Pôster

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá! :D

Muito obrigada a todos que se interessaram em ler essa história! Saiu um pouquinho maior do que eu imaginava, espero que o tamanho dela não desanime a leitura xD Qualquer coisa, leia em parcelas para não cansar! hehe

Oneshot Phichit centred, então você pode decidir se a realidade está alterada sob os olhos do rapaz ou não. Me conta depois o que achou! ;)

Mil beijos para o Morango preferido que só me incentivou nessa oneshot! Obrigada, Di!! ♥

No mais, boa leitura!

And I hope that you won't mind, my dear
When you see my eyes are lined, my dear
It's because I've waited all these years

.:.

Para Phichit Chulanont, o que restava era a solidão de seu quarto vazio. A metade pertencente a Yuuri estava saturada de pôsteres de Victor Nikiforov, sufocando o cômodo e parecendo avançar sobre o jovem patinador, uma presença esmagadora impressa em papel que não o deixava esquecer como Yuuri era — para seu incômodo — fascinado pelo astro russo.

Todos aqueles ângulos, todas aquelas poses… Nem o próprio Victor deveria conhecer tantos lados de seu corpo quanto Katsuki e sua coleção de fotografias. Jamais diria ao amigo como odiava acordar de manhã e se deparar com as caras e bocas de Nikiforov o encarando, quase zombando de si, abrindo brechas para a voz de seu interior ecoar por todo o cômodo e dentro de sua cabeça; Yuuri liga mais para um pedaço de papel do que para você.

Arremessou um travesseiro na parede risonha, fazendo uma foto aleatória sumir atrás da cama, três pôsteres de tamanhos distintos caírem sobre o lençol e outro rasgar. Por um momento se preocupou e sentiu a culpa acertar seu coraçãozinho ciumento, traiçoeiro sentimento que acabou por impulsioná-lo para fora de seu colchão, o fazendo enfrentar o lado vazio do quarto e desbravar os pertences de Yuuri sob o olhar impresso de Nikiforov. Seu nervosismo não se dava pelos pedaços de papéis estampados, as assinaturas de Victor impressas a exaustão nas inúmeras cópias baratas ou estupidamente caras do patinador russo, mas sim pela foto, um registro dele e de Yuuri, tirada por única e exclusiva iniciativa de Chulanont. Aquela foto era, para Phichit, a luz esperançosa brilhando no lado obscuro daquele quarto, a única imagem que não tinha nenhum traço do ídolo de seu amigo, nenhum traço sequer de patinação. Nada daquele mundo gelado e hostil, apenas os dois. Saber e ver seu rosto sorridente ao lado da expressão tímida de Yuuri entre os clones de Nikiforov, davam a Phichit uma estranha sensação de alívio. Não importava quantas cópias se estendessem pelas paredes, a única coisa real ali eram eles, o único rosto perto ao de Yuuri era o de Phichit.

Isso, nem os mais loucos sonhos de seu amigo poderiam mudar; Victor jamais teria esse espaço ao lado dele.

Recuperando a foto caída, fez questão de recolocá-la no lugar, fingindo não ter sido sua culpa a queda do registro. Até Yuuri voltar, ele pensaria se prenderia novamente ou não os pôsteres, talvez até tivesse tempo de formular uma desculpa ou fingir-se surpreso quando voltassem do aeroporto no retorno de Katsuki. Phichit, como de praxe, buscaria o amigo, naquela força do hábito que já havia se tornado uma necessidade, a de fazer-se presente tanto quanto possível na vida de Yuuri; Era assim que o tailandês pretendia ganhar terreno no coração tão gentil de seu colega de quarto e também interesse amoroso. Phichit sabia que com um pouco de insistência e paciência, esse objetivo seria relativamente fácil de atingir. O caminho até Yuuri parecia ser feito de um material muito delicado, quase sendo possível notar as rachaduras deixadas por descuidados que pensaram ser capazes de caminhar por ali. O próprio patinador percebia às vezes errar um passo ou dois, todavia, nunca havia causado um só arranhão nesse trajeto. Era delicado e exigia muito cuidado, porém se tratava de uma reta; ele conseguia facilmente ver Yuuri o esperando do outro lado. Tudo valeria a pena.

Esquecendo-se de Victor estampando cada pedaço daquela parede, Phichit abriu o live stream do Grand Prix Final e, como sempre, torceu por Yuuri.

No entanto, aquele resultado ninguém esperava, muito menos Chulanont.

Com celular em mãos, acessório esse inseparável, correu seus dedos pelo teclado digital, escrevendo e apagando repetidas vezes as frases que conseguia pensar. Geralmente as palavras vinham fácil para ele, muito sociável em qualquer tipo de situação, mas Katsuki não era uma situação, era um alguém — e um alguém importante demais para merecer palavras fáceis vindas de Phichit. Se não fosse para fazer a diferença, ele nem tentaria.

Não se preocupou com o custo de uma ligação internacional, frustrando-se ao perceber a linha ocupada. Talvez o patinador estivesse com Celestino, ou falando com a família. Phichit queria acreditar nisso e esforçava-se para manter a ideia em mente. Se ele soubesse que o amigo estava novamente trancado no banheiro aos prantos, atravessaria céus e mares para acolhê-lo. Deixou o celular de lado e escondeu o rosto em suas mãos trêmulas, respirando fundo e tentando se acalmar.

