Quando o Amor Acontece
98 Capítulo 98 – Destinos Ligados
Notas iniciais
Emmett se afastou da porta, com as emoções fervilhando. O ritmo cardíaco fora do normal. Ira se apossando de cada célula de seu corpo. A mente gritando, repetidas vezes, como um disco aranhado, o quão idiota tinha sido nas mãos de duas mulheres que só quis proteger. Havia sido um tolo, enquanto as duas haviam se tornado cumplices e tramavam bem embaixo de seu nariz.
Quando entrou no elevador, a raiva só se intensificou. Notar seu reflexo no espelho era como uma confirmação do quão enganado havia sido. Era como se o seu reflexo gritasse “está vendo tolo, elas te enganaram direitinho”.
“Como puderam me enganar assim?”, pensou ele, a ponto de esmurrar qualquer coisa a sua frente para extravasar a raiva que estava sentindo.
No momento em que o elevador chegou ao térreo, e as portas foram abertas, ele saiu apressado sem se importar que pudesse esbarrar em alguém. E fora exatamente o que aconteceu. No lobby do prédio esbarrou em uma senhora de cabelos grisalhos que caminhava para o elevador. Estava tão desorientado que nem um pedido de desculpas conseguiu formular.
A senhora com quem ele esbarrara só não ficou assustada ou irritada, porque o conhecia há algum tempo, e sabia bem que para Emmett estar transtornado daquele jeito era porque algo grave tinha acontecido.
– McCarty – alguém o chamou, mas Emmett apenas ignorou seguindo em direção à garagem subterrânea do prédio.
Assim que avistou o veículo, ao se aproximar um pouco mais, desativou o sistema de alarme. Entrou no carro e se aprumou ao volante, apertando as mãos ao redor com força. Perdido em uma confusão mental, uma verdadeira miríade de perguntas e dúvidas girando em sua mente feito um cataclismo, ele encarou o vazio através do para-brisa.
Depois de alguns minutos assim, ele afastou uma das mãos e girou a chave na ignição fazendo o motor potente rugir. Excedendo a velocidade permitida no local, manobrou para fora da vaga.
Ele não soube de um onde nem como ela surgiu, mas bastou apenas um nanosegundo, uma batida de seu coração, para que Madelayne surgisse em frente ao veículo, assustada, com olhos arregalados. Emmett pisou o pé no freio com força, e urgência. O barulho dos pneus se misturou ao som do grito estridente da garotinha, seguido de seu choro.
Assustado, Emmett saltou do veículo sem ao menos esperar que ele parasse. Deixou a porta aberta ao saltar, correndo ao encontro de Madelayne. Em um piscar de olhos ele estava ao lado dela, pegando-a em seus braços. Madelayne tremia e chorava agarrando-se ao pescoço de Emmett.
Sentindo a adrenalina causada pelo pânico percorrer suas veias, Emmett andava de um lado para o outro com a garotinha nos braços.
– Meu Deus, Madelayne – sibilou ele, com o coração esmurrando forte o peito. – De onde você veio? Você não estava aqui, e, de repente, surgiu na frente do carro. Meu Deus, Mady, eu quase tive um enfarto por medo de machucar você – Madelayne nada respondeu, apenas apertou mais os braços em volta do pescoço de Emmett. – Me perdoa bonequinha, eu não queria te assustar assim – murmurou o pedido, beijando a cabeça dela.
Ainda muito nervoso Emmett se abaixou colocando Madelayne no chão, inicialmente ela não quis largar de seu pescoço, mas, com cuidado, ele conseguiu com que ela o olhasse. Ele se ajoelhou no chão enquanto ela estava de pé em sua frente.
Emmett lhe afagava os bracinhos. Madelayne soluçava, com lágrimas traçando caminho em seu rosto, o lábio inferior pendia em um beicinho. Suas mãozinhas tremiam.
– Fala para tio Emmett, de onde você veio e porque entrou assim na frente do carro? Meu Deus, Mady. Você se machucou? – perguntou, verificando nos bracinhos dela se havia algum machucado. Madelayne continuava sem nada dizer, o choro não a deixava falar. Emmett lhe deu um breve abraço e voltou a verificar se ela estava machucada. – Meu Deus... – ele sussurrava nervoso. – Esse foi um dos maiores sustos de minha vida – divagou.
