Quando o Eterno Inverno se Foi
2 Os olhos pintados por uma noite sem estrelas

O grande relógio de madeira, muito antigo e empoeirado, pendurado em uma das paredes do escritório de Snape, anunciou exatas oito horas da manhã, pontualmente, sem errar nenhum segundo. Snape fazia questão em ser pontual, exato feito matemática ou uma partitura musical, não atrasando nem um minuto ou segundo. Mesmo assim, naquele dia, seu corpo não queria se mover, ainda desmontado sobre a cadeira de couro preto, como se estivesse grudado ali, nunca mais podendo se levantar. Os olhos de Snape olhavam para o nada. O som dos alunos da Sonserina que haviam acabado de acordar — e agora caminhavam em direção ao café da manhã — preenchia os corredores e paredes das masmorras. Ainda assim, Snape flutuava fora de seu corpo, perdido em seus sentidos, tentando os amarrar um ao outro novamente. Em sua mente, somente via a imagem da jovem que a poucos minutos estava ali, em sua frente, dona de olhos reluzentes feito grandes pedras de esmeralda descansando sob o sol. Snape parecia um pássaro que tentava aprender a voar, mas caía; tentava mover seus dedos, ou seus olhos, ou até mesmo bater suas asas e voar para fora dali, mas não conseguia. Agora, sentia como se fosse segurado por braços grandes e pesados, o consumindo com um calor vindo de pequenas labaredas de fogo que se acendiam por toda a sua alma. E as labaredas eram tão vermelhas quanto os cabelos daquela jovem, Delyssie.
Como se já não bastasse ser o algoz e prisioneiro de sua própria vida, conviver com fantasmas internos que lhe sugavam cada gota de vitalidade, e ser o ator de tragédia cômica que era sua história, Snape ainda precisava ser surpreendido por uma memória dolorosa em forma física; Delyssie era Lily, em diferentes traços e formas, mas era a própria. Cabelos ruivos em mulheres sempre atormentaram Snape, principalmente desde a morte de Lily, mas nunca os viu em uma forma tão semelhante como a daquela que um dia. Seu coração batia como nunca mais havia batido antes, o que lhe causava medo; Ele jurou para si mesmo que tudo ali dentro estava morto. Provavelmente estava enlouquecendo, pensou Snape, tentando encontrar uma explicação lógica e plausível para tremendo afronte que a vida o fazia. Fazia anos em que Snape abandonara a si mesmo em um canto escuro e frio, inatingível, impenetrável, escondido de tudo e de todos, e após tanto tempo, algo conseguira quebrar a sua redoma tão protegida, o arrebatando feito uma forte tempestade ao afundar um navio em alto mar. Snape era o navio, desgovernado, perdendo o controle. Snape detestava não estar em controle. Snape precisava estar no controle.
— Deve ser um dos testes de Dumbledore.— Pensou Snape, sentindo a ponta dos dedos de suas mãos formigarem. - Ele deve estar me testando de alguma maneira. Sabe o que eu sentiria ao ver a garota. — Mas o argumento logo foi destruído por ele mesmo. — Não. Ele não seria capaz. Dumbledore não seria capaz de algo tão tolo. Ele me quer em controle. Ele me quer firme. E não me quer para ser um fraco perdido em todas as baboseiras que um dia senti...— Snape finalmente conseguiu controlar sua respiração, antes pesada, respirando fundo e enchendo os pulmões até sentir os órgãos doerem. Sentindo que precisava agir e fazer algo, levantou-se de sua cadeira em um impulso, e ao sentir uma brisa leve de ar passar por seu rosto durante seu movimento brusco, conseguiu reconhecer no ar um leve perfume doce e suave. Não existia flor alguma ali, nem mesmo nenhum frasco de poção que cheirasse tão bem. Com certeza estava enlouquecendo, e sua loucura era algo que ninguém poderia saber ou perceber.
Viu, em cima de sua mesa redonda, o boletim de Delyssie, que deixara ali assim que adentrou seu escritório. Hesitou em o olhar, querendo fugir totalmente da situação, mas não conseguiu ser forte o bastante para resistir; desenrolou o boletim e, para sua surpresa, ele se abriu em uma pequena e estreita fresta, mostrando ser feito de dois pedaços de papel pergaminho, um colado no outro, feito um envelope; e dali uma pequena fotografia caiu. Snape sentiu um riso desesperado brotar em seu peito e correr para fora de sua boca; quando mais tentava esquecer os olhos verdes e cabelos cor de fogo, mais eles apareciam para o assombrar. Lá estava Delyssie, movimentando-se na pequena fotografia que caíra na mesa de Snape, feito um lembrete ou terrível perseguição feita pelo diabo. Snape largou o boletim na mesa e pegou a fotografia em suas mãos; Delyssie sorria, vestida em seu uniforme de Beauxbatons; em seu sorriso, podia se ver um forte orgulho e confiança em si mesma, evidente em seu queixo levantado e postura firme, estonteante, como se fosse a mulher que iria dominar o mundo. Snape não viu aquela mesma jovem naquela manhã; Ele vira uma Delyssie frágil, acanhada, retraída em seu próprio corpo, de olhos tomados por uma tristeza profunda tanto quanto a oceano. Saindo de seu corpo e flutuando em uma aura quase embriagante, Snape passeou seus olhos pela foto, os pousando sobre o rosto de Delyssie, seus olhos verdes-esmeralda, seu pequeno e delicado nariz, e seus lábios cor de cereja, que mais pareciam duas pétalas de uma rosa vermelha colocadas uma ao lado da outra, para desenhar uma boca. Quanta beleza depositada em um só corpo...Beleza tão grande que não deveria ser admirada por pessoas como Snape...
Consumido por raiva e repúdio, Snape atirou a foto de Delyssie em sua mesa, a ignorando e caminhando para longe dela, como se ali estivesse um terrível peça amaldiçoada. O que ele estava fazendo? No que ele estava pensando? Por que estava agindo daquela maneira, tão imbecil, tão repugnante? Snape não era mais um jovem idiota perdido em suas emoções, mas sim, era um homem protegido por sua disciplina emocional, páginas de livros velhos, frascos de poções e ocultado pelo véu da escuridão. O que diabos estava acontecendo em sua mente? Snape amaldiçoou aquela jovem Delyssie em seus pensamentos, assim como também amaldiçoou todo o seu sofrimento por Lily, e cada erro cometido por ele mesmo em sua vida. Pegou a foto da jovem que caíra em sua mesa e a colocou de volta no meio dos papéis de pergaminho que formavam o boletim, e o enrolou, logo o guardando em uma das gavetas de sua mesa redonda. O ódio crescia dentro de Snape, e era outro sentimento comum existente ali dentro de sua alma, borbulhando feito um vulcão pronto para entrar em erupção. Estava irritado por ser fraco; irritado por dar ouvido aos fantasmas que o acompanhavam; irritado por fraquejar.
Entre resmungos sem palavras compreensíveis, somente lamentos em suspiros pesados, Snape se aproximou de um espelho de corpo inteiro ao lado da porta de entrada de seu escritório, encarando a si mesmo no reflexo. Ali, não era o mesmo Snape de anos atrás, mas sim, agora, um homem que começara a envelhecer, deixando a mostra as marcas do tempo em sua pele pálida e não beijada pelo sol, caminhando pela vida com seu rosto consumido pela dor, e pela desistência de lutar contra ela. Caminhando para mais perto de seu eu no reflexo daquele espelho sujo e cheio de poeira, Snape olhou no fundo de seus olhos, e pela primeira vez, ali, ele viu vida. Antes, não sentia nada, mas agora, sentia o seu corpo adormecido reacender meio a escuridão. E ali, em seu olhar, Snape não fazia ideia, mas alguém se perdera ali, minutos atrás, mergulhando em sua imensidão escura feito uma noite sem estrelas.