— Ele está bem — foi a única coisa que conseguiu falar em voz alta para se motivar. — E ficará melhor quando voltar para casa.

A certeza de suas palavras o animaram o bastante para retomar o telefone e começar a digitar uma mensagem. Nada muito expansivo ou que o fizesse se sentir acuado; com Yuuri precisava agir com cautela e suavidade e era exatamente isso o que Phichit planejava:

“Estou orgulhoso do quão longe conseguiu chegar, Yuuri. Se precisar conversar com alguém, já sabe. Estou te esperando em casa.”

Aguardou um momento, ansiando por ter suas palavras respondidas por Katsuki. Não se atentou aos minutos intermináveis que seguiram sem retorno, quase chorando de alívio quando o telefone notificou a resposta de Yuuri.

“Muito obrigado, Phichit.”

Simples, porém cheio de significado, tal como o próprio patinador. Chulanont reconheceria suas palavras em qualquer lugar do mundo, por senti-las pulsando a suavidade que parecia emanar apenas de Yuuri. Mais aliviado, Phichit só teria de esperar um amontoado de horas para sentir toda aquela sensibilidade pulsando perto de si mais uma vez.

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Yuuri não queria conversar, o que não era novidade. Enquanto Celestino parecia falar pelos cotovelos — o que também não era novidade -, o japonês estava encolhido no canto do carro, encarando os punhos sobre os joelhos, fechados de tal forma que ele parecia prestes a começar uma briga. Phichit sabia que a única batalha a qual o amigo se meteria seria com ele mesmo, naquela necessidade de se punir e machucar pelo que considerava ser uma falha. O tailandês queria poder ajudar, mas isso não seria possível com Ciao Ciao por perto.

— Chegando em casa eu quero saber dos detalhes da competição. — sorriu em sua animação habitual, tentando incentivar o amigo a falar.

— Ah, foi incrível! Poderá ver você mesmo no próximo ano, Phichit! — Celestino tomou a vez, atravessando a frustrada tentativa de conversa do rapaz. — A energia de um GP é totalmente diferente, tenho certeza que você conseguirá levantar o público!

Aquele tipo de elogio inflaria o ego de qualquer um, principalmente o do tailandês, que sentia seu interior queimando de excitação ao sonhar acordado com aquela realização, momento único de sua vida e uma das coisas mais desejadas pelo patinador — a outra estava bem a seu lado. No entanto, Yuuri não sabia lidar bem com elogios para si próprio e muito menos os direcionados a outras pessoas.

— Com certeza, Phichit. — mesmo com o semblante visivelmente desolado, ele sorriu. — O público amará você, não teriam como não amar.

A declaração abriu brechas para duplo sentido de interpretação e por pouco Chulanont não se perdia em suas fantasias apaixonadas. Escondendo aquela sensação de ser importante — afinal, Yuuri tinha dito com todas as letras que não teriam como não amá-lo — em algum canto de seu interior, mantendo a atenção em Katsuki. Ele teria tempo para rir e suspirar ao lado de sua esperança em outra oportunidade.

— Assim como também amaram você. O público só sabia lamentar sua baixa pontuação nas redes sociais, eu revirei todas elas, não teve uma só pessoa que não quisesse ter visto sua apresentação em um dia melhor.

— Não teria um dia melhor e sim um patinador melhor. — murmurou, não absorvendo nenhum dos elogios.

— Você é o melhor do seu país, Yuuri!

— Mas não foi o bastante.

Percebendo enfim o que ele queria dizer, Phichit se calou. Yuuri não tinha sido o bastante para pisar no pódio ao lado de Victor. Yuuri não tinha sido bom o bastante para ser visto em pé de igualdade com o ídolo que poluía visualmente seu quarto. O tailandês poderia jurar que se Yuuri tivesse conquistado pelo menos o bronze, teria uma síncope no pódio. Egoísta e reconhecendo o ser, Phichit agradecia o fato de Victor continuar inalcançável, longe de Yuuri ainda que fosse por cinco colocações. Talvez na próxima competição, com a estrelinha fora de jogada, a obsessão de seu amigo acabasse, conseguindo dar seu melhor em uma competição daquele nível e, quem sabe, ambos dividindo o pódio na final? As expectativas para o futuro pareciam ótimas.

Celestino deixou o carro falando alto no celular, deixando os dois rapazes voltarem por conta própria ao dormitório. Assumindo as malas, Phichit ajudou Yuuri com seus pertences, atravessando todo o caminho de corredores e escadas até a ala destinada aos patinadores. O espaço era grande e com o silêncio estabelecido pelo japonês, a distância parecia ainda maior. Para uma pessoa sociável e animada como o rapaz mais novo, ser condenado à falta de interação era uma tortura; ele queria poder tirar fotos com Yuuri, encher o registro de tags e postar em suas redes sociais, celebrar o retorno do patinador para casa e expôr em letras garrafais como ansiava por patinar junto a ele no próximo Grand Prix. Phichit não tinha nenhum ídolo a qual fosse grande fã, sequer guardando revistas dos maiores patinadores ou mantendo algum autógrafo consigo, diferente da maioria dos patinadores que conhecia. Se a parede de Katsuki, por exemplo, era ilustrada com as várias faces de Nikiforov, sua mente certamente era forrada com as expressões de Yuuri. Todos os sorrisos, todos os olhares — doces, assustados, envergonhados, irritados, intensos— todas as poses e contornos… Por quê Phichit gostaria de compartilhar todo seu conhecimento sobre Katsuki se o mundo não merecia saber? Certas coisas ficavam melhores sendo apenas de seu conhecimento.

