QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE
8 CAPÍTULO 8-Eu preciso voltar
Alice levou dois dias para conseguir me tirar do hospital.
Foram os dois dias mais longos da minha vida.
Eu ainda não havia informado meu nome verdadeiro. Para a equipe médica, continuava sendo a mulher encontrada sem documentos depois de um acidente, com perda de memória e sem qualquer familiar localizado.
Não me orgulhava de mentir.
Mas cada vez que pensava em dizer Sarah Swan, via o rosto de Aro.
E depois via Jacob.
Era suficiente para continuar calada.
Alice conseguiu organizar minha saída usando um nome falso provisório e assumindo a responsabilidade de me levar para um local seguro, evitando qualquer ligação com Sarah Swan. Não perguntei todos os detalhes. Naquele momento, estava cansada demais, dolorida demais e assustada demais para querer saber como Alice conseguia convencer pessoas de coisas aparentemente impossíveis.
Quando finalmente deixou o hospital comigo, ela me colocou no banco traseiro do carro, cobriu minhas pernas com uma manta e olhou para mim pelo retrovisor.
— Está confortável?
— Tenho uma costela machucada, um ombro que parece ter sido atropelado por outro carro depois do primeiro e a impressão de que fui espancada por um rio. Meu conceito de conforto mudou bastante.
Alice fechou os olhos.
— Você consegue ficar cinco minutos sem fazer piada sobre quase ter morrido?
— Provavelmente não.
Ela ligou o carro.
— Ótimo. Pelo menos alguma coisa continua normal.
Observei o hospital desaparecer pela janela.
Foi estranho.
Eu estava saindo viva.
E ninguém que me amava sabia.
Minha irmã não sabia.
Jacob não sabia.
Paul.
Emmett.
Billy.
Para todos eles, Sarah Swan continuava desaparecida.
Talvez morta.
Encostei a cabeça no banco.
— Alice?
— O quê?
— Se eu pedir para você me levar para casa agora, você leva?
Ela me olhou pelo retrovisor.
Demorou antes de responder.
— Não.
— Por quê?
— Porque você me pediu para impedir você de fazer exatamente isso enquanto ainda estivéssemos sem saber o alcance do que Aro fez.
Fechei os olhos.
— Eu odeio quando você me escuta.
— Alguém precisa.
A casa era pequena, bonita e completamente diferente da residência onde Alice morava normalmente.
Ficava numa região tranquila.
Tinha dois quartos, uma sala integrada à cozinha e um jardim que Alice claramente começara a reformar e abandonara no meio.
Quando entrei, olhei ao redor.
— Você realmente não contou isso para Emmett?
— Não.
— Como?
— Diferentemente de você, eu sei guardar segredos.
Parei.
Alice também.
— Foi uma piada ruim — disse imediatamente.
— Foi.
— Desculpa.
— Tudo bem.
Não estava.
Mas seria.
Alice me ajudou a sentar no sofá.
Eu odiava precisar de ajuda.
Odiava sentir dor para levantar.
Odiava não conseguir erguer completamente o braço.
Odiava que meu corpo ainda parecesse pertencer ao acidente.
Alice colocou meus remédios sobre a mesa.
— O médico disse repouso.
— O médico também acha que eu não lembro meu nome.
— Tecnicamente, uma coisa não invalida a outra.
Olhei para ela.
— Você está ficando parecida comigo.
— Deus me livre.
Sorri pela primeira vez desde que saímos do hospital.
Depois o sorriso desapareceu.
— Alice, precisamos conversar.
Ela sentou diante de mim.
— Imaginei.
— Preciso contar tudo. Sem resumir.
— Então conta.
E contei.
Dessa vez desde o começo.
Expliquei como a primeira inconsistência aparecera quase por acaso.
Um pagamento.
Depois outro.
Valores que, isoladamente, poderiam ser explicados.
Mas havia padrões.
Empresas que surgiam e desapareciam.
