Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
1 O Dia Que Tudo Começou
"Às vezes, o destino dá um jeito estranho de fazer duas vidas se cruzarem. E naquele dia, sem avisar, tudo começou."
Era uma tarde cinzenta, daquelas que carregam mais do que nuvens no céu. Eu tinha acabado de sair de casa depois de mais uma discussão pesada com meu pai. Não era novidade. Desde sempre, ele fazia questão de deixar claro que era o “provedor”, como se isso lhe desse o direito de humilhar minha mãe e colocar pressão psicológica em mim. A forma como ele a tratava me corroía por dentro. E, naquele dia, depois de ouvir mais do que deveria, simplesmente saí.
Caminhei por horas, sem destino. Eu só queria respirar, me afastar de tudo aquilo. Na época, minha mãe já estava em outro relacionamento onde eu tive um “padrasto” por um tempo, outro que não valia nada. Mas foi com ele que ela teve meu irmão, Samuel. Um moleque esperto, que mesmo pequeno, já carregava uma luz que me dava forças.
E ali estava eu… cheio de cicatrizes internas, exausto, tentando escapar de um lar que já não se parecia mais com lar.
Foi então que vi ela.
Estava perto de um parque, parada contra um muro, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. Chorava como quem não tinha mais o que fazer. Ela era jovem, devia ter uns catorze ou quinze anos, com o uniforme amarrotado e as mãos tremendo. E, mesmo naquela cena toda, havia algo nela que me chamou atenção — uma energia que gritava por ajuda, mas que ninguém parecia ouvir.
As pessoas passavam por ela como se fosse só mais uma sombra na calçada. Mas eu parei. E aí percebi o que estava realmente acontecendo.
Um homem a observava de longe. O tipo de olhar que faz a espinha gelar. Ele não parecia ser parente, nem conhecido. Era um predador. E ela, claramente, sabia disso.
Me aproximei.
— Ei… tá tudo bem? — perguntei, tentando parecer calmo, mesmo com o sangue fervendo por dentro.
Ela tentou responder, mas só conseguiu chorar. Apontou com o queixo na direção do homem, que fingiu desinteresse, mas mantinha os olhos nela.
— Aquele homem… ele tá me seguindo. Eu me perdi dos meus pais… — disse, quase sussurrando.
Dei um passo à frente. Encostei ao lado dela e fiz questão de encarar o sujeito. Ele entendeu o recado. Fingiu atender o celular e foi se afastando.
— Vem comigo. Vamos achar seus pais. Tá tudo bem agora, juro — disse, oferecendo minha mão.
Ela segurou meu braço como quem segura a própria sobrevivência.
Andamos pelas ruas e quarteirões. Ela foi se acalmando aos poucos. Me contou que se chamava Suellen. Que tinha saído com os pais, mas num descuido, se perdeu. O desespero tinha vindo rápido, e o tal homem apareceu quase na mesma hora. Ela estava assustada, e agora aliviada.
Depois de alguns minutos, encontramos um grupo procurando por ela. A mãe chorava e a abraçou com tanta força que dava pra sentir o alívio. O pai, mais sério, também parecia emocionado. Agradeceram. A mãe me deu um abraço e chorou mais um pouco, dessa vez de gratidão.
Suellen me olhou mais uma vez, antes de se afastar. Foi rápido. Intenso. E, aparentemente, o fim.
Mas não pra ela.
"O que parecia o fim de um episódio, era apenas o prólogo de uma história que o tempo não conseguiu apagar."
Três anos se passaram desde aquele dia. Eu seguia minha vida, ou tentava. Depois de um antigo relacionamento que foi um desastre, me concentrei na faculdade de Engenharia de Software. Já estava na metade do curso e, ao mesmo tempo, trabalhava como PJ na Sysaid, uma empresa de tecnologia. Trabalhava muito. Vivia sozinho desde que saí da casa da minha mãe, e apesar das dificuldades, consegui me virar bem.
Eu sempre fui do tipo simpático, brincalhão, confiante. Cozinhar era uma das minhas paixões, e manter a casa em ordem me ajudava a manter a cabeça no lugar. No meio da correria, recebia olhares por onde passava, mas eu não buscava nada. Só queria viver em paz. A verdade é que, no fundo, eu carregava feridas que ninguém via. Mas eu sorria, porque era assim que eu lidava com as coisas.
Foi quando a vida decidiu brincar comigo de novo.
A Sysaid me passou um contrato para atuar em uma escola particular — uma de bairro nobre — chamada Nóbrega. Era um serviço de infraestrutura do sistema da escola, daqueles que demandam tempo, atenção e, acima de tudo, presença constante. Ou seja: eu estaria lá por alguns bons meses.
No meu primeiro dia, cheguei com a postura de sempre: sorriso no rosto, postura profissional, mas com a leveza que sempre me acompanhava. Fui apresentado a alguns funcionários, diretores, e comecei a trabalhar em um dos setores internos.
Não sabia ainda, mas ali, naquela escola… o destino preparava um reencontro. Um reencontro que despertaria memórias, sentimentos adormecidos e dúvidas que mudariam tudo. Havia algo no ar. Um clima diferente, como se o universo tivesse prendido a respiração só pra ver o que aconteceria a seguir.
E foi ali, com o coração cheio de cicatrizes, mas também cheio de esperança, que tudo começaria — de novo.
"Às vezes, a gente não percebe... mas a vida começa de novo exatamente no lugar onde achávamos que só passaríamos por obrigação."
(continua…)
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