Quando Se Assume Um Sentimento

10 O café da manhã e a desconfiança


Diana acorda no quarto de sua casa, completamente relaxada. O pouco de dormira havia tirado todo seu sono e cansaço. Sente-se uma nova pessoa. Ela levanta da cama, com seu pijama de seda branca vindo de Themyscera, se espreguiça e vai para o banheiro. Lá, vê seu reflexo no espelho. Fica um tempo, assim, se olhando. Passa as mãos nos cabelos negros e sedosos que estão um pouco armados e logo após lava o rosto. Abre a torneira na banheira e deixa a água cair. Espera a mesma encher até a boca e joga uma essência esverdeada. O liquido perfuma o ambiente com um toque cítrico. A princesa, satisfeita, retira rapidamente sua roupa, pega o sabonete e com o corpo um pouco arrepiado pelo frio, entra na água. Começa a se lavar calmamente e enquanto isso imagina como ficara como jornalista. Tem certeza que conseguira interpretar muito bem o papel, diferente do que Batman havia dito. Tudo o que precisa é de uma identidade falsa, alguma roupa adequada para isso e a oportunidade de descobrir alguma coisa. Savage não escapara, diz a si mesma.

Conjecturando sobre isso, ela molha seu cabelo e termina o banho, saindo da banheira e pegando sua toalha para secar seu corpo. Depois de seca, veste seu roupão vermelho. Diana começa a fazer o caminho de volta para seu quarto, passando pelo corredor. Antes de ir para lá, resolve dar uma passada na varanda, para ver como vão às coisas lá fora. Chegando lá, se debruça sobre o parapeito e olha ao redor. Quando passa os olhos no andar inferior de sua casa, se surpreende com a presença de um carro esporte parado ali. De dentro de carro, um homem vestido casualmente sai. Ela apenas observa e tenta reconhecê-lo. Consegue fazer isso, quando o homem olha em sua direção, como se soubesse que ela estava ali. Os olhos azuis e penetrantes não deixam duvidas em relação a sua identidade.

- Bruce. Bom dia – fala Diana elevando um pouco a voz para ser ouvida

- Diana, precisamos conversar – fala com a mesma seriedade de sempre o morcego

- Entre

Dizendo isso, a princesa sai da varanda e anda em direção as escadas para chegar ao andar inferior. Quando passa pela sala, olha para os ponteiros do relógio pendurado na parede que marcam 8h da manhã e estranha o horário da visita do homem morcego. Um rastro de água é deixado pelo caminho por seus cabelos escuro molhados. Ela desce sem pressa alguma, e como sua casa é grande, demora um pouco para chegar à porta de entrada onde Bruce a está esperando. Quando alcança a mesma, pega as chaves penduradas próxima a porta e abre. Olha para Bruce, que a observa de cima a baixo, em silencio e dá passagem para ele. Depois de fechar a porta se vira para encará-lo e percebe que ele veste uma camisa preta e uma calça jeans, junto com seus sapatos escuros. O cabelo molhado e despenteado faz seus olhos parecerem mais azuis. Sente o cheiro de perfume masculino impregnando sua casa e encontra um olhar um tanto estranho sobre si. Se da conta que veste apenas um roupão, mas não se incomoda.

- Sobre o que quer falar? – ela pergunta

- Sobre nossa ida a Austrália. Como você se ofereceu para fazer o papel da jornalista, vim lhe dar algumas dicas

- Pensei que não havia aprovado a idéia – Diana fala enquanto se dirige para a sala

- Não aprovei, mas me preocupo com...

Diana para de andar, esperando ele terminar a frase. Percebe que isto demora um pouco para acontecer e sorri

-... A missão – Bruce finaliza

- Entendo – retruca a princesa retomando o passo.

Ela abre as cortinas para clarear um pouco o ambiente e ouve os passos de Bruce atrás de si.

- Que tipo de dicas? – pergunta intrigada se sentando no sofá e cruzando as pernas

Ele se senta também de frente para ela e retoma a conversa

- Quero que tome cuidado, muito coisa está em jogo. E preste atenção em tudo que ouvir, pode ser útil.

- Farei isso – diz a princesa – Só preciso de uma identidade secreta

- Providenciarei uma – retruca o morcego passando a mão no rosto

- Cansado?

- Só um pouco sonolento

- Não dormiu essa noite? – pergunta intrigada a amazona

- Estava atrás de um criminoso – diz misteriosamente – Mas voltando ao assunto...

Diana ouve suas palavras bem distantes. Pensa no quanto Bruce se sacrifica para pegar algum bandido. É do tipo que dá todo o seu foco em sua missão e não se liga a outras coisas, além disso. A princesa abaixa a cabeça, pensativa.

- Tudo bem pra você? – pergunta o morcego

- Desculpe, não ouvi o que disse – fala a princesa

- O que acha de colocar uma escuta enquanto estiver dentro da empresa?