Delyssie caminhou em passos apressados e perdidos de volta para a Sala Comunal da Sonserina. Sentia-se jogava no vento; seus pais já não estavam mais ali para a proteger, e nem mesmo Dumbledore. Desde a noite mais infeliz de sua vida, Delyssie nutrira esperança de que tornaria a ver o sol raiar diante de seus olhos, mas somente sentia afundar cada vez mais em um poço fundo e escuro. Quando Hogwarts parecia ser uma nova porta aberta para que pudesse deixar sua vida tomada por dor, viu que nada seria diferente do que era antes; estava só, sem ninguém por perto para curar suas feridas, nem mesmo alguém para acalmar seus demônios internos. Sentia-se traída, excluída daquele mundo onde todos viviam suas vidas, mas somente ela parecia morrer. Na verdade, Delyssie já se sentia morta. Em sua mente, apenas restavam memórias daquela que um dia fora, e em seu presente, apenas restava o que ela era agora; um corpo que perambulava vazio, batendo entre paredes e quinas, procurando uma saída para escapar do sofrimento, mas sucumbindo ao ouvir os próprios gritos.
Em sua frente, viu a parede que a levaria para a Sala Comunal de sua casa. O corredor estava vazio e silencioso, o que fazia Delyssie sentir sua solidão urrar ainda mais alto. Seu corpo estava totalmente tenso e seus músculos retraídos. Ainda estava sob o efeito dos olhos pintados por uma noite sem estrelas; os olhos daquele homem, Severo Snape, pareciam ter a consumido por inteira, a tragando em uma densidade obscura. Aquele era o homem em que deveria confiar sua dor; aquele era o homem do qual Dumbledore enchera a boca para falar sobre, com muito orgulho e certezas; aquele homem, tão frio quanto aquelas masmorras, e dono de olhos tão escuros quanto um céu sem luar, era o homem que a resgataria. E em seu coração, Delyssie já sentia uma profunda decepção, pois sabia qual seria o desfecho daquela história: Mais uma vez não iria ver a luz do sol, nem mesmo iria silenciar os gritos que a ensurdeciam. Era somente mais uma tentativa falha meio ao desespero de tentar voltar a sentir algo pulsar dentro de si mesma, algo vivo, algo sangrento, algo com vida, mas nada iria acontecer. A vontade de chorar vinha feito um vômito, subindo pela garganta de Delyssie mas ali se alojando, pois ela não iria desabar quando precisava fingir estar forte. E fingir estar forte era algo que fazia muito bem.
— Puro-sangue. — Sussurrou Delyssie, imitando o Professor Snape. Lembrou-se de como a voz do professor soava, forte e profunda, parecendo com o som de um contrabaixo. Delyssie esperava por um tom de voz cheio de amor e colo para a consolar, mas ao contrário, recebera um morcego-homem que parecia pronto para pular em seu pescoço, a fuzilando com seus olhos escuros cor de pedras ônix. Sabia, em seu íntimo, que Snape já a detestava. Não sabia o porquê. Mas sabia.
A serpente talhada na parede de rochas se moveu, funcionando como a alavanca para a abertura da porta de entrada para a Sala Comunal da Sonserina. Para piorar a terrível ansiedade desesperadora que tomava conta do corpo de Delyssie, a jovem se deparou com a sala, antes vazia, agora, cheia de alunos. Titubeou em seus passos, passeando seus olhos por cada rosto ali, e logo os voltando para seus pés, desejando naquele momento ser invisível, mais do que tudo. Mas infelizmente sua presença não passou despercebida. Delyssie sentiu todos os olhos daquela sala se colocarem sobre ela, como se ali tivessem diversas corujas prontas para atacar uma presa. Não sabia o que fazer, nem mesmo o que falar ou como agir; Delyssie sentia-se como um bicho enjaulado que, finalmente tivera liberdade. Mas sabia que não estava livre, e que estava acorrentada em seu corpo morto, que era levado pela maré.
— Ah, você!— E uma voz forte e feminina congelou o corpo de Delyssie em um susto repentino, fazendo seu coração quase sair para fora de sua boca. Delyssie levantou seus olhos e viu em sua frente uma garota alta, de cabelos louros cor de cevada que tocavam a altura de seus seios, pele dourada e sorriso largo cheio de dentes. — É a aluna nova!
— S-Sim, sou! — Respondeu Delyssie, pega de surpresa. Pelo visto a notícia de que era a nova aluna já havia se espalhado entre os alunos da Sonserina.
— Sou Gemma! Gemma Farley!- E a jovem estendeu sua mão para cumprimentar Delyssie; ambas deram um aperto de mão delicado, e o desespero que Delyssie sentia segundos atrás fora afagado diante do sorriso radiante de Gemma. — Sou a monitora da Sonserina e estou aqui ao seu dispor. Sua bagagem acabou de chegar e eu já a coloquei em sua cama. Está protegida por um feitiço-cadeado, então ninguém vai poder bisbilhotar suas malas.
— Muito obrigada! — Agradeceu Delyssie, pouco a pouco sentindo sua ansiedade ser silenciada diante da gentileza de Gemma. Reparou que a monitora era muito mais velha do que os demais ali. — Onde...Onde fica minha cama? — Perguntou Delyssie, com a real intenção de prolongar aquela conversa, ao invés de parecer uma bobalhona que se esquecera do que era socializar.
— A escadaria da direita dá para o dormitório feminino. — E Gemma indicou com seu dedo indicador uma escadaria espiral feita de rochas largas e esverdeadas. — Daqui a pouco iremos para o café da manhã. Você já sabe todas as regras, não é?
— Já sim. Dumbledore me explicou. E Professor Snape também. — Respondeu Delyssie, preocupada em parecer o mais sã o possível, mesmo tendo sua mente corroída por toda a tristeza que a assombrava.
— Ótimo! Eu vou colocar meu robe da Sonserina e já volto. Irei lhe indicar o caminho para o Salão Principal, está bem? — E Gemma correu apressada para o dormitório feminino, fazendo questão de deixar para Delyssie um último largo e radiante sorriso. Delyssie sentia seus lábios tremerem em seu sorriso quase forçado, enquanto engolia suas lágrimas que quase escorreram por seus olhos segundos atrás. E, pensando em olhos, voltou a reparar que os dois alunos sentados em um sofá de couro preto ainda estavam pousados sobre ela. Delyssie havia se esquecido do que era ser ela mesma; sempre fora uma garota que atraíra olhares, quase como em uma forma de um charmoso encantamento. A dor havia feito com que ela se esquecesse completamente do que era, e que enxergasse a si mesma como um mirrado e aterrorizante monstro que nunca mais se encaixaria na sociedade. Delyssie notou que dois garotos ali, que pareciam mais velhos do que os demais alunos, cochichavam algo, e era sobre ela. Sentindo como se estivesse nua diante de todos, resolveu sair dali e seguir Gemma, mas antes que pudesse fugir, um dos garotos veio em sua direção.
— Ei, garota nova! — Delyssie foi obrigada a parar seus passos e encarar aquele que a chamava. Era um garoto alto, magricela, de cabelos castanho-escuro, lisos, e que caíam sob seus olhos azuis; Delyssie notou que sua gravata estava terrivelmente amarrada em um nó mal feito, e que seus sapatos de couro preto estavam desamarrados. — Como vai, hein? — O garoto tinha um jeitão engraçado, desengonçado, como se fosse feito de mola e pano.
— Oi! — Cumprimentou Delyssie, diante do garoto que a olhava de sua ponta dos pés até sua cabeça, como se fosse um objeto precioso exposto em um museu. Delyssie se sentia totalmente desconfortável perto de desconhecidos, e até mesmo de conhecidos. As coisas não eram assim antes, mas após os terríveis eventos em sua vida, tudo havia mudado, como se sua vida tivesse perdido as cores vivas e vibrantes de antes, dando espaço para somente tons de cinza tão escuros que nem mesmo podiam ser identificados.
— Seu cabelo é muito bonito! É de verdade? — Perguntou o garoto, observando os cabelos cor de fogo que caíam feito cascatas de chamas sobre os ombros delicados de Delyssie.
