Quando os Lobos Cantam
9 Por Veneno
Notas iniciais
Flashback
O velho e improvisado barracão para guardar mantimentos nunca tinha sido tão usado como á uns dias para cá.
Coberta com uma capa com capuz, Nour foge ao perigoso luar. É lua cheia.
Ela abre com alguma dificuldade a grande porta e fecha-a rapidamente. Está escuro como breu e não se ouve nada. Um candeeiro a óleo é rapidamente acesso.
—Soren?
O jovem casal tinha combinado encontrarem-se aqui para passarem a lua cheia juntos. Coisa que iria pô-los em graves problemas, caso fossem apanhados. Deveriam de estar nas suas respetivas casas, trancados, e não ter qualquer contacto com o luar.
Nour atravessa o barracão. Talvez Soren estivesse mais ao fundo e escondido, mas o que ela não sabia, era que dois pares de olhos luminosos já a observavam vorazmente no andar de cima.
—Soren onde é que… — ela trava, antes de gritar_ Aaah!
—Apanhei-te… — ele sussurra depois de a fazer cair em cima do feno.
—Assustaste-me – ela reclama, mas o tom sério não permanece durante muito tempo.
Ele rouba-lhe um beijo. Aqueles roubados no momento certo.
—Vem, preparei um pequeno canto para nós.
Ele tinha pensado em tudo. Uma pequena toalha estava estendida sobre a palha com alguma comida preparada.
—A ementa é: Maçãs selvagens, bastante pequenas e ácidas, não recomendo. – Brinca Soren. Nour começa a rir_ Bagas apanhadas pelo Seth; nozes e sidra.
Estava perfeito para ela. A presença dele bastava para a noite ser perfeita.
Baga atrás de baga, noz atrás de noz, Soren e Nour iam enchendo o estômago até não poderem mais. Entre beijos, caricias e apalpões mais obscenos, o jovem casal já não resistia ao efeito da sidra pura de maçã.
Estava calor, apesar de novembro ter começado á poucos dias atrás. Soren arranca o corpete de Nour e desfruta dos seus seios robustos mais descaídos por baixo da camisa.
—Eu podia devorar-te – ele sussurra, enquanto passa as mãos pelas costas dela e beija o seu torço.
A força bruta de Nour para se apoiar em algum sítio, quebra uma tábua de madeira da parede do celeiro, deixando assim o luar cobrir os dois jovens. Eles sentem-no e arregalam os olhos luminosos como se tivessem levado uma injeção de adrenalina.
Flashback
A água já estava mais do que fria á algum tempo, mas Nour ainda não queria sair do banho. A banheira era de madeira, mas reforçada com algumas tiras de aço do lado de fora.
Ela pensa naquele menino que a vira com Luckyan, á umas horas atrás…e no que Luckyan lhe fizera. Ele matou-o e livrou-se do corpo a sangue frio, com o pretexto de que a criança poderia falar sobre eles e a sua espécie.
Nour abraça as pernas e olha fixamente para a vela acesa no chão. A chama dança bruscamente. Alguém vai entrar.
—Vim ver se já posso ter o meu espaço de volta…
Ela olha para a entrada, por cima do ombro e dá um leve olhar de desprezo para o alfa que a encara á espera de uma resposta. Ela não responde e volta a virar a cabeça para a frente de novo para a vela.
Luckyan suspira e entra no quarto sem querer saber da nudez de Nour.
—Ei! Estou a meio do banho! Vai-te embora! – grita ela, encolhendo-se na água turva.
—Estás aí á uma hora, já foi tempo suficiente – devolve Luckyan.
Nour pega num trapo pendurado nas bordas da banheira e molha-o bem para passar no corpo. Ela vira-se de costas para ele e Luckyan repara nas marcas de queimaduras que ateimam em não desaparecer.
Ele nota que Nour não chega com o pano ás cicatrizes e desencosta-se da parede para lhe fazer esse gesto.
—Deixa que eu faço isso… — ele resmunga, depois de lhe arrancar o trapo húmido das mãos.
—Eu não preciso de ajuda para me lavar, obrigada – diz irónica.
—Eu acho que precisas.
Ela fuzila-o com os olhos por 2 segundos, mas a cara feia não dura muito tempo. Ele massaja as cicatrizes e a pele estalada que não se recuperou. Nour chega a gostar por um tempo. De olhos completamente fechados, ela relaxa com a ponta dos dedos de Luckyan na sua pele.
—Porque é que mataste aquela criança…? – ela acaba por perguntar.
Luckyan para de massajar. Não se houve nada a não ser a respiração pesada do alfa de 36 anos.
—Ele iria falar sobre o que viu a alguém e nós estaríamos em…
Nour corta-o, virando-se de frente para ele. Luckyan não consegue terminar a frase, muito menos desviar os olhos para baixo onde os seios dela estão bem á vista.
O vermelho incandescente nos olhos dela impõe respeito, quer Luckyan queira quer não.
