Quando os opostos se atraem
1 O começo de um desastre
Notas iniciais
Nem tive tempo de contestar. Ela apenas deixou a lista na mesa e com um simples “leve a Alice” saiu pela porta.
Como assim “leve a Alice”? Ela realmente acha que vou levar aquela inútil numa missão?
Peguei a lista. Ah, Miiko… Se não fosse a chefe, ouviria poucas e boas… Não basta pedir que eu a leve comigo, ainda preciso fazer todo esse trabalho?! Ah, claro. “A Alice está com você para te ajudar, Ezarel.” Como se uma humana lerda como essa pudesse me ajudar com algo.
Só me restava fazer uma coisa: suspirar, xingar e esbravejar (só na minha mente, é claro) e partir nessa missão. Espero que ao menos ela saiba que vai partir numa missão ainda hoje. Espero.
···
— Uma missão?
Ah, meu bom Oráculo! É óbvio que ela não sabe! Onde eu estava com a cabeça quando cogitei que ela podia ser útil?
— Essa é a lista do que preciso pra as poções. Você ao menos consegue fazer isso, querida? — lhe dei meu mais belo sorriso.
Ah. Isso! Essa expressão é a melhor. Primeiro abaixa as sobrancelhas, faz um bico, e cerra os punhos. E, no final, suspira e mantém a calma.
— Não sou inútil como muitos aqui pensam – sua voz tremia um pouco – Me dá essa lista.
Ela esticou a mão. Leventei a lista por cima de sua cabeça.
— Oh! Mas é claro que você não é inútil. Até porque, alguém super útil conseguiria quase matar um kappa e, de quebra, perder o barco na primeira missão! — coloquei uma mão no queixo, como se estivesse pensando – Realmente, muito útil!
Aí está! A sétima expressão irritada da Alice. Olhos arregalados, lábios tremendo de raiva e punhos cerrados na roupa.
Com outro belo sorriso, deixei a lista na cabeça dela e sai rindo. Realmente, irritá-la deixa o meu dia muito melhor!
Continuei rindo enquanto voltava para o laboratório quando uma mão tocou meu ombro. Por reflexo, me esquivei e virei para ver aquele que ousou me tocar.
Ah! Alajéa.
— Ezarel!!!!
— O que você quer, Alajéa?
— Ora… — ela inflou as bochechas – Miiko me disse que você vai partir numa missão com a Alice. É verdade?
Ah… Que irritante.
— E porquê você quer saber?
— Ora, Ezarel! A Alice é minha amiga, claro que eu quero saber o que ela anda fazendo. Até estamos na mesma guarda! – dessa vez ela fez bico.
Coloquei a mão entre os olhos. Por que tão chata?
— Já que vocês são amigas, nada mais normal que perguntar diretamente à ela, não acha?
Ela arregalou os olhos e parou de me encarar.
Oh…
— Ou, talvez, vocês não sejam amigas… — dessa vez lhe ofereci meu sorriso de deboche.
Ela gaguejou um pouco e com um “que seja” foi embora.
Finalmente, sem interrupções, posso voltar ao trabalho.
De volta ao laboratório, comecei os preparativos para a missão. Para uma floresta tão afastada… Uns dois dias de viagem, talvez. Precisamos de alimentos, um acampamento simples, muitas mochilas, um …. Nevra … Hã?!
Estreitei os olhos. Ela realmente está perdendo tempo com o Nevra, quando deveria estar cumprindo seus deveres?! Quando eu digo que ela é uma inútil, todos se voltam contra mim. Claro que parar para flertar com o chefe de outra guarda enquanto tem tarefas importantes é aceitável. Estou aqui precisando de Mel de Fogo, e ela rindo com o Nevra. Folha encantada? Pra quê? Mais importante abraçar o Nevra que obedecer o Ezarel. Vamos partir numa missão ainda hoje e ela com o Nevra. Rindo, se tocando, abraçando…
Apoie-me na bancada. Porquê perder tempo pensando nisso? Será que estou louco? Essa é a chance perfeita para provar que ela é inútil na Guarda de Eel! Apenas vou fingir que não a vi perdendo tempo e quando a Miiko perguntar, darei uma de desentendido. Perfeito.
Continuei com ao preparativos. Ah! Não consigo parar de rir. Esse é o melhor dia!
···
Já passava do horário de almoço quando terminei meu trabalho. Pus na bancada as mochilas e os alimentos. No canto do laboratório o necessário para o acampamento. Só faltava uma coisa. Sim! As poções!
— Ah… Que dia feliz! — ri e sai cantarolando pela porta – Que dia super feliz!
— Oh… — senti um dedo me cutucar – Não sabia que estava tão feliz por ir numa missão comigo, Chefe.
Ah, Alice. Seu tom debochado poderia me deixar irritado. Mas apenas vou sorrir de volta.
— Missão? Ah, é mesmo. Tinha até esquecido…
Seu olhar ficou confuso. Aqui está! Mais uma das excelentes expressões irritadas dela. Olhar pro lado, dedo no queixo, olhos estreitos e aquela cara “porque não deu certo?”.
