Quando o Ano Não Queria Virar
4 Quando o Ano Virou
A última noite do ano sempre chegava carregada de expectativas que ninguém sabia muito bem como cumprir. Para Lúcia, aquela não era diferente, mas havia algo novo no ar, uma tensão silenciosa que não vinha do mundo lá fora, e sim de dentro da casa. A caixa das promessas permanecia no centro da mesa, fechada, como se tivesse peso próprio. Ninguém tocava nela. Era mais fácil fingir que ela não estava ali do que decidir o que fazer com o que guardava.
A televisão continuava ligada sem som, exibindo imagens de programas de fim de ano que pareciam pertencer a outra realidade. Pessoas sorrindo demais, contagens regressivas ensaiadas, uma alegria que parecia coreografada. André se sentou no sofá, mexendo no celular sem realmente prestar atenção em nada. A mãe ia e voltava da cozinha, ajustando detalhes que não precisavam de ajuste, como se o movimento constante pudesse impedir os pensamentos de se acumularem.
Lúcia observava tudo em silêncio. Havia passado os últimos dias tentando entender o que aquela virada significava para ela. Não acreditava mais em grandes resoluções, nem em promessas que dependessem de datas específicas para existir. Ainda assim, sentia que aquela noite exigia algum tipo de posicionamento, nem que fosse interno. Ignorar completamente parecia uma forma de desistência que ela ainda não estava pronta para assumir.
Quando o relógio marcou onze horas, a mãe finalmente se sentou à mesa. Olhou para a caixa por alguns segundos, respirou fundo e falou:
— A gente não precisa fazer nada com isso se não quiser.
A frase soou honesta, sem cobrança. Ainda assim, Lúcia percebeu que a decisão já estava em movimento. André levantou-se do sofá e se aproximou lentamente.
— Talvez seja pior fingir que isso nunca existiu — ele disse.
Ninguém discordou.
A caixa foi aberta com cuidado. Os papeizinhos coloridos estavam ali, dobrados do mesmo jeito de sempre. Alguns traziam datas antigas, outros tinham desenhos pequenos nos cantos, feitos sem muito critério. Lúcia reconheceu a letra de Clara imediatamente. Não precisou ler nada para saber.
Por alguns minutos, ficaram apenas olhando. Não era nostalgia simples. Havia ali frustração, saudade, culpa e também uma espécie de ternura pelo que tinham sido. A mãe passou os dedos por cima dos papéis, como se tocasse algo frágil demais.
— Ela gostava tanto disso — disse, quase num sussurro.
Lúcia sentiu o nó conhecido se formar na garganta. Pensou em todas as vezes que quisera guardar aquela caixa no fundo do armário, fingir que o ritual tinha morrido junto com Clara. Agora percebia que o ritual não era sobre previsões ou garantias. Era sobre parar e olhar para dentro, mesmo quando isso doía.
André foi o primeiro a pegar um papel em branco. Hesitou por alguns segundos antes de escrever. Dobrou com cuidado e colocou de volta na caixa sem dizer nada. A mãe fez o mesmo, os movimentos lentos, concentrados. Quando chegou a vez de Lúcia, ela ficou parada, encarando o papel como se ele exigisse uma resposta que ainda não tinha.
Pensou em tudo o que poderia escrever e não escreveu. Pensou em Clara, no último réveillon juntas, na forma como ela sorrira ao dobrar o papel com a frase que agora parecia ecoar em todos os cantos da memória. Não desistir da gente.
Lúcia percebeu que não precisava de uma frase elaborada. Não precisava de algo bonito o suficiente para justificar o esforço. Precisava apenas de algo verdadeiro.
Escreveu uma única palavra.
Continuar.
Dobrou o papel devagar, quase com reverência, e o colocou dentro da caixa. Não sentiu alívio imediato. Não sentiu esperança repentina. Sentiu apenas a estranha sensação de ter escolhido alguma coisa, ainda que pequena.
Pouco antes da meia-noite, desligaram a televisão. Preferiram o silêncio. O relógio da cozinha marcava os segundos com um som insistente, quase alto demais. Lúcia percebeu que estava prendendo a respiração sem notar.
Quando o ponteiro finalmente alcançou o topo, os fogos explodiram ao longe. Não houve gritos, nem contagem regressiva em coro. Apenas o som irregular dos estouros e flashes de luz refletidos nas janelas vizinhas. André abraçou a mãe primeiro, um abraço longo, firme. Depois, voltou-se para Lúcia. O gesto foi hesitante, mas sincero.
Lúcia retribuiu. Sentiu o peso daquele contato simples, humano, real. Não havia conserto ali, mas havia presença.
Ficaram alguns minutos em silêncio, observando os fogos desaparecerem tão rápido quanto surgiram. A noite seguiu seu curso sem grandes transformações externas. Quando tudo pareceu se acalmar, a mãe começou a recolher os pratos, retomando a rotina com uma naturalidade quase surpreendente.
Mais tarde, Lúcia saiu para o quintal sozinha. O ar estava um pouco mais fresco. O céu, agora escuro, já não carregava o excesso de luzes. Pensou em Clara, na forma como ela sempre insistia que o ano não mudava nada sozinho. Que quem precisava mudar eram as pessoas, e mesmo assim, só quando estivessem prontas.
O ano novo não trouxe respostas prontas. Não apagou ausências, não organizou dores antigas, não devolveu nada do que fora perdido. Mas entrou. E, dessa vez, Lúcia não fechou a porta.
Voltou para dentro da casa e olhou em volta. A mãe estava sentada à mesa, organizando a caixa das promessas com cuidado, como se guardasse algo precioso. André conversava distraidamente, já menos tenso, como alguém que começava a aceitar o próprio lugar.
Lúcia sentiu, pela primeira vez em muito tempo, que continuar não era uma palavra vazia. Não significava esquecer. Não significava superar tudo de uma vez. Significava acordar no dia seguinte e escolher ficar. Escolher tentar. Escolher não se afastar de tudo por medo da dor.
Quando finalmente se deitou para dormir, já de madrugada, o cansaço veio pesado, mas não opressor. Antes de fechar os olhos, pensou que talvez o ano não precisasse querer virar. Talvez bastasse permitir que ele entrasse.
E, naquela noite, isso foi suficiente.
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