...Qual?
2 Apenas um sonho.
Notas iniciais

Estava quente e sua boca estava seca. Muito seca.
Por que ele estava dormindo de boca aberta? Ele não se lembrava de estar resfriado, ou qualquer coisa do tipo. Suas narinas não estavam bloqueadas, e o ar passava por elas sem nenhum problema.
Ele tossiu, e no instante em que fechou a boca, sentiu um gosto amargo.
Algo se mexeu sobre sua língua, era pequeno, mas parecia estar vivo. Ele podia sentir as patinhas finas encostando em sua gengiva e as asinhas se encharcando em sua saliva.
Era uma mariposa.
Kaito tentou abrir a boca, mas sua mandíbula estava travada. Era como se algo segurasse seu queixo, impedindo que sua boca se abrisse.
Ele tentou separar os dentes com os dedos, sem sucesso.
A mariposa se debateu, chacoalhando as asas e espalhando um gosto amargo horrível, junto com o pânico que tomou conta de seu corpo.
Aquilo era tão nojento. Como aquela mariposa foi parar ali?
Kaito sentiu uma náusea horrível e, por um segundo, achou que fosse vomitar, mas o que subiu pela sua garganta foi algo pior.
Outra mariposa, seguida de mais duas.
Havia quatro mariposas amontoadas em sua boca, as asas roçando em sua língua e as patinhas se enfiando entre seus dentes e em sua gengiva.
Kaito passou as mãos pelas bochechas, forçando a mandíbula a se abrir, mas ela se fechava ainda mais com cada tentativa.
O desespero tomou conta, e ele começou a arranhar o próprio rosto.
Ele tentava gritar com todas as suas forças, mas nenhum som saía, e sua boca não abria de jeito nenhum.
As lágrimas fluíam livremente, queimando os vergões que cobriam suas bochechas, queixo e pescoço, e seu peito subia e descia com sua respiração acelerada.
De repente, um espasmo percorreu seu corpo e ele abriu os olhos.
Kaito piscou confuso e encarou o teto, a sensação horrível das mariposas desaparecendo no mesmo instante. Ele olhou para os lados e viu que estava deitado em uma cama de casal, em um quarto bem espaçoso.
Havia um criado-mudo de cada lado da cama, um guarda-roupa encostado na parede a sua esquerda, e duas portas, uma a sua frente e outra a sua direita.
Kaito vasculhou cada canto de sua boca com a língua, só para ter certeza de que não havia nenhum inseto ali. Ele abriu e fechou a mandíbula algumas vezes, sentindo uma dor forte nas laterais do rosto, provavelmente causada pela forma como ele rangeu os dentes enquanto tinha aquele pesadelo nojento.
Ele se sentou e estralou as costas, esticando os braços e respirando fundo. Foi aí que um porta-retrato que estava sobre o criado-mudo chamou sua atenção.
Na foto estavam ele e uma mulher de cabelos verde azulados, sentados lado a lado no que parecia ser um banco de um parque. Eles sorriam, segurando as mãos com os dedos entrelaçados.
E de repente, ele se lembrou do dia em que aquela foto foi tirada.
Era um domingo ensolarado, e ele estava no parque com aquela moça. Estava quente, e algumas crianças brincavam por ali. A mulher tomava sorvete, e ele também comia alguma coisa doce (um sorvete também?). Uma bola de futebol rolou até seus pés e ele a chutou de volta para as crianças. A mulher estava feliz, ele estava feliz, o dia estava lindo, tudo era perfeito.
Miku.
A moça se chamava (chama?) Miku.
E ela era (é) sua esposa.
O tapa que Kaito deu em sua própria testa foi mais forte que o necessário, mas ele riu mesmo assim.
Claro que ele era casado com a Miku! Por que tanta surpresa? A cerimônia estava fresca em sua memória, aquela tarde tão ensolarada quanto a daquele domingo no parque, aquele monte de parentes e amigos, e ele estava nervoso e suas unhas estavam roídas e suas mãos suavam sem parar porque ele estava prestes a se casar com a Miku e...
