De novo a maldita escuridão gritante. Várias vozes se misturavam, fazendo com que fosse impossível distinguir uma única. Tentei abrir os olhos, mas eles estavam presos. Entrei em desespero, enquanto clamava incessantemente pela minha visão. Abruptamente o silêncio inundou o espaço, fazendo eu me acalmar lentamente. Imediatamente, minha consciência se preencheu com pensamentos, então comecei a analisar possibilidades do que certamente estaria acontecendo. Meus olhos poderiam estar presos por causa de remela excessiva ou pedaços de fita colante, e as vozes seriam de meus amigos, que estatiam desesperados ou apenas tirando sarro. Já havia acordado com os olhos presos com remela, então isso poderia ser o real motivo, mas não era possível que vozes soassem tão perto de mim, pois a porta estava trancada, e seria impossível, de alguma maneira, abrir a porta sem que eu acordasse. Nada parecia suficiente para justificar o que estava acontecendo. Minhas ideias foram afugentadas de minha mente por um estrondo, assim como uma mosca é abanada para longe de um alimento. O som de metais ainda retinavam quando uma voz raivosa rugiu.

–Mais alguém se opõe? -gritou uma mulher. O silêncio voltou, mostrando que ninguém a ira contradizer. Ótimo. Agora vão.

Berros me trouxeram de volta a consciência. Pulei da cama e fui até a porta. Destranquei e me deparei com alguns no corredor, enquanto outros repetiam meus movimentos e se materializavam nas portas de seus quartos. Daiane apareceu com lágrimas nos olhos, que eram escondidas pelos óculos tortos. Amanda tinha uma expressão assusta estampada no rosto, e João Vitor tropeçava nos próprios pés. Algo ocorrera a ponto de fazer todos nós despertarmos ao mesmo tempo, e assustando algumas pessoas, fazendo-as gritar alto suficiente para serem ouvidas pela casa toda. Mas dessa vez, nada passava pela minha cabeça. Decidi não perder mais tempo vendo pessoas assustadas e tentar descobrir o motivo da histeria. Vi Isabela, então me dirigi até ela. Sua expressão era claramente confusa.

–Você sabe o que está acontecendo? -indaguei, esperando uma resposta coerente.

–Eu...não sei -disse, acabando com minhas expectativas.

Inesperadamente, a porta da sala se abriu, revelando um Ferdinando com olheiras. O homem-bode permaneceu parado, nos encarando, mas logo se pronunciou.

–30 minutos para vocês se aprontarem. Quero todos aqui antes de sairmos.

–Você passou a noite aí fora? -perguntou Salu.

–Passei. E agora você só tem 29 minutos e meio para se arrumar.

Fui até meu quarto, mas fiquei desorientado quanto ao que fazer. Decidi então tomar um banho. Depois vesti, mais uma vez, as roupas que estavam na mesinha.

Sai do banheiro e vi a alguém estava abrindo a porta. Imaginei que poderia ser Isabela vindo me dar a resposta que não tive, ou até mesmo Franciele. Mas nenhuma das alternativas era a correta. Lucas pôs a cabeça entre a porta e o batente, e olhou o quarto até me ver.

–Que foi? -disse, confuso.

–Nada. Posso entrar?

–Você já entrou.

–Que seja. Pode me ajudar? -ele entrou e fechou a porta.

–Posso.

–Bem, soube que você é bom com conselhos. Ér... tem uma menina que eu gosto muito, mas não sei como falar isso pra ela, nem mesmo se eu devo.