– Eu não posso te deixar sair assim... – Madelayne murmurou, com o beicinho tremendo, surpreendendo a Emmett.
– Assim como? – ele pareceu chocado ao fazer a pergunta.
– Nervoso. Chateado. Triste. Confuso – ela soluçou. – Você vai se machucar na rua. Eu não quero que isso aconteça.
– Como você sabe disso? Você não me viu até que eu saísse do carro, em pânico. E você já estava aqui – embora a conhecesse, às vezes, era difícil assimilar as intuições de Madelayne.
– Eu estava brincando no play... Mas aí eu ouvir uma voz. Ela me disse que você iria se machucar na rua. Me disse também que somente eu poderia impedir de você sair, porque a tia Rose estava trancada. Onde ela está? Quem a trancou? Foi o homem mau, outra vez? Aquele que machucou ela? Por favor, tio Emmett, não saia assim. Não quero que nada de ruim te aconteça. Mas se você sair, eu não poderei fazer nada... – finalizou com a voz arrastada.
– Quem falou com você?
– Eu não sei... – sussurrou em resposta, passando a mãozinha no queixo empurrando uma lágrima.
Naquele momento, Emmett sentiu uma sensação estranha percorrer seu coração.
– Você não viu a dona da voz?
– Dessa vez eu não vi ninguém, apenas ouvir... – mais uma vez ela soluçou.
Emmett ficou de pé novamente, com Madelayne no colo.
– E essa voz te falou mais alguma coisa?
– Não. Por favor, tio Emmett, não saia agora. Se você sair algo muito ruim vai acontecer. Eu estou com medo...
– Está tudo bem, Mady, eu não vou mais sair – Emmett a tranquilizou. – Mas fique aqui me esperando que irei retirar o carro do caminho – ele a colocou de volta ao chão encostada a uma coluna de concreto e foi retirar o carro que atrapalhava a passagem.
Devagar ele estacionou o carro novamente na vaga e voltou para perto de Madelayne com a chave do veículo na mão.
– Vem Mady – ele estendeu a mão em um convite.
Antes de caminhar até ele, Madelayne observou o veículo parado. Devagar ela se aproximou de Emmett estendendo a mãozinha, mas, em vez de segurar a mãozinha dela, ele a pegou no colo outra vez.
Sem pressa, Emmett caminhou até o playground. Assim que avistou os bancos coloridos caminhou até um deles e se sentou, colocando Madelayne sentada ao seu lado.
– Porque você está tão nervoso?
Emmett suspirou longa e pesadamente. – Porque acabei de descobrir que elas me enganaram, Mady.
– Elas quem? – perguntou, balançando os pezinhos.
– Rosalie e Melinda – sibilou ele, observando as outras crianças correrem no playground enquanto gritavam felizes.
– Elas só queriam te proteger... – anunciou Madelayne, como alguém que tem completa noção ao que se refere.
Emmett sorriu ironicamente esquecendo-se por um minuto de que falava com uma criança. Uma criança dotada de um dom especial. Um ser de luz, conhecido por especialistas como criança cristal.
– Eu não gosto quando você sorri assim. Sabe... As suas covinhas, elas não aparecem. É como se elas se escondessem porque você não está sendo sincero tio Emmett.
– Me desculpe por isso, bonequinha – Emmett se desculpou passando a mão na cabeça dela. – Você é a única pessoa nesse momento que não merece a minha ironia. Além de não ter nada a ver com o assunto, é apenas uma criança. Você desculpa esse grandão idiota?
– Você não é idiota. Só está chateado. E quando uma pessoa está chateada ela faz burrices. Foi à vovó quem disse isso. Sabe... Ela falava da mamãe e do papai, eu acho. Às vezes ela fala comigo por telefone ou pelo o Skype. As minhas duas vovós moram em Paris, sabia?! Lá é legal, mas eu prefiro morar aqui em Los Angeles. Eu gosto do meu colégio e de minhas amigas. Gosto da tia Rose, da tia Alice, e de você também.
Emmett bagunçou os cabelos louros acinzentados de Madelayne e ela sorriu.
