Quando Nossos Caminhos se Cruzaram
11 No Intervalo do Silêncio
Os dias seguintes ao encontro com Evelyn passaram como uma névoa para Ruan. Apesar de manter sua rotina no trabalho e na faculdade, sua mente parecia estar em outro lugar — mais precisamente, dividida entre dois olhos que mexiam com ele de maneira completamente diferente.
Naquela tarde, após o expediente, Ruan caminhava pelos corredores do colégio com o coração acelerado. Havia combinado com Suellen mais cedo de ajudá-la com um projeto pessoal que ela tinha em mente para apresentação de algo que ela não especificou. Nada demais, apenas uma proposta que ela quis apresentar, mas para ele, era uma oportunidade de estar ao lado dela sem a sombra da dúvida ou da tensão. Ao menos, era o que ele esperava.
Quando chegou à sala de informática, Suellen já estava lá. Usava uma camiseta leve, o cabelo preso em um coque meio bagunçado, e digitava algo no notebook com um leve franzir de testa. A luz do entardecer entrava pela janela, dando um tom dourado à cena. Ruan sentiu o coração acelerar — ela estava linda.
— Oi, Suellen — ele disse, entrando devagar.
Ela levantou o olhar e sorriu. Um sorriso sincero, suave, que fez Ruan esquecer, por um momento, todas as dúvidas.
— Oi, Ruan. Já estava começando sem você — ela disse, com um tom brincalhão.
— Ah, que injusto. Mas tudo bem, vim salvar o projeto — ele riu, sentando-se ao lado dela.
Durante mais de uma hora, trabalharam lado a lado, revisando ideias, discutindo ajustes e rindo de pequenos erros. O clima era leve, e pela primeira vez em dias, Ruan se sentia em paz. Havia uma sintonia ali que ia além da amizade, mas nenhum dos dois parecia pronto para nomeá-la.
Em determinado momento, enquanto revisavam o título do projeto, Suellen virou-se para ele com um olhar mais sério.
— Ruan, posso te perguntar uma coisa? — disse ela, com um tom hesitante.
— Claro. Qualquer coisa.
— Por que você me ajudou naquela vez? Com a nota... com tudo. — A voz dela era baixa, quase um sussurro. — Você mal me conhecia e eu tinha sido muito ignorante e rude com você antes.
Ruan a encarou por um segundo. Ele sentiu um nó na garganta, mas respondeu com sinceridade:
— Porque não era algo que eu achava difícil de se lidar, e vi através daquilo uma forma de se aproximar de você. E observando você me fez querer estar por perto. Não sei explicar. Era como se a gente já se conhecesse. E depois, quando te abracei, senti que você precisava de alguém. Eu só... não consegui ficar parado.
Suellen desviou o olhar, emocionada. Mordeu o lábio inferior como se segurasse uma resposta que não conseguia dar. Ruan respeitou o silêncio dela, mas naquele instante, uma conexão invisível parecia se formar entre os dois.
Antes de irem embora, Suellen pegou o celular e, num gesto tímido, tirou uma selfie com ele.
— Só pra registrar. — disse, sorrindo.
— Eu quero uma cópia disso. — Ruan respondeu, sorrindo também.
— Então vou precisar do número para mandar a foto — disse dando alfinetada com os olhos
— Certo, senhora mandona, seu desejo é uma ordem — disse rindo da forma que ela o olhava
Mais tarde de noite, Ruan foi ao mercado próximo de casa. Precisava de algo rápido para jantar. Estava distraído, caminhando pelos corredores, quando ouviu uma voz familiar atrás dele.
— Ora, se não é o técnico mais introspectivo da cidade. — Evelyn surgiu, com um carrinho de compras e um vestido preto colado ao corpo.
— Evelyn. — Ele respondeu, surpreso. — Você mora por aqui?
— Não, mas vim visitar uma tia. Achei muito interessante te ver por aqui…
Ela se aproximou, olhando para ele como quem lê um livro aberto. Evelyn sempre teve o dom de invadir espaços — físicos e emocionais — com naturalidade desconcertante.
— E então? Já decidiu o que sente por mim? — disse ela, pegando uma barra de chocolate e jogando no carrinho.
Ruan bufou de leve, cruzando os braços.
— Evelyn, você complica tudo.
— Eu? — ela se fez de ofendida, mas logo sorriu. — Ruan, eu só mostro o que está aí dentro, você que vive tentando negar.
— O que está aí dentro... é confuso. E você sabe disso.
Evelyn deu um passo à frente, ficando perto demais. Sua voz baixou, e o sorriso provocante se tornou quase melancólico.
— Você não me conhece, Ruan. Não de verdade. E eu também não te conheço tanto assim... mas queria. Acha que tudo em mim é jogo, é provocação. Mas e se for só o jeito que eu aprendi a me proteger?
