Quando Menos Se Espera

1 No lugar mais improvável- capítulo único


Notas iniciais
Para quem leu a outra fic abandonada por mim, essa aqui é one-shot então não haverão problemas, posto-a aqui não só como uma forma de entretenimento mas como uma forma de protesto e de tentar chamar pessoas para lutar nessa causa há tempos adotada por mim, então espero realmente que curta. Beijos!!!

Era por volta das três da tarde e eu estava sentada na frente da faculdade pintando cartazes e placas, juntamente com outras centenas de universitários brasileiros indignados com a nossa situação atual, nós precisávamos ir a luta, nós precisávamos acabar com essa ditadura disfarçada, a violência, a impunidade, o descaso com a saúde e educação, os impostos abusivos, e por fim a copa do mundo, das confederações, as olimpíadas... Mas pode deixar querida presidenta, você está mexendo com o meu povo, é o meu país, é o sangue dos meus irmãos que vem sendo derramado em vão, o Panis et circensse não vai funcionar dessa vez, o povo tem voz, nós somos a massa...

— Lisa! Como vai “companheira”? Pinta tudo direitinho aí hein!- Era a voz de Igor, um grande amigo meu, que interrompia os meus pensamentos

— Hey Igor, a gente vai mostrar quem nós somos, vamos provar que o povo tem poder e não é uma simples copinha do mundo com gastos ABSURDOS, só pra agradar a FIFA, que vai nos iludir.

— Uau, esse é o espírito, imagino você nas “Diretas já” .

— Não, não eles estavam lutando por um direito deles, nós não, nós somos os vândalos terroristas- falei fazendo aspas com as mãos.

— Ai, ai. Adoro quando você se faz de alienada, antes sermos vândalos do que políticos, mas enfim, termina logo esse troço antes que a gente se atrase, afinal esse manifesto sai o não?

— Sai sim companheiro! Agora vai você também né? Alguém te que organizar essa massa toda, caramba veio muita gente- falei abobada ao ver toda aquela massa humana.

Igor saiu me deixando só com os meus cartazes, ele era um grande amigo mas não gostava de saber que da forma como ele gostava de mim eu jamais poderia corresponder.

P.O.V. Bianca

Eu acabara de sair da casa de uma amiga na Cinelândia, nem me toquei o quanto o tempo havia passado, quando dei por mim já eram 20:00h. Meu nome era Bia, eu estava no quinto semestre do curso de engenharia da UFRJ, essas manifestações populares até tinham uma causa boa de longe, mas na real assustava, e muito, agora eu estava lá, perdida, entre a cruz e a espada de um lado um bando de manifestantes entorpecidos pela revolta e do outro, uma polícia com ordem para matar, sem dúvida um capo de guerra, devo admitir que a causa dos protestos era boa, mas o que aquilo estava se tornando? Uma violência de ambas as partes! E eu aqui refletindo sobre tudo isso, enquanto ocorria uma guerra em plena avenida, de repente escuto um barulho ensurdecedor, haviam estourado uma bomba, as pessoas começaram a correr, até que sinto algo, ou alguém, caindo sobre mim, pensei ter visto um pouco de sangue no chão, mas quando abri os meus olhos me deparei com uma garota de cabelos lisos castanhos mas com algumas mechas tingidas de vermelho, bem ela era linda, tinha olhos castanho-mel que ia de encontro aos meus azuis, me perdi encarando-a sem notar que o sangue que eu havia visto vinha de seu nariz e também um pouco da minha testa.

-Você está bem?- perguntamos em uníssono.

— Ah... é... Primeiro você.

— Não, pode deixar, não foi nada grave, só um cortezinho, e você, seu nariz está sangrando bastante!- respondi educadamente.

— Isso aqui, não é nad...- sua fala havia sido cortada pelo barulho de um bala de borracha rasgando o céu- Preciso te tirar daqui, logo, vem comigo- ela segurou a minha mão e seguiu me puxando até um prédio qualquer o qual não sei como ela tinha acesso à cobertura.

— Pronto, agora você está segura, me deixa ver esse corte- fiquei impressionada com a delicadeza da garota que apesar da cara de durona era bastante sensível e cuidadosa, ela rasgou um pedaço da sua camisa xadrez, molhou com a sua garrafinha de água e ficou a limpar o meu ferimento.