– Você deve estar ganhando uma nota preta com a fada dos dentes, hein?! – brincou ele. – Quando um dentinho começa a nascer o outro logo cai – Madelayne maneou a cabeça, sorrindo. – Já sei! – disse Emmett, se divertindo com expressão no rosto dela, encarando suas sardas. – Você está arrancando eles de proposito. Descobri o seu segredo, não foi? Diz aí?!
Madelayne gargalhou com o rostinho ainda molhado de lágrimas, empurrando Emmett com o cotovelo.
– Não é verdade. Você está doido é tio Emmett? Sabia que dói se fizer isso?! Olha – ela abriu a boca e mostrou alguns dentinhos que ainda não haviam sido trocados. – Esses não podem ser retirados porque ainda não estão mole – ela explicava com o dedinho encostando aos dentes específicos, com a voz meio atrapalhada.
Emmett sorriu com a explicação dela. – Obrigado, Mady, por não ter me deixado sair nervoso como eu estava.
– Você não pode ficar bravo com a tia Rose, porque ela te ama um tantão assim – explicou abrindo os bracinhos o máximo que pode, chegando a bater na barriga de Emmett.
– Mas ela mentiu pra mim, Mady.
– Não mentiu, não. Você nunca perguntou para ela – a garotinha afirmou. Alguns minutos de silêncio transcorreram e então ela prosseguiu. – Você quer ficar sem ela outra vez?
Emmett a olhou instigado e, por um momento, não acreditou que realmente estava tendo aquela conversa com uma criança. Porém, uma criança que parecia saber o que falava.
– Eu não posso ficar sem a Rose outra vez. Não posso.
– Ela está triste porque vocês brigaram. Eu posso sentir... E você também não me parece feliz. Você gosta de ver a tia Rose triste?
Emmett maneou a cabeça. – Não. Definitivamente, eu não gosto de ver o meu anjo triste.
– Você ficou feliz quando reencontrou a tia Rose?
– Feliz é pouco para definir tudo o que senti naquele dia, no United Center – respondeu ele sem titubear.
– Você quer continuar feliz?
– Sim – respondeu ele, se sentindo estranho com a singularidade daquelas perguntas.
– Então você já sabe o que fazer.
Emmett sorriu, e beijou o topo da cabeça de Madelayne.
– É eu sei, sim. Eu vou voltar para o apartamento e vou conversar com ela, sem brigas. Vou tentar entendê-la. Obrigado, bonequinha, você é mesmo uma criança muito especial.
Madelayne sorriu olhando para ele. Emmett ficou de pé, respirou fundo e começou a refazer o caminho de volta. Madelayne suspirou e em seguida correu para o escorrega.
Poucos minutos depois Emmett chegou ao apartamento, abriu a porta devagar, olhando em volta. Deixou as chaves ali mesmo no hall sobre a mesinha de vidro, e seguiu pelo apartamento em busca de Rosalie.
– Rose – ele a chamou ao chegar à sala de estar, mas não obteve resposta. Olhou em volta e a encontrou deitada em um dos sofás que ficava de costas para onde estava anteriormente. Ela estava encolhida, abraçada a uma almofada, e seus longos cabelos dourados lhe cobriam o rosto ainda molhado pelas lágrimas.
– Anjo...? – sussurrou Emmett, cautelosamente.
– Emmett – sussurrou ela, tão logo visualizara a imagem dele, um pouco embaça, a sua frente. – Você quer que eu vá embora? – perguntou receosa.
– Não. Jamais – afirmou ele, afastando alguns fios de cabelos do rosto dela.
– Mas, agora pouco você estava bravo comigo. Você me odeia... – ela soluçou. – Eu vi em seus olhos uma raiva que nunca tinha visto antes.
– Não. Eu não te odeio. Já passou. Eu te amo, e não quero te perder por nada nesse mundo. Ficar sem você uma vez já foi o bastante, não quero voltar a repetir a mesma experiência. Aqueles foram tempos sombrios.
– Então... Você me perdoa?
– Sim. Eu a perdoo, meu anjo.
Rosalie esboçou um sorriso fraco, ofuscado pelas lágrimas, e se sentou no sofá sobre as próprias pernas. Passou uma mecha dos cabelos para trás da orelha antes de falar.