Chegando em frente a porta do quarto compartilhado, Chulanont deixou as malas de lado e abriu passagem para o amigo entrar antes dele. O ambiente trazia um acolhimento enorme, cenário em comum e que tanto havia ilustrado os últimos anos. Aquele único cômodo era um mundo apenas deles, não interessando a guerra que se travasse do lado de fora enquanto aquelas paredes ainda os escondesse.

As paredes com Victor Nikiforov. Foda-se.

— Você tem certeza que não quer conversar, Yuuri? — a pergunta foi suave, apenas uma sugestão de que ainda estava ali por ele. Respeitaria o silêncio do amigo se assim ele quisesse, mas sabia ser um dos poucos portos seguros do patinador mais velho, ainda mais estando Yuuri tão longe de casa.

Phichit o ouviu respirar fundo, como se puxasse pelas narinas a coragem necessária para começar a falar.

— Ele não sabia quem eu era. — por um momento, enormes interrogações circularam a mente do tailandês. Ele quem? — Pensou que eu fosse um fã, até me ofereceu uma foto. — a risada melancólica fechou o lamentar. Seus olhos escuros olharam para os rostos do patinador russo e um triste sorriso enfeitava seu rosto abatido pelas horas exaustivas da viagem.

A certeza atingiu Phichit como um soco na altura do molar.

— Victor? — sua voz saiu levemente alterada, deixando todo seu abalo visível no rosto chocado, lábios entreabertos de uma incredulidade que não cabia em Chulanont, não cabia sequer no pequeno mundo que eles chamavam de quarto. — Como assim ele não te reconheceu? Vocês patinaram no mesmo grupo!

— Eu sei. — a resposta de Yuuri mais parecia um lamento e Phichit mal podia acreditar no que aquilo significava.

— Não me diga que se sente culpado! Eu não vou deixar você falar isso, Yuuri! — exclamou, apontando o indicador trêmulo de forma acusatória. — Você não vai se rebaixar desse jeito!

Yuuri tentou argumentar, mas seus lábios abriram-se apenas para expulsar os soluços que faziam todo seu corpo tremer. Culpado por fazer romper a frustração guardada desde o descaso de Nikiforov, restou a Phichit se aproximar mais uma vez em silêncio. Ele não queria sequer cogitar como teria sido a interação de Yuuri no banquete com os outros competidores depois daquela humilhação. Se aquele homem tivesse pelo menos ideia do que representava para o patinador japonês, teriam agido de tal forma?

Phichit percebeu que não queria saber da resposta.

— Me desculpe. — o pedido saiu com a voz embargada de Yuuri.

— Sou eu quem deve te pedir desculpas. — murmurou, abraçando-o como há muito estava acostumado. — Não queria ter gritado com você, mas me parece tão injusto que sofra por causa disso… — tendo o olhar impresso de Victor o encarando com um sorriso falso fez o tailandês considerar rasgar todas as caras de Nikiforov, as de papel e a de verdade. — Quem ele pensa que é?

A afronta feita para o pôster teve o mesmo peso que a feita para a pessoa real teria, caso Victor em carne e osso estivesse ali. Ainda que sua presença platinada fosse uma afronta àquele quarto, quase um templo dos dois amigos, Phichit teria feito questão de enfrentá-lo.

— Victor Nikiforov.

— O quê?

— “Quem ele pensa que é”. — respondeu Yuuri, dando de ombros. O choro havia cessado e ele parecia um pouco mais calmo.

— Grande coisa. — balbuciou, mesmo sabendo que para Katsuki aquilo era sim, uma grande, enorme coisa.

— Eu acho que vou tentar dormir um pouco, agora… A viagem não me deixou descansar muito bem.

— Claro. — concordou, se afastando de Yuuri com cuidado. A qualquer traço de instabilidade seus braços voltariam a envolvê-lo e não soltariam tão fácil. — Precisando, eu estou ao alcance do seu braço.

Ouviu uma risada, mas não teve nenhuma resposta mais concreta. Observou enquanto o amigo tirava os casacos mais pesados e, tamanha sua exaustão, deitava no colchão sem se preocupar em puxar algum cobertor. Dormiu tão logo repousou a cabeça no travesseiro, fazendo Phichit rir ao ver o óculos torto no rosto inchado de sono e lágrimas. Com cuidado retirou o acessório, estendendo por cima do corpo relaxado uma colcha mais leve. Era um alívio tê-lo de volta, ter seu quarto novamente preenchido, ainda que Victor continuasse estranhamente presente na vida de Yuuri.

Phichit estalou a língua, arrependendo-se de ter recolocado os pôsteres na parede.