Ele a amava.
E ela o amava também.
(E por que ele demorou tanto para se lembrar de tudo aquilo?)
Kaito se levantou e foi para o banheiro escovar os dentes, afinal, era terça-feira e ele teria que trabalhar.
Não havia um sinal sequer dos arranhões que outrora ardiam em seu rosto, o que era bom, já que ele não queria explicar o motivo de seu rosto estar todo arranhado para alguém.
Falando nisso, ele tinha sonhado com outra coisa estranha, não tinha?
O escuro, o desconforto, o fedor e a criatura macabra. Kaito havia quase se esquecido desse outro sonho.
―Eu não sou um sonho, Kaito.― Algo sussurrou bem perto de seu ouvido.
Kaito se virou bruscamente e viu um vulto preto pelo canto dos olhos. A escova de dentes caiu de sua mão e ele teve que se segurar na pia para se manter de pé.
Mas o quê...?
―Kaito?― Miku o chamou do lado de fora do banheiro.― O café está pronto.
―Já vou.― Ele se esforçou para responder sem gaguejar.
Kaito enxaguou a boca e a escova e saiu do banheiro o mais rápido que pôde.
A cozinha ficava no fim do corredor, junto à sala de estar. A mesa estava posta para duas pessoas e Miku estava perto do fogão, enchendo duas tigelinhas de missô. Ela usava uma calça moletom cinza e uma camiseta velha que um dia fora a favorita de Kaito, mas que hoje era apenas como pijama para a sua esposa.
―Bom dia.― Kaito disse, colocando uma mão em suas costas e beijando sua bochecha.
―Bom dia.― Ela respondeu, dando um beijo em seus lábios. ―Dormiu bem?
―Sim.― Ele mentiu, puxando a cadeira e se sentando.
―Você se mexeu bastante… ― Ela se sentou a sua frente.― Teve um pesadelo?
Ele deveria falar sobre os sonhos estranhos? Talvez fosse uma boa ideia contar isso para alguém, mas ele duvidava que fossem acreditar no que ele diria, principalmente se tratando do primeiro sonho.
Um vulto passou pelo canto dos olhos de Kaito mais uma vez, e quando ele olhou para frente, viu algo que fez seu estômago se revirar.
A Criatura estava ali, parada atrás de Miku. Seu corpo era envolto por uma capa preta, e seu rosto tinha a mesma expressão sorridente e assustadora que Kaito se lembrava.
O Ser inclinou a cabeça para o lado, produzindo aquele estralo nojento, e colocou uma mão pálida e ossuda para fora da manga preta. A Criatura apontou para ele com o dedo indicador e, em seguida, o pousou sobre o sorriso branco, emitindo um chiado que Kaito não soube dizer se era uma risada ou um pedido de silêncio.
―Kaito?
Ele piscou, e a Criatura desapareceu no mesmo instante. Miku o chamou mais uma vez.
―Ah, eu... Eu estava tentando me lembrar, mas acho que não sonhei com nada.― Ele se apressou para inventar uma desculpa. Não dava pra saber o que a Criatura faria se Kaito dissesse alguma coisa.
―Que estranho...―Miku comentou, não parecendo estar convencida.
Kaito pegou seus hashis e sua tigela de arroz e começou a comer, rezando para que ela não fizesse mais nenhuma pergunta.
E ela não fez.
Os dois comeram em silêncio, e Kaito se levantou assim que terminou para se arrumar para o trabalho.
Kaito era policial, e estava na polícia há pouco tempo. Então ele não fazia muito além de ajudar quem aparecesse na delegacia, e lidar com a papelada.
Era uma rotina monótona, mas ele gostava daquele emprego, apesar de não gostar de lidar com a arrogância dos seus superiores.
―Quer uma carona?― Kaito perguntou à esposa enquanto calçava os sapatos na frente da porta de entrada.
―Não, o doutor não vai trabalhar hoje...― Ela disse, prendendo os cabelos em um rabo de cavalo.