— De verdade? — Delyssie abriu um sorriso bobo em seu rosto, achando engraçada a pergunta do garoto. — Sim! Sim, que eu saiba sim. — E deixou soltar uma risada fraca, surpreendendo-se com a capacidade de ainda conseguir rir.
— Caramba! É muito bonito! Não é, Caleb? — Perguntou o garoto, virando-se para olhar o amigo que estava sentado no sofá de couro preto da Sala Comunal, observando Delyssie com extrema curiosidade. Caleb era um jovem de estatura alta, corpulento, pele morena e olhos parecidos com os de um gato em seu formato; seus cabelos emolduravam seu rosto em cachos castanho-claro aparentemente queimados pelo sol, pois algumas mechas eram douradas e reluziam diante das lamparinas acesas na Sala Comunal. Era um rapaz extremamente atraente.
— Pare de a perturbar, Finley.- Disse Caleb, levantando-se do sofá e caminhando em direção de Delyssie, sem tirar seus olhos dela. Tinha uma voz forte e uma dicção perfeita. O jovem era alto e tinha um caminhar imponente. Delyssie sentia-se ainda mais acanhada a cada segundo. — Não ligue para ele. Ele é meio idiota às vezes.
— Não! Está tudo bem! — Riu Delyssie, meio a um sorriso, procurando ser educada o bastante para causar uma boa impressão, mas somente segundos depois percebeu o que dissera.
— Viu? Ela concorda. Você é um idiota, Finley.- E Caleb deu um tapa no cocuruto de Finley, que protestou em um grito estridente e exagerado. Delyssie deixou soltar um riso, mais uma vez, e seus olhos encontraram os de Caleb, que eram cor de mel. — Seja bem vida, então! Qual o seu nome?
— Delyssie.- Respondeu, com um sorriso. Pelo canto dos olhos, reparou que os outros alunos ali espicharam suas cabeças no momento em que Caleb perguntou seu nome.
— Que nome bonito! — Disse Finley, fazendo covinhas aparecerem em suas bochechas rosadas quando sorriu. — Nunca vi ninguém com um nome igual ao seu!
— Nem eu. — Observou Caleb, compenetrado em Delyssie.- Você veio de Beauxbatons, é?
— Mas é claro que ela veio de lá. — Finley atropelou Delyssie antes que ela pudesse afirmar a pergunta de Caleb. — Olhe para ela. Olhe para ela! — Finley apontava para Delyssie com as duas mãos. — Lá só tem garotas assim!
— Finley, segure a empolgação. Consigo ver a baba escorrer de sua boca daqui. — Disse uma voz feminina e áspera. Delyssie procurou pela voz e logo notou uma garota vindo em sua direção, caminhando como se tivesse pés feitos de plumas, tão elegantemente quanto o voo de uma fênix. — Vocês vão a assustar! — E Delyssie notou como os cabelos longos e pretos daquela garota brilhavam sob a meia luz que tomava conta da Sala Comunal. Ao chegar mais perto dela, Delyssie também notou que os olhos da jovem eram de um azul escuro impressionante, quase como a cor de um oceano em uma noite escura. — Muito prazer em a ter aqui, Delyssie! Sou Esme. Esme Lair. — E ela estendeu sua mão de unhas longas e pintadas de preto. Delyssie a cumprimentou. — Não vou mentir, você realmente é estonteante. — E ela sorriu através de sua boca de lábios finos e pintados por um batom de cor roxa, combinando com a sombra de tom lilás em seus olhos azul escuro.
— M-Muito obrigada — Agradeceu Delyssie, sentindo que iria derreter em timidez, através de um sorriso forçado. O que mais ela poderia dizer? Como ela deveria agir? Delyssie havia se esquecido completamente do que era ser o centro das atenções, e antes, ela sempre estivera lá, bem no meio, debaixo de todos os holofotes. — Você é muito gentil...
— Que nada. Não precisa ser modesta. — Disse Esme, jogando seus longos cabelos pretos para trás de seus ombros, e ajeitando sua franja extremamente reta que cobria sua testa. — Só estou dizendo a verdade. E ah, se esses dois bundões encherem muito sua paciência, pode vir falar comigo pois posso os azarar...
— Como sempre, muito agradável, não é, Esme? — Debochou Caleb, impondo sua voz contra a de Esme, que o lançou um sorriso amarelo.
— Por que você veio para Hogwarts? — Finley perguntou, apaziguando as faíscas que voavam entre os olhares de Caleb e Esme. Delyssie foi pega de surpresa pela pergunta, mas logo se lembrou do que ela e os pais combinaram em dizer, caso alguém lhe fizesse a pergunta do motivo dela estar ali.
— Meu pai foi transferido para o Ministério da Magia de Londres. — Mentiu Delyssie, tomando cuidado para não gaguejar. Ninguém sabia de sua história, pois os pais fizeram questão de ocultar a noite mais terrível de sua vida. Queriam lhe poupar em ser uma mulher marcada por uma tragédia.
— Uau! Seu pai trabalha no Ministério? — Perguntou Esme, colocando as mãos na cintura fina e a apertando.
— Meu pai é auror.- Respondeu Delyssie. Finley abriu sua boca em formato de ''o''.
— Caramba! Meu sonho é ser auror!- Finley sorria, e Delyssie pôde ver ali em seus olhos azuis claro o quanto o sonho de ser auror trazia brilho para seu olhar. — E sua mãe?
— Vai perguntar para ela sobre a família toda dela? Faça-me o favor...- Riu Esme, rolando seus olhos e agora passeando seus dedos por seus longos fios de cabelo.
— Quer parar de rosnar, Esme? — Retrucou Caleb, cruzando os braços. Esme rolou os olhos novamente, parecendo que iria os fazer ir parar para dentro de seu cérebro. Delyssie sentia-se cada vez mais desconfortável diante de tantas perguntas, mas sabia que não podia perder a oportunidade de entrar naquela porta que estava aberta; Pessoas estavam ali, diante dela, desconhecidos, com sorrisos em seus rostos, a acolhendo e não lhe fazendo mal. Delyssie conhecera um mundo hostil nos últimos tempos de sua vida, onde outros humanos eram somente pessoas que iriam lhe fazer mal, e nada mais.
— Minha mãe trabalha no Departamento de Controle de Trouxas. Também é no Ministério. — Respondeu Delyssie, sentindo sua voz falhar em cada palavra pois o nervoso não permitia que ela soasse normalmente.
— CARAMBA! Que incrível! — Vibrou Finley, cada vez mais arregalando seus olhos, fazendo parecer que iriam saltar para fora de seu rosto.
— O que exatamente ela faz? — Perguntou Caleb.
— Ela cuida dos trouxas. Bem, ela faz a ponte entre nosso mundo e o deles. E muitas vezes cuida de assuntos difíceis, como apagar a mente de alguns trouxas que viram demais...- Explicou Delyssie. Esme riu.
— Deve ser um trabalho bem difícil. — Esme comentou, com um riso em seu rosto. Delyssie reparou somente agora que a jovem levava em seu pescoço um colar delicado com pingente em formato de gato, encrustado em pedrinhas pretas e brilhantes. Esme era bastante excêntrica.- Me lembro de quando um trouxa viu meu pai aparatar. Ele quase enlouqueceu! Começou a orar e dizer que o fim dos tempos estava chegando...- E caiu na risada.
— Sim, mamãe apaga muitas mentes de trouxas assim! — Disse Delyssie, ainda com o sorriso forçado em seu rosto, o que já lhe dava dor nas bochechas.
— Você entrou para o último ano, né? — Perguntou Finley. — Eu estou no sexto ano!
— E eu e Esme no último também. — Complementou Caleb, colocando suas grandes mãos dentro dos bolsos de seu robe da Sonserina.
— Sim, estou no último ano! — Respondeu Delyssie, sentindo uma ponta de alívio por saber que teria companheiros para as aulas.
— Já tomou o café? — Perguntou Caleb. Delyssie negou com a cabeça.
