Qual a Probabilidade?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Benjamim avistou-a novamente naquele dia. Lá estava ela, sentada no capô do carro, fumando um cigarro mentolado e sorrindo ao som de The Cardigans, o posto de gasolina completamente vazio.
— Vai fazer isso mesmo, cara? — ao seu lado havia um garoto da sua idade, porém ao contrário de Benjamim, ele estava embriagado.
— Vou, Jerome. — Benjamim deu de ombros e saiu do carro apressadamente.
Ajeitou a jaqueta de couro e por um momento pensou que desmaiaria. Estavam no deserto, afinal, mas os garotos Bankers sempre a usavam, mantendo o estilo e preferindo passar mal a usar camisetas havaianas.
— Ei, April — ela continuou sorrindo, enquanto tragava o cigarro.
— O que você quer, Benjamim Jhonson? — deitou-se no capô do chevette negro, o sorriso alargou-se quando percebeu os olhos de Benjamim em sua blusa decotada.
— O que vai fazer essa noite? Quer dizer… vai ter uma festa na casa do Parkson e eu pensei que quisesse ir, sabe, vai ter todas aquelas paradas que tu curte — Benjamim fungou e em seguida jogou os cabelos loiros oleosos para trás.
— Que tipo de parada? — questionou ela, pouco mais interessada.
— Você sabe… LSD, maconha, bebidas, essas coisas — Benjamim deu de ombros e limpou o suor escorrendo pela testa.
— Essas coisas que você não gosta? — April ajeitou o sutiã negro e em seguida prendeu os cabelos ruivos tingidos.
— Quem disse que não gosto?
— Ah, Ben! Todo mundo sabe que tu não coloca nem um cigarro na boca, porque tem medo de que aconteça alguma coisa. Qual a probabilidade de você ter algum tipo de coisa?
— Eu não ligo pra essas paradas, April, sério, eu não vou me foder por alguns momentos bons. Odeio essas merdas — Benjamim encostou no capo do carro, mesmo com o olhar irritado e possessivo de April.
— Eu sei que tu ainda tá meio acabado por causa da merda que aconteceu com teu irmão. Mas cara, pensa bem, qual a probabilidade de isso se repetir, entende? Você precisa relaxar mais, Benjamim.
— Vai ou não na festa? — perguntou pela última vez.
Benjamim adorava April, tanto quanto ela gostava de seu chevette negro. Mas Benjamim sentia-se um hipócrita cretino quando April começava a falar sobre drogas. Afinal, ele odiava, mas bebia como um condenado toda noite, como se bebidas alcoólicas também não fossem drogas.
— Tá, caralho, eu vou. Você é muito chato, Benjamim, é por isso que precisa dar uma aliviada — April entrou no carro e Benjamim afastou-se, contente pela presença confirmada da garota mais velha.
— Conseguiu, cara? — questionou Jerome.
— Sim, consegui. Ela vai. A festa já tá boa, cara, e olha que nem começou — Benjamim aumentou o volume do som, deixando a melodia romântica da banda Bee Gees preencher os ouvidos, enquanto Jerome vomitava em um balde pequeno que sempre carregava.
—
— O que acham da famosa brincadeira da garrafa? — perguntou Parkson, gritando nas escadas.
A aglomeração de gente deixava tudo mais estressante para Parkson, mas se isso significava que pegaria garotas, por quê não?
— Essa coisa é muito chata, Park — respondeu April, subindo as escadas, acompanhada de Benjamim.
— É, vê se inova! — murmurou Ben, vendo o dobro.
Entraram em um quarto pequeno, a parede revestida de azul trazia o revirar de olhos de April.
— Que cafona — April jogou-se na cama de casal, retirando o coturno e a blusa.
— O que tá fazendo? — perguntou Benjamim.
— Tirando a roupa, não é óbvio?
— Tá, eu entendi essa parte. Mas por quê?
— Porque está calor. Ei, tá a fim de transar, Benjamim? — a pergunta inusitada surpreendeu a ambos, mas principalmente a Benjamim.
— Eu não sei se… — coçou a nuca e observou April mexer nas gavetas da cômoda.
— Esquece, cara. Eu tava te zoando. Tem algo melhor para fazermos — retirou da terceira gaveta um saco plástico com algumas coisas.
Benjamim soube do que se tratava quando a seringa retirada gerou um sorriso a April.
— Qual é, April, vamos lá pra baixo beber — pediu o garoto, sendo ignorado.
April arrumou tudo de maneira cuidadosa, enquanto o outro a observava.
— Eu não quero fazer isso, April.
Os votos foram anulados quando April preparou tudo e sentou-se na cama, injetando a seringa na pele alva.
Ela fechou os olhos e suspirou pesadamente, sentindo tudo melhorar.
— Toma, pega — levou a seringa até ele, mas Benjamim recusou.
Olhou para April e em seguida para seringa, todas as imagens de seu irmão morrendo foram revividas em sua cabeça, sentiu-se um lixo por pensar em aceitar aquilo. Mas, no fim, aceitou.
— Para de ser um bichinha hipócrita, Ben. Pega logo essa merda — murmurou ela.
— Você não vai me dar outra seringa?
— Não confia em mim? Meu sangue é o mais limpo que você já viu — respondeu, sorrindo.
Benjamim fez. Não havia arrependimentos depois de fazê-lo. A heroína era um prazer que nunca havia conhecido, mas agora tinha a oportunidade e quando a aproveitou, soube o motivo do irmão e amigos viverem drogados.
Era um completo êxtase.
Benjamim jamais pensou que faria aquilo, afinal, as cenas da mãe chorando por perder um filho para as drogas ainda estavam frescas em sua memória. Porém, aventurar-se em algo novo nunca era pouco para Benjamim. Só se arrependia de ter reclamado muito e ter provado pouco.
Encarou o teto e em seguida os tênis de marca, depois o retrato com dois homens, também olhou para o pôster de uma banda qualquer. Em seguida fechou os olhos, apreciando a calmaria.
Qual era probabilidade de Benjamim morrer ali? Não era tão alta.
Benjamim injetou mais algumas vezes, grandes quantidades. Sentia-se ótimo.
Qual era a probabilidade de Benjamim morrer ali agora? Não era tão alta.
— Caralho, Benjamim, não acredito que tu fez isso cara, finalmente! — Jerome olhou para o braço do amigo e não demorou para fazer o mesmo.
— Porra — murmurou April, sentindo o espaço da cama diminuir com a chegada de Jerome.
Jerome deitou-se do lado esquerdo, enquanto April estava no meio e Benjamim do outro lado. Sentiam-se as três pessoas mais sortudas do mundo.
— Ei te disse, cara, qual a probabilidade duma merda acontecer? — falou Jerome.
— É, nenhuma…
Nenhuma.
Qual a probabilidade de April levantar-se vagarosamente ao perceber uma agitação ao seu lado? Qual a probabilidade de ser Benjamim afogando-se no próprio vomito? Qual a probabilidade de Benjamim ter a mesma morte do irmão? Qual a probabilidade de April sentir-se culpada por apenas assistir? Qual a probabilidade da mãe de Benjamim suicidar-se depois de perder os únicos bens que possuía?
É, nenhuma…
Notas finais
Agradeço a quem leu até aqui.
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