– Eu te amo tanto, Emm. Por um instante cheguei a pensar que estivesse me odiando agora. Você saiu daqui tão bravo. Não sabe como me senti quando te vi alterado daquele jeito.
– Eu só não queria te machucar – explicou, afagando o rosto dela, que se inclinou apreciando o toque. – Você sabe; quando fico muito bravo me descontrolo, então, prefiro sair e esfriar a cabeça. E para que você não viesse atrás de mim, tranquei a porta e levei a chave comigo. Eu sei como você é, Rose. Eu sei que teria me seguido para tentar me fazer parar. Me desculpe pela forma como agi, eu sei que magoei você e, pode acreditar, não era a minha intenção.
Emmett afagou os cabelos dela. Rosalie encostou a cabeça ao ombro dele, e então ele a puxou para sentar em seu colo.
– Amor o que te fez desistir de sair? – perguntou Rosalie, agora, encostando a cabeça no peito dele.
– Uma garotinha muito especial, e que você também conhece – respondeu afagando as costas dela.
– Mady – concluiu Rosalie. – Madelayne é um ser de luz. Não entendo como a mãe consegue maltratá-la tanto. Como não pode amá-la.
– Eu também nunca irei entender – afirmou Emmett. Então hesitou um pouco, mas, por fim falou. – Eu posso te fazer uma pergunta que envolve o assunto anterior?
Rosalie ergueu a cabeça para olhá-lo. – O que você quiser saber – disse ela.
Emmett encostou a cabeça dela novamente em seu peito. – Eu já sabia que as fotos eram falsas, e sobre o dossiê também. Melinda me confessou, na mesma noite em que ela faleceu. Quando eu te acusei só queria ter certeza de que você confirmaria. Agora eu quero que você me responda uma coisa. Quantas vezes vocês se encontraram? E o que exatamente ela te disse?
– Uma única vez apenas. Mas conversamos bastante. Ela foi me esperar no aeroporto, depois Vera e eu fomos com ela ao restaurante do hotel em que ficamos hospedadas. Ela pediu que ficássemos a sós, então Vera foi dar uma volta. Foi aí que ela me falou sobre a doença e me mostrou os exames. Inicialmente eu não entendi onde ela estava querendo chegar com tudo aquilo, e foi difícil de entender e aceitar que o que ela me pedia era certo. Por mais difícil que fosse para ela, Melinda sabia que você me amava. Ela queria nos deixar próximos, antes de... – Rosalie titubeou. – Antes de partir. Ela passou mal durante a conversa, acabou que Vera e eu a levamos ao hospital. Depois disso conversamos um pouco mais, ali mesmo em uma praça perto do hospital onde ela foi atendida. Ela elogiou muito você, e, eu confesso que fiquei bastante enciumada – nesse instante Emmett segurou o queixo de Rosalie e lhe deu um selinho.
– Meu coração sempre pertenceu a você, Rose. Melinda foi e é especial para mim, mas você é a mulher que escolhi para viver para sempre ao meu lado.
– Eu sei ursinho, mas, ela também te amou. Ela fez planos para o futuro e até desejou ter filhos com você. Fiquei louca de ciúmes, mas, também, me emocionei com o relato dela. Eu perguntei quais nomes ela gostaria de dar aos seus filhos – Rosalie suspirou antes de continuar. – E então ela me disse que se fosse um casal gostaria que se chamassem Nicole e Kellan. Confesso que os nomes me atraíram bastante.
Emmett inclinou a cabeça para trás, seguido de um suspiro cansado.
– Ela nunca chegou a mencionar nada disso comigo... – divagou, viajando nas lembranças. – Ainda é difícil aceitar que ela sofreu tanto em silêncio, por mim. Não faz sentido. Digo... Sofrer dessa forma, sozinha.
– Quando amamos muito alguém fazemos de tudo para vê-lo feliz, mesmo que isso tenha um preço. Mesmo que esse preço seja a nossa própria felicidade... – Rosalie suspirou lembrando-se de ter oferecido se distanciar para que Melinda ficasse em seus últimos dias ao lado de Emmett, e ela se recusou. – Eu tentei fazê-la mudar de ideia, mas ela se recusou terminantemente. Disse que eu deveria estar perto de você quando ela...
