Quando Mais Precisava
19 Contra A Corrente
Notas iniciais
– Filha, você volta pra casa hoje?
– Como você quer que eu volte, pai? Ele vai estar rondando, ele sabe que eu moro lá. – Lia respondeu tremendo.
– Lia, já está na hora de você enfrentar a vida! Você não pode faltar aula e se esconder dentro de casa pra sempre! – Raquel repreendeu.
– Raquel, vai com calma. A Lia ainda está muito abalada. – Lorenzo a lembrou.
– Eu sei que está, mas ficando trancada aqui ela não vai melhorar nunca!
– A Ju tá me trazendo as anotações dela, e por enquanto não tem prova à vista. O Matias já me liberou, lembra?
– Lia, você sabe que não pode ficar escondida... Você precisa respirar, tomar sol, encontrar os amigos...
– Alguém falou em amigos? – Fatinha perguntou de maneira escandalosa ao entrar no apartamento. Dinho lhe havia aberto a porta.
– Então, campeão, como você não sai daqui, a gente veio até você, assim você não precisa soltar a mãozinha da Lia pra falar com os amigos. – Sorriu sarcástico.
– Tudo bem, Orelha? Amigão você. – Respondeu igualmente irônico.
Ambos se abraçaram aos risos.
– Aí, Lia, como é que cê tá? – A funkeira perguntou se aproximando da loira.
– Melhorando, Fatinha. – Lorenzo sorriu. – Lia, por que a gente não passa ali nos Menezes e deixa o Dinho a sós com os amigos?
– Não, que isso, Lorenzo, eu vou com eles, o apartamento é, bom, era de vocês.
– Ah, mas nós também viemos visitar a Lia! Então, marrentinha, o que você tem feito? Espertinha, você, matando aula direto. – Sorriu para a roqueira.
– Só o necessário, Orelha. Tudo bem entre você e a Morg?
– Tudo ótimo, sim, ela falou que depois passa aqui. Depois de ontem ela tava meio sem graça de ver vocês dois.
– O que aconteceu ontem à noite, afinal? – Lorenzo perguntou como um ultimato.
– Nada, não, tio, só mais um showzinho básico do casal mais causador do Quadrante. Mas só porque o moreno não estuda mais lá, né, porque eu e o moreno, com todo o respeito, somos o casal mais causante do Rio de Janeiro! – Tagarelou quase dançando.
Lia riu. Sentira falta de Fatinha durante os dias em quarentena. Talvez não tanto. Temia que Fatinha ou Orelha acabassem contando o que havia acontecido na noite anterior para seu pai, sua mãe e sua irmã caçula ouvirem em alto e bom som que a primogênita era uma idiota, que havia se deixado levar daquela forma pelo álcool, por Dinho e por seu desejo. Tinha que lembrar a si mesma de se culpar pelo ocorrido, remando contra toda sorte de boas lembranças e de vontade de reviver o momento. Não podia, não podia se render tão facilmente. Dinho ainda era o imbecil que a havia traído no ano anterior. E ainda assim, o único ao lado de quem se sentia segura... Sua vida no momento era uma piada de mal gosto da Tv Orelha.
– Nós não somos um casal. – Conseguiu dizer.
– Ih, hesitou demais. – Orelha notou.
– Dinho, por favor, fala pro seu amigo que a gente não voltou?
– Você ouviu a chefia. – Debochou o garoto.
– E o Vitor, Lia? Digo, ele é meu amigo também, eu me preocupo com ele.
– O Vitor... – Tentou se lembrar. – A gente deu um tempo.
– Olha, marrentinha, depois daquele show de ontem... Esse dar um tempo não me parece mais só um tempo. O Vitor é frouxo, mas não é tanto. – Orelha comentou.
– Agora até eu quero saber o que aconteceu ontem! – Raquel anunciou.
– Coisas privadas, mãe da Lia, coisas privadas. – O nerd respondeu.
– Espera aí, você não é o dono do TV Orelha? – Tatá questionou. – Desde quando você respeita privacidade?
–Boa, Tatá! – Adriano debochou.
