Notas iniciais
Olá, people! Quando li sobre este desafio, logo de cara pensei em escrever sobre o tema zumbis (amo zumbis!). Mas não consegui pensar em uma história, então cogitei escrever o comercial de um carro na década de 70. Também não consegui desenvolver isso e acabei escolhendo o último tema que eu tinha pensado, uma peça de teatro sobre solidão. Achei este desafio beeeeem difícil, justamente porque estou habituada com o texto narrativo e não com roteiros. Mas, como é um desafio, resolvi arriscar. A aula do Nyah, sobre roteiros, ajudou bastante, mas mesmo assim não sei se acertei tudinho. Espero que sim eheheheh Sobre a história que vou contar, algumas ressalvas: Algumas atitudes do personagem Tobias são propositalmente exageradas e até cômicas, porque quero ilustrar bem algo que acontece nos tempos atuais. Apesar de exagerado, não sei se estamos muito longe disso. O personagem se chama Tobias por causa do meu amado Tobias Eaton, vulgo Quatro/Four, da saga Divergente. Mas, o Tobias da Veronica Roth e o meu são completamente diferentes, foi só uma inspiraçãozinha básica mesmo, o primeiro nome que me veio na cabeça. Sobre o outro personagem, Antônio, eu tinha um tio com o mesmo nome e acho que pensei nele enquanto escrevia. Ele passou boa parte da vida tentando reunir a família novamente, mas nunca conseguiu. Enfim, boa leitura!

1 INT. GARAGEM DE UMA CASA — DIA 1

ANTÔNIO, um senhor que aparenta sessenta e cinco anos, e que está vestido com uma bermuda bege, camiseta amarelo claro e calçando chinelos, entra na garagem de sua casa, carregando uma enorme caixa de papelão em seus braços e assobiando feliz.

A garagem possui um carro velho, que está coberto por uma lona, um armário com ferramentas e algumas prateleiras com caixas empilhadas e empoeiradas.

Visivelmente empolgado, Antônio coloca a caixa em um canto do lugar e a abre, revelando peças de uma mesa de futebol. Ele sorri ainda mais feliz.

Assobiando novamente, Antônio caminha até o armário no lado oposto da garagem e pega um kit de ferramentas.

Depois ele caminha de volta até a caixa, retira todas as peças de dentro dela com calma e, pouco a pouco, monta a mesa de futebol, de acordo com as instruções do manual que veio com o produto.

2 INT. COZINHA DA CASA DE ANTÔNIO — DIA 2

A cozinha é pequena, porém organizada. Possui uma mesa redonda, onde o café da manhã está posto, quatro cadeiras em volta dela, uma pia, um fogão, uma geladeira, um armário que ocupa toda uma parede e um balcão com um micro-ondas e uma fruteira em cima.

Antônio está sentado em uma cadeira, de frente para a mesa. Ele toma um gole de café e come um pedaço de bolo de laranja.

TOBIAS, seu neto de dezesseis anos, entra com um celular nas mãos. Ele veste um conjunto de moletom cinza com chinelos. Seus olhos estão fixos na tela, quando ele caminha até a geladeira e para.

ANTÔNIO: (olhando na direção do neto) Bom dia, Tobias.

Distraído, Tobias digita algo pelo celular e apoia a outra mão na porta da geladeira.

ANTÔNIO: Tobias?

Tobias tem um sobressalto e olha na direção do avô.

TOBIAS: Ãn... Oi? Ah! Bom dia, vô. Beleza? E aí?

Tobias guarda o celular no bolso da blusa, abre a geladeira, pega um pote com creme de avelã, fecha a porta, caminha até a mesa, puxa a cadeira de frente para o avô, senta-se e abre o pote.

ANTÔNIO: (sorrindo) Eu tenho uma novidade! Eu comprei uma...

TOBIAS: (largando o pote na mesa e pegando o celular no bolso) Só um minutinho, vô.

Ansioso, Antônio toma mais um gole de café. Tobias continua concentrado no celular. Cada vez mais.

ANTÔNIO: (sorrindo de novo) Então, eu comprei uma mesa de futebol! Ela está lá na garagem!

TOBIAS: Só um minutinho, vô. É rapidinho. Eu só preciso responder uma mensagem aqui e curtir o status da Gaby.

ANTÔNIO: Quem é Gaby?

TOBIAS: (digitando no celular) Ãn... É uma amiga da escola. (vendo o perfil de Gaby) Nossa! É aniversário dela hoje. Só um pouquinho, vô. Eu só vou dar os parabéns para ela aqui. É um instante só.

ANTÔNIO: Se ela estuda na sua escola, por que você não dá os parabéns pessoalmente?

TOBIAS: Porque eu não falo muito com ela, sabe?

