Quando Mais Precisava
11 Confiança
Notas iniciais
Haviam passado um ano em Brasília e Lia e Dinho continuavam os mesmos. Apesar da história tumultuada que ocorrera entre os dois enquanto os Menezes moravam em Brasília, a roqueira e o aventureiro ainda eram os dois imaturos implicantes que faziam guerra de areia na praça por motivos tolos. Claro, sendo ex-namorados, para o desconforto de Marta e de Olavo, a briga agora era mais física, mais provocadora, uma típica demonstração de amor e ódio não levados a sério. Marta sorriu ao perceber que ambos se comportavam na presença do outro do mesmo jeito que anos antes. Que, mesmo namorando, dificilmente deviam perder a essência como dupla. Entendiam-se daquele jeito, percebeu. Em meio à crise que escutaram do apartamento vizinho antes da intervenção, Lia e Dinho se reencontraram.
Talvez fosse essa a magia, a ligação que os conectava de tal forma que a até mesmo a amizade mais preciosa de Lia fora posta em perigo. Conheciam-se e se compreendiam tão bem que conseguiam vencer as brigas quando necessário. Dinho parecia ser o único capaz de romper a barreira criada por Lia, ainda que fosse o principal motivo do recente encarceramento emocional da roqueira. Lia era complicada. Podia partir para a agressão quando menos se esperasse, ou ser dócil e sensível. Dinho parecia dominar as duas facetas da garota. Em mais ou menos meia hora foram de uma tensa discussão sobre erros do passado ao que virou uma brincadeira de criança entre dois adolescentes que se conheciam há anos.
Juliana tinha razão. Contra uma relação tão imprevisível, não havia como lutar. Para qualquer outro que não fosse Lia Martins ou Adriano Costa, o que ocorria na sala era incompreensível. Simplesmente eram daquele jeito. Talvez por isso Lia mudara tanto ao longo do último ano, principalmente aos olhos de Marta, que recém voltava de Brasília. A roqueira não era a mesma Lia Martins sem Dinho por perto. Brigar com Dinho e fazer as pazes sem que ninguém à volta de ambos os compreendesse fazia parte de quem era. E então, em meio a tantos dramas, a conturbada filha de Lorenzo parecia esquecer as preocupações rindo com Dinho sobre um colchão. Perdera todo o ano do desenvolvimento romântico e passional do relacionamento de ambos, mas agora entendia o principal: eram um casal como dos filmes, contra o qual não se deve lutar e para o qual não há alternativa. Dificilmente alguém saberia lidar com Lia como Dinho, ou vice-versa. Eram únicos e um para o outro.
– Ei, casal, vocês não querem arrumar um quarto, não? – Bruno sugeriu rigidamente.
– Até parece que você usa um! – Juliana riu, lembrando-se dos vários momentos em que flagrara seu irmão com Fatinha em situações impróprias. – Aliás, há mais de um ano eu aconselho o senhor a arranjar um quarto.
Desconfortável, Lia tentou se desvencilhar de Adriano, que a abraçava por trás, em seu colo.
– Não, você fica. – Dinho fez birra, beijando o ombro da roqueira.
– Sai! – A loira tornou a tentar escapar, empurrando o garoto.
– Ô moleque, você não escutou? – Bruno interviu.
Sorrindo, apesar da dor causada pela briga física com Lia, Dinho cruzou os braços atrás de sua cabeça e se deitou sorridente, enquanto Lia tentava se levantar de onde estava. Gil prontamente a ajudou. Fazia questão de afastá-la do traidor que tanto a fizera sofrer.
– Você vai precisar apanhar quanto pra deixar a Lia em paz? – Gil ironizou.
– Bem mais, pichador. – Adriano sorriu desafiador.
– Você não presta. – Lia riu.
– Eu sei. – Dinho respondeu, remetendo ambos às lembranças de uma noite no telhado.
Desconfortável, Lia se retirou ao seu quarto. As memórias de quando era feliz com Adriano eram feridas abertas.
À tarde, Dinho saiu para encontrar Fatinha e Orelha, que se declaravam abandonados pelo melhor amigo. Lia hesitou, com medo da sensação de perigo que a falta do garoto deixava. Apreensivo, o aventureiro prometeu que iria apenas até o Misturama, de onde poderia vigiar o prédio onde moravam os Martins.
Sentados à mesa do bar, avistaram a chegada de Vitor ao prédio de Lia.
– Ih, espertinha ela, né não? Foi só você sair, que chamou o namorado. – Orelha zombou.
