QUANDO O CORAÇÃO RECONHECE

11 CAPÍTULO 11 - Uma sensação


Tudo estava funcionando.

Era isso que deveria me tranquilizar.

Não tranquilizava.

Passei pelas outras etapas do processo seletivo sem dificuldades. Entrevista técnica, análise de perfil, reunião com Recursos Humanos, verificação de referências.

Emma Taylor existia.

Tinha documentos.

Histórico profissional.

Referências.

Experiência.

Alice construíra aquela identidade com uma atenção quase assustadora aos detalhes, utilizando minhas qualificações verdadeiras e criando uma trajetória suficientemente plausível para não despertar curiosidade.

Quando recebi a ligação confirmando a contratação, fiquei olhando para o telefone durante vários segundos.

Dezoito meses.

Tudo havia sido para aquilo.

Eu estava voltando.

Não como Sarah.

Mas estava voltando.


Na manhã do primeiro dia, Alice me acompanhou até o carro.

— Regras.

Revirei os olhos.

— Sei todas.

— Quero ouvir.

— Não chamar Jacob de Jake.

— Primeira e mais importante.

— Não roubar comida de ninguém.

— Especialmente de Jacob.

— Não bater em Paul.

— Mesmo se ele merecer.

— Ele sempre merece.

— Sarah.

— Certo. Emma não bate em Paul.

— Emmett também.

— Isso está ficando excessivamente restritivo.

Alice ignorou.

— Não usar expressões que você usava demais.

— Certo.

— Não falar rápido quando ficar nervosa.

— Certo.

— Não responder antes de pensar.

— Certo.

— E, pelo amor de Deus, não tropeça.

Olhei para ela.

— Você sabe que repetir isso aumenta estatisticamente a possibilidade de eu tropeçar.

— Essa estatística não existe.

— Agora existe.

Alice respirou fundo.

— Sarah.

Sorri.

— Vou ficar bem.

O sorriso dela desapareceu.

— Eu sei que vai.

Abracei-a.

— Se alguma coisa der errado...

— Você sai.

— Imediatamente.

— Imediatamente.

Afastei-me.

— E se Aro aparecer?

— Você nunca viu Aro Volturi na vida.

Assenti.

Essa seria a parte difícil.

Mas não naquele dia.

Naquele dia, minha preocupação era sobreviver a oito horas perto de Jacob sem esquecer quem eu deveria ser.


Cheguei à Black Corporation quinze minutos antes do horário.

Sem tropeçar.

Considerava importante registrar.

Passei pela recepção.

Subi.

Cumprimentei pessoas que conhecia havia anos e que não fizeram ideia de quem eu era.

Doeu menos do que na entrevista.

Talvez eu estivesse me acostumando.

O que também doía.

A assistente da presidência me recebeu.

— Bom dia, senhorita Taylor.

— Bom dia.

— O senhor Black pediu para você ir diretamente à sala dele.

Meu estômago afundou.

— Claro.

Segui pelo corredor.

Respirei.

Emma.

Bati.

— Entre.

Abri.

Jacob estava junto à janela.

Virou.

Por alguns segundos, apenas me olhou.

Eu já conhecia aquilo.

Ele fizera o mesmo durante a entrevista.

— Bom dia, senhor Black.

— Bom dia, senhorita Taylor.

Entramos naquele absurdo novamente.

Senhor Black.

Senhorita Taylor.

Duas pessoas que haviam passado metade da vida chamando uma à outra de Jake e Sarinha.

Jacob indicou uma mesa lateral.

— Pode deixar suas coisas ali.

Olhei.

Parei.

A mesa ficava dentro da sala dele.

Não do lado de fora.

Não em outra sala.

Dentro.

Da.

Sala.

De.

Jacob.

Olhei para ele.

— Desculpe. Essa é minha mesa?

— Temporariamente.

Meu coração disparou.

— Aqui?

Ele pareceu achar minha surpresa estranha.

— Existe algum problema?

— Não.

Controlei a voz.

— Eu apenas imaginei que teria um escritório separado.

— Terá.

— Certo.

— Ainda estão preparando.

Assenti.

Mentira.

Eu sabia que havia pelo menos três salas vazias naquele andar.

— Como você responderá diretamente a mim, achei mais prático que permanecesse aqui nos primeiros dias. Existem muitos relatórios antigos que precisam ser contextualizados.

Prático.

Claro.

— Sem problema.

Sorri.

— Onde prefere que eu comece?

Jacob apontou para uma pilha de pastas.

— Por aí.

Quase ri.

— Tudo isso?

— Isso é só o primeiro lote.

— O senhor sabe receber funcionários.