ANTÔNIO: Mas ela não é sua amiga?

TOBIAS: Ah... Amiga no meu Facebook, vô, não amiga, amiga para valer.

ANTÔNIO: (pensativo) Quantos amigos para valer você tem nesse... Nessa... Coisa aí?

TOBIAS: (rindo) E vô... Que pergunta mais difícil, hein? Sei lá. Um monte.

ANTÔNIO: Um monte de amigos para valer ou um monte de amigos que não são amigos para valer? Você pelo menos vê essas pessoas?

Distraído, Tobias continua digitando no celular. Instantes depois, ele deixa o aparelho sobre a mesa, passa o creme de avelã em uma torrada, pega o celular de novo e tira uma foto de si mesmo mordendo a pontinha da torrada e piscando.

ANTÔNIO: O que você está fazendo?

TOBIAS: Tirando a primeira selfie do dia. Agora eu vou compartilhar. Só um minutinho, tá? (pausa) Ah... O que o senhor disse que comprou mesmo?

Tobias compartilha a foto, depois coloca o celular sobre a mesa mais uma vez e come a torrada apressado, olhando a todo instante para o aparelho, esperando por notificações, ansioso.

ANTÔNIO: (sorrindo empolgado) Uma mesa de futebol, oras! Você não ouviu da primeira vez? (percebendo que o neto não está prestando muita atenção) Nós podemos jogar a primeira partida, quando você voltar da escola. O que acha?

TOBIAS: (preparando outras torradas com creme de avelã, enquanto mantém o olhar no celular) Seria legal, vô. Mas eu acho que hoje não vai dar não. Eu estou cheio de coisas para fazer depois da aula.

ANTÔNIO: Trabalhos?

TOBIAS: Não, é que tem um montão de séries que eu quero baixar e assistir, sabe? Para depois poder comentar com um pessoal do meu grupo.

ANTÔNIO: Grupo da escola?

TOBIAS: Não, um grupo do WhatsApp.

ANTÔNIO: (meio confuso) Tudo bem... Então quando?

TOBIAS: (pegando o celular de novo) Ah, não sei. Vamos ver. Qualquer dia aí.

ANTÔNIO: (desapontado) Certo. Qualquer dia aí então.

Tobias arruma as torradas em um pequeno prato, coloca café e leite em uma xícara, tira uma foto do seu café da manhã, ri baixinho e compartilha a foto em sua rede social.

3 INT. QUARTO DE TOBIAS — NOITE 3

O quarto tem uma cama de solteiro, um criado-mudo do lado direito dela, guarda-roupa de duas portas, uma estante com TV, livros, CDs e DVDs, além de algumas miniaturas de bonecos e carros, uma escrivaninha com computador e uma cadeira.

De pijama e meio descabelado, Tobias assiste a um seriado pelo computador, rindo a cada dois minutos das piadas do programa.

Depois que o episódio termina, ele acessa a sua rede social, lê algumas atualizações e comenta outras.

Depois disso, Tobias desliga o computador, levanta da cadeira, estica o corpo por alguns instantes, caminha até a cama e se joga sobre ela, um pouco cansado.

Em seguida, ele pega o celular sobre o criado-mudo, acessa o aplicativo de bate-papo e conversa com outras pessoas sobre o último episódio do seriado que assistiu.

De repente, alguém bate na porta do quarto. Com receio de que o avô reclame que ele só fica mexendo no celular,Tobias esconde o aparelho embaixo do travesseiro e fecha os olhos.

Antônio abre a porta, entra e olha para o neto deitado na cama.

ANTÔNIO: Tobias?

TOBIAS: (ainda de olhos fechados) Hum?

ANTÔNIO: (hesitante) O que você acha de jogar aquela partidinha agora?

TOBIAS: (se virando na cama e dando as costas para a porta) Agora, vô? Agora eu tô quase dormindo.

ANTÔNIO: (suspirando triste) Amanhã então?

TOBIAS: Isso, amanhã. Ou qualquer dia aí.

ANTÔNIO: (cabisbaixo) Tudo bem.

Antônio acredita que o neto está quase dormindo e não quer incomoda-lo. Então, ele sai e fecha a porta com cuidado.

Assim que fica sozinho, Tobias abre os olhos, pega o celular embaixo do travesseiro e volta a acessar o bate-papo, sorrindo diante da conversa empolgada que está tendo.

Antes de dormir, Tobias tira uma foto de si mesmo, sorrindo largamente, e compartilha em sua rede social.

4 INT. GARAGEM. DIA 4

Uma semana depois

Antônio está triste e sentindo-se muito sozinho.

Na garagem, ele limpa a mesa de futebol com um pano úmido.

Depois ele sai cabisbaixo.