Miku era auxiliar de dentista em um consultório próximo da delegacia onde Kaito trabalhava. Quando ela precisava chegar cedo ao trabalho, ele a levava de carro, nos demais dias, ela ia de bicicleta.
Quando saíam do trabalho no mesmo horário, Kaito a levava para comer alguma sobremesa em uma padaria da vizinhança, e depois eles iam ao parque ― o mesmo em que eles tiraram aquela foto― e Miku dava uma volta de bicicleta, com Kaito na garupa.
Essas lembranças fizeram Kaito sorrir para si mesmo.
―Você pode comprar arroz?― Ela disse, fazendo com que ele acordasse daquele devaneio nostálgico.― Vou precisar para fazer o jantar.
―Claro. ― Ele se levantou, e a beijou na bochecha.― Estou indo.
―Tenha um bom dia.― Ela respondeu, o abraçando.
Kaito pegou o molho de chaves e saiu.
A delegacia não ficava muito longe dali, não levava mais do que 10 minutos indo de carro.
Kaito dirigia calmamente, tentando não pensar naqueles sonhos estranhos.
Seja lá o que aquilo significasse, ele não queria ouvir aquela voz esganiçada assustadora de novo, então era melhor fingir que estava tudo bem e que nada havia acontecido.
Kaito estacionou na rua da delegacia, debaixo de uma árvore frondosa cuja espécie ele desconhecia.
Enquanto entrava, ele viu uma viatura sair, e não pôde conter um suspiro aliviado.
Seus superiores não eram pessoas muito boas, Kaito odiava ter que lidar com gente tão egoísta como eles. Era como se o distintivo de policial os tornasse deuses superiores ao resto da humanidade.
―Ah, bom dia Kaito!― Disse Yukari assim que ele entrou.
―Bom dia.― Ele respondeu.
Yukari era sua colega de trabalho há pouco mais de um mês. Ela ainda não estava acostumada com o emprego, e Kaito fazia o possível para ajudá-la.
―O senhor Megurine acabou de sair com os outros, parece que assaltaram aquela loja de departamentos que abriu semana passada.
―Eu vi eles saindo.―Ele disse, indo para trás do balcão.― Deixaram alguma coisa pra gente fazer?
―Carimbar esses certificados― Yukari apontou para a pilha de papéis que estava em sua frente. ―, acho que tem outro carimbo dentro da gaveta.
O telefone tocou e Yukari foi atendê-lo.
Kaito achou o carimbo dentro da gaveta, e começou a carimbar os certificados cuidadosamente, tentando ignorar aquela sensação de que estava sendo vigiado.
Aqueles eram certificados do programa de combate às drogas e ao álcool que era ensinado em escolas de ensino fundamental.
Kaito ainda se lembrava daquelas aulas que ele tinha na quarta série, com aquele policial engraçado que usava óculos. Foi por causa dele que Kaito começou a alimentar um pequeno sonho de ser policial, mesmo que a ideia de ser veterinário parecesse mais interessante.
Ele nunca imaginaria que anos depois ele estaria ali, na delegacia, fardado, carimbando certificados.
Era estranho como todas aquelas memórias vinham à tona tão de repente. Elas estavam ali o tempo todo, embora não parecessem ser tão sólidas. Era como aquelas situações que você não sabe dizer se aconteceram em um sonho ou em algum momento na vida real.
Mas por que não parecia real?
Era por causa daquele sonho?
Por causa das alucinações que ele teve durante a manhã?
Kaito apertou o carimbo na almofada e ficou olhando para a tinta azul que transbordava do tecido.
―Está confuso, Kaito?― A mesma voz sussurrou em seu ouvido mais uma vez.―Ainda duvida da minha existência?
Ele soltou o carimbo e olhou para os lados, sua visão estava turva e, por mais que ele piscasse, ela não voltava ao normal. A Criatura ria, e o som se misturava com a voz de Yukari, que falava ao telefone, criando um ruído insuportável.
―Nós só estamos começando.― O ser sussurrou, sua respiração pegajosa roçando asquerosamente no pescoço de Kaito.
E aí tudo escureceu.
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