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Surpreender o público era parte essencial na apresentação de um patinador, coisa que Phichit pensava não ser mais possível para Victor. O mundo todo bajulava e puxava o digníssimo saco purpurinado de sua estrela preferida, não dificultando em nada sua nota sempre impecável. Os juízes não perdiam seus tempos analisando possíveis falhas de desempenho, os fãs só faziam gritar cada bater de coração daquele que parecia sempre exibir uma linda e impecável cabeleira platinada. As pessoas já não ligavam para o que Nikiforov poderia fazer, ninguém mais se surpreendia. Como ídolo ele poderia faturar suas cifras, porém como artista, Chulanont tinha certeza de que ele estava morto.

Porém, se de surpresas vivia um patinador, esses acontecimentos poderiam ser tão bons quanto ruins, um traiçoeiro sentimento de interpretação ambígua, tal como a esperança — e isso o tailandês aprendeu da pior forma possível.

— Mas por que voltar para o Japão? — sua voz falhou pela surpresa.

— Preciso pensar um pouco depois da final do Grand Prix, não sei… Reencontrar em mim a razão para patinar, recuperar esse amor pelo gelo.

— E não pode fazer isso aqui? — a esperança o traiu, fazendo faiscar expectativa em seus olhos.

Yuuri sorriu, tocado pelo carinho do amigo. Todos aqueles anos vivendo longe da família e tendo apenas nele apoio os aproximou muito. A ajuda era mútua e o japonês não teria nenhuma dúvida caso perguntassem a ele quem era seu melhor amigo.

— Desculpe, Phichit. — era a única coisa que ele conseguia dizer.

De surpresas vivia um patinador. O rapaz estava percebendo que não tê-las era bem melhor do que vivê-las. Nisso Victor Nikiforov estava sendo um grande afortunado.

Saber que Yuuri deixaria aquele pequeno mundo compartilhado fez Phichit sentir-se impotente. O quarto que para dois muitas vezes parecia pequeno, ficou cada vez maior a medida que o Katsuki limpava os armários, guardava pertences e esvaziava as paredes. Chulanont não queria admitir como a retirada de tantas gravuras o deixavam atordoado; ver os pôsteres deixavando o quarto era confirmar a partida de Yuuri, pois o japonês não iria a lugar nenhum sem os preciosos registros de Victor.

Yuuri estava indo embora com Victor. Um de papel, mas ainda assim, um Victor. Phichit estava sendo deixado para trás por um (monte de) pôster. Ele queria chorar.

— Talvez você possa ir até Hasetsu, conhecer Yuu-topia! Eu te mostraria tudo por lá! — Yuuri dizia tentando animar mais a si mesmo que ao amigo. Acreditar que sua cidade tinha potencial turístico era forçar em sua mente a ideia de estar tudo bem sair de Detroit para se enfiar no primeiro buraco e chorar sua incompetência profissional. — E finalmente poderia comer Katsudon! Eu já devo ter dito para você como Katsudon é meu prato preferido, não é?

Phichit forçou um sorriso para deixar o amigo mais calmo, voltando a lamentar assim que Yuuri voltou as costas para finalizar a mala. Ir visitá-lo para comer Katsudon? Não era bem essa iguaria japonesa que ele gostaria de provar.

Ver Yuuri ir para o salão de desembarque foi… Estranho. Phichit esbarrava nos transeuntes sem conseguir desviar ou se desculpar pelo acidente. Seus reflexos estavam lentos, sua percepção alterada, enquanto o cenário parecia envolto em neblina, parecendo um sonho meio desbotado, com o som ambiente baixo demais para o tumulto de um aeroporto. Não tinha percebido ser tudo aquilo resultado de pressão caindo durante toda a despedida, até o aviso do voo para o Japão indicar a partida do avião, de Yuuri, de seu amor. Desmaiar depois de todo aquele turbilhão emocional era uma consequência, mas para Celestino foi uma surpresa e um desespero. Perdendo-se na inconsciência, Phichit achou graça de como podia ser gratificante observar a reação das pessoas diante o inesperado. A surpresa continuava sendo uma faca de dois gumes.

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Se Yuuri não conseguia tirar os olhos de Nikiforov, assim também era o resto do mundo. Calado a respeito de seu futuro e dando ao público o benefício da dúvida quanto a próxima temporada, Victor havia desaparecido dos holofotes e de todas as redes sociais possíveis, verificação cuidadosamente feita pelo patinador tailandês. Deveria estar se sentindo aliviado, porém por algum motivo, um incômodo pesava em seu estômago constantemente e por vezes fazia o ar parecer estar se esvaindo. Que má impressão toda era aquela? Estaria ele doente?

Celestino tentava tranquilizá-lo, dando seus palpites como se fossem diagnósticos definitivos e de veracidade inquestionável. Abriu para sua mais nova aposta da patinação a oportunidade de escolher quais músicas queria apresentar na nova temporada, discutiu abertamente quais eram seus pontos mais fortes e os dignos de melhora, tudo para incentivá-lo nos treinos. O técnico não queria reparar demais na vida de Chulanont, mas era evidente como a partida de Yuuri o tinha desestabilizado.