- Tenho que pensar – diz sorrindo – Por hora, que tal tomarmos café?

A Mulher Maravilha se levanta deixando o homem morcego para trás e se dirige a cozinha. Chegando lá, abre o armário e pega um pote com pó de café. Olha ao redor, procurando sua cafeteira e a encontra próxima a pia. Ela coloca uma quantidade de pó na máquina e enquanto pega a jarra para colocar a água sente a presença de Bruce a suas costas.

- Diana? Prestou atenção no que falei? – ele pergunta olhando-a estranhamente

- Sim, prestei atenção no que disse – responde a princesa – E por que me olha assim? Incomoda-se em tomar café com uma amiga?

A amazona sorri para ele, que apenas a olha um pouco desconfiado

- Não – Bruce retruca enquanto se dirige a mesa

Diana se volta para a jarra em sua mão e abre a torneira, enchendo-a de água. Joga o liquido na cafeteira e aperta o botão para ligar. Enquanto a maquina faz seu trabalho, a princesa pega um pacote com cookies de chocolate, abre e coloca em um pote. Lembra-se que tem guardado também, uns pacotes com variados pães pequenos feitos em Themyscera e pega também. Coloca os dois aperitivos em cima da mesa, junto com uma colher e percebe que Bruce apenas observa a cena, seguindo-a com os olhos. Ela vai até a cafeteira e percebe que o processo está quase terminado. Encosta próxima a maquina, de frente para onde Bruce está sentado.

- Devo agradecer por estar fazendo isso? – pergunta ele

- Sim, mas agradeça depois de tomar o café – responde brincando

Bruce sorri com o canto da boca e balança a cabeça. Cortando esse clima descontraído, a cafeteira apita. Diana desliga a maquina, pega o recipiente com o café quentinho e com a ajuda de um pano coloca em cima da mesa. Ela pega no armário, duas xícaras brancas e o pote com açúcar e põe na mesa enquanto se senta na cadeira de frente com Bruce. Coloca uma quantidade de café nas xícaras e oferece uma a ele, que apenas aceita a oferta, silencioso. Ela pega um pouco de açúcar com a colher e logo depois mexe a mesma dentro da xícara. O homem a sua frente toma um gole do café sem pestanejar.

- Não coloca açúcar? – pergunta intrigada a princesa esfriando seu café

- Tira o gosto e o efeito da cafeína – ele responde tomando mais um gole

Disso nem mesmo ela sabia. Vai ver por isso quando toma café tem a impressão de continuar sonolenta. Tem a mania de encher de açúcar. Ela encosta os lábios no liquido apenas para sentir o gosto e percebe o quanto está quente

- E pelo jeito não liga em queimar a língua – ela comenta

- Costume – diz ele pegando um dos pãezinhos que Diana colocara na mesa – Do que são feitos?

- Uma receita especial de Themyscera. Não sei os nomes dos ingredientes, minha mãe é que costumava fazer pra mim quando era criança

- Interessante – comenta o morcego experimentando um

- Foi uma das únicas coisas que trouxe de lá – diz ela pegando um e comendo também

Por um longo tempo, os dois ficam assim, em silencio, apenas saboreando o café da manhã feito as pressas. Diana começa a pensar em relação ao que ele dissera sobre usar uma escuta enquanto estiver na empresa da “família” de Savage. Acha uma idéia arriscada e sem muita utilidade e diz para Bruce

- Não é necessário a escuta

- Por que diz isso? – ele pergunta colocando a xícara na mesa

- Acho que não servira de nada

- Nós poderíamos ouvir suas conversas e você não teria que repetir para nós depois – argumenta ele – Será útil

- Eu repito para vocês com prazer, mas não quero arriscar a missão por detalhes

- Diana...

- Não precisamos complicar – interrompe a princesa

- Deixo por sua conta então – Bruce retruca e volta a tomar o café

A amazona faz o mesmo, e pega um cookie para acompanhar a bebida. Quando terminam o café da manhã, Diana consegue, a muito custo, fazer Bruce subir para ver a vista da varanda de sua casa. Quando alcançam o andar de cima, a amazona se debruça no mesmo parapeito que a pouco tempo o vira e o ele faz o mesmo, encostando do seu lado esquerdo. Os dois heróis observam o movimento nas ruas, que começa a aumentar e Bruce diz, mantendo os olhos no horizonte.

- Esqueci de perguntar... O que Destino disse sobre a poção?

- Que estará pronto em uma semana... No caso em seis dias – responde Diana

- Então não teremos problemas – ele comenta pensativo – A vista daqui é mesmo incrível

Diana se impressiona um pouco com as palavras de Bruce e olha para ele, sorrindo. Ele retribui o sorriso, sem olhar para ela

- É... Esse é um dos lugares que mais gosto de ficar – comenta a amazona – Olhar para tudo isso me ajuda a resolver alguns problemas

- Com certeza é um ótimo lugar para se fazer isso

- O que você costuma fazer quando tem problemas que não consegue resolver?