— Ah, não, eu acabei de chegar...Eu estava na sala do Professor Snape...
— Coitada.— Disparou Finley, e Caleb lhe deu outro tapa atrás do cocuruto, o que irritou bastante o garoto. — O que foi?
— A última vez em que você zombou do Professor Snape, ele estava atrás da gente e você sabe o que aconteceu!- Disse Caleb, ríspido, mas em voz baixa. Esme rolou os olhos pela terceira vez.
— Vocês amam perturbar o Professor Snape, não é? Ele somente está fazendo o trabalho dele. Não é culpa dele que a maioria dos alunos são uns verdadeiros babacas. — E Esme enrolou seus cabelos longos na ponta de seus dedos de sua mão direta, enquanto a mão esquerda continuava na cintura.
— Eu digo ''coitada'' porque ver o Professor Snape logo de manhã é a pior coisa que poderia me acontecer! — Finley explicou, e fez aparecer uma expressão de medo contorcida em seu rosto. — Ele é horrível! Eu não sei o que ele ainda faz aqui em Hogwarts...
— Ele honra nossa casa. — Retrucou Esme.
— Ele é um maluco.- Cochichou Caleb. — Você conseguiu sobreviver a ele? — Perguntou. Delyssie não sabia o que dizer; Esme enchia a boca para falar de Snape com orgulho, e Caleb e Finley pareciam sentir terror em relação ao professor. Imediatamente, Delyssie viu em sua mente os olhos pretos como uma noite sem estrelas que Snape carregava em seu rosto pálido e de expressão fechada; O tempo todo em que ficara frente a frente com o professor, sentiu como se estivesse sendo sugada, afogando-se em uma areia movediça escura; Fora tomada por uma aura densa, e mesmo que tentasse desviar daqueles olhos pretos, não conseguia.
— E-Eu acho que sim. — Gaguejou Delyssie, sentindo a mesma sensação de estar perto de Professor Snape tomar conta de seu corpo ao lembrar dele. — Ele é... Um pouco...
— Doido? — Perguntou Finley, completando a pausa de Delyssie.
— Estranho. — Contrapôs Caleb.
— Intenso...- Finalizou Delyssie, disparando o único adjetivo que viera em sua mente para descrever o seu encontro com Professor Snape. E após um silêncio de poucos segundos, Caleb e Finley caíram em gargalhadas.
— Intenso! — Ria Caleb, em um riso espalhafatoso. E pela milésima vez, Esme rolou os olhos, e Delyssie se contorceu em timidez, tentando entender o que havia dito de errado. E então percebeu, que ''intenso'' fora um adjetivo estranho para descrever o Professor Snape.
— Parem, vocês dois! Quanta babaquice! — Resmungou Esme, dando um leve empurrão em Finley, que se contorcia em gargalhadas. — O Professor Snape é um homem muito profundo. — E Esme piorou a situação, fazendo Caleb e Finley rirem ainda mais. — Ai, como vocês são idiotas! Quero dizer que ele realmente é assim, um homem de muitas camadas.
— Ele é um sanduíche, por acaso? — Riu Finley, e Caleb deu uma palmada nas costas do amigo, segurando o peito enquanto ria.
— Não! Não riam dela! Nem dele! Eu entendo o que ela quis dizer. O Professor Snape é uma figura o tanto peculiar, mas é um professor incrível. — Disse Esme, percebendo que as bochechas de Delyssie coraram e agora pareciam dois grandes tomates. — Ele é assim... Um tanto sério, mas é realmente um professor incrível. Ele ensina poções como ninguém!
— Mas ele não queria ensinar poções, Esme. Ele queria Defesa Contra as Artes das Trevas! Todo mundo sabe! — Disse Caleb, tomando cuidado para não fazer sua voz soar alta, já que tinha medo de que Snape aparecesse ali e escutasse todo o assunto a respeito dele. — Faz anos que ele quer o cargo!
— Combinaria mais com ele, já que ele parece a própria Arte das Trevas encarnada. — Riu Finley, esboçando um sorriso maroto no rosto pintado por pequenas sardas marrons. Delyssie concordou, em seu íntimo; Snape era uma figura escura, que perfeitamente poderia se mesclar com o breu noturno de uma noite fria, envolvido em sua capa preta e vestes de muitos botões.
— Ah, eu já cansei de vocês dois. — Resmungou Esme, junto de um suspiro. Voltou seus olhos azuis-escuros para Delyssie e abriu um sorriso. — Você já tomou café da manhã?
— Ainda não! — Respondeu Delyssie, quase agradecendo Esme pelo fato de a garota ter desviado o assunto sobre o Professor Snape.
— Ótimo! Eu também não! — Esme sorriu, olhando para Caleb e Finley por cima dos olhos, com um ar de superioridade. Naquele momento, Gemma desceu as escadas, como em um encontro perfeito de coincidências. A monitora-chefe abriu o seu tão largo sorriso cheio de dentes.
— E aí, Delyssie! Vamos para o café? — Perguntou Gemma, aproximando-se, agora vestindo seu robe da Sonserina; Delyssie notou que ali, tinha preso um broche de um brasão roxo que indicava a letra ''M''. Logo deduziu que deveria ser ''m'' de ''monitor''.
— Eu vou junto! Acabei de chamar a Delyssie para irmos! — Disse Esme, parecendo eufórica por tomar o café da manhã. — E vocês dois, já tomaram o café ou vão ficar aí feito dois babacas?
— Vamos ficar aqui feito dois babacas, Esme. — Retrucou Caleb, com um riso malicioso em seu belo rosto, que mais parecia esculpido para ser uma estátua grega. — Vai lá, Delyssie. E se a Esme tentar te morder, nos chame, a gente vai te socorrer! — E riu. Esme ameaçou retirar sua varinha de dentro de seu robe e Finley saiu correndo para a escadaria que provavelmente dava no dormitório masculino. Esme riu, balançando a cabeça e mais uma vez, rolando seus olhos.
As três jovens partiram para o Salão Principal. Delyssie reparou os olhos curiosos que passavam por ela, e sua timidez tomou conta de seu corpo que, involuntariamente, se contraiu. Era estranho ver aquele monte de gente vestindo vestes pretas, pois estava acostumada com a seda e azul claro de Beauxbatons. Caminhando rapidamente e acompanhando os passos de Esme e Gemma, Delyssie reparou um grupinho de meninas parado no corredor, onde todas a olharam, como quase a amaldiçoando. Delyssie abaixou os olhos e continuou seu percurso, mas logo fora assustada por um garoto alto em sua direita que a surpreendeu com um “oi”, e virou-se para a olhar passar. Esme soltou um risinho baixo, e cochichou no ouvido de Delyssie:
— Viu? Já está fazendo sucesso! — Sussurrou Esme, enquanto seus cabelos longos e pretos esvoaçavam conforme andava. Delyssie não estava nem um bocado contente com tantos olhos em cima dela. Não sentia que era merecedora de tanta atenção, nem de tantos sorrisos vindos de desconhecidos, nem mesmo de olhares invejosos. Abaixou sua cabeça, procurando se esconder de todos. Se pudesse, sairia correndo dali naquele exato momento. A ansiedade, sua fantasma companheira, subia por sua garganta em forma de azia.
Após muitas escadas subidas e corredores caminhados, finalmente chegaram no Salão Principal. Delyssie ficou impressionada com a magnitude daquele local; Era um salão majestoso, de paredes de tijolos cor de areia, assim como o piso; Quatro longas mesas de madeira escura estavam posicionadas uma ao lado da outra, dividindo os alunos por suas respectivas casas. Ao fundo, uma grande janela de vitral deixava a luz do sol entrar, mas Delyssie logo reparou que não somente os raios vinham através do vidro, mas sim, também caíam sobre sua cabeça; ao olhar para cima, foi tomada por uma forte emoção ao ver o céu, nítido, azul e limpo de nuvens. Esme logo notou os olhos de Delyssie, deslumbrados com o que via.