Você está bem, só precisa descansar. — de qualquer forma, não poderia deixar o próprio alimentando o desânimo. — E comer direito, para não desmaiar como no dia do aeroporto.

Claro, ele desmaiou por fome. Até Ciao Ciao precisou admitir que havia forçado um pouco naquela leve mentira.

— Tem razão. — o rapaz riu, cerrando os olhos escuros e dando uma risada nervosa, muito ocupado com o smartphone que tinha em mãos.

— Há algo que queira me dizer? — Celestino não esperava nada vindo de Phichit, preocupado apenas em treinar o que mandavam e registrar cada pausa de seu trabalho para seu instagram. Apenas usou o modo mais fácil de mudar e então enfim dar o assunto por encerrado com a previsível negativa do rapaz

— Oh sim, eu tenho uma pergunta. — o italiano quase caiu para trás. Não pensava sequer que Phichit lhe dava ouvidos quando perdido em seu mundo digital e agora o via não só atento como interessado em fazer mais que obedecer suas ordens. — Acha que consigo fazer isso?

O jovem virou a tela do telefone para Celestino, exibindo uma das performances de Victor. Não era o famoso quad flip, aquele salto insano e marca registrada de Nikiforov, mas mesmo um quádruplo bem feito tinha seu charme e impacto. A força de Phichit sempre esteve presente em suas interpretações e, sendo o tailandês dono de um carisma natural, era fácil fazer o público se animar com ele. Dependendo do que quisesse montar para a temporada, aliar seu apelo popular com saltos bem colocados renderia, se não o pódio na série do Grand Prix, pelo menos uma pontuação boa o bastante — e a atenção dos juízes.

— Claro! Podemos mudar o foco do seu treinamento, treinar os saltos com mais intensidade. Entradas e finalizações são importantes, devemos nos atentar a elas, também, podemos conseguir um resultado muito bom! — deixando sua animação tomar a fala de Phichit, Celestino continuou dando sua visão sobre o assunto. — A Morte e a Donzela tem uma entrada forte, da qual você poderia se beneficiar e…

Interrompendo o discurso, Chulanont deu um sorriso largo.

— Eu quero que, tanto meu programa curto quanto o longo tenham composições de O Rei e o Patinador.

O italiano arqueou as sobrancelhas.

— Que filme é esse?

— Filmes! — riu, dedilhando a tela de seu celular a procura de imagens do musical. — A história é sobre um rei que descobre seu amor pela patinação! Eu quero patinar ao som de Shall we skate?, talvez para o programa curto e estive também pensando em Terra Incógnita para o programa livre, eu… — sem ter mais palavras para expressar sua animação e determinação, ele riu, convidando Celestino a fazer o mesmo. — Ciao Ciao, eu quero ser o príncipe tailandês dessa competição.

Dando um tapa em sua perna, em uma expressão dramática e típica de sua personalidade contagiosa, o técnico riu. Talvez a partida de Yuuri não tivesse sido assim tão ruim. Tinha muito respeito pelo profissional de alto calibre que era Katsuki, mas ter Chulanont como frescor seria ótimo. Um príncipe? O público iria adorá-lo como um rei e Celestino já podia vê-lo com o pescoço adornado pela medalha de ouro!

— Só que, para isso… — Phichit reduziu o entusiasmo em sua voz, ganhando novamente a atenção do italiano. — Eu quero voltar a treinar na Tailândia. — concordando sem nenhum traço de condenação, Celestino retrucou.

— Tudo bem, mas pode me dizer a razão?

Ele só queria ter certeza que de a causa dessa mudança de ares não fosse por Yuuri Katsuki.

— Eu quero que os juízes olhem com mais atenção para o meu país. Eu quero que meus conterrâneos amem patinação como eu também amo. Quero trazer o apelo popular da minha terra para o rinque e acho que lá, mais do que em qualquer outro, eu conseguirei isso.

A fala era bonita e muito bem ensaiada, conseguindo enganar Celestino perfeitamente, ao ponto do italiano aplaudi-lo e falar qualquer coisa que ele não prestou atenção. Se Ciao Ciao, mesmo com os gastos envolvidos nessa mudança brusca de rotina, estava disposto a se mudarem, tanto melhor. Ele não precisava saber que a razão dessa mudança de ares era Yuuri Katsuki.

Phichit não patinava para o japonês, ele patinava porque simplesmente gostava. Toda sua rotina no gelo era, para o jovem, perfeita, envolvendo desde o aquecimento antes dos treinos até a sensação de dever cumprido ao deixar o rinque, para relaxar um dia de trabalho bem feito na companhia de Yuuri, às vezes jogando conversa fora e perdendo palavras pelo ar, outras perdendo suas roupas. Phichit sabia que não poderia continuar com sua rotina de antes se ele pretendia melhorar e ir um passo além. Ficar preso em Detroit o desanimaria porque o dia-a-dia não seria como antes. Precisava mudar todos os aspectos de sua vida caso quisesse levar a ideia do príncipe patinador para frente e estava decidido quanto a isso.

