Quando foi que você passou a mentir tão miseravel
1 Capítulo 1
Era noite e Natália andava em direção à galeria onde sua amiga Andréia estava fazendo uma exposição de fotografia. Enquanto caminhava começou a reparar que seu coração batia acelerado e não gostou nada disso, afinal era só a exposição de sua amiga não havia motivos de estar nervosa. Quer dizer, não podia estar nervosa por causa da possibilidade mínima, mais possível, do irmão de Andréia, seu ex-namorado, de aparecer. Não, não podia estar nervosa por causa dele, já que não se viam há dois anos e ela o tinha esquecido e superado. Mas porque nutria esperanças de vê-lo? Será que depois de tudo o que ele fez, ainda o amava? Se isso era verdade não possuía vergonha na cara e nem orgulho. Sacudiu a cabeça para afastar todos os pensamentos desagradáveis que estava tendo e respirou fundo ao abrir a porta da galeria.
- Não importa o que aconteceu, estou aqui pela Andréia e não pelo Adam. Além do mais Andréia me disse que havia fotos minhas em sua exposição.
Entrou na galeria e reconheceu a primeira foto que viu; era a foto na casa de praia da Andréia, provavelmente tinha sido tirada na época que conheceu Adam. Aquele dia foi o começo de todo o relacionamento conturbado dos dois. Todas aquelas fotos faziam sua memória reviver. Podia se lembrar de cada situação como se tivesse acontecido ontem. Fixou seu olhar na foto dela beijando Adam. Lembrava-se desse dia. Andréia havia pedido para que os dois servissem de modelo e na época os dois estavam juntos, teoricamente apaixonados, quer dizer ela estava, mas não podia garantir o mesmo dele. Antes de a foto ficar perfeita Andréia havia feito várias tentativas, mas aquela não devia ser a melhor foto porque tinha algo de errado, pois Adam a olhava como se fosse à coisa mais importante do mundo, enquanto ela com vergonha fechava os olhos com uma das mãos e ele tentava tirar. Era uma foto de rosto, mas não acreditava no que via, até porque nesse mesmo dia, depois das fotos eles haviam brigado e terminado pela 2ª vez. Ao lembrar-se teve vontade de chorar, na realidade uma lágrima escorreu pelo seu rosto e fez questão de secar bem rápido, não queria que ninguém a visse chorando, afinal ele não merecia mais nenhuma lágrima dela. Saiu daquela foto indo para outra que estava logo ali do lado, era ela de novo, só que sozinha sentada na areia olhando o mar e havia uma lágrima em seu rosto e sabia exatamente o que estava pensando na hora. Era em Adam. Essa foto tinha sido tirada há dois anos quando terminaram de vez e ele tinha ido para São Paulo realizar seu sonho. Estava impressionada com sua amiga, pois havia conseguido captar toda a sua tristeza e parecia que por as fotos serem em preto e branco realçava mais ainda. Estava tão compenetrada na foto que nem percebeu que havia alguém ao seu lado observando-a, até essa pessoa falar com ela.
Era Adam...
- Oi! – fala Adam para Natália que leva um susto ao vê-lo ali do seu lado — Você já foi mais educada. – tenta fazê-la sair do choque.
- Er... Desculpa. – sem saber o que fazer ou falar.
- Te fiz sofrer tanto assim? – diz apontando para foto — Você parece bem triste nessa.
- Deixa de ser cretino! – fica passada com o comentário — O que você tá fazendo aqui?
- O mesmo que você. Vim ver a exposição da minha irmã e tinha esperança de encontrar você. – sorri sem cerimônia nenhuma.
- Ficou louco! O que você quer? — pergunta confusa
- Você!
Natália revira os olhos. Não cairia de novo nessa conversa mole.
- Quando foi que você passou a mentir tão miseravelmente?
- Quando percebi que te amava.
- UAU! Deve ter sido um choque e tanto. – Seu coração não devia bater tão forte desse jeito, mas ele o estava traindo.
- Foi. Por quê? Dá pra perceber?
- Bom, tornei-me uma expert no assunto. Passei anos tentando descobrir se o que você dizia era verdade ou não.
— Então deve saber que estou dizendo a verdade. – fala todo sério e tenso.
- Sim, parece, mas confesso que preferia quando você mentia, adorava suas mentiras, elas eram... Reconfortantes.
- Que ironia. – dá um sorriso torto.