— É enfeitiçado. — Sussurrou Esme, apontando para o teto, onde o céu estava a mostra. — Tanto de manhã quanto a noite. Realmente parece que é o céu, mas é só um encantamento. Delyssie ficou deslumbrada com aquilo; lembrou-se de como era o Salão Principal de Beauxbatons; Repleto de tons de dourado e azul, sofisticado, decorado por lustres de cristais, móveis provençais e folhas de ouro. Mesmo diante de tanta riqueza, Delyssie confessava para si mesma que Beauxbatons não tinha a mesma magia que aquele local. Local aquele que, agora, era sua casa.
— Magnífico! — Disse Delyssie, encantada com o céu azul sobre sua cabeça. E enquanto caminhava acompanhando o trajeto de Esme e Gemma, Delyssie não percebia os olhos ainda fixados em sua presença. Ela era a carne nova, uma estrangeira, a grande novidade, o novo assunto dos cochichos e buchichos. Os alunos sentados na mesa da Sonserina, que era a primeira na parte esquerda do Salão, viravam suas cabeças para ver quem era a nova aluna da casa. Os garotos uniam-se em grupos para comentar sua chegada.
— É... Ela vai ser um problema. — Riu Esme, percebendo todos os olhares e cochichos. Delyssie não entendeu o que a colega disse, e nem mesmo procurou se aprofundar, enquanto observava cada detalhe do Salão Principal, agora deslumbrada com as gárgulas nas paredes onde estavam penduradas arandelas acesas por fogo.
— Com certeza! — Respondeu Gemma, dando uma piscadela para Esme. As colegas pararam, e Delyssie parou também. Notou que estava diante da mesa da Sonserina. Gemma fez um gesto para que Delyssie se sentasse no longo banco de madeira.
— O café da manhã começa sempre às oito da manhã — Explicou Gemma, erguendo seu robe para poder se sentar sem o amassar. — E vai até as nove. Você tem uma hora para comer, e então às dez temos nossa primeira aula!
— Você tem o horário das aulas, né? — Perguntou Esme, sentando-se a direita de Delyssie.
— Sim! Professor Snape já me deu um manual com todos os horários e regras. — Respondeu Delyssie. Agora, ela focou sua atenção na longa mesa e em toda a comida em sua frente; Caixas de sucrilhos, pequenos sanduíches de presunto e queijo enfileirados um ao lado do outro em uma bandeja de prata, pudim de pão, linguiça e ovos mexidos. Sentiu seu estômago roncar. Estava faminta, mas somente começaria a comer quando Gemma e Esme dessem o primeiro passo.
— Ótimo! Então não terá dificuldades em se encontrar aqui! Mas hoje ficarei como sua guia. — E Gemma mais uma vez abriu seu sorriso largo e radiante, pegando um sanduíche. Delyssie fez exatamente o mesmo, e reparou que Esme serviu-se de ovos mexidos.
— Hoje nossa primeira aula é de Defesa Contra as Artes das Trevas. Depois, temos astronomia. — Esme deu uma garfada cheia de urgência em seus ovos mexidos. Também parecia estar faminta. — E depois temos Adivinhação...E a última aula é poções.
Ótimo, pensou Delyssie. Hoje teria de encarar novamente os olhos escuros feito a noite de Professor Snape. Não conhecia os outros professores, mas esperava que todos fossem pelo menos mais agradáveis do que o professor de poções.
Delyssie ainda se sentia tímida. Era estranho estar ali, em Hogwarts, por mais encantadora que fosse; Era como se estivesse recomeçando uma nova vida, e realmente estava. Mas lhe era muito difícil enxergar qualquer luz em seus dias sempre escuros; era como se ela visse sua vida por detrás de lentes cinzentas. Seu passado lhe assombrava; lembrar que não saíra de Beauxbatons em bons termos lhe trazia dor, e fazia sua azia piorar. Delyssie costumava ser a grande promessa de sua escola; Era ótima em tudo o que fazia, desde suas notas, até dons artísticos e em conquistar novas amizades e em ser líder. Quando a pior noite de sua vida aconteceu, Delyssie viu sua vida ser amassada feito um papel velho e rasgado, e então, jogado no fogo, consumindo-se em chamas. Nunca mais ela fora a mesma, nem mesmo seus dias, e nem mesmo suas noites. Seus amigos e colegas viraram as costas para suas dores. ''Preguiçosa'', diziam. ''Você enlouqueceu?'', perguntavam. ''Ela está deplorável!'', comentavam. Delyssie conheceu, da noite para o dia, os verdadeiros rostos por detrás de máscaras com quem bailava todos os dias. Delyssie descobriu que sua vida era uma mentira, um livro de faz de conta, uma fantasia cinematográfica. A verdade era o que ela vivia agora, e era um mundo cruel, onde deveria estar pronta para ferir e serem ferida, sangrar e fazer sangrar, chorar e fazer chorar. Não existiam mais os tons do arco-íris. A sua vida, agora, era uma página branca, com alguns rabiscos em grafite e tons cinzas empoeirados.
— Ei, bem vinda a Sonserina!- E uma voz quase infantil cortou os pensamentos escuros de Delyssie, que rapidamente virou-se, sentindo algo a tocar nas costas. Era um pequeno menino de cabelos loiros e orelhas de abano, sorrindo para ela e mostrando seus dentes tortos. Esme deu uma risadinha baixa.
— Muito obrigada! — Agradeceu Delyssie. Pelo menos ali em Hogwarts eram gentis, mas suas experiências de vida lhe diziam que tudo não passava de mais um baile de máscaras. No fundo, desejava mais do que tudo estar errada.
— Tchau! — E o garotinho saiu correndo pela grande porta de entrada do Salão Principal. Esme, de boca cheia, ria.
— Garota, até os garotinhos do primeiro ano? Qual o feitiço de charme que você está usando? — Perguntou Esme, meio a um riso bobo em seu rosto longo e de feições marcantes. Delyssie abriu um sorriso tímido e abaixou os olhos para seu prato de cobre, onde lá estava seu sanduíche poucas vezes mordido.
Delyssie olhou mais uma vez para o alto, admirando o céu mágico sobre sua cabeça. Naquele momento, desejou ser um pássaro, podendo voar dali para qualquer lugar no mundo, fugindo de sua realidade. Ela nunca escolhera aquele destino para si mesma; desde quando era menina, seu sonho era ser bailarina. Treinara por anos de sua vida, entre quedas e acertos, entre críticas e vitórias, e sabia que, um dia, também voaria como um pássaro, mas rodopiando em suas sapatilhas. Mas em uma noite e em uma fração de segundos e acontecimentos cruéis, tudo mudou. Delyssie olhava para os lados, passeando seus olhos por todo o seu redor, e via todos ali vivendo suas vidas, e sabia que era diferente de todos eles; sua alma era corrompida, e seu corpo era feito de remendos. Ela não entendia, e nunca entenderia, o motivo da vida por lhe dar um caminho de sofrimento para caminhar.
— Tá gostando da comida? — Perguntou Gemma, servindo-se do suco de abóbora que ficava dentro de uma garrafa fechada por uma tampa em formato de uma cabeça de javali.
— Ótima! — Respondeu Delyssie, mais uma vez, sendo puxada de volta para o seu presente momento.
— Melhor que em Beauxbatons?- Esme perguntou, de boca cheia.
— É bem diferente. Lá temos muitos pães! — Delyssie se lembrou dos deliciosos pães de chocolate que amava comer em suas manhãs em Beauxbatons. — Mas aqui a comida é deliciosa!
— É feita por elfos. Elfos domésticos. — Esme empurrou seu prato para o lado.
— Em Beauxbatons não tínhamos elfos domésticos. — Disse Delyssie. Estava tentando parecer normal, ocultando as sombras em que vivia presa. Deu uma mordida em seu sanduíche, e encheu seu peito de coragem para conseguir quebrar sua timidez. — É... — Tentava procurar algum assunto para colocar na mesa entre as novas colegas. — A Sonserina sempre se senta aqui?