Essa era uma das situações que me deixavam confuso e que o medo de errar tinha um poder maior sobre mim. Por mais que minha fama fosse de conselheiro, que eu sempre sabia o que fazer, não era bem assim que funcionava dentro de mim. Eu só era capaz de ajudar porque observava o que as pessoas faziam certo, e via a resposta correta repetidas vezes. Mas também era preso a experiências ruins, fazendo com que esse bom samaritano fugisse quando quem precisava era eu. Meu chão desaparecia e eu era obrigado e encarar tudo sozinho, achar a saída do meu próprio labirinto de problemas não resolvidos como um alguém sem o mínimo de conhecimento. Eu não era como Lucas, ou vários outros, que sabiam que quando precisassem teriam uma pessoa a quem pedir ajuda com um problema ou um conselho. Mesmo sendo algo banal como o amor, era um dos assuntos mais difíceis de serem tratados, e me esforçava para ser coerente ao assunto. Eu me sentiria mal em simplesmente cuspir um falsa solução para me livrar desse peso, porque ele voltaria mais pesado em forma de culpa. Um dos meus defeitos era esse: causar meu próprio mal pelo bem dos outros. Mas sabia que algo dentro de mim não permitiria que meu mal fosse transmitido aos outros.

–Vocês se conhecem?

–Sim. Ela é da nossa turma da escola.

–Hum. Vocês são amigo?

–Sim.

–Bom, primeiro elogie-a, isso pode amenizar qualquer "agitação" por parte dela. Depois fale o quão importante se tornou pra você e o que você sente.

–Tem certeza que vai dar certo?

–Não, mas não custa tentar. Aliás, como você vai falar isso pra ela se estamos indo embora?

–Falando normalmente. Ela veio conosco. Obrigado -e saiu do cômodo.

Tentei esquecer aquilo e retomar de onde havia parado. Sentei na cama e procurei por minha mochila, que, se me recordava, estava no chão. Enquanto rodava o quarto com os olhos, a achei próxima a pilha de travesseiros atrás de mim. Puxei-a pra meu lado, e abri o zíper. Estranhamente, ela estava cheia de coisas que não levei à escola. Um papel branco dobrado estava por cima de tudo. Peguei e desdobrei cuidadosamente. Nele, uma frase escrita com letra cursiva se destacava. "Me livrei do seu material escolar (não me agradeça) e coloquei essas coisas. Você vai precisar.". Comecei a explorar minha mochila. Um mapa, algumas roupa, um saquinho lacrado com pedaços de alguma coisa e dois cantis. Abri o recipiente com alça azul e cheirei, mas nada de mais, então beberiquei um pouco do que era água. Depois abri o cantil com alça vermelha, e instantaneamente um aroma doce de chocolate invadiu minhas narinas. Sem hesitação, dei um gole moderado. Senti meu corpo formigando, seguido por uma queimação extremamente desconfortável.

Me queimar era algo corriqueiro, já que eu fazia o almoço e o jantar em casa. Mas todas as vezes foram momentos rápidos, toques em panelas quentes ou coisas do tipo. E dessa vez eu estava dentro da panela, sendo cozido de dentro para fora. Senti gotas de suor irrompendo minha pele. Uma voz exigiu a presença de todos na sala, e sem ter controle total sobre minhas mãos, arrumei tudo de volta dentro da mochila. Ainda em chamas, me sentei ao lado de Ferdinando e lhe disse o que ocorrera. Os que chegavam nos observavam, enquanto o acontecimentos se desenrolavam. Depois de ter ciência sobre tudo, ele olhou um por um dos que estavam na sala e resmungou.

–Alguns de vocês devem ter vasculhado o conteúdo de suas mochilas. Dentro delas há roupas, um mapa, água, ambrósia e néctar. O amiguinho aqui disse que está sentindo o corpo queimando. E por sorte não está por completo. Dou um aviso e uso esse idiota como exemplo: só comam ambrósia ou tomem néctar quando estiverem feridos, e ingiram pouco, pois muito pode incinerá-los. Bom, acho melhor irmos andando.

Sem contradição, partimos. Saí da casa e senti uma brisa gelada me abraçar. Isso era estranho, pois estavamos no verão, mas esse ventinho fresco era provavelmente o indício de que uma chuva irromperia sobre nós.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.