— Obrigada, mas por que está sendo tão legal com uma pessoa que você nem ao menos conhece?

— Ah... Eu sou uma ativista do movimento- só nessa hora percebi seu rosto e sua regata branca, com frases de efeito gravadas- Mas não apoio a violência, afinal, nós estamos lutando para o aumento da segurança não é mesmo?-ela deu um sorriso amarelo, mas que não deixava de ser extremamente fofo.

-Muito obrigada, mesmo, ah e desculpe por isso- apontei para o seu nariz, ela já havia o limpado mas ainda sangrava- espero que não tenha quebrado, até porque seria meio difícil encontrar um hospital com toda essa confusão.

— Não, ele está bem, eu estou bem e não se desculpe, fui eu quem caiu em cima de você- falou coçando o pescoço envergonhada- Mas então, você... Não é manifestante... Não é repórter e com certeza não é tira. O que faz no meio dessa confusão?- Admirei a atenção da menina pois eu não havia dito nada a ela.

— Bem eu estava visitando uma amiga e... Acabei me metendo nisso aqui- falei enquanto enrolava uma mexa loira dos meus cabelos.

— Que chato hein!... Não sei seu nome ainda.

— Nem eu o seu!

— Perdão, Elizabeth, mas pode chamar só de Lisa.

-Ok, Liz! Meu nome é Bianca.

— Prazer Bia!- rimos da ironia, percebi o quão lindo era o seu riso, queria fazer ela ouvir para sempre só pra ficar ouvindo aquele canto angelical, minha pulsação acelerou-se naquele momento, meu coração batia tão alto que parecia poder ser ouvido a quilômetros de distância. Que é isso Bia? Acorda, a garota deve ser mais uma dessas loucas revolucionárias.

P.O.V Lisa ou Liz(como queiram!!!)

Meu Deus onde estava o meu senso de qualquer coisa, desistir da minha manifestação para ficar cuidando de uma garota que eu nem conhecia, não sei, pode até parecer loucura mas cada célula do meu corpo me implorava, me ordenava, dizia com toda força que eu deveria a cima de qualquer manifesto proteger aquela loirinha linda que me encarava de um jeito fofo, querendo saber a causa de receber tanta atenção assim de uma completa estranha, mas na verdade nem eu sabia!

Vi seu corpo pequeno tremer e se arrepiar quando uma brisa fria passou:

— Toma, pega- falei oferecendo o meu casaco.

— Não precisa se preocu... Ei, como sabia que eu estava com frio?- perguntou intrigada.

— Por que subestima tanto o meu senso de observação?- Disse arqueando uma sobrancelha — É necessário na profissão que eu pretendo seguir.

— O que pretende ser Liz?

— Advogada, sétimo semestre, e você ?

— Engenheira, números são a minha paixão — fiz uma careta, odiava exatas, — adoro ver tudo o que eu posso projetar, adoro criar coisas e...- Uma explosão cortou sua fala, imediatamente corri para o seu lado a envolvendo em meus braços carinhosamente, eu tinha que a proteger de tudo!- Como pode participar desse tipo de coisa? -sua voz era assustada, mas ela me abraçava também.

— Ah... Bem...- não sabia como poderia explicar isso pra Bianca- Os protestos que nós fazemos tem um caráter pacifista, o Brasil acordou finalmente e se não for feito algo agora...Não teremos outra chance!

-Como assim tem um caráter pacifista? E estas bombas?

— Não dá pra evitar, sempre há um ou dois baderneiros que provocam a confusão, muitas vezes a polícia ataca pois essa é a ordem que receberam, muitos deles não querem estar ali e também há o exagero da mídia sensacionalista, que nunca mostra o lado bom do movimento, sempre mostra como se fosse uma tempestade num copo d’água, dizem que é só por causa de 20 centavos!

— E não é?- Bianca perguntou-me confusa.