Prestadores diferentes usando os mesmos contatos.
Contratos com descrições vagas.
Pagamentos fragmentados.
Aprovações que pareciam circular sempre pelas mesmas pessoas.
— Quanto? — Alice perguntou.
— Ainda não sei o total exato. Mas o que consegui rastrear já ultrapassava onze milhões.
Ela arregalou os olhos.
— Onze milhões?
— E pode ser mais.
— E Aro?
— O nome dele nunca aparecia de forma óbvia como beneficiário. Esse era o problema. Mas ele aparecia perto demais de tudo. Autorizações. Reuniões. Pessoas ligadas às empresas. Alterações contratuais.
— Por que você não contou para Jacob?
A pergunta doeu.
— Porque Jacob confia nele.
— Muito.
— Eu sei.
Olhei para minhas mãos.
— Aro é amigo de Billy há anos. Faz parte da história da família. Eu não podia chegar para Jacob com uma planilha e dizer que um homem que ele conhece praticamente desde criança estava roubando a empresa.
— Podia.
— Sem prova?
— Podia dizer que estava desconfiada.
— E se eu estivesse errada?
Alice ficou quieta.
— Eu queria ter certeza.
— E Aro percebeu.
Assenti.
— Primeiro achei que fossem coincidências. Comentários. Perguntas. Depois ele começou a falar sobre curiosidade, sobre carreiras que podiam ser prejudicadas, sobre problemas que surgiam quando alguém fazia perguntas demais.
Alice ficou séria.
— E você continuou.
— Claro.
— Você não tem instinto de sobrevivência.
— Descobrimos isso recentemente.
— Sarah.
— Desculpa.
Respirei fundo.
— Quando percebi que ele sabia que eu estava investigando, comecei a copiar tudo. Fiz o pendrive que estava comigo no carro e uma segunda cópia.
— A da sua casa.
— Sim.
Inclinei-me um pouco e imediatamente me arrependi quando a costela reclamou.
— Atrás da porta do meu quarto existe uma pequena abertura entre o rodapé e a parede. Eu tirei uma parte da madeira há meses porque queria esconder dinheiro ali.
Alice me encarou.
— Você esconde dinheiro na parede?
— Não mais.
— Por quê?
— Porque gastei.
Ela fechou os olhos.
— Continue.
— Coloquei o segundo pendrive lá.
— E quer que eu busque.
— Quero.
— Hoje?
— Não.
Alice pareceu surpresa.
— Quero que você passe primeiro pela rua. Veja se existe alguém observando. Se tiver qualquer coisa estranha, não entra.
— E se estiver normal?
— Entra, pega e sai.
— Isabella?
Meu peito apertou.
— Não pode te ver.
— Sarah...
— Se Bella te encontrar no meu quarto, vai perguntar.
— Posso inventar alguma coisa.
— E se ela perceber que está escondendo algo?
Alice não respondeu.
— Ela me conhece tão bem quanto você.
— Certo.
— Precisa ser quando ela não estiver.
Alice assentiu.
— Eu faço.
Segurei sua mão.
— E não leva o pendrive para sua casa de verdade.
— Trago para cá.
— Direto.
— Prometo.
Só então consegui respirar melhor.
Alice buscou o pendrive dois dias depois.
Chegou perto das dez da noite.
Eu estava sentada no sofá, tentando assistir a uma comédia que não tinha acompanhado por mais de quinze minutos.
Quando ouvi a chave, levantei rápido demais.
— Ai.
Alice entrou.
— Eu disse para não levantar sozinha!
— Você conseguiu?
Ela fechou a porta.
Tirou a bolsa.
Colocou-a sobre a mesa.
E retirou o pendrive.
Meu coração disparou.
— Estava lá.
Fechei os olhos.
— Graças a Deus.
Alice sentou ao meu lado.
— Isabella não estava. Passei antes duas vezes. Na terceira, vi ela sair . Entrei usando a chave que ela me deu depois do acidente.
