Q is
5 One Kiss (For Love) - OS 5 Final
Notas iniciais
A chuva caía forte e o homem, de chamativos cabelos ruivos, chorava, mais uma vez, agarrado a um travesseiro de um quarto barato de um hotel.
O prodígio do basquete, do shogi, do violino, do canto, de tudo, viu sua vida confortável ruir após aquele dia: o dia em que o jovem Seijuuro Akashi “saiu do armário” e foi cruelmente expulso de casa pelo próprio pai.
Era uma noite chuvosa, igual a do dia de hoje e vinha a lembrança da chuva forte tomada, quando foi expulso somente com a roupa do corpo, sem direito a nem pegar suas coisas. De andar sem rumo por horas e horas, até os pés cansarem de vez e não aguentarem mais.
Sem dinheiro nem para comer, sem um teto para morar, sem o celular para contatar algum amigo e necessitado de, pelo menos, se enxugar e tomar um banho, Akashi tomou uma dolorosa decisão, quando foi abordado por um homem de meia idade e sondando se fazia ou não programa: ter que entregar seu corpo a ele pelo teto momentâneo do hotel e, principalmente, pelo dinheiro que aquilo renderia. Após o programa, deitado na primeira de várias camas de hotel barato, dolorosas lágrimas saíam dos olhos de Seijuuro, afinal praticamente vendeu sua virgindade por 30 mil ienes*, a virgindade que sempre reservou para ele, o “fantasma de Rakuzan”, o rapaz que amou desde o primeiro ano do colegial e nunca teve coragem de declarar.
Mesmo quando o outro formou-se da escola junto ao time de basquete escolar e partiu para Tóquio estudar na faculdade, Akashi calou seus sentimentos mais uma vez. Justamente por medo de assumir sua homossexualidade e perder tudo que tinha. Afinal o Japão real era bem diferente do show de tolerância e diversidade, que seu entretenimento pregava para o mundo, até o dia em que não aguentou mais não ser 100% ele mesmo e quebrou todas as máscaras, onde pagou por um injusto preço caríssimo por isso, pois desde quando amar é errado?
Os anos passaram-se, um, três, nove anos, e Seijuuro “conformou-se” com a prostituição, além de um ou outro filme pornô, como seu ganha pão. Aquele Akashi, de 27 anos, era totalmente diferente do “Imperador” da adolescência, a realidade cruel somada as terríveis vivências na profissão, sugaram qualquer resquício de vitalidade dele, tornando-se apenas uma vaga sombra do que era antes.
Tendo como mais “casa” hotéis baratos do que seu próprio lar, agora em Tóquio, e hábitos nada saudáveis como “melhores amigos”, os dias eram apenas dias para ele, exceto algumas datas.
A chuva caía forte e o homem, de chamativos cabelos ruivos, chorava, mais uma vez, agarrado a um travesseiro de um quarto barato de um hotel. Hoje era um dia de exceção, era um dia doloroso para ele, o dia do aniversário daquela pessoa, que nunca teve coragem de declarar, mas também nunca esqueceu. Se pudesse, pelo menos, ir até a casa de alguém, algum dos seus antigos amigos, só para saber como ele estava...
Acessou no smartphone a caixa de entrada do e-mail, para ver se tinha algum programa marcado e, para variar, tinha. Fez o processo de sempre, verificou no aplicativo do banco, se o dinheiro caído na conta conferia com o comprovante do depósito feito pelo cliente, conferência positiva, enviou outro e-mail informando o horário que estaria disponível mais o endereço de onde morava, pois, o cliente não queria pagar hotel. Fazia três anos que Seijuuro não se prostituía mais nas ruas, somente online através do seu site, devido a ascensão de imagem que os filmes pornô deram para si, mas nada escancarado. Akashi, para os filmes, usava uma peruca preta, escondia os olhos carmesim sob lentes de contato castanho claro e ainda utilizava uma máscara veneziana no rosto, quando ia filmar.
Enxugou as lágrimas, foi tomar um banho rápido, trocar de roupa mais colocar os acessórios de disfarce – retirados durante a consumação do programa, a pedido do cliente, colocar suas coisas de volta à mochila e sair do hotel, rumo a seu apartamento.
