Púrpura

1 Púrpura - Capítulo Único


Notas iniciais
* Não peça por uma continuação, pois não vai acontecer :)

* Mais uma vez: Spoilers muitos spoilers

* Boa leitura!

* Sinta-se à vontade para comentar/favoritar/recomendar. Eu não mordo.

Jessica. Jessica...

Ele poderia definir em três substantivos abstratos aquele nome. Três palavras que se misturavam em sua mente, três palavras que se revezavam em seu âmago.

Amor, ódio e desejo.

Amor. Saberia mesmo o que era o amor? Definia como o que sentia por Jessica Jones. E por que a amava? Pois a desejava. Desejava-a por ser a única coisa (ou pessoa) que nunca realmente teve. E o ódio vinha por ela rejeitá-lo enfaticamente.

Como era feliz quando achava que ela era sua. Quando ela deixava-o tocar sua pele, beijá-la, acariciá-la. Quando ela o obedecia. Ou melhor, acreditava que ela o obedecia. E por que diabos ela tinha feito tudo aquilo, se não era sua? Pura e espontânea vontade?

Talvez ela também o amasse. À sua maneira.

Ah, o ódio. Este teimava em confundir-se com o amor.

Sim, ele a amava. Nunca havia amado naquela intensidade, nem mesmo Melanie*. Mas tinha vezes em que a queria morta. Morta, com seu sangue manchando seu casaco de couro de profundo mau gosto. Os olhos esverdeados, antes vítreos e cheios de desconfiança, opacos. A boca, antes usada para desferir ofensas e ameaças a ele, calada, sem o rosado habitual. A pele que tanto gostava de tocar, macia e delicada, gélida. A respiração, tão necessária aos seres vivos, cessada. A imagem de Jones morta lhe dava um misto de assombração, satisfação e medo.

Tivera tantas oportunidades de acabar com aquilo. Tantas vezes em que simplesmente poderia ter ordenado alguém realmente competente para pôr um fim em sua existência, ou fazê-lo com suas próprias mãos.

Mas era um covarde. Um covarde apaixonado.

O que levava a alguém a querer matar a sua única ambição?

Não apenas matar a ambição em si. Tudo que a rodeava. Ele sabia que Jessica havia se cercado com uma vidinha medíocre aparentemente normal para esquecer tudo o que haviam passado juntos. E aquilo o magoava, de certa forma. No que havia errado? O que fazia que a enfurecia tanto? Decerto, talvez mandar pessoas se matarem não fosse algo bom aos olhos dela. Inocentes, conseguia ouvir a sua voz esperneando em sua consciência. Espere, ele tinha uma consciência?

E fizera tanto por ela. Não só matar. Salvar quatro vidas inocentes, segundo ela. Para ele, se aquela família iria sobreviver ou não, não era de sua conta. Mas Jessica sentia-se satisfeita com o seu feito. E se ela estivesse bem, ele também estava.

Ah, e tinha mais a acrescentar depois de toda aquela cena depois de ela ter lhe dopado na casa deles. Mágoa. Uma prova do asco dela por ele. Por Deus, ele havia restaurado com perfeição o lugar que continha as melhores memórias da vida dela! E que acreditava que era onde as novas e felizes memórias dos dois seriam construídas. Onde seriam... Felizes? Aquilo que ele queria com Jessica, era finalmente a felicidade?

Não importava mais. Ela havia lhe trancado numa cela, só, desiludido. Talvez para morrer. Mas não. Ela se importava mais com Hope Schlottman e ela mesma do que ele. Do que a vida que teriam juntos pela frente. Ela não apreciava todos os seus esforços. Pelo contrário, jogava-os na lama e cuspia por cima deles.

Acreditar. Acreditar nas palavras de Jessica Jones haviam lhe custado muito. Sua sanidade, seus planos, seu amor próprio. Mas era um tolo feliz. Ou seria um tolo feliz se os dois acreditassem naquela mentira que era a felicidade um com o outro.

E acreditar nas palavras de Jessica Jones foi a sua ruína.

O cais. O iate. Patsy. O beijo. Mais uma vez, havia acreditado. Havia sido otimista, havia sido feliz. Por instantes. Ele a amaria como sempre havia amado, e ela, com o tempo, aprenderia a lhe amar de volta. O ódio, o desejo, o amor. Todos não seriam em vão.

Sorria.

E então, Jessica torceu-lhe o pescoço. E Killgrave nunca sentiu mais nada por ela.

Notas finais
Nota:
*Melanie Killgrave foi a primeira esposa dele, obrigada mentalmente a casar-se com ele. Dessa união, nasceu Kara Killgrave, mais conhecida como a heroína Persuasão. Achei interessante a ideia de inseri-las nesse universo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!