Olhei para ela.
— Depois do acidente?
Alice percebeu.
— Sarah...
— Não.
Balancei a cabeça.
— Ainda não quero saber.
— Está bem.
Peguei o pendrive.
Pequeno.
Ridiculamente pequeno.
Onze milhões de dólares.
Anos de fraude.
Talvez a razão pela qual alguém tentara me matar.
Tudo cabia na palma da minha mão.
— Agora temos alguma coisa — Alice disse.
Olhei para ela.
— Temos um começo.
Uma semana depois do acidente, as buscas diminuíram.
Alice não queria me contar.
Eu percebi mesmo assim.
Ela chegou naquela tarde diferente.
Quietinha demais.
Alice nunca era quietinha demais.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você é péssima mentirosa.
— Isso vindo de você é ofensivo.
— Alice.
Ela sentou.
— A polícia reduziu a operação.
Meu peito apertou.
— Por quê?
— Já passou uma semana.
Não precisei perguntar o resto.
— Eles acham que eu morri.
Alice não respondeu.
Era resposta suficiente.
Olhei para a janela.
— E Jacob?
— Sarah...
— Me conta.
— Você pediu para eu não contar detalhes.
— Mudei de ideia.
Alice respirou fundo.
— Ele voltou para a empresa hoje.
Virei.
— Já?
— Billy praticamente obrigou.
— Como ele está?
Alice demorou.
— Não está.
— O que significa isso?
— Significa que ele está funcionando.
— Alice.
— Ele vai trabalhar. Responde quando falam com ele. Assina documentos. Participa de reuniões.
Ela engoliu.
— Mas não é Jacob.
Meu coração doeu.
— Ele não sorri.
Fechei os olhos.
— Emmett disse que ele perdeu peso. Paul está preocupado porque ele quase não come quando ninguém obriga. Dorme pouco.
— Para.
Alice parou.
— Desculpa.
Passei as mãos pelo rosto.
— Eu fiz isso.
— Aro fez isso.
— Mas eu poderia acabar com isso agora.
— E ainda não sabemos se seria seguro.
— Eu sei.
Era isso que tornava tudo pior.
Eu sabia.
Os dias seguintes criaram uma rotina estranha.
Fisioterapia.
Remédios.
Documentos.
O pendrive.
Alice entrando e saindo.
Eu permanecendo morta.
Começamos a analisar os arquivos.
As ligações com Aro eram fortes.
Mas não perfeitas.
Havia empresas.
Intermediários.
Autorizações.
Transferências.
E-mails.
Só não havia a peça final.
Nada que provasse, sozinho, que Aro era o beneficiário de todo o esquema.
Muito menos que ele mandara adulterar meu carro.
— Ele foi cuidadoso — Alice disse.
— Muito.
— Então como você pega ele?
Olhei para a tela.
— Preciso encontrar o que ele ainda não apagou.
— Na empresa.
Assenti.
— Na empresa.
Enquanto eu tentava reconstruir minha investigação, Aro se aproximava de Jacob.
Alice me contava.
Eu não queria ouvir.
Mas precisava.
Aro aparecia quase todos os dias na Black Corporation.
Levava documentos.
Oferecia ajuda.
Revisava contratos antigos.
Conversava com Billy.
Conversava com Jacob.
Dizia que queria ajudar a descobrir o que eu estava investigando antes de morrer.
Antes de morrer.
Comecei a odiar aquelas palavras.
— Ele está apagando as pegadas — eu disse.
Alice assentiu.
— Provavelmente.
— E Jacob está deixando.
— Jacob está de luto.
— Eu sei.
— Aro conhece ele há anos.
— Eu sei!
Levantei a voz.
Depois respirei.
— Desculpa.
Alice sentou ao meu lado.
— Você não precisa pedir desculpa por estar desesperada.
— Preciso fazer alguma coisa.
— Ainda está mal conseguindo subir escada.
— Não estou falando fisicamente.