Já de volta ao lar, Akashi fez todos os preparativos para receber o cliente: uma faxina básica, tomou banho completo, com direito a fazer todo o processo de higiene íntima (a famosa “chuca”), perfumou-se, colocou uma roupa elegante além do óbvio, a peruca mais as lentes de contato. Sentado no futon, lendo um livro de H.P Lovecraft, Seijuuro esperou até o celular tocar. Era seu cliente, avisando que chegou e estava esperando-o na porta. O homem fechou o livro, marcando onde parou, colocou-o na mesa, levantou-se e foi atende-lo. Ao abrir a porta, Akashi, por um momento, ficou sem reação: a pessoa que ele sempre amou e até hoje ama, ali, na sua frente. Um misto de felicidade, por reencontrar uma parte boa do seu passado, e tristeza pelas circunstâncias que esse reencontro deu.
Teve que arranjar frieza, não se sabe de onde, para tratar o rapaz como um cliente qualquer. Deu um cordial sorriso, cumprimentaram-se e deu licença para ele entrar, retirar os sapatos, colocá-los no lugar adequado e calçar as pantufas próprias para andar em casa. Em um estranho, porém confortável silêncio, eles andaram até o quarto de Akashi.
Portas fechadas, o cliente sentou-se no futon, em seguida, Seijuuro sentou no colo do outro, entretanto quando ia começar a desabotoar a camisa do outro, recebeu o seguinte aviso:
— Eu não contratei você exatamente para sexo... – o homem acariciou o rosto de Seijuuro, deu um forte abraço nele e começou a chorar. Muito. Akashi entendeu perfeitamente o que ele queria.
Não era anormal na rotina do garoto de programa, receber clientes que não queriam sexo, queriam apenas alguém para conversar ou somente a companhia do rapaz para acompanhá-los em baladas, eventos sociais e afins, pois os preços dos seus serviços nessas modalidades eram bem mais baratos, do que os praticados por psicólogos ou agências especializadas em aluguel de companhias.
Akashi queria chorar junto com o amado, afinal doía ver a pessoa que ama em um estado tão terrível, queria consolá-lo como o velho Seijuuro do colegial, mas não podia. O lado racional e profissional do homem falou mais alto, fora os riscos do outro não o compreender e tomar atitudes nada legais. Não queria também ter mais uma decepção, além do mais que óbvio, estragar de vez o aniversário dele. Tomou a atitude mais sensata naquela situação: abraçou-o ainda mais forte e falou:
— Desabafe, estou aqui para isso.
O homem começou:
— Primeiro de tudo, desculpa por ter usado um nome falso para contratá-lo. Tive que fazer isso, porque, usei o computador do serviço para tal coisa e por minha própria segurança.
— Está tudo bem. Como diria um personagem de um seriado famoso por aí, “Todo mundo mente” – comentou Akashi, com o final da frase completado junto pelo cliente, em coro. Eles riram um pouco, o outro perguntou:
— Você é fã de “House”?
— Sim, acompanhei firme e forte as oito temporadas, torcendo sem sucesso para House e Cuddy ficarem juntos. – respondeu o garoto de programa, fazendo o cliente rir um pouco mais.