– Dinho, cala a boca! Você quer que ele conte? – Lia sussurrou temerosa, segurando-se na manga do garoto.
– Então, Dinho, eu ia perguntar como está sendo dormir com a marrentinha todas as noites, mas já vi o suficiente ontem. – O nerd alfinetou em resposta à provocação.
– Você o que? Lia, o que ele quis dizer com isso? – O médico tentava juntar as informações que já tinha para entender o ocorrido.
– Então, pai, eu acho que eu vou mesmo visitar a Ju, pode ser? Beijos, fui! – Lia anunciou nervosa, saindo do apartamento em seguida, não sem antes puxar Adriano consigo até a porta dos Menezes. – Por favor, some da presença do meu pai com o Orelha e a Fatinha antes que eles falem! – Implorou, agarrada à camiseta de Dinho.
– Pode deixar. – Enlaçou os braços por volta da cintura da loira.
– Dinho... Ontem... Ontem foi um erro, desculpa, eu me exaltei.
– Ontem foi um sonho, Lia, não um erro. Se você quiser, eu posso fingir que acordei, mas não vou ignorar o que aconteceu.
– Eu preciso de tempo, ok? Pelo menos pra aprender a me controlar melhor, daqui a pouco a gente já está se beijando de novo aqui no corredor...
– Qual o problema? – Perguntou sincero, aproximando os lábios da boca de Lia.
– É errado...
– Você tá dando um tempo com o Vitor, não é tão errado.
– É, mas você é você e eu não sei se posso confiar ainda...
Dinho a interrompeu com um beijo. Afastou-se lentamente e olhou fixo em seus olhos.
– Eu tenho que voltar, se você quer que o nosso “erro” continue um segredo. Bom, quase...
– Depois a gente conversa. – Prometeu, retribuindo o beijo e deixando um Dinho surpreso boquiaberto no corredor.
–x-
– Ju, me ajuda, pelo amor de deus! – Lia implorou arrastando a amiga até seu quarto.
– Deixa eu adivinhar: você tá arrependida e não sabe como fugir do Dinho?
– Também.
– Hmm... Então você também está confusa quanto ao que sente e ao que fazer com o Vitor.
– Como você sabe?
– Eu te conheço, Lia. Senta aqui. – Apontou para a cama.
– É estranho, Ju, e é horrível, é assustador! Eu não sei o que fazer, o que sentir...
– Lia, começa pelo começo. Você ainda gosta do Dinho.
A loira ensaiou um sinal negativo com a cabeça.
– Eu estava afirmando, não perguntando, Lia Martins. Você gosta do Dinho, sente falta dele, e com o episódio de ontem só confirmou.
– Ju, o que eu faço?
– Primeiro, a senhorita fica quieta e me escuta. Você gosta dele, está vermelha até agora por ontem, e provavelmente esse sorrisinho está aí pelo que o Gil me contou que vocês fizeram hoje de manhã. Eu nunca estive no seu lugar, mas deve ser normal. Vocês estão voltando a ser vocês, Lia, se joga!
– Mas Ju, é o Dinho! Aquele Dinho!
– Aquele Dinho que você ama, Lia! Já é a segunda vez que vocês se beijam na frente de alguém que não deveria estar assistindo, eu já vivi isso, e o melhor que você tem a fazer é ser honesta. Conta pro Vitor o que está acontecendo. Eu superei!
–Ele provavelmente já sabe... Mas é o Dinho!
– Lia, ele não vai errar de novo, ele aprendeu.
– Como você pode ter tanta certeza?
– Do mesmo jeito que você consegue ser tão cabeça dura. E aí? Vai cometer o mesmo erro de sempre?
– De dar uma chance para aquele idiota?
– Não, Lia, de esconder o que sente. É o que você sempre faz, e posso te situar? Quem mais sofre com isso é você.
– Não mais do que eu sofreria com ele.
– Lia, chega! O Dinho voltou por você, está fazendo tudo por você, é tão difícil perceber que ele está tentando pagar pelo que fez?