— Então o quê?
Não sabia.
Essa era a pior parte.
Naquela tarde, Alice chegou trazendo café.
Eu estava diante do notebook.
— Como ele está?
Ela nem perguntou quem.
— Trabalhando.
— Só?
— Sarah...
— Você viu ele?
— Vi.
Meu coração bateu mais rápido.
— Hoje?
— Sim.
— Falou com ele?
— Falei.
— E?
Alice colocou o café na mesa.
— Você quer mesmo saber?
Olhei para ela.
— Quero ouvir a voz dele.
Alice ficou imóvel.
— Não.
— Por favor.
— Isso vai machucar você.
— Já está machucando.
— Sarah...
— Liga para ele.
Minha voz saiu baixa.
— Não fala de mim. Não pergunta nada estranho. Liga como Alice.
— E digo o quê?
— Qualquer coisa.
— Isso é uma péssima ideia.
— Provavelmente.
Segurei sua mão.
— Eu só preciso ouvir ele.
Alice me observou por alguns segundos.
Depois pegou o telefone.
— Você não fala.
Assenti.
— Nem respira perto do aparelho.
Quase sorri.
— Vou tentar.
Alice colocou no viva-voz.
Ligou.
Cada toque parecia bater dentro do meu peito.
No terceiro, Jacob atendeu.
— Alice?
Fechei os olhos.
A voz dele.
Meu Deus.
A voz dele.
Era Jacob.
Mas não era.
Estava mais baixa.
Cansada.
Sem aquela energia que eu conhecia.
Levei a mão à boca.
Alice olhou para mim.
— Oi, Jake. Está ocupado?
— Sempre.
Normalmente ele teria feito uma piada.
Não fez.
Alice continuou:
— Só queria saber como você está.
Houve uma pequena pausa.
— Todo mundo resolveu perguntar isso agora?
— Talvez porque todo mundo esteja preocupado.
— Estou trabalhando.
— Isso não responde.
— É a resposta que tenho.
As lágrimas começaram a cair.
Alice quase desligou.
Balancei a cabeça.
Não.
Queria continuar ouvindo.
— Você comeu? — Alice perguntou.
— Emmett mandou comida.
— Isso também não responde.
— Comi um pouco.
Ouvi papéis.
Depois Jacob suspirou.
— Alice, eu estou bem o suficiente.
— Isso parece muito específico.
— É o máximo que consigo fazer agora.
Minha garganta fechou.
Alice respirou.
— Você conseguiu dormir?
— Algumas horas.
— Jake...
— Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Falar comigo como se eu fosse quebrar.
A voz dele permaneceu calma.
E foi pior.
— Eu só preciso voltar a trabalhar.
— Faz uma semana.
Silêncio.
— Eu sei quanto tempo faz.
Fechei os olhos.
Jacob continuou:
— Eu acordo sabendo quanto tempo faz.
Uma lágrima caiu sobre minha mão.
— Sete dias.
Ele respirou.
— Sete dias desde que ouvi ela gritar.
Alice olhou para mim.
Eu não conseguia respirar.
— Jake...
— Eu devia ter ido buscar ela.
Balancei a cabeça imediatamente.
Não.
— Ela estava indo para minha casa.
A voz dele falhou pela primeira vez.
— Se eu tivesse buscado...
Alice respondeu com cuidado:
— Você não tinha como saber.
— Eu devia ter sabido.
Eu chorava em silêncio.
Não foi sua culpa.
Queria gritar.
Queria dizer.
Jacob respirou fundo.
— Desculpa. Não devia falar disso.
— Pode falar comigo.
— Não hoje.
Ouvi uma porta abrir do lado dele.
Depois uma voz.
Distante.
Mas reconheci imediatamente.
Aro.
Meu corpo inteiro congelou.
— Jacob? Posso entrar?
O medo atravessou minha pele.
Alice também reconheceu.
Jacob respondeu:
— Pode, Aro.
Olhei para Alice.