Emmett passou uma mecha dos cabelos de Rosalie para trás da orelha, e então ele mesmo concluiu a frase.
– Quando ela morresse... – Rosalie se aconchegou ainda mais ao peito de Emmett quando ele completou a frase. Em seus cílios ainda havia sinal de lágrimas. – Serei eternamente grato pelo sacrifico que ela fez para nos deixar bem. Por ela ter nos aproximado novamente. Mas quero deixar claro que, mesmo que ela estivesse viva, minha escolha sempre seria você. Mel foi uma grande amiga, e uma companheira leal, mas o grande amor de minha vida foi e sempre será você, Rose. Eu nunca me imaginei sendo pai de uma criança cuja mãe não fosse você. Porque sempre visei o futuro com você ao meu lado. Mesmo com tudo o que passamos, afastados, sempre existiu você em meu coração. Mas é verdade que se eu tivesse ficado sabendo da doença há mais tempo, teria ficado ao lado dela até o fim. Talvez esse tenha sido o motivo pelo qual me ocultou a respeito da doença. Mas, apesar de tudo, ainda tive a chance de me despedir... – Emmett soluçou, mesmo não estando preparado para isso. Sentindo que ele estava emocionado, Rosalie afagou o peito dele. – Eu sei que ela partiu com o coração aliviado, porque nos perdoamos mutuamente. Ela me disse algumas coisas, menos que vocês se conheciam. Eu fui mesmo um tolo por não ter percebido que ela procurou por você, Rose. Ela me disse que encontrou a caixinha com nossas lembranças, talvez daí ela tenha tirado o ponto de partida para te procurar.
– Nós nos falamos duas ou três vezes por telefone depois que nos encontramos pessoalmente. Ela sempre me pedia para afirmar que ficaria em silêncio – confessou Rosalie. – Mas e você, amor, me perdoa pelo o meu silêncio?
– Claro que eu a perdoo, Rose. Tudo o que vivemos, mesmo estando separados pelas circunstancias da vida, foi intenso o bastante para aceitar o perdão. Com você eu aprendi que o amor é o maior sentimento de todos. Aprendi a ser forte, persistente, lutar pelo o que eu acreditava. Na amizade e no companheirismo.
– Ah, ursinho... – Rosalie suspirou se aconchegando novamente ao peito dele. – Me sinto como se um fardo enorme fosse retirado de minhas costas. É difícil manter em segredo algo que envolve o grande amor de sua vida. É torturante. Mas, eu tenho mais uma coisa a dizer – Emmett afastou o rosto dela de seu peito e prestou atenção na expressão do seu rosto. Rosalie prosseguiu. – No dia em que vim a Los Angeles te fazer uma surpresa... – ela hesitou um pouco antes de falar. – Eu passei no cemitério e levei flores ao túmulo dela. Eu sabia qual o cemitério porque li nas manchetes de jornais.
– Rose... – murmurou Emmett em um estado irresoluto.
– Me desculpe amor... Mas, eu precisava desse momento de perdão. Eu não voltei a vê-la e, por um lado, estava me sentindo culpada. Porém eu sabia que se tivesse visto ela no hospital, em seus últimos dias, não teria ficado em silêncio. Talvez por medo estive observando a distância.
– Eu ainda tenho dificuldade para assimilar que as coisas tenham chegado tão longe, e se tornado tão serias – disse Emmett.
– Eu sinto muito... – sussurrou Rosalie, com sinceridade absoluta.
Emmett bateu levemente nas coxas dela. – Vamos, levanta – pediu.
Rosalie o encarou, preocupada. – O que foi? – seu tom de voz beirava o medo.
– Vamos juntos a um lugar – esclareceu Emmett assim que Rosalie saiu de seu colo, ficando de pé a sua frente. Ainda sentado, ele segurou na cintura dela.
– Mas você ainda não tomou o seu café da manhã – disse ela, ainda desconfiada, mantendo as mãos em volta dos pulsos dele.
– Certo, eu vou comer alguma coisa e depois nós iremos – concordou apertando a cintura dela.
– Mas para onde iremos? – Rosalie insistiu, agora com curiosidade e não medo.