– Cala a boca, Orelha. – Dinho interviu, irritado.
– Mas é muita coincidência ele vir logo agora que você desceu, não é? – Fatinha acrescentou.
O aventureiro preferiu ficar calado. Fazia sentido a constatação dos amigos, embora tivesse visto o olhar perdido de Lia quando anunciara que ia deixar o apartamento por algumas horas. De qualquer forma, era justo que aproveitasse a saída de Adriano para receber Vitor. O aventureiro já se intrometia o suficiente na intimidade da família Martins estando no apartamento todos os dias, os dias inteiros.
A visita de Vitor não fora, no entanto, programada. Para Lia foi uma não tão agradável surpresa. Sentia-se desconfortável com o motoqueiro a encarando, devido aos últimos acontecimentos.
– Até quando ele vai ficar aqui? – Perguntou-lhe seu irritado namorado.
– Não sei. – Lia respondeu com a voz fraca.
– Então eu vou ter que aceitar a minha namorada dormindo com o ex por tempo indeterminado? – Questionou irônico.
– Eu sei que não é fácil pra você, e também não tá sendo fácil pra mim.
Vitor riu, debochado.
– Você acha que eu gosto de ter que ver o Dinho todos os dias? Foi a mim que ele fez sofrer, esqueceu? Quem mais se incomoda de tê-lo por aqui sou eu! – Lia protestou. – Você tem que confiar em mim!
– Confiar em você? Lia, nem você confia em você mesma! – Vitor acusou.
O motoqueiro a conhecia mais do que pensava. Percebia o que a roqueira ainda tentava ignorar.
– Eu te vi com ele, Lia. Você nunca olhou pra mim como olha pro Dinho. Você não se segura em mim, como segura o Dinho, nem me abraça como o abraça.
– Não é isso, Vitor, é que... É o medo, entende? Eu não sei o que está acontecendo, eu não me sinto segura se ele não estiver por perto.
– Porque ele te salvou quando eu não pude, eu entendi. Já conheço essa história, Lia. – Vitor interrompeu.
– Escuta, o meu pai chamou um psicólogo e ele vai ver o que está errado comigo. Se tudo der certo, não vai demorar muito pro Dinho ir embora, e a gente vai voltar à vida de antes.
– Será? – O motoqueiro questionou. – Eu não sei se vou poder confiar em você do mesmo jeito, sem me lembrar do quão perto você esteve do seu ex. Ele está dormindo onde? Abraçado com você nessa cama? – Vitor apontou para onde estava sentado, com nojo.
– Não. A gente dormiu na sala essa noite. – Lia admitiu, deixando Vitor boquiaberto. – Eu, o Dinho, a Ju e o Gil.
– Um programa de casais, então? – Vitor zombou sarcasticamente. – Tá vendo, Lia? Como eu posso ficar calmo assim?
– Eu esperava que você já me conhecesse o suficiente pra saber que eu não penso em dar uma segunda chance pra ele. Que eu o odeio, que eu só estou aguentando o Dinho por causa desse maldito trauma, e que, se pudesse, já teria chutado ele pra fora no primeiro dia. – Lia respondeu irritada.
– Esse é o problema. Você nunca entrou nesse assunto. Eu sei que o que aconteceu é o seu ponto fraco, que a simples menção por qualquer pessoa ao seu namoro com o Dinho te fazia lacrimejar e sair da conversa. E agora que ele voltou, e eu vi vocês interagindo, ficou bem claro que o sentimento ainda existe, que você não superou, muito menos ele. Eu posso não ser um cretino como o Dinho, Lia, mas eu não tenho sangue de barata.
– Nem eu. – A roqueira respondeu com a voz seca. – Se é pra ficar me acusando, você pode sair do meu quarto.
Pego de surpresa, Vitor gaguejou.
– É isso que você quer? – Perguntou desarmado.
– Eu gosto muito de você, Vitor, mas se tem uma coisa que eu não suporto em um relacionamento é esse tipo de questionário. Se você não confia em mim, eu não sei o que nós fazemos juntos.
– Lia... – Vitor tentou argumentar.
– Depois que o Dinho for embora e tudo voltar ao normal, a gente conversa.
– Você quer dizer que a gente está dando um tempo?
– É, acho que é assim que se diz. – Lia respondeu. – A gente vai dar um tempo até tudo voltar ao normal, ou, pelo menos, até você confiar em mim.
– E você? Vai confiar em si? – O motoqueiro questionou.
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