— Aqui? Na mesa? Aham, sempre. — Respondeu Gemma, bebendo seu suco de abóbora em um cálice dourado. — E aqui atrás fica a mesa da Corival, e a outra é da Lufa-Lufa, e-
— E a outra é a mesa dos chatos da Grifinória.- Esme atropelou a fala de Gemma, espiando a mesa da Grifinória por cima de seu ombro esquerdo. — Ah, olha lá, olha quem já está se colocando todo pomposo para cima dela...
— O que? — Gemma procurou para onde Esme olhava; logo fixou seus olhos na mesa da Grifinória. Delyssie fez o mesmo.
— Você tem mais um fã, Delyssie...- Disse Esme, com desdém em seu tom de voz. Delyssie notou que a colega e Gemma olhavam para um grupo de meninos mais velhos que, para sua surpresa, também as olhavam. Um dos jovens ali, usando óculos ovais, fixou seus olhos em Delyssie, e esboçou uma elevação no canto da boca, em um sorriso fraco.
— Ele não cansa, não é? — Comentou Gemma, agora mostrando ser sua vez de virar os olhos. Esme colocou suas mãos nos ombros de Delyssie, a virando de volta para a mesa da Sonserina.
— Nem olha. — Cochichou Esme.
— O que houve? — Indagou Delyssie. Gemma terminou o último gole de suco de abóbora em sua taça.
— É Marco Young. Apanhador da Grifinória.- Gemma se serviu de pudim de pão. — Parece que está de olho em você.
— Parece? Eles estão li-te-ral-men-te falando dela. Literalmente! E é sempre assim. Cada dia ele muda de interesse e de foco. — Esme falava com tanto desdém, que parecia que o tal do Marco Young tinha feito algo muito ruim para ela. — É o cara mais arrogante que você vai conhecer. Claro, para estar na Grifinória, precisa ser arrogante.
— A Grifinória não ganha a Taça das Casas faz anos, então se prepare para aguentar um pouco de rivalidade com eles...- Disse Gemma, comendo seu pudim de pão com vontade. — A Sonserina vem sendo a vencedora desde os últimos sete anos.
— Claro que nós sempre ganhamos...olhe bem para as outras casas...- E Esme deu um riso curto e debochado, jogando seus cabelos longos para trás de seus ombros como se fosse um leque sendo rapidamente aberto. — Os Lufanos...nunca venceriam. São mais conhecidos por tropeçar nos próprios pés. Corvinal...bem, é uma casa respeitável. De verdade! E a Grifinória...são arrogantes, prepotentes...Somente vencem na força, mas se esquecem da inteligência.
— Bem...- Delyssie não sabia o que dizer depois daquela clara explicação, talvez até clara demais para seu gosto. — E no Quadribol? Aqui jogam Quadribol, certo?
— Se tem algo no que a Grifinória é boa, é no Quadribol. Não podemos negar. — Disse Gemma. — Mas nosso time é ótimo também. Faz tempo que não jogamos contra a Grifinória, porque Madame Hooch sabe que as partidas entre nós são...agressivas...
— Eles são sempre agressivos, só sabem ser truculentos, e nada mais. — Esme parecia realmente não gostar da Grifinória. — Sempre jogamos contra a Corvinal ou contra a Lufa-Lufa. E sempre ganhamos.
— Acho que nunca mais vou chegar perto de alguém da Grifinória...- Disse Delyssie, processando tudo o que as garotas haviam dito. Gemma riu.
— Não se preocupe, eles não vão mexer com você. Você é alguém que eles vão respeitar. Com certeza! — E Gemma sorriu, levantando-se do banco de madeira e saindo de perto de Delyssie e Esme. Delyssie observou a colega caminhar até a ponta da mesa da Sonserina, onde dois alunos azaravam um aviãozinho feito de papel; Gemma, com sua varinha, picotou o aviãozinho e agora parecia brigar com os dois garotos.
Delyssie respirou fundo. Eram muitas informações para tanto pouco tempo, e tinha certeza de que seu último ano escolar em Hogwarts seria uma aventura. Não sabia o que estava por vir, nem mesmo sabia o que iria perder e ganhar diante de seu recomeço de vida. Mas tudo o que Delyssie queria, era poder voltar a acreditar em um mundo de doces melodias, estrelas cadentes e cores vibrantes. Perguntava-se todos os dias se um dia seria feliz. E mal sabia que, em muito pouco tempo, tudo mudaria, e diante de olhos pintados por uma noite escura.
O relógio marcou dez horas: Primeira aula do dia, para os alunos do primeiro ano. Snape entrou em sua Sala de Poções, angustiado, fazendo o vento causado pelo seu andar levantar as folhas de pergaminho dispostas sobre as mesas de madeira preta dos pequenos alunos. Subiu no palco de madeira diante da lousa preta, ficando de costas para os alunos, sentindo um gosto amargo na boca, resquício de sua ressaca emocional. Todos os dias em que entrava naquele horário, dia e aula, lembrava-se que, em um ano, seria o filho de Lily que estaria sentado ali, em sua frente. O filho de Lily, que era também filho de James. O filho de Lily, que poderia ter sido...
— Professor Snape! Ele tá puxando meu cabelo! — A voz estridente de uma menina perfurou os tímpanos de Snape, que imediatamente se virou para ver o que acontecia, fazendo sua capa preta esvoaçar no ar feito um morcego pronto para voar.
— Senhor Johnstone! O que pensa que está fazendo? — Snape avançou na mesa do garoto Johnstone, nanico e de cabelos pretos arrepiados, fazendo parecer que havia levado um choque. O menino puxava as tranças de uma aluna da Sonserina, magricela e frágil, de cabelos louros tão claros que até mesmo pareciam grisalhos. Crianças, pensou Snape. — Menos dez pontos para a Sonserina! Não admito nenhum comportamento deste tipo em minhas aulas, e nem mesmo em qualquer corredor de Hogwarts! — Bradou Snape, aterrorizando todos os pequenos com sua voz, mais grossa e grave do que o normal no período matutino. O menino Johnstone se encolheu na carteira, cruzando os braços e fazendo bico. — Tire essa cara amarrada de seu rosto antes que eu decida o colocar em detenção. — E voltou para a lousa, enquanto a menina de tranças se deliciava por ter sido defendida pelo professor.
Snape não estava tendo uma manhã fácil, e tinha certeza de que o resto do dia seria exatamente igual. Batalhava contra suas próprias emoções, desejando mais do que tudo ter alguém que apagasse suas memórias. Sentia-se frágil, e por sentir-se frágil, logo sentia-se estúpido, errante, incapaz. Snape prometera para si mesmo que iria manter sua redoma protetora intacta, onde nada poderia penetrar e o atingir; em sua infância, chorava e não era ouvido; suplicava para que o pai parasse de gritar com sua mãe, mas ele lhe dava tapas e socos, ao invés de o acolher em seus braços; nos corredores de Hogwarts, era perseguido e visto feito um palhaço, sendo motivo de risos e deboches. Snape construiu sua casca, seu próprio mundo, onde nele era invencível. Por que raios, desde que colocara seus olhos sobre a garota Delyssie, estava desabando por cima de suas próprias defesas?
E lembrou-se de que, naquele mesmo dia, em seu último horário de aula, precisaria encarar aquela amaldiçoada por ele, de cabelos cor de fogo e olhos verde-esmeralda. Snape apertou o giz com força contra a lousa, enquanto escrevia ''Poção Wiggenweld'', depositando ali toda a sua raiva por sentir-se como um garoto idiota de treze anos de idade, perdido em suas emoções. Muitas coisas que aconteceram na vida de Snape pareciam ter sido originadas das mãos de um escritor masoquista, e ele era a personagem principal, aquela que sofreria, e não seria o herói. Estar agora, frente a frente com um fantasma de seu passado, dona das únicas flores que havia permitido brotar em seu coração, era demais para qualquer mente e alma fechadas a sete chaves. Snape precisava ser mais forte do que nunca.