5 INT. COZINHA — DIA 5

Antônio está sentado em uma cadeira, de frente para a mesa. Ele toma um gole de café e morde um pedaço de pão.

Tobias entra com o celular em mãos. Ele veste um pijama e um blusa preta. Seus olhos estão fixos na tela, como todas as manhã, assim que acorda.

Ele caminha até a geladeira e para.

ANTÔNIO: (olhando na direção do neto) Bom dia, Tobias.

Tobias digita algo pelo celular, boceja e apoia a outra mão na porta da geladeira.

ANTÔNIO: Tobias? (pausa) Tobias?!

Tobias tem um sobressalto e olha na direção do avô, levando a mão ao coração e respirando fundo.

TOBIAS: Nossa! Que susto, vô…

ANTÔNIO: Desculpe, eu não quis te assustar. Mas, você anda tão distraído ultimamente, que eu nunca sei quando posso puxar assunto ou não. Eu estou quase pedindo para você me incluir nessa sua… Rede de amigos. Quem sabe assim, a gente consiga conversar, não é?

TOBIAS: (concentrado no celular novamente) Ãn? Ah... Bom dia, vô O que o senhor disse?

ANTÔNIO: (suspirando triste) Nada. Bobagem minha.

Enquanto, o avô morde mais um pedaço do pão, Tobias guarda o celular no bolso da blusa, abre a geladeira, pega o pote com creme de avelã, fecha a porta, caminha até a mesa, puxa a cadeira de frente para ele, senta-se e abre o pote.

ANTÔNIO: (hesitante) E então? Que tal estrear aquela mesa de futebol hoje?

TOBIAS: (larga o pote na mesa, pega e digita algo no celular) Só um minutinho, vô.

Antônio toma mais um gole de café e morde mais um pedaço do pão. Tobias está concentrado no celular e o avô se sente sozinho, apesar de haver duas pessoas na cozinha, ele e o neto.

ANTÔNIO: (impaciente) O que tanto você digita nessa coisa?

TOBIAS: (distraído) Oi?

ANTÔNIO: O que tanto você digita nesta coisa?

TOBIAS: (colocando o celular sobre a mesa) Ah nada de mais, vô. Só estou conversando com uns amigos.

Tobias abre o pote de creme de avelã e pega uma torrada. Em seguida, ele pega o celular e o aproxima do pote.

ANTÔNIO: (vendo o que o neto está prestes a fazer) Tobias! Cuidado!

Desatento e pensando que tinha pegado uma faca, Tobias mergulha o celular dentro do pote, lambuzando o aparelho pela metade. Ao ver o que fez, ele retira-o de dentro do pote rapidamente e se levanta sobressaltado e irritado.

TOBIAS: Droga!

Ele caminha até o armário, abre uma porta, pega um rolo de papel toalha e começa a limpar o celular com certo desespero.

ANTÔNIO: (tentando não rir) E agora? Como você vai tirar a primeira foto do dia?

Ele toma mais um pouco de café.

TOBIAS: (limpando a câmera do celular com o papel toalha) Na verdade, eu já tirei a primeira selfie de hoje no banheiro.

Antônio se assusta com o que ouviu e, acidentalmente, queima a língua com o café.

ANTÔNIO: (ainda assustado) Pelado?

TOBIAS: (rindo) Claro que não, vô... Na frente do espelho, mas vestido. Não se preocupe.

ANTÔNIO: Ah bom. (pausa) Por que você não deixa esse celular aí e vem tomar o seu café? Depois nós podemos jogar aquela partida de futebol de mesa na garagem. Hoje é sábado, você não tem aula…

TOBIAS: E vô, eu acho que não vai dar não. Eu estou cheio de coisas para fazer. Mas... Qualquer dia aí, a gente joga. Pode deixar.

Antônio fica cabisbaixo e termina o café da manhã em silêncio, enquanto Tobias continua limpando o celular como se o aparelho fosse a coisa mais importante do mundo. E para ele, é.

6 INT. GARAGEM — NOITE 6

Um mês depois

Antônio está triste. Sozinho na garagem, ele lustra a mesa de futebol com um pano úmido e aproveita para apertar alguns parafusos com uma chave de fenda.

7 INT. COZINHA — DIA 7

Antônio está sentado em uma cadeira, de frente para a mesa. Ele toma um gole de café.

Tobias entra com o celular em mãos. Seus olhos estão fixos na tela, enquanto ele digita freneticamente. Em dado momento, ele se aproxima da geladeira, caminhando lentamente.

ANTÔNIO: (olhando na direção do neto) Bom dia, Tobias.

Tobias continua digitando, completamente alheio a presença do avô ali. Ele boceja e caminha até a mesa, esquecendo-se de pegar o creme de avelã na geladeira, como costuma fazer todas as manhãs.