Reconhecendo o potencial de seus programas e a história por trás deles, Celestino decidiu que além da mudança para a Tailândia, Phichit merecia o investimento de um especialista em marketing. Tirou do próprio bolso a consultoria, planejando ele mesmo como promover seu patinador e aproveitar de sua popularidade nas redes sociais para atrair atenção. Atiçar o público era atiçar os juízes e tudo o que estivesse ao alcance do italiano seria feito para torná-lo o príncipe desejado. Tendo o sucesso em mente, foi aos risos que ele preparou tudo para irem embora de Detroit, ignorando o que deixariam para trás e mantendo os olhos no futuro dourado os esperando no futuro.

Se para o italiano a partida estava sendo visto com tanto potencial, para Phichit era um pouco triste deixar o quarto que improvisou sua casa nos últimos anos. Esvaziar sua parte do cômodo era como ir reabrindo aos poucos a cicatriz de uma ferida antiga, fazendo jorrar de cada foto tirada e cada gaveta esvaziada, os momentos vividos ali, as lágrimas, os risos, os sussurros e as promessas. Puxando o zíper ele fechou a mala, calando dentro dela suas memórias. O silêncio reforçou a sensação desconfortável, insinuando em sua falta de falas o que ele estava deixando para trás.

Nostálgico, arrastou os pés até a cama de solteiro usada por Yuuri, deitando ali e sentindo sua saudade traí-lo ao fazê-lo lembrar das inúmeras vezes que os dois se estreitaram fosse naquela cama, fosse na cama ao lado, fosse pelo apoio mútuo ou pelas descobertas encontradas um no outro, assim como o amadurecimento de cada toque. Fechou os olhos, forçando as lágrimas a ficarem, ciente de não ser aquele o momento para derramar nenhuma delas. Estava pronto para se dedicar em mais uma temporada e, com uma possível folga futura, quem sabe ele não aceitaria o convite de conhecer Hasetsu ou Yuuri finalmente poderia conhecer as praias tailandesas junto a Phichit?

Voltou a abrir os olhos, encarando o teto e se alongando um pouco mais. As batidas na porta acompanhadas do chamado de Celestino foram responsáveis por fazê-lo se erguer daquela cama, despedindo do cômodo vazio mais uma vez. Aquele já não seria mais seu pequeno mundo compartilhado, mas, por alguma razão, ele ainda sentia a presença de Victor Nikiforov nas paredes divididas de Yuuri.

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“Adorei sua interpretação de Stammi Vicino! Ficou melhor que a do próprio Victor!”

Aproveitando a pausa do treino, Phichit enviou um sincero elogio ao amigo. Ele não tinha chegado a assistir o programa livre de Nikiforov, mas assim que o vídeo viralizou até seu país, teve que se obrigar a recapitular o final da temporada passada com um gosto amargo na boca. A atuação era mesmo impressionante e ele não conseguia aceitar como um homem que patinava sobre uma jornada romântica tinha a falta de tato de ignorar a presença de seus colegas de rinque. O reconheceu como merecedor do pódio e mudou de vídeo, bem mais animado com a interpretação de Yuuri, embora a performance fosse a mesma.

Existia algo profundamente tocante na forma como, não importasse quão parecida fosse uma coreografia, o diferencial dela morava nos detalhes, na interpretação e no emocional passado pelo patinador. Enquanto, por qualquer que fosse o motivo, Victor parecia desolado e profundamente machucado em seu programa, Yuuri fazia vibrar uma intensidade emocional, uma busca tão profunda pelo amor perdido cantado em Aria, que por um momento Phichit desejou ser ele esse amor. A música não se fazia presente no vídeo, apenas no pulsar de seu corpo, sempre tão expressivo, ecoando até seu coração e fazendo-o bater descompassado. Era lindo, maravilhoso e uma das melhores interpretações que Phichit já tinha visto seu amigo fazer. Ele era um patinador brilhante e aquele vídeo só confirmava isso.

“Obrigado, Phichit!” de onde estava, Chulanont conseguia imaginá-lo corando. “Quem me dera ser tão bom quanto Victor Nikiforov!”

Ao ler a mensagem, o rapaz projetou os lábios em um bico chateado. Ficava profundamente incomodado com a visão distorcida que o japonês tinha de si mesmo e depois do GPF, sua autoestima parecia ainda mais frágil.

“Você é tão bom quanto Yuuri Katsuki!” respondeu, ficando no aguardo do retorno.

— Phichit, já deu seu tempo de descanso! — Celestino o chamou.

— Já vou!

“Como sempre, você me animando. Muito obrigado, Phichit.” o jovem sorriu com carinho. “Espero um dia conseguir competir com você.”

Competir com ele e não contra. Para Chulanont esse desejo tinha muito significado.

“What do you see from there?”

Phichit riu alto ao reconhecer o trecho e isso o fez amar Yuuri ainda mais.

People sing royal anthem, Your majesty...

A introdução de Shall we skate?

“Você será brilhante, Phichit.”

“Nós dois seremos”

— Phichit!

“Até mais tarde, Yuuri!”

