ANTES DA DESCOBERTA

Quando se passaram longos e intermináveis 20 minutos de jogo, o técnico anunciou que o time de Lara tinha vencido mais uma vez e que elas já poderiam se trocar para irem para casa. Lara antes de sair completamente do meu campo de visão em direção a sala aonde só as jogadoras podem entrar, soltou um beijo no ar para mim, eu o peguei e sorri.

Depois de mais ou menos 10 minutos, Lara saiu da sala com várias meninas atrás dela, estava vestindo um short de guipir azul e blusa branca, conversando, depois de, pelo que eu entendi, pedir licença as outras garotas, veio até mim quase que correndo, parou na minha frente, me deu um beijo e sorriu, dizendo:

– Vamos a pizzaria, todas do time, eu não posso faltar!

Eu a olhei com uma expressão que diria Ai meu Deus! Eu não estou nem um pouco afim de ficar no meio de várias garotas conversando coisas de garota ,mas, ao invés de dar uma de louco na frente dela, apenas disse:

– Bom, tudo bem, mas não vamos voltar tarde, né?

– Mais é claro que não! Minha mãe me mataria se chegasse tarde em casa, principalmente porque hoje é quarta feira, dia útil da semana. – Ela disse olhando para mim, séria.

– Ok, então, vamos! – Eu falei, meio desanimado.

– Ah, espera! Antes tenho que te apresentar mais uma das minhas amigas, na verdade, ela não é apenas uma amiga para mim, é como se fosse minha irmã só que de outra mãe – Ela pegou na minha mão e demos uma leve corrida até o saguão do centro de treinamento onde todas as meninas estavam conversando e rindo.

– Emma, venha aqui! Quero te apresentar uma pessoa! – Gritou ela olhando na direção onde todas as meninas estavam concentradas.

Vi uma silhueta se mexendo em meio as outras garotas, estava com uma saia longa preta de cintura alta, uma blusa cinza estilo cropped com a frase AC/DC Back in black e uma jaqueta de couro preta, e para a minha surpresa, vi que tinha cabelos longos e ruivos. Se Lara não estivesse segurando minha mão acho que já teria caído no chão só de ver ela se aproximando de nós. Lara deu um sorriso na direção dela e apontou para mim:

– Esse é o Wesley Millar, aquele cara que eu venho falando para você – Ela continuou olhando para a amiga como se esperasse algum tipo de aprovação.

Emma me olhou dos pés a cabeça, estendeu a mão para mim, dizendo:

– Ah, sim, me lembro de ter me falado dele. Prazer Wes, eu sou Emily Wilde, presidente do clube de leitura do colégio e amiga número um da sua namorada. — Ela sorriu, com aquele tipo de sorriso que pode abrir mares e fazer a neve cair .

Pensei comigo mesmo ela não é minha namorada, mas se fosse você, bom, eu poderia pensar no caso. Sorri de volta para ela do jeito mais educado que poderia, mas, sem demostrar interesse.

– Bom, agora que estão devidamente apresentados, acho que já podemos ir para a pizzaria, não é? – Lara sorriu para o grupo que respondeu sim como se fossem um coral da igreja, todos ao mesmo tempo.

Ela olhou para mim e disse:

– Acho que vou com você para a pizzaria, não vim com o meu carro, além disso minha carteira é provisória. Posso ir com você, não posso? – Perguntou ela para mim e depois fez um biquinho.

– Mais é claro que pode ir comigo, só espero que não tenha medo de velocidade, porque eu vou bem rápido. Mas aonde é mesmo a pizzaria? – O que era verdade, mas não tão rápido assim, só uns 60 á 80.

– Fica no centro da cidade, não muito longe daqui, se chama Castiel’s Pizarria.

– Ah, tudo bem, como os outros vão? – Perguntei

– Alguns vão com a Emma e outros com a Bella, as duas tem carro – Lara sorriu em quando olhava para fora. – Acho que demos ir agora – Ela pegou na minha mão e nós saímos do centro de treinamento, a maioria das garotas que jogam no time já estavam lá fora.