O canto da boca dele se moveu.

— Está arrependida?

— Ainda são nove e quinze.

Ele quase sorriu.

Quase.

E meu coração fez aquela coisa estúpida.

Sentei.

Abri a primeira pasta.

E comecei.


Durante a primeira hora, consegui trabalhar.

Ou tentei.

O problema era Jacob.

Mais especificamente, os olhos de Jacob.

Eu sentia.

Não precisava olhar.

Conhecia aquela sensação.

De tempos em tempos, levantava os olhos e o encontrava me observando.

Na primeira vez, fingi não perceber.

Na segunda, também.

Na terceira, comecei a ficar nervosa.

Na quarta, reli a mesma linha três vezes.

Na quinta, larguei a caneta.

Respirei.

Levantei os olhos.

Jacob estava olhando novamente.

Dessa vez não desviou imediatamente.

— Senhor Black?

Ele pareceu sair de algum pensamento.

— Sim?

— O senhor precisa de alguma coisa?

— Não.

Esperei.

— Então posso perguntar uma coisa?

— Claro.

Mantive a voz educada.

— Por que o senhor não para de me olhar?

Jacob ficou imóvel.

Eu continuei antes que perdesse a coragem.

— Desde que cheguei, já percebi isso várias vezes. Confesso que está começando a me deixar um pouco desconfortável.

Ele pareceu genuinamente constrangido.

— Desculpe.

— Quer me perguntar alguma coisa?

— Não.

Inclinei levemente a cabeça.

— Tem certeza?

Jacob apoiou a caneta sobre a mesa.

Ficou alguns segundos em silêncio.

— Você me lembra alguém.

Meu coração errou uma batida.

Não mexi um músculo.

— Alguém importante?

Os olhos dele permaneceram nos meus.

— Muito.

Uma dor atravessou meu peito.

Controlei.

— Entendo.

Jacob passou a mão pela nuca.

— Na realidade, nem sei se “lembrar” é a palavra certa.

— Não?

— Não.

Ele pareceu irritado consigo mesmo.

— Você não se parece com ela.

Quase sorri.

Não sorri.

— Então o que exatamente lembra?

Jacob ficou em silêncio.

— É uma sensação.

— Sensação?

— Eu sei que parece estranho.

— Um pouco.

Ele quase sorriu.

— Justo.

Esperei.

Jacob olhou para mim novamente.

Dessa vez havia alguma coisa vulnerável naquele olhar.

— Desde a entrevista, quando você está na sala...

Parou.

— O quê?

— Nada.

— Senhor Black, foi o senhor que começou.

Um pequeno sorriso surgiu.

— É verdade.

Meu coração apertou.

Ele continuou:

— Eu passei por uma perda há algum tempo.

Eu sabia.

Meu Deus, eu sabia.

— Sinto muito.

A frase quase não saiu.

Jacob assentiu.

— Obrigado.

Ficou alguns segundos olhando para a mesa.

— Depois disso, algumas coisas ficaram... diferentes.

— Imagino.

— E quando você entrou naquela sala durante a entrevista, eu senti uma coisa que não sentia havia muito tempo.

Minha garganta apertou.

— O quê?

Ele ergueu os olhos.

— Paz.

Não consegui respirar por um segundo.

Jacob percebeu meu silêncio e imediatamente pareceu desconfortável.

— Isso está soando muito mais estranho do que eu pretendia.

— Um pouco.

Ele riu.

Foi baixo.

Curto.

Mas riu.

Meu coração quase quebrou.

— Desculpe.

— Tudo bem.

— Não, não está. Você acabou de começar a trabalhar e seu chefe está encarando você porque decidiu que sua presença provoca alguma reação psicológica inexplicável.

Dessa vez eu quase ri.

— Quando o senhor coloca dessa forma, realmente não ajuda.

O sorriso dele aumentou um pouco.

— É melhor deixar para lá.

— Se prefere.

— E me desculpe se deixei você desconfortável.

— Desculpas aceitas.

— Vou tentar não fazer novamente.

Levantei uma sobrancelha.

— Tentar?

Jacob percebeu.

— Não olhar.

— É uma meta razoável.

Ele riu novamente.

Duas vezes.

Em menos de cinco minutos.

Fiquei olhando para os relatórios para que ele não percebesse o efeito que aquilo tinha sobre mim.

— Qualquer dúvida que tiver nos relatórios, pode perguntar — ele disse.

— Certo.

— E, senhorita Taylor?

Levantei os olhos.

— Sim?

— Se eu ficar olhando de novo, pode mandar eu voltar a trabalhar.

Quase respondi:

Faço isso desde os quinze anos.

