Quando O Dia Foi Raptado
3 Um bode nos encontra
Notas iniciais
Quando vi aquilo na porta do hospital, eu pensei estar tendo um pesadelo, pois era a coisa mais bizarra que eu já havia visto. Aquela coisa era alta, maior que eu. A princípio imaginei ser um leão, e era, mas estranhamente a sua cara era o rosto de um homem, e sua cauda lembrava a de um escorpião, mas ao invés de um ferrão, existiam vários espinhos afiados.
Achei que era apenas a parte "débil mental" do meu cérebro se esforçando para imaginar tudo isso, mas me de conta de que todos os meus amigos estavam na mesma situação.
A besta focou os olhos assassinos em nós, e ficamos paralisados enquanto ela nos estudava. Disse para ninguém fazer nenhum movimento brusco, pois suspeitava que pudesse atacar, assim como um cão raivoso faz. Como se lessem minha mente, todos estavam sacando suas espadas, e percebi que João Vitor não estava empunhando sua lâmina, mas estava com as mãos fechadas. A mão esquerda segurava a mão direita, que por sua vez se mantinha fechada. Tentei imaginar o porquê dele estar em uma posição não muito favorável para se lutar contra um bicho de dois metros de altura e com enormes espinhos eclodindo da cauda cascada. Comecei a recuar e todos me acompanharam, mas tropecei em uma muleta, cai e o monstro me atacou, pulando na minha direção. Eu não tinha a mínima vontade de descobrir qual era a sensação de servir de tapete para aquele bicho, então me fiz o grande favor de rolar, pouco antes dele aterrissar em mim. Me pus a correr para longe dele, e como se fosse planejado, Beatriz cravou sua lança na cabeça do animal enquanto Lucas feria suas patas, fazendo — o cambalear e cair. Flávia me chamou e me disse que o nome daquele monstro era manticora, e sinceramente, fiquei surpreso por ela saber uma coisa dessas, mas ouvi o som de flechas e me virei. Vi a manticora atirar seus espinhos contra Luiz Felipe e Daiane, que juntos se defendiam desviando os espinhos com suas espadas gêmeas. Aproveitei o momento e divulguei meu plano improvisado.
– Beatriz e eu vamos usar nossas lanças para tentar cegar a manticora. Se conseguirmos, vocês a atacam e a matam.
Transformei minha espada em lança, e juntos, Beatriz e eu, fomos sorrateiros, e quando estavamos a uma distância razoável, atacamos. Beatriz, por sorte, acertou o alvo, mas eu, ao invés de acertar o olho, acertei a lança no nariz da fera, que urrou de dor e disparou seus espinhos involuntariamente, acertando o braço de Julia Carvalho, que caiu sentada e gemendo de dor. Me afastei da manticora ainda com os ouvidos zumbindo, e percebi que Lucas havia cortado sua cauda/cacto/espinheiro e lhe dado um choque, pois seu excalibur estava estalando em eletricidade. Os outros aproveitaram o momento de agonia do animal e atacaram-no. Feriram seu corpo e o encheram de cortes, até a hora em que ele se levantou, obrigando todos que estavam a sua volta a recuar. Ouvi um grito e vi João Vitor cair com um dos pés preso num buraco do balcão de recepção, que provavelmente não estava ali antes. Corri para ajudá-lo, mas a manticora se antecipou seus movimentos, e antes que eu pudesse fazer algo, ela já havia pulado em direção a João, que gritou e ergueu as mãos juntas. A manticora caiu e deixou escapar um grito doloroso. Eu fiquei com um gosto metálico na boca, e ao mesmo tempo que senti pena de João, tive raiva do monstro por começar dificultando as coisas para nós. Num piscar de olhos, a manticora explodiu em uma chuva de pó dourado. Ficamos perplexos com aquilo, e nos surpreendemos ainda mais quando vimos que João estava deitado no chão, (sem ter virado patê), mas com as mãos no peito, e nelas uma grande espada. Corremos em sua direção, e de perto eu pude ver que o seu tornozelo estava virado em um ângulo estranho. Íamos verificar se ele estava bem, mas uma voz nos impediu.
– Não é possível!
Olhamos ao redor, e na porta estava a coisa que havíamos visto antes no vídeo da pia. Ele correu até nós com pernas de bode e perguntou.
– Como vocês fizeram isso?
– Fazendo -disse Beatriz, sem notar que fora mal-educada.
– Poucos semideuses podem derrotar um monstro desses sem o mínimo treinamento. Estou impressionado.
– Tá, mas precisamos cuidar deles- Isabela apontou para Julia Carvalho e para João.
– Deixa que eu cuido disso.
O estranho tirou um cantil de uma mochila e deu para Julia beber, depois tirou o espinho de 60 cm do seu braço e fez um curativo. Depois fez João beber o líquido e fez uma tala em seu tornozelo quebrado.
– Qual é o seu nome? E o que você é?- perguntei.
– Eu sou um sátiro, e meu nome é Ferdinando. Eu sou o protetor de vocês... todos.- ele disse como se estivesse sentindo preguiça só de pensar em que teria que proteger todos nós- Mas ainda estou atônito pelo que vocês fizeram.
– É, sou muito boa nisso mesmo!- disse Salu em tom de brincadeira.
Ferdinando a olhou, deu uma risadinha e franziu o cenho, deixando claro que não havia gostado da brincadeira.
– Então é melhor nós irmos andando. Quanto mais rápido nós formos, menos monstros vamos encontrar pelo caminho. Vou lhes apresentar as outras semideusas que vão conosco.
– Espera.- peguei a muleta na qual eu tinha tropeçado e a dei a João.- Agora podemos ir.
Saímos do hospital e vi duas garotas sentadas na calçada, mas quando nos viram se levantaram imediatamente.
– Essa é Amanda Munhoz, filha de Apolo- ela nos cumprimentou. Ela era alguns centímetros menor que eu, tinha a pele levemente bronzeada e cabelos negros enrolados- E essa é Franciele Guerato, filha de Afrodite.- Ela também nos cumprimentou. Tinha a mesma altura que eu, cabelos lisos e escuros e sua pele era quase igual a da outra menina, mas um pouquinho mais clara.
– Então acho que é "melhor nós irmos andando".- eu disse tentando imitar Ferdinando, querendo irritá-lo, mas ele nem ligou.
– É melhor mesmo.- ele disse — Ainda tem muito chão até Nova York.
– NOVA YORK?! — gritamos em uníssono.
– É, Nova York. É onde fica o Acampamento Meio-Sangue, o novo lar de vocês.
Eu me senti mal. Quantos anos íamos levar para chegar até Nova York andando? Odiei a ideia.
– Por um acaso você não tem uns... sei lá... 6.000 reais pra comprar passagens de avião?- ele me olhou de cara feia e todos riram (espero que tenham rido dele).
– Não, nós vamos andando.
Começamos a andar debaixo do sol quente de uma tarde de verão, rumo à morte... quer dizer, rumo à Nova York.
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