– Iremos juntos ao cemitério. Vamos levar flores ao túmulo de Melinda. Será um pequeno agradecimento pelo o esforço que ela fez para nos aproximar novamente.
Rosalie esboçou um leve sorriso, orgulhoso. – Você é realmente um homem incrível, Emmett McCarty. Cada dia que passa, percebo com mais clareza o quão sortuda sou por tê-lo em mina vida.
Emmett ficou de pé, ainda mantendo as mãos nas laterais da cintura de Rosalie, aproximando seu rosto do dela. Nesse instante, seus lábios se uniram em um beijo calmo repleto de emoções sinceras.
Cerca de quarenta minutos depois, o casal saiu do apartamento com uma rota estabelecida. Já fazia alguns dias que Emmett não ia ao cemitério, e a culpa o cutucou algumas vezes durante esse período.
Entretanto, antes de saírem do prédio, Rosalie quis agradecer a Madelayne por ter impedido que Emmett saísse tão alterado como estava antes. Eles saíram do elevador no andar abaixo da cobertura e Rosalie se aproximou da porta, tocando a campainha.
Levou alguns segundos até a funcionária da família abrir a porta.
– McCarty. Srta. Hale – saudou a babá de Madelayne. A expressão de seu rosto, embora já estivesse acostumada, era sempre de deslumbramento quando encontrava Emmett no condomínio.
Emmett saudou com um sorriso e um maneio de cabeça. Porém, fora Rosalie quem se pronunciou.
– Podemos falar com Madelayne por alguns instantes?
– Claro que sim. Podem entrar – sugeriu, cedendo passagem para o casal.
– Obrigada, mas, não queremos entrar. Só queremos trocar algumas palavrinhas com ela aqui mesmo.
– Aguardem um instante que irei chamá-la.
Então, de repente, Emmett se viu curioso.
– Se você veio ficar com Madelayne hoje, porque ela estava sozinha lá embaixo agora a pouco?
– Na verdade, eu não viria hoje. Era meu dia de folga. Faz apenas alguns minutos que cheguei e a encontrei lá embaixo – se explicou. – Os pais dela precisaram sair e então me pediram para vir ficar com ela. Mas quando cheguei ao prédio, Madelayne já estava sozinha. Com licença, se não se importa, eu irei chamá-la agora.
Quando a babá de Madelayne virou as costas, Rosalie sussurrou:
– Ela ficou meio sem jeito, amor. E, acho que chateada também.
– Não era minha intenção. Só pensei que pudesse ser um deslize dela. Por pouco não atropelei Madelayne no estacionamento. Nunca teria me perdoado se isso tivesse realmente acontecido. Eu quase enfartei na hora.
– Eu sei amor. Mas não foi culpa dela – Rosalie sussurrou novamente.
– Eu sei... – sussurrou Emmett, ouvindo a voz de Madelayne ficar cada vez mais próxima de onde eles estavam.
Madelayne vinha andando ao lado da babá, mas bastou vê-los para correr ao encontro dos dois, abraçando-os pelas pernas. Quando ela olhou para cima, sorriu para Rosalie, revelando a falhas entre seus dentinhos que caíram e os que começavam a nascer.
– Oi, Mady – disse Emmett, afagando os ombros dela. – A Rose quer falar um pouquinho com você. Tudo bem?
– Aham – ela murmurou, sorrindo para os dois. Sua mãozinha se ergueu na direção de Rosalie, que aceitou retribuindo ao sorriso. – Vem, tia Rose – convidou puxando a mão de Rosalie, devagar, para que ela entrasse no apartamento.
– Obrigada bonequinha, mas, a tia Rose não vai entrar dessa vez. Eu só queria falar com você rapidinho, para te agradecer – Rosalie se ajoelhou. – Obrigada, Mady, por ter impedido que Emmett saísse do condomínio. E por tê-lo feito perceber que tinha que voltar para casa. Eu já disse isso para você uma vez, e volto a repetir: você é uma criança muito especial, sua mamãe tem sorte de te ter como filha.
– A mamãe não gosta de mim... – sussurrou, encarando o chão.
Rosalie segurou o queixinho dela para que olhasse novamente em seus olhos. – Claro que ela gosta meu amorzinho.
