Quadrilha
3 Que amava Joaquim que amava Lili
João deu o espaço de tempo de um mês antes que fosse falar com Teresa de novo. Sabia que precisava respeitar seu luto.
Entrou na casa de sua amada, e para sua surpresa, os parentes da moça estavam arrumando malas. Com as roupas dela.
‘O que está acontecendo?’ Sua cabeça girava. ‘O que está acontecendo?!’
Teresa desceu as escadas, ainda com o vestido preto. Ao encontrar o olhar desesperado de João, puxou-lhe para um canto.
“Você vai viajar, Teresa? Se mudar? Sem ao menos me avisar?!”
A literatura, meus caros, normalmente representa a mulher de luto como um símbolo passivo, triste, cabisbaixo. Enganam-se. A dor incessante e a infelicidade minam qualquer sinal de paciência, bom-humor ou exacerbada compaixão.
“E se eu avisasse, João? Cantaria sua dor para a cidade inteira ouvir?” A secura da moça o assustou por um momento. “Para a senhora sua surpresa, prefiro agir discretamente. Deus, já não estão todos falando de mim o suficiente?”
Ela afastou um passo, mas João não deu-se por satisfeito.
“Para onde vai?”
“Para o convento.” Respondeu, sem pestanejar. Estava exausta dos interesses materialistas de seus parentes, da pena alheia, do comentário “coitada, tão nova”. A ideia de afastar-se daquelas pessoas e aproximar-se de Deus soava como música aos seus ouvidos.
“Mas… Teresa! Por favor, eu te amo!”
“Não, não me ama!” Respondeu Teresa, na mesma altura. Pela primeira vez em um mês, exteriorizava a sua raiva e frustração. “Não estaria dando estes chiliques todos desde que casei, se me amasse! Você me respeitaria, ficaria feliz por mim, se assim fosse! Admita, ficou aliviado que Raimundo morreu! Francamente… Francamente!”
João encarou-a, boquiaberto. Nunca a tinha visto tão alterada. Nem ninguém ali. Estava sem coragem de responder. Talvez seu maior medo fosse real. Ela nunca havia o amado.
“E lhe digo mais, João. Ainda que eu continuasse me submetendo a este inferno… Ainda que não fosse ao convento, casaria com qualquer um, menos você!”
Ele recuou alguns passos. Recusava-se ter ouvido aquilo. A dor em seu peito era a equivalente de um tiro.
“Saia da minha casa! Saia!”
João obedeceu, estarrecido. Cambaleou rua abaixo, digerindo a informação. Teresa abraçou a própria mãe, chorando violentamente de ódio.
—
Maria estava aflita. Desde que João voltara para casa, estava com a ideia fixa de que iria junto com alguns outros rapazes da cidade para procurar emprego nos Estados Unidos.
“Você é louco, menino?! Desde quando, isso? Eles já tinham te convidado, e você recusou!”
“Não me amola, mãe. Te mando dinheiro de lá.”
“E é lá com o dinheiro que me preocupo, meu filho?!”
Ela procurou justificativas boas o suficiente para que ele ficasse, encarando o nada de forma indignada.
“Eu vou falar com o seu pai!”
“Fale, tenho certeza que ele vai concordar comigo.”
“Você que pensa!”
“Ele sempre foi muito mais racional do que você, mãe.”
“Ora, moleque, você me respeite…!”
E Maria saiu marchando na direção da casa de Joaquim. Reclamou com o patriarca, alteradíssima. Joaquim ouviu a tudo com muita paciência, de braços cruzados e assentindo com a cabeça.
“Eu vou falar com ele.”
Os dois voltaram para a casa de Maria. Pai e filho se trancaram no quarto — mãe andava de um lado para o outro na sala, rezando para que seu caçula tirasse essa ideia maluca da cabeça.
Após arrastados minutos, os dois saíram do quarto. “Precisamos de uma conversa em família.” Afirmou Joaquim.
Maria sentou-se.
—
Decidiu-se que seria uma boa ideia deixar João viajar. Não era o plano estabelecer raízes no outro país, pelo menos não a início. Procuraria um emprego mais básico, moraria com outros brasileiros, aprenderia inglês melhor, viraria-se sozinho.
“Mas vê se volta, tá filho?” Maria disse, beijando-o na testa, antes que embarcasse. “Se não eu vou atrás de você e te arrasto de volta.”
João sorriu, e se foi.
Ao longo que o ônibus cheio de futuros imigrantes partia em direção do aeroporto, Marta e Joaquim observavam a vista — lado a lado.
“Quem diria, não é?” Perguntou Joaquim.
Maria suspirou. “É. Quem diria.”
E segurou para não derramar suas lágrimas. Vencida, deixou-se ser consolada pelo pai de seus filhos.
“Não fica assim. Ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.” Ele disse, ainda que estivesse engasgando.
“Acho… Que o que eu mais vou sentir falta… Se não todo mundo… É da voz dele, encantando os finais de tarde…”
“Sim. Definitivamente, sim.”
Um silêncio se passou, com os dois abraçados.
“Como você está, Maria?” Ele disse, por fim.
Ela riu. “Acho que faz tanto tempo que você não me pergunta isso…”
Ele deu de ombros. “Não quer dizer que eu não me importe.”
Maria queria continuar ali. Naquele abraço. Revivendo os velhos tempos, relevando absolutamente todo o mal que lhe acontecera.
Mas não conseguia. Precisava se respeitar, por mais que muitas vezes, desejava não precisar. Saiu do abraço. Afastou-se, andando na direção da saída da rodoviária.
“Maria.” Ele a seguiu. “Você não me respondeu.”
Ela suspirou, e respondeu sem se virar: “Não vou fingir que está tudo bem, Joaquim. Não mais.”
Eles continuaram ali, parados e pensativos. “Eu já pedi desculpas, Maria. Desculpas sinceras.”
Ela encarou o chão. “Mas ainda só pensa nela. Admita.”
Maria se virou. Choraria, se ainda houvessem lágrimas. “Você a ama.”
Maria se referia a Lili, sua irmã. Joaquim era, sim, inegavelmente apaixonado por ela. Provavelmente, antes mesmo de conhecer Maria. Cerca de um ano atrás, Joaquim e Lili haviam se envolvido em um caso. Quando Maria descobriu, foi um escândalo.
Mas havia acabado perdoando os dois. Parcialmente, pelo menos. Perdoar, sempre — esquecer, jamais. Não era possível arrastar muita inimizade em um convívio social tão restrito como aquele.
Joaquim suspirou. “Eu não vou te responder, Maria.” Ele olhou em seus olhos. Não queria machucá-la ainda mais.
Maria deu de ombros. “Pois bem. Nem eu lhe responderei também, então.”
A mulher voltou a tomar seu rumo. “Passe bem.”
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