Continuei sorrindo. Nada vai tirar essa felicidade de mim. Ah! Finalmente vou mostrar que estou certo. Como uma humana pode ser útil para nós? Ainda mais na minha guarda. He he, quando a Miiko chegar ela vai -
— EZAREL!!!!!
Senti um frio na espinha. Me virei para ver o par de orelhas mortais.
— Sim? Chefe. — falei num tom baixo.
— Quão desligado você pode ser?
Fitei seus olhos. Eu? Ezarel? Eu, desligado? As vezes a Miiko perde a cabeça e fala algumas coisas aleatórias, mas isso já passou a linha de ser normal.
— Posso saber do que se trata? — perguntei com um olhar inocente e confuso.
Ela suspirou e apertou as mãos em volta do cajado. Mais um pouco e aquilo se quebraria.
— Oh, Ezarel. Me desculpe por não explicar o que você, como um Chefe da Guarda, deveria saber.
Ai. Isso doeu lá no fundo. Entre tantas coisas para me acusar, tinha que ser logo em relação à minha posição na Guarda de Eel? Miiko realmente não sabe brincar.
— Continuo sem entender, Miiko. — falei em tom sério.
— Vamos pensar, Ezarel. Para fazer as poções, precisamos dos ingredientes, certo? — ela ergueu as sobrancelhas e balançou a cabeça.
Faz um tempo desde que a vi sendo tão debochada assim.
— Para quê essa enrolação, Miiko?
— Para quê? O quão burro você consegue ser, Ezarel!? — ela balançou o cajado. — Eu não dei a lista para a Alice porque ela não tem autorização para pegar alguns dos ingredientes! Você não consegue pensar ao menos nisso?!
Ah…
— Realmente! Estou cansada disso, Ezarel! Se você quer fazer piadas, tudo bem! Mas isso não deve afetar o trabalho! Você, melhor que ninguém, deve saber disso. Agora, veja, já passamos do almoço e nem os ingredientes vocês têm. Como é que vão partir hoje ainda? Você sabe que precisamos dessas pérolas o mais rápido possível!
Permaneci quieto. Levar bronca é uma das coisas mais humilhantes que eu odeio. Apenas me desculpei e me comprometi a terminar as poções até o final da tarde.
Corri para o laboratório assim que recolhi os ingredientes. Alice estava sentada num canto, quieta e séria. Minha irritação beira a raiva e, por mais estranho que pareça, não tenho nenhuma vontade de brigar com ela ou fazer piadas. Apenas preciso me concentrar em preparar as poções.
Mel de fogo, confere. Cinza de madeira bruta, confere. Frasco, confere. Coxas, confere… Hã?!
— AH! Merda! — bato a cabeça e os punhos na bancada – Você pode, por favor, sair daqui!?! — grito apontando a porta.
Ela arregala os olhos, e logo cerra os punhos.
— Qual é a merda do seu problema, Ezarel!? — ela se levanta irritada.
Olho-a perxplexo. Meu problema…?
— Se você não vai ajudar em porra nenhuma, então sai daqui! Simples assim, Alice! — paro de encará-la e volto a preparar as poções.
Se você parasse de usar essas roupas curtas...
Ergo uma mão para pegar o frasco e sinto a bancada tremer. Esse murro deve ter consumido toda a força dela.
— Ezarel! Qual o seu problema comigo, hein!? Primeiro me humilha, me chama de inútil. Depois me manda buscar coisas que sabe que eu não posso pegar. Agora, se irrita por merda nenhuma e vem descontar em mim?!?
Me viro para retrucar mas ela é mais rápida.
— Você acha que eu tô feliz em ir nessa missão com você?! Tudo que você faz é me perturbar e me deixar irritada! Não se importa se vai me magoar ou me trazer problemas. Apenas para de agir feito um idiota e termina seu trabalho logo! Quanto mais cedo terminamos essa missão melhor.
Ah… Uma linha fina acabou de se romper. Isso vai dar uma merda tão grande e, ainda assim, vou continuar. Acho que realmente estou ficando louco.
— Mas é claro que você não tá feliz! Se fosse com o Nevra estaria radiante agora, certo?!
Ela recua, a expressão dela está tão confusa que chega a ser cômica. Não. Não é hora pra isso. Preciso consertar rápido antes que ela entenda errado…
Espera. Entender o que errado? Não tem nada pra entender errado. Eu apenas estou irritado por levar bronca na frente de uma subordinada. É isso. Nada além disso …
— Eu não entendi… — ela me olha confusa – O que o Nevra têm a ver com isso?
Prendo a respiração.
— Nada.
— Ezarel!
— Já disse que não é nada! — desvio o olhar – Apenas vamos terminar isso logo.
Ando pelo laboratório catando tudo que vejo pela frente. Ela me acompanha com o olhar e ainda confusa começa a guardar as poções.
Não é nada. Absolutamente nada!
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