Aquelas palavras o desarmaram por um instante. Por trás da mulher segura de si, havia uma menina quebrada — e Ruan reconheceu isso, porque também havia um menino quebrado dentro dele.
— Evelyn... — ele começou, mas ela o interrompeu com um gesto.
— Não precisa dizer nada. Só... não me julgue tão cedo. Ainda tenho muito pra mostrar a você
— Mas… Até lá, continue pensando em mim, e logo mais você não conseguirá me esquecer. Mas cuidado! Como eu disse antes, oportunidades como essa não ficam por aí para sempre. — disse Evelyn soltando um sorriso provocante, e indo embora desfilando claramente com a intenção que Ruan olhasse para ela
Ela se afastou, empurrando o carrinho com uma leveza ensaiada, como se não tivesse acabado de bagunçar a noite dele.
Naquela noite, ao deitar-se, Ruan sentiu que seu coração estava dividido em dois caminhos. Um, suave, acolhedor e cheio de possibilidades. Outro, incerto, perigoso, mas estranhamente fascinante
Ambos pareciam estar ligados a partes diferentes de si mesmo. E em algum ponto, ele sabia, teria que escolher.
Mas por enquanto... ele apenas fechou os olhos e ouviu os ecos do coração.
Na manhã seguinte, os raios de sol filtravam-se pelas janelas da escola, lançando desenhos dourados sobre o chão frio dos corredores. Ruan chegara mais cedo do que o habitual. Sua mente não conseguia se aquietar desde a conversa com Evelyn no dia anterior — mas, mais do que isso, era Suellen quem ocupava seu coração e seus pensamentos.
Havia algo nela... algo que ultrapassava qualquer explicação lógica. O modo como ela o olhava às vezes, como se quisesse dizer algo, mas travasse no último instante. Era como ler um livro cuja página mais importante estivesse faltando. E aquilo o deixava inquieto.
Enquanto organizava os equipamentos na sala de informática, ouviu passos leves se aproximando. Era ela. Suellen entrou silenciosamente, com o uniforme impecável e os cabelos castanhos levemente presos. Trazia em mãos um livro de literatura, como sempre.
— Bom dia, Ruan — disse com um leve sorriso.
— Bom dia, Suellen. Veio estudar aqui de novo? — ele perguntou, tentando disfarçar o entusiasmo com a naturalidade do reencontro.
— Sim. Aqui é mais tranquilo... E você sempre está por perto — respondeu sem pensar, mas ao perceber o que dissera, desviou os olhos, um rubor subindo em seu rosto.
Ruan sentiu o coração bater mais forte. Por um segundo, o silêncio se instalou entre os dois, mas não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.
— Se quiser, posso deixar um café ali na bancada. Costuma ficar horas estudando — disse ele, buscando alguma desculpa para prolongar aquele momento.
— Eu... adoraria — respondeu ela, sentando-se perto do fundo da sala.
Enquanto Ruan preparava o café na sala dos fundos, pensava no que aquilo tudo significava. Evelyn estava claramente interessada nele, mas era com Suellen que seus pensamentos dançavam mesmo no meio da noite. Era a voz dela que ecoava em sua mente quando tudo silenciava.
Quando voltou com o café, encontrou-a distraída, olhando pela janela. Ele observou seu perfil sereno e, por um instante, desejou tocar-lhe a mão, e dizer tudo o que guardava. Mas algo o impediu. Medo, talvez. Ou respeito por aquele mistério que ela parecia proteger com tanto zelo.
— Suellen... — começou ele, entregando a xícara — Você anda mais calada ultimamente. Está tudo bem?
Ela o encarou por um breve instante, e seus olhos disseram mais do que a boca conseguiria. Mas tudo o que disse foi:
— Está sim... só tenho pensado demais. Às vezes, é difícil lidar com tudo ao mesmo tempo.
Ruan assentiu, compreendendo mais do que demonstrava. Não insistiria. Mas, naquele momento, algo ficou claro para ele: por mais que houvesse silêncio, por mais que houvesse dúvidas, ela era a única que conseguia balançar seu mundo com um simples olhar.
Ele não sabia o que o futuro reservava, mas tinha certeza de que, de algum modo, Suellen era parte dele.
Os dias foram se passando, e logo chegaram ao fim os trabalhos do projeto. A convivência entre Ruan e Suellen tornava-se cada vez mais frequente — natural, até. Mas havia algo nela que persistia. Suellen parecia estar envolta por dúvidas e conflitos internos, como se sempre carregasse uma tempestade particular. E isso, em vez de afastá-lo, apenas tornava tudo mais misteriosamente atraente.
(continua…)
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