Mordi a língua.

— Vou lembrar.

Voltei aos relatórios.

Minhas mãos estavam tremendo debaixo da mesa.


A porta abriu sem bater.

Nem precisei olhar.

— Jacob, você...

Paul parou.

— Ah.

Emmett apareceu atrás.

— Ah.

Fechei os olhos por meio segundo.

Deus me odiava.

Paul abriu um sorriso.

— Emma.

— Senhor Lahote.

O sorriso diminuiu.

— Senhor Lahote?

— É seu nome, não é?

Emmett começou a rir.

Paul olhou para ele.

— Cala a boca.

Emmett entrou.

— Bom dia, senhorita Taylor.

— Senhor Cullen.

Emmett parou.

— Também?

— Também.

— Gostei dela.

Paul apontou para minha mesa.

— O que você está fazendo aqui?

Olhei para ele.

— Trabalhando.

— Eu quis dizer dentro da sala de Jacob.

— Ah.

Virei para Jacob.

— Também gostaria de saber.

Jacob não levantou os olhos do documento.

— Temporário.

Paul olhou para Emmett.

Emmett olhou para Paul.

Conhecia aquele olhar.

Problemas.

— Interessante — Paul disse.

— Muito — Emmett concordou.

Jacob ergueu a cabeça.

— Vocês precisam de alguma coisa?

— Precisávamos — Emmett respondeu. — Agora fiquei curioso.

— Sobre?

Ele apontou para mim.

— A nova colega.

Respirei.

Emma.

Emma Taylor era educada.

Sarah Swan jogaria um grampeador.

— Posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor Cullen?

Emmett sorriu.

— Pode me chamar de Emmett.

— Prefiro senhor Cullen.

Paul gargalhou.

— Ela não gostou de você.

— Cala a boca. Ela também te chamou de senhor Lahote.

Paul olhou para mim.

— Pode me chamar de Paul.

— Obrigada, senhor Lahote.

Emmett quase dobrou de tanto rir.

Tive que olhar para o computador.

Se continuasse olhando para eles, começaria a rir do jeito errado.

Do meu jeito.

Paul apoiou uma mão na minha mesa.

— Então, Emma, almoço.

Levantei os olhos.

— O que tem?

— Você precisa almoçar.

— É uma necessidade biológica conhecida.

Emmett virou para Jacob.

— Eu realmente gostei dela.

Jacob estava observando.

Outra vez.

Ignorei.

Paul continuou:

— Podemos mostrar os melhores lugares perto daqui.

— Imagino que eu consiga encontrar um restaurante.

— Mas não vai ter nossa companhia.

— Esse argumento não funciona da maneira que você imagina.

Emmett bateu no ombro de Paul.

— Eu avisei.

Paul estreitou os olhos.

— Você sempre é assim?

Quase respondi:

Com você, há mais de vinte anos.

Em vez disso:

— Assim como?

— Difícil.

Sorri.

— Nós nos conhecemos há aproximadamente quatro minutos.

— Cinco.

— Isso melhora sua situação?

Emmett gargalhou.

Jacob abaixou a cabeça.

Mas eu vi.

Ele estava sorrindo.

Pouco.

Quase nada.

Mas estava.

Meu coração apertou.

Paul também percebeu.

Olhou para Jacob.

Depois para mim.

Então novamente para Jacob.

O sorriso dele mudou.

— Certo.

Não gostei.

— Certo o quê?

— Nada.

— Essa palavra nunca significa nada quando alguém diz desse jeito.

Silêncio.

Meu coração parou.

Essa frase.

Eu usava.

Paul franziu levemente a testa.

Emmett também.

Jacob levantou os olhos.

Droga.

Sorri.

— Minha mãe dizia isso.

Primeira coisa que me ocorreu.

Paul relaxou.

— Mulher sábia.

— Muito.

A saudade da minha mãe entrou no meio de todas as outras.

Afastei.

Emma.

Eu precisava continuar Emma.


No almoço, Paul e Emmett me sequestraram.

Essa foi a palavra utilizada por Emmett.

— Você precisa conhecer a cultura da empresa.

— Isso inclui ser sequestrada por dois executivos?

— É uma tradição.

— Não é — Jacob disse.

Estávamos saindo da sala.

Paul abriu os braços.

— Ele nunca participa das atividades de integração.

— Porque as atividades de vocês normalmente terminam com reclamação no RH.

Olhei para Jacob.

Ele percebeu.

— Não estou brincando.

— Eu imaginei.

Paul pareceu ofendido.

— Houve apenas dois incidentes.

Emmett levantou três dedos.

— Três.

— O terceiro não foi culpa nossa.