Eles começaram a conversar sobre o seriado animadamente, relembrar episódios, debater teorias, até cantarolar um pouco a música tema da série, música que fez o cliente chorar. Akashi, abraçado ao rapaz, consolou-o e fez-se todo ouvidos para o cliente:
— Voltando, melhor, indo desde o início. Meu nome é Chihiro Mayuzumi, tenho 29 anos, trabalho como revisor em uma editora, especificamente a área de light novels, então provavelmente você deve ter lido algum trabalho revisado por mim, mas enfim... Eu estou aqui, no dia do meu aniversário, desabafando com você, para chorar novamente a falta do meu grande amor do colégio, que nunca esqueci e perdi por pura covardia. É uma história longa, no colegial eu jogava basquete no lendário colégio esportivo Rakuzan, sim, eu fiz parte do “time de ouro”, mas ninguém nunca lembrou de mim, além dos meus amigos do time principal, afinal eu era somente o “sexto homem fantasma”, até ele surgir na minha vida. Aquele ruivinho teimoso, no qual peguei uma inesperada amizade e um amor ainda mais inesperado, mas... ele era um homem e a sociedade diz que dois homens não podem se amar. Um dos meus maiores arrependimentos foi na minha formatura, quando ele veio me ver, tive a oportunidade de me declarar para ele, mas não o fiz, por puro medo de ser rejeitado. Afinal, ele não era somente o homem que eu amava e até hoje amo, ele era o capitão do time de basquete, o presidente do Conselho Estudantil, o herdeiro do grupo Akashi, um dos conglomerados de empresas mais ricos do Japão, ele era simplesmente, o “Imperador” Seijuuro Akashi... Se eu soubesse o que viria depois, nunca teria escondido meus sentimentos a ele.
Akashi não conseguia acreditar no que ouvia. Era impossível mensurar tamanha felicidade, por saber que seu sentimento foi e ainda é correspondido; por outro lado, o arrependimento de não ter se declarado para Mayuzumi, no dia da formatura dele, corroía seu coração ao mesmo tempo. Continuou a ouvir o desabafo do outro:
— Continuando, eu fui para a faculdade, em Tóquio, para estudar línguas, enquanto ele continuava no colégio. Ficamos dois anos mantendo a amizade à distância, entretanto tudo que eu mais queria, naquela época, era abraçá-lo, dizer que o amava e consumar todo o amor sentido por ele. Fora o companheirismo ímpar dele quando perdi meus pais, em um acidente de ônibus. – Mayuzumi chorou ainda mais e fez um longo desabafo sobre sua família, sobre o remorso de não ter se assumido para os pais, enquanto eram vivos, sobre o fato de seu pai e sua mãe serem filhos únicos e de avós, tanto paternos quanto maternos, serem falecidos também e principalmente sobre sua solidão familiar. Em seguida, Chihiro voltou a falar do seu amor por Akashi – Até o dia em que resolvi declarar meu amor por ele, para me dar o melhor presente de aniversário naquele sábado. Tinha tudo planejado, ia até a casa do pai dele chamá-lo para sair, iríamos até Tóquio para comemoraríamos meu aniversário com nossos amigos em comum e lá, daria um jeito de declarar meu amor para ele, mas quando eu e eles chegamos na casa do Senhor Akashi, lá estava toda a família dele, de preto, em luto, porque Seijuuro foi vítima de um acidente de carro, onde ele e o motorista particular que levava-o morreram e, segundo o que me falaram, o carro praticamente prensou os dois, portanto era impossível recuperar os corpos e tiveram que cremá-lo imediatamente. Nem ficamos para aquela cena, uma das melhores amigas dele explicou no carro: “O Aka-chan não morreu! Eu prometi que nunca contaria isso para ninguém, mas agora é mais do que necessário. O Akashi é gay, com certeza o pai dele descobriu, expulsou o Aka-chan de casa ou ele fugiu e para ninguém desconfiar, o Senhor Akashi essa cena terrível. Ah, e ele gosta de você, Mayuzumi-kun”! Ali, meu mundo desabou. Como eu pude ser tão covarde? Como eu pude infligir tanto sofrimento a ele? Poderíamos ter uma linda história de amor, que cruelmente o pai dele retirou de nós. Minha vontade era de matar o pai dele, matar essa sociedade homofóbica nojenta e, principalmente, matar a mim mesmo por ter sido tão covarde...