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Deslizando pelo rinque e sentindo o frio dele emanar suavemente a seu redor, o tailandês repassou a coreografia a sétima vez naquele dia. Ofegante e não conseguindo mais executá-la adequadamente, Phichit forçava-se além de seus limites para conseguir ao menos ter um registro decente de sua performance para atualizar suas redes sociais. Há três dias não conseguia um bom desempenho e isso o frustrava; acostumado a deixar sua evolução visível a todos seus seguidores — principalmente agora que fazia sua terra natal o centro de treinamento -, não ter nada para exibir o fazia sentir com os patins presos no solo, atrasado em relação aos outros competidores. Queria poder honrar o nome de seu país, atrair os olhos para si e guiar seus seguidores naquela jornada maravilhosa feita de sangue, suor, lágrimas e gelo. Phichit queria ser o rei de seu filme preferido e causar o tipo maravilhoso de impacto que aquela produção havia causado nele e, não conseguir alcançar os patins dourados da majestade cinematográfica, o frustrava e irritava.

Aproveitando a desatenção de seu técnico e coreógrafa, ele se arriscou em mais um salto, não tendo força o bastante para a finalização. A queda não foi agressiva, mas o peso de não conseguir mais prosseguir o deixou estirado no gelo, ofegante e com os olhos escuros marejados denunciando sua vontade de chorar. Por que tudo estava sendo tão difícil? Por que sentia estar ficando para trás?

— Você consegue acreditar nisso? — Celestino soou incrédulo e um tanto decepcionado. Phichit estava pronto para se desculpar quando percebeu não ser ele alvo de tanto descontentamento.

Distraído com a notícia estampada em seu celular, Ciao Ciao procurava por mais informações, tendo seus olhos e de outras três pessoas presos no artigo. Qualquer um diria que aquilo nada mais era que especulação, sensacionalismo barato, no entanto a foto de Victor em Hasetsu confirmava sua presença em solo japonês.

— O que ele pensa que está fazendo?

Alheio ao ocorrido, Phichit continuava deitado, ouvindo os resmungos do italiano.

— Yakov se manifestou a respeito? — perguntou a coreógrafa.

— Mandei uma mensagem, mas pela filmagem feita de uma entrevista, não acho que o nervosismo tenha passado.

— Acha que foi pelo Yuuri?

Ainda alheio, o tailandês pensou ter ouvido errado.

— O rapaz reproduz a coreografia que garantiu a Nikiforov o quinto ouro mundial de sua carreira e poucos dias depois, Victor está tirando foto na cidade natal do rapaz e fazendo check-in em Yuu-topia. — todos aqueles detalhes pegaram Phichit desprevenido, o atordoando. — Ou ele está querendo causar todo esse burburinho ou Victor tem menos cérebro do que eu pensava.

— Acha que ele pode querer ser técnico de Yuuri, ajudá-lo na próxima série? — a expectativa de Chulanont pela negativa o deixava sem ar.

— Ele não quer ajudar Yuuri. — a certeza com a qual afirmava aquilo deixou o tailandês doente. — É como Yakov disse, Victor é um egoísta que se importa apenas com ele mesmo. Eu não posso dar detalhes da vida pessoal dos patinadores e também não me interessa o que eles fazem de suas vidas, mas eu já vi do que ele é capaz de fazer para continuar em destaque e do que ele já abandonou para isso. Victor não tem paciência e desistirá de Yuuri tão logo perceber que o rapaz precisa mais do que seu sorriso e pose.

Phichit passou por Celestino como um vulto, com tamanha pressa em deixar o rinque que seu técnico se preocupou com a saúde do rapaz.

— Está tudo bem, Phichit?

— Só preciso de uma pausa.

A pausa se estendeu até a manhã seguinte.

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— Quando você vai parar de brincar de técnico?

Ainda que Yuuri parecesse feliz na companhia de Victor — e como não estaria sendo ele um dos maiores, ou quem sabe o maior, fã do astro russo? -, Phichit continuava se apegando àquela declaração de Celestino. Nikiforov estava brincando de ser técnico. Ele estava sendo sempre bajulado pelo público por ser patinador, queria agora era ser bajulado por treinar alguém. As pessoas sempre se atentaram a ele, era impensável Victor dar a mesma atenção e dedicação a outro alguém, principalmente depois de ter ignorado a existência de Yuuri na Final. Se Celestino não confiava no comprometimento de Victor, Phichit também não levaria o russo a sério.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando Yuuri parecesse satisfeito.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando Yuuri entrasse em contato com ele para recuperar contato com a ex-colega de Detroit.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando Yuuri apresentasse o Eros mais sedutor já visto pelos olhos de Phichit.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando Yuuri anunciasse ter o amor como tema daquela temporada.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando começasse a ouvir os primeiros acordes de Yuri on Ice, a composição totalmente reformulada de sua carreira, de seu amor.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando os visse juntos na China.

Não levaria a parceria deles a sério, mesmo quando Victor se livrasse de suas roupas com muito conforto e pouco pudor para abraçar Yuuri.

Sinceramente, como levar a sério uma pessoa que tinha enorme facilidade em se entregar a embriaguez e com isso justificar seu comportamento vulgar e exibicionista? Registrar o momento e jogá-lo na internet, para o tailandês, parecia o plano mais rápido e certeiro para fazer Katsuki enxergar ao que estava sendo exposto; talvez o rapaz ficasse chateado com ele, mas o coração de Yuuri perdoava fácil e a vergonha em ter o mundo todo podendo ver um pelado Victor Nikiforov abraçado ao patinador que ele deveria apenas treinar, faria o japonês tomar mais cuidado com a aproximação forçada do russo.