- Não é. — Natália queria ir embora, precisava desesperadamente ir embora, mas seus pés não se mexiam, seu corpo não obedecia a seus comandos. Por mais que necessitasse ir embora, queria saber mais, queria conversar mais, precisava ouvir sua voz mais uma vez. Precisava ficar ali por mais alguns minutos. Simplesmente precisava.
- Foi bom revê-la. – diz tirando-a de seus pensamentos.
- Não posso dizer o mesmo.
- Não seja tão antipática.
- Vai pro inferno Adam!
- Você vai comigo?! – sorri
***
Adam observou Natália se afastar dele indo para outro quadro. Observou melhor o quadro na sua frente. Era de fato uma foto triste e sentiu uma pontada. Como se arrependia de todas as burradas que havia feito. O problema era que não sabia como lidar com seus próprios sentimentos naquela época e a única coisa que sabia fazer era maltratar as pessoas que amava. Tinha até ficado surpreso por Natália ter o aguentado por tanto tempo, ela tinha todo o direito de odiá-lo e também de não querer mais nada com ele.
***
Natália passou a olhar as fotos sem muito interesse, não conseguia parar de observar os movimentos de Adam. Como ele era diferente quando estava trabalhando, normalmente vestia terno e gravata, andava sempre bem alinhado, mas nos dias que não trabalhava ficava tão largado que não dava para reconhecê-lo. E hoje era esse dia ele vestia uma calça jeans rasgada, blusa preta e um tênis All-Star. Pelo menos nisso continuava o mesmo. Ele era bonito, tinha que concordar e fazia muito sucesso com as mulheres, o que era um problema constante. Sem seu jeito amigável, escondia um homem com uma lábia mortal que podia fazer você vender até sua mãe se quisesse, mas por alguma razão não era assim com ela. Com o tempo percebeu que ele relaxava quando estavam juntos e que dentro de casa era outro, sem máscara, deixando-a chocada por alguns dias, afinal eles brigavam muito. Começou a reparar que um dos motivos das brigas era quando ele demonstrava algum tipo de fraqueza e por isso acreditou que a amava, mas nos últimos anos esses momentos estavam escassos fazendo com que tomasse a decisão de larga-lo de vez. Na realidade era para ela ter ido para São Paulo, mas por ele, desistiu da promoção e o deixou ir.
***
Adam começou a reparar com mais afinco todas as fotos em que ele e Natália apareciam, queria ver o que tinha perdido, o que tinha ignorado desde que a conheceu. Parou na foto em que ela escondia o rosto e ele tentava tirar a mão dela da frente. E se viu pela primeira vez, viu o que tentou esconder desesperadamente, já a amava desde aquela época, na realidade a amou desde o primeiro dia que se conheceram na praia. Tudo começou com uma aposta dele com os amigos que estavam entediados, a ideia inicial era ficar com ela durante o feriado e depois terminar. Quando chegou para abordá-la contou na hora que eles e os amigos haviam feito uma aposta para que ficasse com ela, a princípio achou que daria um soco em sua cara, mas na verdade simplesmente perguntou de quanto era aposta e que se ele concordasse em dar cinquenta por cento topava. Depois do choque concordou. Foi desse jeito que os dois começaram, ele gostou da resposta dela e isso o conquistou de primeira, depois passaram a conversar mais e descobrir coisas em comum. O sentimento foi crescendo de tal maneira que quando percebeu já a havia pedido em namoro. E quanto mais o sentimento por ela crescia mais assustado ficava e quando se sentia acuado começava a maltratá-la. Percebeu que ela tinha razão de chama-lo de cretino, tinha sido um cretino no relacionamento inteiro, como pode pensar que teria alguma chance depois de tudo.
***
Natália suspirou frustrada. Não bastava ter de ver Adam, agora tinha que suportar a presença de seu ex-noivo com a vagabunda. Queria cavar um buraco e sumir. Se ao menos achasse Andréia podia ir embora.
— O que você quer, Adam? – falou ao vê-lo se aproximar de novo.
- Já falei. Eu quero você! – sorri
Ela o olha e acaba sorrindo também. Estava tão cansada que abaixa a guardar por alguns segundos.
- Terá que fazer muito mais do que sorrir – responde percebendo depois o que tinha dito.
- Tenho chance, então?
- Na verdade... – para de falar ao ver seu ex se aproximar. Seu corpo fica todo tenso, não estava preparada para vê-lo. Muito menos acompanhado.
- O que foi? – Adam pergunta percebendo sua tensão.