Quando saímos pedi que Lara esperasse um pouco até eu pegar a minha moto, uma Kawasaki ninja 750 2009, no estacionamento do centro de treinamento, voltando com a moto até onde deixei a Lara, percebi que ela estava parada ao lado de um Opala 76 preto e um El Camino vermelho. Olhei diretamente para a porta do motorista do Opala que estava com a janela aberta e vi que era Emily que estava dirigindo. Pensei: além de ser bonita, ainda tem um belo gosto para carros.

Gritei por Lara que deu um pulo ao ver que eu já tinha voltado, deu tchau para as amigas e veio correndo até mim sorridente, entreguei o capacete para ela.

– Uau! Que moto show, é bem melhor do que o carro das meninas, muito mais moderno. – Ela passou a mão na moto antes de sumir e entrelaçar seus braços em volta da minha cintura.

– Os carros não são velhos, são clássicos – Respondi de uma maneira calma e sutil.

– Ah, tanto faz, ainda prefiro meu Audi a1 – Respondeu dando de ombros.

Liguei a moto, passei a primeira marcha e peguei a avenida que dava direto no centro da cidade. O centro não era uma coisa glamorosa e muito menos tinha lojas grandes nem de longe lembravam as lojas de Nova York, a única coisa que tinha lá de vantajoso eram as boates e os restaurantes onde a maioria dos garotos se encontrava para conversar ou arrumar uma garota ingênua o suficiente para sair com eles. Parei a moto no estacionamento da pizzaria, perto do El Camino e do Opala. Lara desceu da moto e me deu seu capacete, sorriu e esperou que eu desligasse a moto por completo.

– Espero que goste daqui, a melhor pizza da cidade é essa na minha opinião. Eu e Emma sempre estamos aqui nos finais de semana, ela costuma dizer que a pizza é magnifique– Sorriu para mim e me olhou fixamente em quando eu saia da moto e tirava o capacete.

– Confio no gosto gastronômico de vocês duas – sorri de volta.

– Então vamos entrar – Disse me dando um beijo e pegando na minha mão, caminhamos até a entrada da pizzaria.

Para uma pizzaria, a entrada estava muito sofisticada, tinha um lustre de cristal quadrado no teto, as paredes eram brancas com alguns desenhos de anjos de vermelho escuro quase preto nas paredes. As mesas no interior do estabelecimento tinha um toque vintage retro, por um momento pensei que estava na Inglaterra na década de 60, e o lugar parecia caro, muito caro.

Sentamos em uma das mesas próximas a uma janela enorme de vidro escuro, fomos os primeiros a chegar, em quando esperávamos os outros, Lara começou a falar sobre livros e poesia, ela me disse que sua poesia favorita era o Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes. Por um momento, em quando ela falava, percebi que a julgava mal, pensei que ela era apenas uma daquelas garotas ricas que não estão nem ai para a vida, mas vejo que me enganei.

– Bom, acho que já falei muita coisa sobre mim, não acha? Pareceu até que sou egocêntrica. Porque não me fala de você? Estamos juntos, mas sei tão pouco sobre você por completo – Perguntou ela me fazendo acordar para a realidade.

– Ah, eu não sou aquele tipo de pessoa extraordinária, trabalho, leio pouco, na maioria do tempo, fico em casa assistindo ou jogando videogame – Respondi dando de ombros.

Ela soltou uma gargalhada e depois olhou nos meus olhos fixamente e disse:

– Posso te fazer uma pergunta? Eu disse:

– Claro, pode sim! Ela disse:

– Você gosta de mim?

Jesus! Eu não posso responder essa pergunta, é claro que eu gosto dela, mas talvez não na mesma intensidade que ela gosta de mim pensei, Eu só tinha duas alternativas: 1) Ou eu mentiria e isso me deixaria mal pra caramba quando chegasse em casa e talvez poderia ir para o inferno por isso quando morresse 2) não respondia a pergunta e mudava de assunto. Estava pronto para mudar de assunto quando ouvi alguns risos vindo da entrada diretamente para a nosso mesa, fiquei aliviada em ver as garotas do time de vôlei sentando na mesa.

Notas finais
Para quem não conhece o Soneto de Fidelidade, aqui está ele: De tudo ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.