Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
3 O Reencontro Que Silencia o Mundo
Notas iniciais
Aquele instante parecia eterno. O mundo inteiro havia desaparecido, como se todos os sons tivessem se calado, e restasse apenas o som de nossos corações. O olhar dela... era como uma brasa acesa no inverno. Uma lembrança viva do passado que insistia em queimar.
Meu corpo se virou instintivamente com o impacto leve, e por um segundo, a confusão tomou conta. Mas quando meus olhos encontraram os dela, foi como se tudo ficasse em câmera lenta. Os olhos castanhos, intensos, pareciam buscar algo em mim. Como se esperassem que eu dissesse algo. Como se gritassem por reconhecimento. Havia algo familiar ali. Como se eu já a conhecesse. Como se parte de mim soubesse exatamente quem ela era, mesmo que minha mente ainda tentasse entender.
Mas então, como se acordasse de um sonho, Suellen recuou, limpou a saia do uniforme e seguiu em frente sem dizer mais nada. O tempo voltou a correr. Os sons do corredor retornaram. E eu fiquei parado ali, tentando entender o que havia acabado de acontecer.
As aulas continuaram, e logo o fim do dia chegou. Os alunos iam saindo, a escola esvaziava lentamente. O céu começava a ganhar tons alaranjados, e os carros já se posicionavam na entrada para buscar os estudantes.
Suellen saiu entre as últimas. As amigas já estavam perto do portão, rindo e conversando. Ela, por sua vez, caminhava mais devagar, como se algo a prendesse ali. Olhou discretamente para trás. E me viu.
O tempo pareceu desacelerar novamente, mas dessa vez estávamos distantes.
Suellen On
“Como isso é possível?” — ela pensava. Seu coração ainda batia acelerado desde aquele esbarrão. “Como o destino foi me colocar de frente com ele? Justo ele?”
Ela mal conseguiu se concentrar o resto do dia. Aquela figura tão presente em suas lembranças infantis. Aquele menino gentil que havia a ajudado quando tudo parecia desmoronar. Que havia a protegido, que havia sido seu heroi em um momento de desespero. E agora… ele estava ali. Um homem. Forte. Seguro. Com aquele mesmo olhar sincero e protetor.
Suellen sentia o rosto queimar de vergonha, mas ao mesmo tempo, o coração... estava quente. Acolhido. Como se algo há muito tempo perdido tivesse voltado.
Mas junto da emoção, veio o peso da realidade. O rosto do pai invadiu seus pensamentos. A cobrança constante, o controle sufocante. A perfeição que ele exigia. A carreira que ela teria que seguir, o futuro desenhado sem escolha. O medo do amanhã. E, principalmente, o medo de sentir.
“Eu não posso… não devo me aproximar dele”, pensava. “E se alguém vir? E se meu pai descobrir?”
Mas mesmo assim, uma pequena parte dela sussurrava:
“Fala com ele... só uma vez.”
Flashback On
Em silêncio, ela lembrou do primeiro encontro com Ruan. Ela, ainda pequena, perdida no centro da cidade. Um homem a perseguia. E então, ele apareceu. O menino de sorriso doce, voz firme, que enfrentou o medo e a salvou. Aquilo ficou marcado.
Após isso, seu pai ficou ainda mais rígido. Começou com pequenas cobranças: notas, postura, amizades. Depois vieram as proibições: celular controlado, horários vigiados, rede social restrita. Tudo como forma de castigo e disciplina. Ela não podia respirar sem sentir que estava decepcionando alguém. O que antes era um lar, virou um campo de treinamento para a "excelência".
E em meio a tudo isso, ela sentiu um pesar no peito…
Ele havia chegado como um heroi em um cavalo branco e simplesmente sumiu depois daquele fatídico dia, e um dia reapareceu na escola, mais bonito, mais confiante. Por algum motivo, Suellen se encantou de novo. Mesmo que da forma mais inesperada e sem mesmo sem saber o nome dele por completo. Ele era misterioso. Passava um ar de confiança e uma forma meio louca de ser irresistível…
Ela nunca o tinha esquecido. Nunca.
Flashback Off
Sentada no carro, com as mãos no colo, Suellen observava o vidro embaçado da janela. Seus pensamentos eram uma mistura de nostalgia, dúvida e emoção. O coração ainda batia descompassado. “Será que ele também lembrou de mim? Será que sentiu algo?” — pensava.
As imagens daquele dia rodavam em sua cabeça como um filme antigo. E, em meio ao medo de sentir, havia uma faísca. Uma esperança tímida. Talvez aquele reencontro fosse o começo de algo novo. Talvez…
Suellen Off
Ruan On
Do portão da escola, a vi entrar no carro. Nossos olhos se cruzaram mais uma vez. Não havia palavras. Mas havia algo ali. Um reconhecimento. Uma história que parecia renascer.
Cheguei em casa e fechei a porta devagar. O silêncio do meu apartamento era reconfortante.
Deixei a mochila sobre a mesa, tirei o tênis e fui até a janela. Olhei para o céu escurecendo. Sentei na cadeira giratória do meu home office e liguei o computador. Enquanto o sistema iniciava, peguei uma xícara de café e abri o caderno de anotações técnicas.
— Certo, vamos ao que interessa — falei baixinho.
Abri o projeto da escola, revendo as plantas do sistema de rede, os pontos de acesso à internet, os laboratórios com computadores que precisavam de atualização. Fiz anotações, revisei os prazos e determinei metas para os próximos dias.
Logo em seguida, abri o e-mail da equipe e respondi algumas mensagens sobre o planejamento técnico. Havia também uma conversa com um supervisor da empresa, pedindo atualizações do primeiro dia. Anexei o relatório do que havia sido identificado e mandei junto minhas sugestões de melhoria.
Depois, entrei no grupo da equipe técnica no chat corporativo e troquei algumas mensagens com Lucas e Adriana, que também iriam trabalhar no projeto. A interação foi leve, cheia de expectativa e boas-vindas. Senti que poderia fazer bons amigos ali.
Sobre a estante, alguns livros técnicos dividiam espaço com romances de ficção e um quadro com uma foto antiga minha com a minha mãe. Ao olhar para a imagem, um sorriso discreto escapou. Ela sempre dizia que algumas pessoas marcam a gente antes mesmo de sabermos por quê. Talvez Suellen fosse uma dessas.
Me peguei perguntando em silêncio: “Será que já nos encontramos antes? Algo naquela expressão… aquele olhar… parecia me puxar de volta para alguma memória distante. Mas qual? De onde?”
O trabalho estava apenas começando. E embora a cabeça estivesse cheia de pensamentos sobre Suellen, eu também me sentia empolgado com essa nova fase.
— Obrigado por mais um dia — murmurei, erguendo a xícara de café. — Seja o que for isso… eu quero descobrir.
(continua...)
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