— Não, não, esse foi somente o estopim, a gota d’água, depois disso que o povo se rebelou, mas a causa não é só isso e sim os impostos abusivos, o descaso com saúde e educação, a falta de segurança nas ruas pessoas são queimadas em São Paulo! Mas principalmente o povo acordou pra essa “festa” da copa do mundo, enquanto todos ficam babando assistindo aos jogos o governo aproveita que a mídia se volta pra isso e aumenta a corrupção, e a FIFA chega aqui, querendo isso e aquilo, o Brasil põe eles no colo, igualmente esses gringos, que “vão dar lucro”, só sabem dar prejuízo isso sim, exigem do bom e do melhor e ainda saem falando mal! A gente não precisa disso!- eu falava visivelmente empolgada.

— Nossa, mas eu pensei que...

— A TV, a mídia em geral manipula o pensamento das pessoas, só passa policial apanhando.

Bia permanecia parada me encarando estática, seus olhos arregalados denunciavam todo o espanto de quem dormia e acordou com um barulho alto, a verdade a assombra.

-Vamos sair daqui, preciso levar você pra um lugar realmente seguro agora- as bombas ficaram mais fortes e a confusão mais tensa, não sabia como mas teria que tirá-la daquele cenário de guerra- Onde é a sua casa?-indaguei-lhe.

— Não chega a ser longe, umas quatorze quadras daqui.

— Ok, te levaria de carro, mas não vai dar pra passar com esse tumulto todo, teremos de seguir a pé mesmo- disse levantando e estendendo a mão.

Para sair daquele prédio não houve dificuldade, o problema foi na hora de encarar toda a guerra civil lá fora, saímos pela porta dos fundos julgando ser mais seguro e seguimos a passos largos até chegar em sua casa, Bia ainda parecia um tanto atordoada e com razão aquilo não era fácil nem pra mim que já estava acostumada com esse tipo de situação. A casa da garota era luxuosa, não tinha notado, mas Bia era uma patricinha, pelo menos aparentava ser, com seu jeito delicado, agora depois de ver essa mansão minhas suspeitas confirmaram-se.

— Quer entrar?- ela faz o convite.

— Não, obrigada, não posso demorar.

— Ah é, desculpa eu te tirei do seu protesto- a garota encarava o chão de forma tímida.

— Não, tudo bem eles se viram sem mim.

— Olha eu não sei com te...- Não podia esperar mais nenhuma palavra sua, mesmo que sem pensar tomei os seus lábios para mim de uma forma carinhosa ao passo que protetora, por mais estranho que pareça, ela não afastou-me e até retribuiu o beijo de uma total estranha. Nossas bocas moviam-se lentamente até que sua língua pediu espaço para explorar minha boca, algo que prontamente cedi ansiosa por senti-la descobrindo cada pedaço de mim. Encerramos o beijo somente quando o ar fez-se necessário, ela me encarava envergonhada com as bochechas fortemente rosadas.

— Desculpe- falei vendo todo sua timidez- Éh, eu te beijei, enfim, eu precisava fazer isso, não pense que eu sou do tipo tarada que sai beijando a primeira pessoa e...

-Shhh, hey! Eu não me arrependo de nada que aconteceu nessa noite- ela falou agora usando um tom provocante que me causou arrepios.

— Tudo bem, acho que devo ir, os “caras” devem estar me esperando e...- Senti sua mão em meu braço me impedindo de ir enquanto a outra mão ia para a minha nuca me puxando e iniciando um novo beijo bem mais longo que o primeiro, quando este acabou ela disse:

— Eu quero te ver de novo- falou com um olhar meigo de cão abandonado.

— Você vai- falei convicta.

— Isso não é justo Liz, você sabe onde eu moro, mas eu não sei nem seu telefone, como eu vou te encontrar de novo? Não quero te perder assim.

— Você não vai- falei novamente convicta e com um olhar animador, onde clamarem por justiça eu estarei lá.

— Nossa essa frase parece ter sido tirada de um HQ de super-herói!

— Okay, meu telefone tá no seu bolso!- a vi abrir um sorriso fofo- Promete que me liga?

— Promete que vem me ver?- E assim nos despedimos com um beijo suave que seria o último da noite, mas antecessor de muitos que ainda hão de vir, pois agora muito mais que tudo, eu simplesmente precisava daquela loirinha perto de mim o tempo todo e por suas atitudes nessa noite, acho que ela também.

Notas finais
Obrigada por lerem seus lindos!!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!