Não.
Aro estava com ele.
Ali.
Na sala.
Perto dele.
A voz de Aro ficou mais clara.
— Trouxe os contratos antigos que você pediu. Também consegui falar com um dos auditores externos. Talvez possamos reconstruir algumas das movimentações que Sarah estava analisando.
Senti náusea.
Ele estava fazendo exatamente o que eu temia.
Ajudando.
Controlando.
Descobrindo o que Jacob sabia.
Possivelmente apagando tudo que pudesse levar até ele.
Jacob voltou ao telefone.
— Alice, preciso desligar.
— Claro.
— Depois eu ligo.
— Jake?
— O quê?
Alice olhou para mim.
— Se cuida.
Silêncio.
— Estou tentando.
A ligação terminou.
Eu fiquei olhando para o telefone.
Alice desligou o viva-voz.
Ninguém falou.
Por alguns segundos, eu só chorei.
Não consegui evitar.
— Ele acha que foi culpa dele.
Alice aproximou-se.
— Eu sei.
— Ele está se culpando.
— Sarah...
— E Aro está dentro da sala dele.
Minha tristeza se transformou em medo.
— Ele está perto demais.
— Eu sei.
— Está vendo documentos. Está acompanhando a investigação. Está descobrindo o que Jacob sabe.
Levantei-me.
A dor atravessou meu corpo.
Alice segurou meu braço.
— Devagar.
— Eu preciso voltar.
— Você não pode voltar assim.
— Preciso.
— Sarah, olha para você.
— Eu estou olhando!
Apontei para o notebook.
— Enquanto fico escondida aqui, Aro está ao lado de Jacob apagando tudo.
— E se você aparecer como Sarah, Aro vai saber que falhou.
Parei.
Ela tinha razão.
E eu odiava aquilo.
— Então o que eu faço?
Alice não respondeu.
Passei as mãos pelos cabelos.
— Eu preciso entrar naquela empresa.
— Sim.
— Preciso acessar os sistemas.
— Sim.
— Preciso terminar a investigação.
— Sim.
Olhei para ela.
— Mas não posso ser Sarah.
Alice ficou em silêncio.
Alguma coisa mudou em seu rosto.
Conhecia aquela expressão.
Era a expressão de Alice quando tinha uma ideia.
E ideias de Alice quase sempre eram perigosas.
— O quê?
Ela me observou.
De cima a baixo.
Demoradamente.
— Não.
— O quê?
Alice se levantou.
Começou a andar ao meu redor.
— Alice.
Ela tocou meus cabelos.
— Quanto tempo você acha que vai levar para se recuperar completamente?
— O médico falou meses para tudo.
Alice assentiu.
— Ótimo.
— Ótimo?!
— Não pela recuperação. Pelo tempo.
Franzi a testa.
— Que tempo?
Alice parou diante de mim.
— Você disse que precisa voltar para a Black Corporation.
— Preciso.
— Mas Sarah Swan não pode voltar.
— Exatamente.
Um sorriso pequeno apareceu no rosto dela.
— Então Sarah Swan não volta.
Fiquei olhando.
— Alice...
— Você entra de outro jeito.
— Como?
Ela sorriu.
E naquele instante eu deveria ter ficado com medo.
— Como outra pessoa.
Ri.
— Você enlouqueceu.
— Não.
— Alice, Aro me conhece há anos.
— Conhecia.
— Jacob me conhece desde criança.
— Exatamente.
— Isso não faz sentido.
Alice segurou meus ombros com cuidado.
— Sarah, você vai precisar de meses para se recuperar de qualquer maneira. Não pode voltar amanhã. Talvez nem daqui a seis meses.
— E?
Ela olhou para meus cabelos.
Depois para os óculos antigos que obviamente eu não usava naquele momento porque tinham desaparecido no rio.
Para meu rosto ainda inchado.
Para meu corpo.
— E muita coisa pode mudar em alguns meses.
Comecei a entender.