—Que seja a primeira e a última vez que fazes uma coisa dessas á minha frente…
(…no dia seguinte…)
Os roncos de Aslam e Bear faziam-se ouvir na gruta inteira. De barrigas para cima e buchos cheios, os dois rapazes aproveitavam o calor primaveril para dormir uma sesta á volta da fogueira apagada do almoço. Saaya e Luckyan tinham ido buscar água ao riacho e certamente ainda demorariam para voltar.
Nour sai do quarto, tentando ao máximo não fazer barulho com a porta. Aslam quase acorda, mas acaba por se virar para o outro lado e encostar-se a Bear.
Há dias que Nour espera por uma oportunidade para sair ás escondidas. O sentimento de não saber o que aconteceu á sua predileta Vila não lhe trás paz de espírito. Se Luckyan soubesse, nunca a deixaria dar uma vista de olhos que fosse. É perigoso.
Pé ante pé, ela escapa-se e corre floresta dentro, em direção a casa. É uma viajem de 30 minutos a correr, ou a passo acelerado. Ela apenas para duas vezes, para matar a sede e recuperar algum fôlego.
Ela levanta o nariz ao alto e inspira o aroma familiar. Casa, mas há algo de diferente. O seu focinho negro como carvão espreita por entre os arbustos, para uma Vila que deixou de ser Vila.
Algumas casas ainda estão de pé, mas a maior parte caíram ou foram queimadas pelo incêndio.
De cá de cima do penhasco, ela não houve nada. Puro silêncio. Nenhum ser vivo neste mundo teria a insanidade de continuar a viver num sítio destes.
O lobo preto esfuma-se com o vento e dá lugar a uma jovem de joelhos a chorar de desgosto. A ideia de que todos estavam vivos, sãos e salvos, não passou de uma ilusão este tempo todo.
Nour limpa as lágrimas e sacode o pó das calças novas que Luckyan lhe dera, pronta para voltar para casa. Já estava tudo visto, mas um barulho de motor chama-lhe á atenção.
A jovem loba aproxima-se da beira do penhasco e agacha-se para ver o que se passa lá em baixo. Vários veículos chegam e reúnem-se á volta do que outrora fora a fogueira central. Homens armados começam a sair dos mesmos e há um que chama a atenção de Nour. O velhote da besta.
Ele sai, quase como escoltado por outros soldados juntamente com alguém que Nour não reconhece logo de seguida, mas que rapidamente lhe mexe com o sistema nervoso: Nanuk.
Rapidamente, Nour apercebe-se de que existem lobos a viverem naquelas ruínas. Os soldados tiram-nos de dentro das casas e fazem deles escravos. Ela pensa que talvez estejam a reconstruir a Vila ás custas deles.
Ela procura por alguém conhecido, e, no meio da fila para comer, ela pensa ver Seth. Ele está magro, quase nu e bastante sujo. Está algemado assim como o resto, que implora por um pouco mais de pão e sopa quente.
Nanuk afasta-se e corre em direção á floresta depois de dar uma palavra com Gabriel. O velho assente e deixa o Husky livre por um tempo. Nour segue-o com os olhos e corre atrás dele com uma fúria colossal. Ele tornou-se a presa e Nour não o irá deixar fugir desta vez.
P.O.V. Luckyan
O estrondo de Saaya a pousar os reservatórios de água acorda Bear da sua sesta. Ele dá um aceno á morena de olhos escuros e ela retribui com um sorriso.
Luckyan, que tinha ido diretamente ao quarto, volta apressado e nervoso.
—Onde está a Nour? – pergunta ele a Bear. Ele dá de ombros.
—” Dá última vez que a vi, ela estava a ler um dos teus livros no quarto” – gesticula ele com as mãos.
Luckyan pontapeei-a de leve os pés de Aslam que dorme ao lado ferrado no sono.
—Viste a Nour? – pergunta ele quando Aslam resmunga.
—Não sei, nem quero saber – balbucia ele.
O alfa caminha apressado até lá fora e transforma-se num piscar de olhos para tentar seguir o cheiro de Nour. Saaya vai atrás dele, como boa beta submissa.
—Ela foi para casa, não foi? – pergunta Saaya mesmo atrás dele_ ela não vai voltar.
—”Cala-te!” – Luckyan rosna ao virar-se para ela_ “eu vou buscá-la. Volta para a gruta”.
—Tu podes morres, seu estúpido! – Saaya grita_ e depois…? O que eu faço sem ti…?
Luckyan olha para ela com algum carinho e aproxima-se da sua beta que morre de amores por ele.
Luckyan dá uma pequena lambidela no rosto húmido e humano de Saaya e sussurra:
—”Então a alcateia é tua. Toma conta daqueles dois”.
P.O.V OFF
Nour segue Nanuk até ao riacho e espera pelo momento oportuno. Ele começa a despir-se, mas fica apenas de calção. Assim que ele se vira de costas e começa a organizar a roupa, Nour avança. Pé ante pé, ela prepara-se para…fazer sabe-se lá o quê. A raiva cegou-a.
Nanuk vira-se de repente e aponta-lhe uma arma em direção á testa. Estava escondida dentro da sua camisa e o husky tem-na mantido perto desde que se apercebeu que ela vinha mesmo atrás dele.