Emmett tocou a pontinha do nariz de Madelayne. – Não fique triste, o tio Emmett e a tia Rose gostam muito de você.
Madelayne sorriu recebendo um beijo na bochecha, da parte de Rosalie. A garotinha envolveu os bracinhos em volta do pescoço de Rosalie em um abraço gostoso repleto de carinho transmitindo uma sensação que, até então, Rosalie desconhecia; a sensação de abraçar um filho.
– Eu gosto muito de você, tia Rose.
– E eu de você, minha bonequinha especial – Madelayne se afastou de Rosalie, que ficou de pé novamente ao lado de Emmett. – Agora nós precisamos ir. Vamos fazer uma visita especial.
– Eu sei... – murmurou Madelayne, unindo a mão dos dois. – É assim que sempre será – divagou como se pudesse ver algo no futuro dos dois. E de repente ela sorriu consigo mesma, depois abraçou uma perna de cada um deles. Antes de se afastar, tocou a barriga de Rosalie e sorriu. – Um pontinho de luz... – divagou em um sussurro.
– Que pontinho de luz? – questionou um Emmett curioso, olhando em volta.
– Do desenho que eu fiz tio Emmett – ela explicou. – Aquele que você levou no outro dia.
Somente então Emmett se lembrou do desenho que ela havia feito alguns dias atrás, e ele prometeu mostrá-lo a Rosalie.
Afagando os cabelos da garotinha, Rosalie murmurou. – Ah, Mady, eu vi o seu desenho. Emmett o levou pra mim. Ele está no mural de fotografias de meu quarto, em Chicago. É lindo. Quando olho para ele sinto uma tranquilidade absurda.
Madelayne sorriu. – Que bom que você gostou tia Rose.
– Agora dá aqui um beijo no tio que nós já vamos embora – disse Emmett, pegando-a no colo, beijando suas bochechinhas. Rosalie aproveitou o momento para beijar o bracinho de Madelayne, e os três sorriram ao mesmo tempo.
Em um canto, próximo à passagem entre o hall e a sala de estar, a babá observava, pensando “esses, sim, gostam da menina de verdade”.
Emmett colocou Madelayne de volta no chão e bagunçou seus cabelos antes de se afastar.
– Tchau... – a garotinha acenou erguendo levemente a mão.
Rosalie soprou um beijo para ela antes de virarem as costas e saírem.
[...]
Algum tempo depois...
Emmett parou o carro em frente ao cemitério, com Rosalie sentada no banco do carona segurando sua mão. Antes de retirarem os cintos de segurança, eles apertaram as mãos um do outro e manearam a cabeça como se dissesse “temos que fazer isso, juntos”.
Quando saíram do carro, Rosalie segurava um buquê de rosas brancas. Exatamente como da primeira vez em que esteve ali.
– Está tudo bem, Emm? Você tem certeza de que quer que eu vá até lá com você?
– Sim. Eu quero, e preciso que venha comigo. Se Melinda fez o que fez para que ficássemos juntos, precisamos ir até lá, como ela planejou, unidos.
Antes de entrarem no cemitério Emmett olhou para o céu, que fora coberto por uma nuvem de chuva repentinamente. A brisa soprou forte nos cabelos de Rosalie, quando estava a um passo dos portões do cemitério, e ela não pode deixar de se lembrar de quando esteve ali, sozinha.
– Ainda me lembro de como foi à primeira vez que estive aqui...
Emmett chegou mais perto dela e lhe beijou a testa, demoradamente.
– Precisamos fazer isso, juntos, para que possamos seguir em frente sem culpa. – murmurou com os lábios ainda próximos a testa de Rosalie.
– Sim, precisamos – sussurrou ela em resposta. – Acho que vai chover, Emm – divagou, olhando para o céu coberto por uma nuvem cinza.
Emmett imitou o gesto, olhando novamente para o céu.
– Vamos! – insistiu ele, encostando a mão direita nas costas dela.