— Não.
— Cabelo.
— Alice.
— Roupas.
— Não.
— Postura.
— Alice...
— Seu aparelho já estava perto de sair.
— Você está falando sério?
— Completamente.
— Você quer me transformar em outra mulher?
Alice inclinou a cabeça.
— Não.
Olhou diretamente nos meus olhos.
— Quero fazer Aro acreditar que está olhando para outra mulher.
Fiquei em silêncio.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— E Jacob?
A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir.
Alice sorriu de um jeito estranho.
— Essa parte vai ser interessante.
— Alice.
— Ele não pode saber.
Meu peito apertou.
— Eu sei.
— Pelo menos no começo.
Olhei para o telefone sobre a mesa.
A voz de Jacob ainda parecia estar dentro da sala.
Sete dias desde que ouvi ela gritar.
Depois a voz de Aro.
Perto dele.
Próxima demais.
Fechei os olhos.
Quando abri, Alice ainda me observava.
— Se fizermos isso...
Minha voz estava baixa.
— Não é para ficar bonita.
Alice ficou séria.
— Eu sei.
— Não é para impressionar ninguém.
— Eu sei.
— É para entrar naquela empresa, terminar o que comecei e tirar Aro de perto das pessoas que eu amo.
Alice assentiu.
— Exatamente.
Olhei para minhas mãos.
Ainda havia hematomas.
Cortes.
Marcas do rio.
Eu não conseguia imaginar outra mulher.
Mal conseguia reconhecer a que havia sobrevivido.
— E quem eu vou ser?
Alice sorriu suavemente.
— Ainda não sei.
Sentou ao meu lado.
— Mas primeiro você vai melhorar.
Segurou minha mão.
— Vai recuperar sua força. Vai conseguir dormir sem acordar achando que está dentro daquele carro. Vai voltar a andar sem sentir dor.
As lágrimas chegaram novamente.
— Depois nós pensamos no resto.
— Quanto tempo?
— O tempo que for necessário.
Olhei para o pendrive.
Depois para o telefone.
Pensei em Jacob.
Na voz dele.
No homem que não sorria mais.
No peso que perdera.
Na culpa que carregava.
E em Aro entrando em sua sala como se fosse amigo.
Meu medo ainda estava ali.
Mas agora havia outra coisa.
Raiva.
Determinação.
— Eu vou voltar.
Alice apertou minha mão.
— Vai.
— Ele não pode descobrir.
— Não vai.
Olhei para ela.
— Você tem muita certeza.
O sorriso de Alice cresceu.
— Sarah, você acabou de entregar a uma mulher que trabalha com moda a missão de transformar completamente sua aparência.
Pela primeira vez em uma semana, uma risada verdadeira escapou.
— Isso é assustador.
— Para você?
Alice sorriu.
— Muito.
Revirei os olhos.
Ela ficou séria outra vez.
— Mas tem uma coisa que eu não posso mudar.
— O quê?
Alice tocou de leve meu peito.
— Isso.
Franzi a testa.
— Meu coração?
— Você.
Sorri tristemente.
Alice continuou:
— Podemos mudar cabelo, roupas, postura, corpo, óculos, maquiagem, jeito de falar. Podemos inventar nome, currículo, história.
Ela segurou meu olhar.
— Mas você vai continuar sendo Sarah.
Pensei em Jacob.
Talvez fosse justamente isso que mais me assustava.
Porque, se algum homem no mundo pudesse olhar para uma desconhecida e encontrar Sarah escondida ali dentro...
seria ele.
Naquela noite, pela primeira vez, começamos a falar sobre meu retorno.
Ainda não existia um nome.
Existia apenas uma ideia aparentemente impossível.
Eu precisava voltar para a Black Corporation.
Precisava terminar a investigação.
Precisava tirar Aro de perto de Jacob.
Mas Sarah Swan continuaria morta.
Portanto, quando eu voltasse...
teria de ser outra mulher.
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