O dia se passou, e o sol não deixou de brilhar em nenhum momento; seus raios beijavam os rostos dos alunos de Hogwarts que, animados pelo bom tempo, aproveitaram aquela terça-feira para ficarem ao ar-livre o máximo que podiam. E, nas masmorras daquele castelo, estava Snape, escondendo-se nas sombras, não somente causadas pelo local subterrâneo onde os raios solares não podiam tocar, mas também, causadas por ele mesmo, suas próprias e particulares sombras. Entre aulas, voltava para seus aposentos para aliviar sua mente diante de sua penseira. Lembrar que seria o Oclumente de Delyssie o fazia sentir um estranho calor dentro de seu peito. Snape sabia que estava caindo em um lugar perigoso, talvez beirando a insanidade, e não podia permitir a si mesmo andar por aquele caminho tão errado e pecaminoso.
— Delyssie não é Lily.— Disse Snape, baixinho, para si mesmo, enquanto esvaziava sua mente diante de sua penseria, antes da última aula do dia. — Delyssie não é Lily...Lily nunca irá voltar...Lily está morta.
E enquanto Snape remendava suas feridas ainda abertas, Delyssie tentava fazer o mesmo, procurando se encaixar naquela nova vida que começara a viver naquela manhã. Tinha cuidado com tudo o que fazia: Não revelava muito sobre ela mesma; não revelava muito sobre a família; fingia estar bem, e ser somente alguém mais reservada. Mas na verdade, Delyssie desejava mais do que tudo voltar a ser a mulher que um dia fora: Um corpo iluminado, que deixava um rastro de luz por onde passasse, forte sem nem mesmo precisar de encantamentos, e livre dentro de sua própria mente. Agora, Delyssie era uma prisioneira; prisioneira por um crime que nunca cometera.
O dia passou rápido e Delyssie sentia em sua boca o gosto da azia, somente ao pensar que a última aula de seu dia seria com Professor Snape. Sua ansiedade a fazia se perguntar como poderia ser curada e ajudada por um homem como aquele, tão frio e indiferente. Para seu alívio, Delyssie tivera aulas com professores dos quais gostou muito, naquele dia; Professor Quirell ensinava Defesa Contra as Artes das Trevas, matéria que sempre fascinara Delyssie, mas que agora lhe causava terror. No entanto, o jeito engraçado e estabanado do professor aliviou o peso que a matéria lhe causava. Professora Aurora, que ensinava astronomia, era uma mulher séria, quase seca feito uma folha velha guardada dentro das páginas de um livro, mas ainda assim, não causava tanto medo quanto Defesa Contra as Artes das Trevas ou quanto o Professor Snape. E por fim, Delyssie se encantou pela Professora Sibila, de adivinhação, e tive a total certeza de que era uma pessoa livre de qualquer máscara; Era uma mulher excêntrica, cheia de penduricalhos em suas muitas pulseiras, olhos que se arregalavam feito balões por detrás de seus óculos fundo-de-garrafa, mas que, visivelmente, era quem gostava de ser. Durante a aula de adivinhação, Delyssie teve a esperança de ver a Professora Sibila lendo sua sorte, e lhe dizendo que um dia, toda sua dor iria passar.
Cinco horas da tarde: Hora da aula de Poções. Os raios de sol já se despediam dos terrenos de Hogwarts, dando espaço para o céu poder escurecer, anunciando o início da noite. O coração de Delyssie batia feito uma bomba relógio, e somente ouvia todas as coisas que escutara sobre o Professor Snape ecoando em sua mente: ''Doido'', ''Terrível'', ''Ele é o pior!'', ''Você vai detestar o Professor Snape''. Delyssie tinha uma certeza, e ela afundada todas as suas esperanças em ver luz iluminando sua vida novamente: Professor Snape seria o motivo pelo qual não seria curada, nem mesmo de seus medos mais sutis. Delyssie precisava de calor para seu frio; Claridade para sua escuridão; Aconchego para suas dores. Professor Snape parecia ser todas as coisas que mais temias unidas em um só corpo; ele era a própria escuridão, em cabelos, olhos, vestes e aura. Como poderia ficar perto daquele homem? Como poderia aprender algo com ele? Como poderia ser salva por ele?
Naquela tarde, iriam assistir a aula de poções junto dos alunos da Grifinória. Sem mostrar que estava atenta, Delyssie percebia os olhos dos alunos sobre ela, assim como também percebia — e ignorava totalmente — os olhares cheios de malícia vindo dos garotos, para ela. Em especial, Marco Young, o aluno da Grifinória e desagrado de Esme, não parava de a checar com seus olhos pequeninos, por detrás de seus óculos ovais. Delyssie sentia-se incomodava, pois os olhares de Marco Young já haviam ultrapassado dos limites normais da curiosidade. Junto de Esme e Caleb, caminhou até a sala de poções, e escolheu a carteira mais longe da lousa, ficando assim, estrategicamente longe do Professor Snape. Caleb sentou-se ao seu lado.
— Preparada? — Perguntou Caleb, em um cochicho. Esme, que se sentava a frente dos dois, fez sinal para que o garoto parasse de falar. — Ele ainda não está na sala, sua chata. Eu falo o quanto eu quiser!
Mas assim que Caleb terminou sua última palavra, a porta da sala se explodiu em um baque, o que fez todos os alunos ali pularem de susto. Através dela, um morcego em alta velocidade, deixando um rastro de escuridão, passou; Era Professor Snape, com a mesma postura ereta daquela manhã, impondo seu peito para frente, com ombros para trás e olhar fixo em seu caminho até a lousa. Delyssie sentiu seu estômago dar uma cambalhota, e a azia subiu por sua garganta, a fazendo suar frio em sua nuca.
— Peguem seus livros. Por que não vejo nenhum livro sobre a mesa? — Indagou Snape, não fazendo questão de olhar para os alunos. Ele sabia que ela estava ali. — Vamos! Quero todos os livros de Phyllida Spore em suas mesas, agora! — E Snape apagou a lousa com agressividade, onde estava escrita a última aula que dera para o quarto-ano.
— Delicado como uma flor.— Sussurrou Caleb para Delyssie. E riu um pouco alto demais. E para seu susto, Snape se virou em menos de um segundo, fixando seus olhos pretos em Caleb e visivelmente imaginando alguma tortura muito prazerosa sendo aplicada no garoto. Para seu inteiro desespero, desmontando sua guarda, Snape viu Delyssie ao lado de Caleb. Não esperava que ela estivesse bem ali, justo ali.
— Alguma coisa aqui é engraçada, Senhor Azuli?- Perguntou Snape, forjando um sorriso irônico no rosto pálido. Caleb engoliu seco, e Delyssie sentiu a aura escura de Snape apoderando-se não somente de toda a sala, mas de seu corpo também.
— Não. Estava assoando o nariz. — Mentiu Caleb, apavorado, desviando seus olhos dos de Snape e fingindo estar procurando seu livro em sua mochila. Snape não conseguiu atacar o jovem de volta; em um deslize causado por uma fraqueza momentânea, deixou seus olhos escorregarem sobre Delyssie e, para seu espanto, os dela também estavam sobre ele. Rapidamente virou-se para a lousa, sentindo seu coração bater em seu peito, parecendo até mesmo tocar sua pele.
— Abram na página cento e dez.- Pediu Snape, de costas para a turma de alunos, respirando fundo e buscando por seu eixo. — Não demorem. Temos uma hora e meia, e não quero perder um segundo sequer. — E Snape escutou por de cima de seus ombros, o barulho do farfalhar das páginas dos livros sendo viradas desesperadamente pelos alunos. Riu internamente. — Hoje iremos rever as fases lunares. — Snape pegou o giz, e começou a escrever na lousa. — Quem pode me dizer quais são as fases lunares?
— Eu, Senhor. — Esme levantou a mão. Delyssie poderia ter respondido, pois sabia tudo sobre fases lunares; era apaixonada pela lua e, em sua opinião, era a coisa mais romântica e bela já vista por olhos humanos. Gostava de pensar na lenda de que, ao olhar para a lua, alguém estaria pensando nela com muito amor e paixão.