- Nada – tenta disfarçar, mas sabia que não adiantaria. Bufou respondendo a pergunta. – Aquele ali – aponta para seu ex – É meu ex-noivo – suspira. Era muito estranho falar com seu ex-namorado sobre seu ex-noivo. Ainda mais que você ainda desejava seu ex-namorado – Ele teve a ousadia de vir aqui com a amante.
- Uau! – Adam repara no cara. E sente ciúmes e uma vontade louca de soca-lo. Como ele ousava feri-la? – Pelo menos eu nunca te traí.
Natália arqueia uma das sobrancelhas.
- Quer dizer – tenta consertar o que acabava de dizer – Você sempre soube que tinha outras mulheres. Nunca te enganei.
- Não sei se isso era bom ou ruim – fica deprimida.
- Por que não dá o troco nele?
- Como?
-Eu tô aqui. – se oferece todo contente.
- Não, Adam. Não acho uma boa ideia.
- Por quê?
- Por que... Sei lá. Por que...
Ela não terminou a frase. Adam a puxa para mais perto a beijando. No inicio tentou resistir, mas depois se entregou completamente. Era tudo o que queria desde que escutou ele lhe dizer “Oi”.
- Desculpa atrapalhar os pombinhos – diz Andréia separando-os – Mas...
Natália solta Adam completamente sem graça. E ao ver que todos os olhavam fez seu rosto pegar fogo. Mas sorriu ao ver a cara de seu ex-noivo. Tinha valido a pena.
***
Adam olhou para a irmã com um olhar assassino, mas Andreia o ignorou. Não acreditava que tinha conseguido beijar Natália de novo. Era bem verdade que se aproveitou de um momento de fraqueza. Sorriu. Ela ainda sentia algo por ele. Pode sentir isso no beijo desesperado que ambos deram. Havia desejo, saudades e fogo. Muito fogo. Olhou para o lado, assim que sua irmã parou de falar. Queria continuar de onde tinham parado, mas Natália não estava mais lá. Procurou-a por toda a galeria. Ela já tinha ido embora.
***
Natália aproveitou que Adam e Andréia discutiam e saiu. Era melhor assim, dizia para si mesma. Como poderia encarar Adam depois daquele beijo? Não conseguiria mais fingir que não se importava ou que não o queria mais. Para que prolongar seu sofrimento. Com certeza ele iria embora no dia seguinte, sua vida agora era em São Paulo. Estava a salvo de todo aquele sentimento que acabaria se libertando se continuasse ali. E não estava preparada para voltar a sofrer tudo de novo. Tinha sido só um beijo.
No dia seguinte Natália acordou atrasada para o trabalho. Correu desesperada pelos corredores da empresa. Teria uma reunião com seu chefe e o representante da empresa que havia se fundido com a dela. No meio do caminho pode ouvir os comentários de como o homem era bonito, elegante e educado. Sorriu. Sempre que algum cara novo surgia era motivo para falatório. Provavelmente seria disputado a tapas pelas mulheres. Sentiu um pouco de pena dele. Ao abrir a porta seu chefe a fuzila com os olhos. Ela move os lábios pedindo desculpas silenciosamente e repara no cara novo. Ele estava de costas admirando a vista. Por um breve momento Natália sentiu seus pelos se arrepiarem. Conhecia aquelas costas. Devia estar delirando, só podia ser. Aquilo não podia ser verdade...
O homem virou-se para cumprimenta-la. E ela viu seus movimentos em câmera lenta. Ao mesmo tempo em que ele se virava, suas pernas começavam a falhar. Agarrou-se na mesa de reuniões com tanta força para que não pagasse o mico de cair dura no chão.
- Natália – diz seu chefe – Esse é Adam. Adam Rodrigues, o representante da Empresa X. Ele que irá trabalhar conosco.
Adam sorri de um canto ao outro estendendo a mão para cumprimenta-la.
- Será um prazer trabalhar com você, Natália. – aperta a mão dela sorrindo. Seu sorriso era de quem estava se divertindo com a situação.
Natália puxa sua mão de volta. Odiava aquele sorriso de predador que ele tinha. Era um sorriso que fazia você ter vontade de dar tudo o que pedisse. Absolutamente tudo. Sentou-se na cadeira, assim que saíram. Precisava se recompor. Precisava de dignidade. De ar. De um banho frio. E se tudo isso era um pesadelo queria acordar naquele exato momento.
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