O garoto de programa estava quase soltando suas lágrimas, quase pedindo para Mayuzumi parar, retirar seu “disfarce” e apenas se joga nos braços dele. Preferiu continuar a ouvi-lo:
— Naquele carro, nós fizemos um pacto, uma promessa de achar Akashi e seja qual condição que ele estiver, ajudar ele a se reerguer e, no meu caso, pedir desculpas pela minha omissão, pela minha covardia e fazer de tudo para ter o amor dele de volta. Os anos se passaram, todos nós seguimos nossos rumos, mas nunca esquecemos do Akashi. No aniversário dele, sempre fazemos uma lembrança significativa em homenagem a ele e quando dá, a gente se reúne também. No “aniversário de morte” dele sempre nos reunimos e nunca deixamos de procurar ele, principalmente depois que um desses amigos nossos, o Aomine, entrou para a polícia. Vasculhamos todos os lugares possíveis e impossíveis para acha-lo e nenhuma pista sequer... chegamos a pensar que, talvez, o pai dele estivesse certo, mas o Seijuuro que eu conheci, o Seijuuro que eu amo nunca deixaria se entregar tão fácil. Até um belo dia, eu vi seu filme e fiquei fascinado por sua beleza, em seguida, pesquisei sobre alguma entrevista sua e fiquei fascinado com sua visão de mundo, tão única, onde passei a admirá-lo de verdade, comprar tudo ligado a você. Até cheguei a ver você em um mercado, um dia desses, mas não tive coragem de chegar perto. Entretanto, minha vontade de conhecê-lo falou mais alto e contratei você. Um desabafo sincero de um fã que apenas quer, de alguma forma, conhecer seu ídolo da forma mais pura possível, como humano.
Akashi não sabia o que falar. Chihiro continuou:
— Mas há algo que eu não contei. Quando você foi para o banheiro do mercado, eu, infelizmente, o segui. E lá eu achei o real motivo de ter contratado você – Mayuzumi pegou a peruca de Akashi, retirou-a e prosseguiu –, eu vi ela: a pessoa que eu amo, que eu sempre amarei e que, infelizmente, não pude protege-la. – abraçou o ruivo forte – Akashi, me desculpe por ter feito você sofrer tanto, desculpa por não ter protegido você, não estar do seu lado quando você mais precisava, desculpa por ter sido covarde. Você tem todo o direito de ter me esquecido, todo o direito de odiar a mim, a todos nós, mas saiba que a gente nunca te esqueceu e eu nunca te esqueci também. Eu amo você, Seijuuro Akashi! Se sentir à vontade, desabafe tudo que você passou nesse tempo todo, você não está mais sozinho. – finalizou Chihiro, chorando muito.
Entre lágrimas, Akashi deu um sorriso como há tempos, apenas falou:
— Eu amo e para sempre amarei você, Chihiro Mayuzumi.
Seijuuro fechou os olhos, aproximou o rosto até seus lábios encostarem os de Mayuzumi e dar o beijo que sempre sonhou. Não falaram mais nada, apenas deixaram o amor fluir e tentar cicatrizar todas as feridas que o destino deixou.
“(...) Baby, apenas um beijo pelo amor
Um beijo por nós
Conte sua história
Suavemente para os meus lábios (...)”
O dia seguinte chegou, Akashi acordado nos braços do amado, acariciando os cabelos de Mayuzumi. Não conseguia acreditar que o amor da sua vida, aquele que pensou ter perdido para sempre, estava ali, de volta e o melhor, em seus braços após uma noite mágica de amor. Resolveu dormir mais um pouco.
Seijuuro foi acordado por um grito:
— Bem-vindo de volta, amigo!
E viu todos os seus amigos dos tempos de basquete e Mayuzumi junto a eles, visivelmente emocionados, comemorando sua esperada volta. A busca finalmente acabou.
As lágrimas voltaram a brotar nos olhos do homem, com os olhos carmesim não mais escondidos pelas lentes. Imediatamente, levantou-se da cama, sem se importar que estava só de cueca e foi em direção aos amigos, aceitar um apertado abraço coletivo:
— Muito obrigado por nunca desistirem de mim. Eu amo vocês, amo todos vocês.
“Quando sua mente fechar os olhos
E as lágrimas vierem falar com você
A tristeza não é mais sua...
Você fez o seu melhor.
Venha e se apoie em mim confortavelmente e não se preocupe,
Agora somos apenas você e eu...
Baby, apenas um beijo pelo amor
Um beijo por nosso amor
Eternamente, em meus braços”
(ONEKIS2 – NU’EST)
Fale com o autor