— Diga, Senhorita Lair. — Pediu Snape, continuando a escrever na lousa e ignorando totalmente os alunos detrás de suas costas. Sendo verdadeiro consigo mesmo, ignorava somente a Senhorita Dubois.
— São oito as fases lunares, Senhor. Lua nova, lua cheia, lua crescente, quarto crescente, crescente gibosa, minguante gibosa, quarto minguante e... — Esme fez uma pausa. Mas logo relembrou o nome da última fase lunar. — E lua minguante, claro!
— Cinco pontos para a Sonserina.- Anunciou Snape. Os alunos da Sonserina comemoram baixinho entre si, entre sorrisos e pequenos socos no ar. — Vamos revisitar as fases lunares pois a próxima poção que aprenderemos irá necessitar de maturação debaixo de um certo luar.
— Qual poção, Professor? — Perguntou um jovem aluno da Grifinória, sentando ao lado de Marco Young. Snape o fuzilou com seus olhos.
— Espere.Que eu.Termine.De.Falar.- Disse Snape, pontuando cada palavra, quase silabicamente. Delyssie escutou Caleb deixar um riso escapar, mas ele disfarçou, coçando o nariz com violência e logo após fingindo dar um espirro fraco. — Fases lunares são extremamente importantes para determinadas poções. A energia de uma lua cheia, por exemplo, é extremamente potente. Cada poção necessita de energias específicas. — Snape fazia desenhos de círculos muito mal feitos na lousa.
Delyssie, por alguns segundos, viajou para um plano alto de onde via o Professor Snape de perto, com olhos da alma; as vestes pretas, juntas no corpo, de mangas que não deixavam nem o pulso a mostra, e gola que fechava totalmente o pescoço, revelavam muito sobre quem era aquele homem. Era um homem que, com certeza, tinha muito a revelar, mas nunca revelaria. Era um homem que, com certeza, escondia algo debaixo daqueles muitos botões. Sem nem mesmo piscar, Delyssie nem mesmo notou que, ao seu lado esquerdo, Marco Young a encarava, aproveitando que Snape estava de costas.
— Veritaserum.- Snape escreveu na lousa. — É a próxima poção que iremos aprender.
— A poção da verdade! — Exclamou Esme, parecendo extremamente empolgada com o anúncio de Professor Snape.
— Muito bem colocado, Senhorita Lair. — Snape terminou de escrever ''Veritaserum'' na lousa e largou o giz em cima de sua escrivaninha de madeira de carvalho francês. — Veritaserum é uma poção que necessita de uma fase lunar completa. Ou seja, necessita de todas as fases lunares.
Delyssie nem mesmo ouvia o que o Professor Snape dizia. Somente imaginava — dentro de sua mente extremamente criativa — quem deveria ser aquele homem em posto de professor, e fechado em muitos botões; quais segredos ele escondia? Por que tanta frieza? Por que era dono daquela aura escura e densa?
Foi quando viajava entre seus pensamentos em que Delyssie deu um pequeno salto em sua carteira, assustada com um pedaço de papel amassado que a tocou com rapidez, batendo em seu braço esquerdo e caindo no chão. Finalmente de volta para o momento presente, Delyssie olhou para a bolinha de papel ao lado de seu pé e então, ao levantar os olhos, viu Marco Young a encarando, agora, com um sorriso no rosto, e indicando com a cabeça para que ela pegasse do chão o papel que jogara. Delyssie, já sentindo a ansiedade despertar um nervoso incômodo em seu corpo, abaixou-se para pegar a bolinha. Começou a desamassar o papel, enquanto Marco Young a observava pelo canto dos olhos.
— '' Bem vinda a Hogwarts! E que pena que não está na Grifinória. M.Y'' — Leu Delyssie, dentro de sua mente. Logo buscou os olhos de Marco Young e ele lhe sorriu, acenando com a mão. Delyssie retribuiu o sorriso, desconcertada, dobrando o pedaço de papel em várias pequenas partes e procurando um local para o guardar. Mas antes que pudesse o esconder, assustou-se ao ver mais uma vez, o voo de um morcego veloz passar ao seu lado. Era Snape.
— Senhor Young.- Snape bradou. O corpo de Delyssie congelou na carteira; A voz do professor tinha aquele efeito sobre ela. — Pode prestar atenção em minha aula, pelo menos uma vez?
— Sim. Hoje irei prestar atenção. Pela primeira vez sua aula está interessante! — Retrucou Marco. Todos os alunos ali se entreolharam, com medo de demonstrarem a indignação em ver o aluno enfrentar Snape daquela maneira. Delyssie continuava imóvel, segurando o bilhetinho em sua mão direita, a apertando com tanta força que suas unhas afundavam em sua pele fina e delicada.
— Que pena! Bem hoje em que irei tirar vinte pontos da Grifinória.- Snape mais uma vez abriu seu sorriso irônico no rosto, mas era tão fraco que era até mesmo identificar que estava sorrindo. Os alunos da Grifinória protestaram em sons onomatopaicos. — Silêncio! — E Snape virou-se para Delyssie, o que a fez ter a atitude ridícula de fingir que não o via ali.
Snape ardia em fúria. Vira muito bem o que havia acontecido, e para enlouquecer ainda mais sua mente, Marco Young lhe lembrava James Potter em forma física e atitudes extremamente prepotentes. Descia e subia seus olhos por Delyssie, sentada, imóvel em sua carteira, pernas extremamente coladas uma na outra e cobertas por sua saia cinza, visão que rapidamente repudiou por ter tido. Respirando curto, sentiu o calor dentro de seu peito tomar maiores proporções, descendo por seus braços, tronco e pernas; os cabelos cor de fogo de Delyssie o chamava feito um som impossível de ser resistido, como labaredas dançantes e hipnotizantes; seu rosto milimetricamente perfeito e tão pálido quanto um floco de neve parecia até mesmo ter sido desenhado; suas pequenas e delicadas mãos, tremiam. Snape respirou fundo, muito fundo, necessitando de ar mais do que nunca. Por que ela o ignorava?
— Senhorita Dubois.- Snape queria que Delyssie o olhasse. Não sabia o porquê, mas queria. Talvez para olhar naqueles olhos verde-esmeralda mais uma vez. — Ele está a lhe incomodar?
— O que? — Delyssie não conseguiu interpretar seu papel de cega e surda por muito tempo. Era inevitável a presença do Professor Snape ali. Com medo, como se caminhasse em direção à forca, olhou para os olhos pintados por uma noite escura — e sem estrelas — dos quais Snape era dono, e sentiu seu corpo amolecer por toda a carteira. — N-Não...
— Se ele lhe incomodar mais uma vez, me avise. — E Snape retornou para a lousa, rapidamente, sem nem mesmo dar chance de Delyssie dizer um ''muito obrigada''. Marco Young bufava por suas narinas, escorregando em sua cadeira e cruzando os braços. Um silêncio constrangedor tomou conta de toda a sala, coisa que não era difícil de acontecer em todas as aulas de poções.
Snape tremia e não conseguia firmar o traço do giz na lousa. Respirou fundo mais uma vez. Os olhos verde-esmeralda de Delyssie lembravam os de Lily; os óculos ovais e a postura de herói de Marco lhe remetiam a James Potter. Se um dementador entrasse pela porta da sala de aula naquele momento, Snape suplicaria para ser beijado.
O período de uma hora e meia passou tão devagar que fora quase uma tortura para Snape, e para Delyssie também. Snape pouco se virou para os alunos pelo resto da aula, e sempre que o fazia, focava seus olhos na parte direita da sala, tomando cuidado para não fraquejar e buscar Delyssie com seus olhos. Naquela terça-feira que chegava ao fim, Snape e Delyssie podiam concordar em algo em comum: O frio que sentiam antes realmente não existia mais. Agora, era somente calor, silencioso, intrusivo, e brotando dentro e fundo de seus peitos.
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