- Costumo me meter em novos problemas para esquecer os antigos – Bruce responde misteriosamente

- Como assim?

-É melhor esquecer... Tenho que voltar para Gotham, qualquer coisa sabe onde me encontrar – diz ele andando em direção as escadas

Diana observa o homem morcego indo embora. Fica se perguntando como Bruce conseguia ser tão reservado e misterioso e o porquê de sua ultima esquiva. Antes de sumir de vista, Diana lembra-se do agradecimento que ele ficou devendo e corre para a borda da escada

- Estou esperando – ela comenta matreira e fazendo-o interromper a descida

Bruce se vira para ela, parecendo um pouco confuso e logo depois parece se dar conta do motivo dela ter dito aquilo

- Agradeço pelo café da manhã – diz educadamente – Nos vemos daqui a uma semana

- Seis dias – corrige a princesa

Ela observa a reação de Bruce, que apenas concorda com a cabeça e termina sua descida, deixando a casa e fechando a porta atrás de si.

Logo após fechar a porta da casa de Diana, Bruce suspira longamente. A conversa com a princesa das amazonas não fora das melhores para ele. Em primeiro lugar porque ela não concordara em colocar uma escuta quando for à empresa na Austrália e em segundo lugar pelo modo como ela estava vestida. Admite que ver Diana apenas de roupão mexeu bastante com sua imaginação, ainda mais porque ela ficara o tempo todo vestida assim e a ultima conversa na varanda de sua casa o deixara um pouco desconfortante. A princesa era uma das únicas pessoas que tinha a incrível habilidade de fazê-lo falar coisas que não devia, se mostrando um tanto vulnerável, mas ele conseguira se esquivar a tempo. Tomar café com ela até que fora bom, ele se sentia sonolento pela noite sem dormir e estava mesmo precisando de um pouco de estimulo. Enquanto pensa na sorte e no revés da conversa com a amazona, se dirige para seu carro e recebe um esbarro com tudo em seu corpo. Com seu bom senso de equilíbrio, Bruce nem se mexe com o tropeço da pessoa a sua frente que começa a se desculpar

- Sinto muito por isso – diz o homem com voz rouca

- Não foi nada — ele retruca gentilmente

Bruce percebe que o mesmo se veste com um nível de excentricidade elevado para o horário. Com um sobretudo marrom cor de casca de arvore, chapéu e óculos escuros, o misterioso homem chama a atenção. Bruce tem certeza que nunca o viu antes, mas tem a impressão que o conhece de algum lugar. Para não perder o costume desconfiado, pergunta:

- Mora por aqui?

- Na verdade não – responde o homem ainda mais rouco – Só estou de passagem mesmo. Mas conheço o senhor... Por acaso é Bruce Wayne, dono das indústrias Wayne?

O morcego se surpreende com a habilidade do homem de mudar de assunto e sua curiosidade elevada, e mais desconfiado ainda, mente sucintamente

- De modo algum, me chamo Tomás e nem de longe me pareço com aquele magnata... Mas deixe-me perguntar, como agüenta andar todo agasalhado com esse sol que faz essa manhã?

- Não sinto muito calor – fala rapidamente o homem sorrindo ironicamente – E além do mais sou alérgico a sol

Bruce retribui o sorriso irônico e não diz mais nada. Os dois homens se mantêm em silencio, apenas observando um ao outro por algum tempo

- Acho que vou indo. Foi um prazer conhecê-lo, se... Senhor Tomás – fala de repente o excêntrico homem oferecendo a mão para um aperto amigável

O morcego demora um pouco para retribuir o gesto, pois estranha o homem ter dado tanta ênfase em “seu nome”, mas diz para não parecer rude

- O prazer foi meu, senhor...?

- Shadows – finaliza o homem apertando sua mão

- Foi um prazer conhecê-lo, senhor Shadows — o morcego diz sorrindo e dando passagem para o homem logo após o aperto de mão

Bruce ouve os passos do estranho Sr. Shadows se afastarem e se mantém parado, apenas observando a silhueta do homem indo embora pela calçada. De longe, percebe que o homem não é tão alto e nem corpulento, ao contrário, é de altura mediana e muito magro, mas com o volume excessivo de roupa aparentava mais. Ele acha estranho tudo o que o homem disse para ele, e da maneira como ele se portou em todo momento. Tem certeza que não o conhece ou pelo menos não o reconheceu. Resolve ir o mais rápido possível para sua caverna em Gotham para quem sabe descobrir algo sobre este homem. Com certeza Bruce é um homem desconfiado. Ele pega as chaves de seu Aston Martin, aperta o botão para desligar o alarme e entra no carro, dando a partida para a mansão Wayne.