—Não me faças premir este gatilho – sussurra nervoso.
— Caminhas ao lado do homem que chacinou a tua família, esse gatilho devia de estar apontado a ti, não a mim -ela responde.
—Eles…não eram…a minha…família – devolve o husky, pausadamente.
Nour dá um passo e o canudo da arma fica encostado mesmo á sua testa. De maxilar cerrado, ela encara-o furiosa.
—Mas eram a minha.
Ela chuta-o numa das pernas, quase partindo-a e Nanuk solta um grito. A arma está no chão e Nour pega-a e aponta-a a Nanuk. O seu pé esquerdo pressiona o pescoço dele, impedindo o Husky de respirar devidamente.
—Dá-me uma boa razão para não te matar agora – diz séria.
—Por muito que eu goste deles, não acho que gostarias de ter esta cor de olhos… — os olhos dele brilham azul fluorescente.
—Talvez queira uma mudança – ela pressiona um pouco mais. Nanuk praticamente não respira.
De repente, Nour é abalroada e sai disparada, acabando por bater contra uma árvore uns metro mais á frente.
Ela levanta-se em quatro patas e mesmo desorientada, consegue ver quem lhe deu o encontrão: Luckyan.
O alfa rosna agressivamente, enquanto Nanuk tosse desesperado por ar.
Nour sacode a cabeça e aproxima-se de Luckyan com os dentes igualmente arreganhados.
—” Sai da minha frente” – ela grunhe. Os seus dentes escorrem baba.
—” Obriga-me” – devolve o Alfa.
Eles estavam prontos para fincarem os dentes um no outro, quando se houve um disparo. Segundos de silêncio se passam, até que alguém se aperceba de quem foi atingido.
O lobo de Luckyan começa a esfumar-se lentamente, enquanto o Alfa se vai ajoelhando com alguma dificuldade. Nanuk segura-o. Sangue começa a escorrer-lhe por um dos cantos da boca.
—Ali! -aponta Nanuk. Nour sai disparada em direção ao atirador.
—A g-gruta… l-leva-me at-té á gruta… -Luckyan balbucia_ n-não é tão m-mau quanto p-parece.
Nanuk transforma-se e ajuda Luckyan a subir para cima do seu dorso. O Husky olha para o lado, onde Nour aparece com um dos braços do atirador na boca. Ela deixa-o cair no chão e assente.
****
—Saaya!! Aslam!! -grita Nour_ alguém!
Aslam vem á entrada da gruta e corre para eles assim que vê que Luckyan está ferido. Saaya vem aflita, assim que se apercebe da agitação de Aslam.
Eles levam Luckyan para dentro e Nour acaba por ficar para trás.
—Há alguma coisa que eu possa fazer? – pergunta ela.
—Acho que já fizeste o suficiente – riposta Saaya de modo rude.
Nour cerra o maxilar. Ambas entram no quarto de Luckyan, onde o alfa já começa a ter alucinações. Bear e Saaya tentam segurá-lo.
—Aslam não temos tempo! Temos que retirar a bala! – grita Saaya.
—Ele foi envenenado! A bala tinha algum revestimento, eu não sei o que é! – devolve Aslam.
Nour sente um cheiro estranho. Parece mofo. Algo húmido. Ela aproxima-se para ver e nota a mistela escura á volta da ferida na zona das costelas de Luckyan.
—É beladona – ela sussurra. Todos olham para Nour_ Não olhem para mim, queimem-lhe a ferida!
—E como raio é que sabes isso? – pergunta Saaya.
—Um miúdo uma vez na Vila comeu as bagas dessas plantas. É altamente tóxica. Durou 3 horas. Vomitou essa mistela preta porque é a cor do fruto, parecem mirtilos -ela continua. Aslam começa a preparar uma vela_ se a toxina chega ao coração, ele já era.
—Eu não sei se reparaste, mas a ferida é relativamente perto do coração – devolve Nanuk.
—Por isso é que temos que nos despachar. Se ele começar a ter convulsões é tarde demais.
Todos agarram Luckyan. Aslam vai ter que enfiar os dedos para tirar a bala.
—Ohh deus… aqui vamos nós…
Aslam espeta os dedos e procura pela bala, mexendo e remexendo na ferida. Todos olham para o lado. Nanuk quase vomita. Luckyan berra de dor. Três pessoas mal o têm preso.
A bala é retirada e Aslam pega rapidamente na vela e penetra-a na ferida. Luckyan solta-se de Saaya e lança um grito agonizante que faz estremecer a gruta inteira.
—Segurem-no! – grita Aslam.
—Estamos a tentar! – responde Nour.
De repente, ela tem uma ideia. É um pouco estranho, mas ela espera que resulte.
Ela solta-lhe o braço esquerdo e Aslam berra com ela, ordenando-a que volte a segura-lo.
Com ambas as mãos, ela segura-lhe o rosto que não para de abanar de um lado para o outro.
—Luckyan – ela chama-o_ olha para mim… olha para mim…

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