– Desde quando você virou essa pessoa evoluída? – A roqueira tentou disfarçar o riso ao repetir a pergunta que sua amiga lhe havia feito um ano antes.
– Desde que a Fatinha virou a minha cunhada. – Juliana respondeu rindo. – Mas falando sério, Lia, o que você realmente sente? Ou nem em mim você confia? – Perguntou mais séria.
– Eu... Eu não sinto nada, eu...
– Lia! – Ju repreendeu. – Chega! Assume o que sente pelo menos uma segunda vez na vida! A minha paciência de te ver se penalizando assim está se esgotando! Você vai falar, ou não vai? Porque eu já tenho certeza do que você sente, só quem precisa ouvir isso de uma vez é você mesma.
A roqueira observou, insegura, a melhor amiga. Pela expressão de Ju, a it-girl não se calaria em relação ao assunto tão cedo, muito menos lhe deixaria escapar com aquilo. Odiava-a naquele momento, mas o nó em sua garganta entregava que era hora de soltar o grito que tanto empurrava de volta para dentro. Já tinha feito pior que admitir em frente a todos, não deveria ser tão difícil confessar pelo menos para Ju, e só para Ju, e para si, o que todos já sabiam. Respirou fundo e encarou a amiga, seus dedos tremendo e a voz teimando em não sair.
– Você quer saber o que eu sinto? Eu sinto que eu sou uma idiota, é isso que eu sinto! Uma ingênua imbecil que ainda gosta dele, que pior, ainda sonha com ele, mesmo depois de tudo que ele fez! Se eu pudesse apagar a noite de ontem, eu apagava! Se eu pudesse fugir sozinha, eu teria fugido e nunca encontrado com ele de novo! E eu me odeio por ter que admitir que eu sempre quis que ele voltasse, e que o meu coração parou quando eu ouvi aquela voz de novo, e que eu congelo quando ele me toca, e que eu fico vermelha quando ele me olha, e que eu sou uma idiota apaixonada por um cara que fez o que ele fez! Que eu devo ser masoquista, louca, e que eu só queria que isso passasse! Por que eu não consigo sentir o mesmo pelo Vitor, por que? – O desabafo arrancou, com o grito de liberdade, lágrimas há muito tempo escondidas. Odiava chorar na frente dos outros, simplesmente odiava.
– Vem cá. – Ju a abraçou. – Não tem nenhum problema em gostar do Dinho, Lia, eu mesma já gostei. – Sorriu em apoio. – A diferença é que ele te ama, sim. Você não precisa se odiar por isso.
– Se eu me deixar levar e sofrer de novo vai ser culpa minha, Ju, e eu não quero isso. Dois abandonos já supriram a minha cota pra vida. – Confessou com a voz fraca.
– Lia, se ele quisesse te abandonar, já tinha ido embora.
– É o Dinho, Ju, ele não desiste até conseguir o que quer e, quando consegue, joga fora. Eu sei que eu acabei ajudando, que eu errei com ele, mas do jeito que eu sou... Do jeito que eu sou, vai dar tudo errado outra vez, e eu não quero sofrer tudo aquilo de novo, entende? – Continuou contra o ombro de Ju.
– Vocês dois amadureceram, Lia. Eu não sei que briga vocês tiveram da outra vez, mas, mesmo que aconteça, duvido que ele repita o mesmo erro.
– O Dinho é previsível, Ju, vai dar merda.
– Por que você não se deixa surpreender? Termina de vez com o Vitor e tenta com o Dinho!
– Não, Ju, eu não posso. No Vitor eu posso confiar, com o Dinho seria muito arriscado.
– Então você admite que o Vitor é só um fantoche? Que você continua com ele, mesmo sabendo que não sente nada por ele, pra não se render ao Dinho?
– Não é verdade, a gente deu um tempo.
– Um tempo... – Juliana riu. – Você é muito covarde, mesmo...
– Eu não sou covarde, Juliana, eu sou realista. Eu preciso conseguir ser feliz sem ele, entende? Quando tudo isso acabar, e eu não precisar mais viver com o Dinho, e ele for embora pra sei lá que país, vai me restar a vida real, e, na vida real, o Dinho não está mais aqui, e eu tenho que lutar por conseguir amar outro cara, um que não seja um idiota, e o Vitor é o namorado perfeito.