— Vocês colocaram uma cabra no elevador — Jacob respondeu.

Parei.

Olhei para os dois.

Lembrava perfeitamente daquela história.

Tinha acontecido antes de eu entrar na empresa.

— Uma cabra?

Paul apontou para Emmett.

— Ideia dele.

— Era aniversário do diretor comercial!

— E por que uma cabra?

Emmett sorriu.

— História longa.

Eu queria rir.

Queria dizer que já ouvira aquela história dez vezes.

Em vez disso, balancei a cabeça.

— Estou começando a questionar minha decisão de aceitar esse emprego.

Jacob sorriu.

Dessa vez eu vi inteiro.

Pequeno ainda.

Mas verdadeiro.

E quase perdi o controle.

Porque aquele sorriso era meu lugar favorito no mundo.


O almoço foi uma tortura.

Uma tortura engraçada.

Paul tentou descobrir se eu era solteira.

Emmett tentou descobrir minha idade.

Os dois tentaram descobrir onde eu morava.

Recusei tudo.

— Vocês sempre interrogam funcionários novos? — perguntei.

— Só os interessantes — Paul respondeu.

— Você usou essa frase na entrevista.

Ele parou.

— Você lembra.

Droga.

— Foi uma cantada especialmente ruim.

Emmett bateu na mesa.

— Eu disse!

Paul ignorou.

— Então você pensou em mim depois?

Sorri.

— Como exemplo de abordagem que deve ser evitada.

Emmett quase caiu da cadeira.

Meu instinto foi pegar uma batata do prato de Jacob.

Minha mão chegou a se mover.

Parei.

Alice.

Não roubar comida.

Recolhi a mão.

Jacob percebeu.

Olhou para meus dedos.

Depois para mim.

— Quer?

Empurrou o prato de batatas discretamente na minha direção.

Meu coração parou.

— Não, obrigada.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Sarah estava gritando dentro de mim.

Pegue.

Pegue a batata.

Eu não peguei.

Paul apontou.

— Isso foi generoso.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

— Você não divide batata.

Emmett assentiu.

— Nunca.

Jacob olhou para o próprio prato.

Ficou sério.

— É só comida.

Paul e Emmett trocaram um olhar.

Eu bebi água.

Precisava sair dali antes que fizesse alguma coisa estúpida.


Quando voltamos à sala, sentei à mesa e mergulhei nos relatórios.

Paul e Emmett finalmente foram trabalhar.

Silêncio.

Depois de alguns minutos, ouvi Jacob:

— Senhorita Taylor.

— Sim?

— Eles incomodaram você?

Sorri.

— Quem?

— Paul e Emmett.

— Não.

— Tem certeza?

— Eles são...

Parei.

Eu ia dizer idiotas.

Respirei.

— Peculiares.

Jacob riu.

— Essa é uma palavra educada.

— Estou no primeiro dia.

— Dê uma semana.

— Depois posso chamar de outra coisa?

— Provavelmente.

Voltei ao relatório.

Jacob também.

Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou.

Então senti novamente.

Olhei.

Ele estava me observando.

Jacob percebeu que fora pego.

Eu levantei uma sobrancelha.

— Senhor Black.

Ele fechou os olhos.

— Desculpe.

— Nós conversamos sobre isso.

— Eu sei.

— Está precisando de alguma coisa?

Ele sorriu.

— Não.

— Então volte a trabalhar.

Jacob ficou me olhando.

Por um segundo, temi ter ido longe demais.

Então ele riu.

Um riso baixo.

Quase esquecido.

— Sim, senhora.

Voltei para o computador.

Mas dessa vez sorri.

Pequeno.

Escondido.

Porque durante dezoito meses eu acreditara que voltaria para a Black Corporation apenas para encontrar provas contra Aro.

Não imaginara que, no primeiro dia, encontraria outra coisa.

Jacob ainda não sabia quem eu era.

Não reconhecia meu rosto.

Não reconhecia meu nome.

Não sabia que a mulher sentada a poucos metros dele era a pessoa por quem chorara durante dezoito meses.

Mas alguma coisa nele continuava olhando.

Continuava procurando.

Continuava reagindo.

E aquilo me assustava.

Porque talvez Alice tivesse conseguido transformar tudo o que os olhos de Jacob conheciam.

Meu cabelo.

Meu corpo.

Meu sorriso.

Minha postura.

Minha roupa.

Minha voz.

Meu nome.

Mas, sentada naquela sala, comecei a suspeitar que havia uma coisa para a qual nunca havíamos treinado.

A possibilidade de que o coração dele não precisasse reconhecer meu rosto para saber que eu tinha voltado.