roxo tomou conta da sala.
O ninja se recompôs e partiu para cima dela, mas antes quebrou a lâmpada do cômodo. No escuro, Syndra não conseguia enxergar. De repente, sentiu um corte em suas costas. Virando-se, sentiu outra vez a lâmina do ninja, mas, desta vez, em seu pescoço. Ela não sabia para onde correr ou o que fazer, e a cada segundo era cortada pelas lâminas dele.
Zed então a derrubou, parando por cima dela. Suas sombras seguraram os pulsos e as pernas da mulher. E ele apontou uma das lâminas para ela novamente.
— Eu vou matar você. – Ele disse, enquanto ela tentava sair dali. Syndra via apenas os olhos dele através da máscara de metal.
— Por favor, deixe-me explicar. Você prometeu que se lembraria! Você disse que me amava.
— Do que você está falando?
Então ela começou a chorar. Estava nervosa, mas triste ao mesmo tempo. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas era a primeira vez que Zed estava sendo tão frio. Ela nunca havia sido tão machucada por ele antes.
Vendo-a chorar sem dizer nada, Zed ficou confuso, E, de repente, os olhos dela pararam de brilhar e voltaram ao normal, fazendo com que o ninja se lembrasse dela.
Doeu, como sempre. Ele sentiu a Sombra tentar impedir a volta das lembranças, e, nesse conflito, jogou-se para o lado, retirando a máscara. Retirou as lâminas presas em seus pulsos e as jogou longe. Depois, segurou a cabeça com força, segurando para não gritar e tentado conter a dor.
Syndra recuperou-se devagar, e afastou-se dele.
Quando Zed voltou ao normal, viu a mulher encolhida em um canto, chorando. A sala estava um caos e havia sangue por todo o chão. Sangue dela.
— Syndra... – ele sussurrou, indo em direção a ela. – O que eu fiz? Me desculpe.
Quando chegou perto, ela o empurrou para longe. E ele não insistiu.
Levantando olhar, Syndra viu algumas lágrimas escorrerem pelo rosto dele.
— Eu... foi um erro ficar aqui, me desculpe. Devo ir embora. – Ele disse, recolhendo a máscara e as lâminas.
Quando estava indo em direção a porta, sentiu uma mão suave segurando seu pulso. Olhou para trás e viu Syndra de pé.
— Por favor, não. Eu acho que sei o que está acontecendo.
Zed parou, e então ela continuou.
— A luz que atravessou o céu hoje se parece com a do portal. No dia que viemos para cá, havia o portal e um feixe de luz saindo dele, subindo em direção ao céu como um holofote. Alguém deve ter aberto o portal de novo e, por isso, nossos poderes estão de volta. Inclusive o poder da Sombra.
— O que você quer fazer?
— Acho que, quando o portal se fechar novamente, tudo voltará ao normal se ficarmos aqui. Mas... – ela hesitou, não sabia que Zed queria voltar ou não.
— Eu fico. Ficarei onde você estiver. – o ninja respondeu, percebendo o que ela queria perguntar.
Syndra olhou para ele, sorrindo por dentro, e o abraçou.
— Precisamos decidir o que vamos fazer enquanto o portal estiver aberto. Não é seguro ficar perto de mim, Syndra. – Ele suspirou. – Agora, deixe-me dar um jeito nos seus machucados.
Japão e Brasil
Yasuo caminhava por um dos templos Japoneses da cidade de Nara quando começou a se sentir estranho. Era como se sua conexão de alma e sangue com a espada estivesse voltando lentamente. E estava.
Ao olhar para o céu, por cima das cerejeiras, viu um feixe de luz atravessando-o, visível mesmo sob a luz do dia. Ele sentiu que precisava ir até lá.
Assim como no Brasil, em um bar, Graves e Twisted Fate sentiram-se atraídos também.
— Mas que merda é aquela? – Twisted Fate perguntou, apontando para o céu escuro.
Todos os homens do bar entreolharam-se, pensando o quão bêbado o companheiro estava. Apenas Graves ficou curioso. Afinal, desta vez era diferente: somente seres da Runeterra podiam ver o portal ou a luz que ele emanava.
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