Eles começaram a fazer o trajeto por entre as várias lápides sobre um gramado impecavelmente verde e bem cuidado. Aqui e ali uma árvore se destacava entre o caminho de lápides. À medida que seguia em frente, Rosalie sentiu a maior sensação de déjà vu de toda sua vida. A cada passo adiante ela revivia a cena do dia em que esteve ali, segurando outro buquê de rosas brancas, para pedir perdão diante o túmulo da mulher que a ajudou no passado recente. Ali lhe parecia tudo igual à última visita, exceto pelo zelador que Rosalie pode notá-lo do outro lado do cemitério.
A passos lentos, eles seguiram por entre as lápides até que encontraram a que procuravam. A brisa começava a ficar um pouco mais agitada, mostrando que a chuva estava cada vez mais próxima. Os galhos das poucas árvores, que havia em alguns pontos do cemitério, balançavam por conta do vento.
Ali, diante o túmulo da ex-namorada, Emmett sentiu um vazio no peito e uma saudade reprimida. Rosalie inclinou a cabeça para olhá-lo e o encontrou com a expressão triste. Afetuosamente ela afagou o peito dele por sobre a camisa. Sabia que era um momento difícil para ele, mas, que era essencial para virar a pagina da vida e iniciar uma totalmente nova.
Ele suspirou pesado antes de começar a falar.
– Isso não era para ter acontecido, Rose. Ela era jovem e tinha um bom coração. Ela merecia conhecer o amor com a mesma intensidade que juntos conhecemos.
Como que para tranquilizá-lo, Rosalie falou.
– Ela conheceu ursinho... Ela te amou, e você foi bom para ela pelo o tempo em que estiveram juntos.
Emmett se ajoelhou no gramado em frente à lápide branca.
– Olá, Mel – sussurrou nostálgico. E, após um minuto de silêncio, tocou os dizeres na lápide e murmurou. – Sinto saudades de conversar com você e ouvir os seus conselhos.
Rosalie se ajoelhou ao lado dele, colocando as flores no local indicado. – Estamos juntos Mel – sussurrou ela. – Todo o seu esforço não foi em vão. Vamos nos casar em pouco tempo e gostaríamos de dividir isso com você. Sei que onde quer que esteja nos dará sua benção – os olhos de Rosalie arderam com acumulo de lágrimas. – Obrigada por tudo, e, mais uma vez, me perdoe. Eu cumpri minha promessa. Não haverá outra mulher na vida dele, a menos que essa mulher seja nossa filha – Rosalie apertou a mão de Emmett junto a sua.
– Queremos sua benção e o seu perdão – disse Emmett. Nesse instante um relâmpago clareou o céu e a brisa se agitou um pouco mais.
– Acredito que ela já nos tenha perdoado Emmett – afirmou Rosalie.
Emmett ergueu a mão de Rosalie até a altura de seus lábios e lhe beijou os dedos.
– Obrigado por ter ajudado o meu anjo voltar para mim – acrescentou ele em um sussurro.
Os primeiros pingos de chuva começaram a cair, se misturando as lágrimas no rosto do casal, prostrados diante a lápide. Mais um relâmpago iluminou o céu, e eles souberam que era hora de voltar para casa.
– Adeus, Melinda – sibilou Emmett.
– Obrigada – disse Rosalie.
Emmett ficou de pé e em seguida ajudou Rosalie, lhe estendendo a mão.
Sob os pingos de chuva, o casal começou a refazer o caminho de volta para o carro estacionado em frente ao cemitério. Rosalie segurava com ambas as mãos o braço direito de Emmett, tentando não prestar atenção nos clarões emitidos pelos raios. Um pouco mais adiante, ela viu tudo a sua volta escurecer e suas pernas fraquejarem.
– Rose – sibilou Emmett, preocupado, segurando-a rapidamente pela cintura. Com ela apoiada na lateral de seu corpo.
– Não foi nada, só me assustei com os clarões. Eu estou bem.
Rosalie poderia jurar ter visto algo diferente no horizonte além das lápides, antes de sua vista escurecer de repente.
Quando atravessaram os portões do cemitério ambos olharam para trás, sentindo que poderiam seguir suas vidas sem remorsos e sem culpa dali em diante.
Com as roupas levemente molhada o casal entrou no veículo, acreditando piamente, com coração aberto, que aquela chuva não só lavara a alma, como também levara consigo o rancor e as angustias, deixando somente o amor. Porque o amor sempre prevalece, quando realmente acontece.
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