– Desde quando você gosta de perfeição, Lia? – Perguntou cética.
– O Vitor é seguro, Ju, inofensivo. Se eu terminar com ele, eu posso até ficar triste, mas eu não vou sofrer como aconteceu com o Dinho. Quando a gente briga, e ele me critica, e me humilha, dói menos, porque eu sei que ele não me conhece como o Dinho. Quando o Dinho fala, é tudo tão real e sincero que me destrói. Pelo menos o Vitor inventa desculpas estapafúrdias pra terminar comigo pela minha própria segurança. O Dinho não, ele trai e esconde.
– Lia, você sabe por que ele escondeu.
– Eu sei, e eu já até admiti que o entendia em uma conversa nossa, mas, ainda assim, é difícil correr esse risco de novo.
– Pode ser, mas mais difícil ainda deve ser evitar o Dinho quando ele está tão próximo. Lia, não vale a pena! A Fatinha sofreu muito pelo meu irmão e hoje eles estão até de casamento marcado! Dá essa chance, Lia, por você!
A roqueira não respondeu, pensativa. Não sabia se Ju era louca, ou se era apenas má influência pelo convívio com Fatinha, mas o que dizia, infelizmente, fazia sentido. Era uma covarde. Se pelo menos pudesse controlar seus sentimentos... Se pudesse tentar de novo sem se entregar de vez... Por que não conseguia sentir aquilo por Vitor, e não por Dinho? Por que tinha que ser tão apaixonada por Dinho?
–x-
Ao se deparar com o trio de melhores amigos ainda na sala, Lia bagunçou os cachos de Dinho e se dirigiu para o quarto. O mesmo quarto em que se esconderam por quase uma noite inteira para que Dinho pudesse fugir sem ser visto. O quarto em que a mãe o flagrara sob a cama e ao que empurrou a cadeira de rodas de Dinho contra a própria vontade, apenas para ouvi-lo admitir o que ela jamais admitiria. Para ouvi-lo cobrar o que não falaria em voz alta. Que sim, sentia o mesmo; que o mundo parecia ter parado aquela noite na mata, que havia esperado por aquele beijo por quase um ano; que queria jogar tudo para o alto e ficar com ele de uma vez, se pudesse fazê-lo sem ferir a melhor amiga. Agora outra vez lhe era cobrado que admitisse o que sentia, e outra vez deixava a oportunidade passar. O quarto onde ainda estavam escondidas suas fotos em alguma caixa, e de onde falara com ele por webcam. O quarto onde namoravam, e onde estava guardada a redação de Adriano, que havia mexido com seus sentimentos mais que qualquer poema de Vitor. Onde brigaram, onde se beijaram, onde tocava guitarra pensando nele, ou tentando esquecê-lo. Por raiva, por amor, por tristeza.
Ali também chorara por Dinho. Muito. Se pudesse apagar a parte ruim e focar na parte boa, como quando contara a Tatá sobre a fuga com quem se tornaria seu namorado poucas horas depois... Se pudesse esquecer todos os momentos em que sofrera, em que o odiara, para poder se entregar de vez ao que sentia, ao que explodia em seu peito a cada vez que o encontrava... Se pudesse apagar a parte boa, se pudesse impedir seu coração de pulsar mais forte ou de parar ao vê-lo... Se pudesse esquecer o que sentia e ignorá-lo de vez... Se ao invés da crescente síndrome do pânico, seu psicólogo diagnosticasse amnésia...
– Você tá bem? – Uma voz preocupada a surpreendeu.
Não respondeu com palavras, mas com o que não conseguia mais conter. Seus dedos agarraram os cachos com força, em parte o segurando contra si, com medo de que fosse deixada, em parte segurando-se a ele, impedindo-se de fugir novamente. O beijo se aprofundou, e as mãos tão conhecidas se enterraram contra sua pele. Afastou-se sem fôlego e olhou fixamente nos olhos de Dinho.
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