Tobias senta-se de frente para o avô, mas é como se não o enxergasse. É como se ele estivesse completamente sozinho ali, apenas na companhia do seu celular.

ANTÔNIO: (franzindo o cenho) Tobias?

O neto não responde e o avô prefere não insistir. Ao invés disso, ele continua tomando o café da manhã, sentindo-se completamente sozinho ali.

8 INT. SALA — DIA 8

Uma semana depois

Tobias está deitado no sofá de três lugares da sala, com o celular em mãos, acessando o aplicativo de bate-papo e digitando freneticamente.

A sala é espaçosa, possui mais um sofá de dois lugares, uma poltrona, uma mesa de centro e uma estante com televisão, aparelho de DVD, rádio e alguns porta-retratos com fotos de Tobias, quando era criança na companhia de seu avô.

Há um telefone sobre uma mesinha ao lado do sofá onde Tobias está esparramado. De repente, o telefone começa a tocar, assustando o rapaz. O celular treme em suas mãos e cai no chão. Tobias o pega rapidamente, verifica se o aparelho sofreu algum dano e, ao constatar que está tudo em ordem, responde uma mensagem de um colega da escola.

Só depois disso, e com os olhos fixos na tela do celular, aguardando o colega responder, ele estica o braço, pega o telefone e o aproxima do rosto.

TOBIAS: Alô? (pausa) Sim, é o neto dele que está falando. (longa pausa, enquanto ele ouve o interlocutor) O quê?! Atropelado? O meu avô foi atropelado?! Mas como isso aconteceu? Ele está... Bem?! Que hospital?!

Sentindo um desespero crescente, Tobias se levanta do sofá e, ao fazer isso, o celular cai do seu colo. Desta vez, ele não parece se importar e continua ouvindo o relato de uma funcionária do hospital, para onde Antônio foi levado, enquanto anda de um lado para o outro, visivelmente preocupado, surpreso e até incrédulo.

De repente, Tobias para atônito no meio da sala e sente uma tristeza profunda. Ele engole em seco.

TOBIAS: (com a voz embargada e os olhos marejados) Morto? O meu avô está... Está morto?!

9 INT. IGREJA DO BAIRRO ONDE TOBIAS MORA — DIA 9

No dia seguinte

Tobias está sentado na primeira fileira de bancos da igreja, que possui cinco bancos em cada lado.

Com os olhos vermelhos de tanto que chorou no dia anterior, ele observa o caixão diante do altar com uma expressão vazia. O caixão está fechado e o corpo de Antônio encontra-se dentro.

A igreja está cheia de pessoas, mas, por algum motivo, apenas os amigos e conhecidos do falecido vieram para o velório. Nenhum dos vários amigos que Tobias possui em sua rede social veio apoiá-lo neste momento difícil.

Tobias sente uma solidão profunda.

10 INT. GARAGEM — NOITE 10

Com um olhar vazio e triste, Tobias se aproxima da mesa de futebol, sobre a qual o seu avô tanto lhe falou nas últimas semanas.

Ele se lembra das inúmeras vezes em que Antônio lhe chamou para jogar uma partida e ele sempre recusou, sempre absorto pelo celular e pela internet, sempre arranjando um pretexto para adiar um simples momento de descontração com o seu avô.

TOBIAS: (passando as mãos pela mesa de futebol com tristeza) Qualquer dia aí...

Tomado pela culpa e pela solidão, ele passa as mãos pelo rosto, tentando não chorar, e se afasta um pouco.

Em seguida, Tobias se senta no capô do antigo carro do seu avô, que está coberto por uma lona, e fica olhando para a mesa de futebol, no mais completo silêncio.

Notas finais
Gostaram? Sim? Não? Talvez? Seguinte, minha intenção com esta história não é dizer "Não façam isso, não fiquem na internet, no celular, não tenham amigos virtuais!", porque eu estaria sendo hipócrita. Minha intenção é apenas propor uma reflexão para que nós (sim, me incluo nessa) encontremos um meio termo. Tudo bem conversar pelo celular, mas será que nós não estamos deixando de conversar com as pessoas que estão bem perto da gente por causa disso? Será que não dá para conciliar as duas coisas? Será que ao invés de fazer aquela maratona, daquele seriado, você não pode deixar isso para amanhã e passear com o seu cachorro hoje na companhia de algum amigo? Enfim, escrevi este roteiro desta forma porque me identifico com o Tobias e sei como o Antônio se sente. Me sinto como os dois em diferentes momentos do meu dia. Escrevi isso porque estou tentando encontrar o meu meio termo. Espero que vocês encontrem os seus. Obrigada a todos que leram! Reviews são muito bem vindas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!