Por algum motivo, o plano não funcionou. Phichit riu, mas de nervoso.

No gelo, as preocupações de fora não poderiam interferir em sua apresentação e colocando todo o esforço dos últimos meses naquela coreografia, Chulanont patinou como se aquela fosse sua última oportunidade. A plateia o amava, a Tailândia o amava e o júri parecia dividir desse amor, jogando notas como quem jogava flores. Aquele era o momento de Phichit, onde ele já não era mais apenas o patinador; tal como o título de seu filme preferido, o tailandês também era o rei.

Depois da pontuação, o tailandês dispensou ter de lidar com flashs fotográficos, microfones de diversos canais de transmissão e tantas perguntas em sotaques diferentes que não conseguiria esclarecer metade. O ritmo estava insano, ele não sabia lidar com tanto destaque e atenção e por isso preferiu deixar para o final da competição todos os esclarecimentos, procurando um assento ao lado de Leo e Guang-Hong para assistir a vez de Yuuri.

O americano conversava com o chinês, lamentando o desempenho fraco e planejando a melhora necessária para elevar seu programa. Sorrindo para algumas afirmações e tentando disfarçar o pouco interesse na conversa paralela, ansioso, ele esperou. Não conseguiu absorver o apelo heróico e romântico de Georgi em sua apresentação e não chegou a se atentar até o fim da performance, tendo sua atenção fisgada apenas quando Victor surgiu com Yuuri ao lado.

— É impressão minha ou o Yuuri chorou?

Phichit não conseguia ouvir mais nada, nem Leo, Guang-Hong, a plateia,ou Yuri on Ice vibrando pelas paredes do ginásio. Yuuri estava chorando e dessa vez ele não estava ali para apoiá-lo ou digitar palavras de incentivo. Seu amigo — melhor amigo e também sua paixão secreta — estava abalado, rosto inchado e olhos vermelhos para quem quisesse ver, exposto aos sensacionalistas e câmeras famintas por algum registro dramático o bastante para ser pauta. Logo Katsuki que odiava exposição, que envergonhava-se ao ser associado romanticamente com Victor, jogado em meio a leões televisivos. Phichit mataria Nikiforov pelos anos em que teve a atenção e lágrimas do japonês enquanto ainda era uma foto, e por ainda causar todas aquelas emoções destrutivas em Yuuri agora que estava por perto.

Os impulsos agressivos de Phichit, no entanto, foram calados com apresentação tão bela. Como sempre, cada nota parecia emanar nos saltos, giros e agitar de braços. Yuuri era a música e não existia nenhum lugar no mundo o qual ele pertencesse mais que o gelo. O quad flip não o impressionou tanto quanto o sentimento expresso em seu corpo e na história contada por ele — parte dessa história tinha Phichit também.

Porém, ao fim de toda aquela narrativa silenciosa, Victor correu até Yuuri e o mesmo foi feito pelo japonês. De braços abertos, sorrindo e emocionado, o patinador esperava a aprovação de seu ídolo, a confirmação de que seu programa teria valido a pena, que as notas estariam a altura, Yuuri queria tanto a parabenização de Nikiforov! E por querer tanto a presença do russo em sua vida, lá estava ele sendo envolvido por um abraço inesperado e um beijo televisionado para os quatro cantos do mundo.

— Uau! — exclamou Leo, aplaudindo tão logo se recuperou.

— Eu não sabia que Yuuri e Victor estavam namorando!

— Não estão. — Phichit deixou escapar, forçando uma risada quanto percebeu ter sido notado. — Yuuri teria me contato.

— Bom, está contando agora. — Leo deu de ombros, sorrindo para a cena.

Mas aquele não era Yuuri. Quem estava tomando a iniciativa de beijá-lo e abraçá-lo era sempre Victor, quem sorria e exibia mais de si mesmo à Yuuri, era sempre ele, sempre o maldito astro daquele esporte quem insistia em fazer de sua parceria com o japonês uma manchete diferente. O que ele tentava provar ao mundo? O que tentava Victor Nikiforov provar a si mesmo?

Engoliu o desconforto com a vontade de morrer, metade de sua animação com o ouro indo embora com a presença de Victor. No pódio, sorriu e acenou, suas ações ativadas no modo automático. Chris foi quem mais tomou a iniciativa de tirar fotos e por pouco ele não se esquecia de fazer o mesmo. Yuuri estava do seu lado, finalmente, depois de tantos anos idealizados… Porém, embora estivessem próximos, o japonês permanecia distante, tão afastado que Phichit quase podia vê-lo ao lado de Victor, o pôster que agora era gente — e a distância entre os dois no momento era de quase doze metros.

Quando foi abraçado com entusiasmo por Yuuri, o medalhista de ouro sentiu o que restava de seu interior estilhaçar, indo para o mesmo buraco que engolia sua disposição. Nas suas idealizações, aquele dia seria o mais feliz e importante de suas vidas, por que agora não estava sendo conforme seus sonhos?

— Eu sabia que o público te amaria, Phichit!

Sentiu os braços deixarem suas costas, indicando o afastar do japonês. Por um momento, Phichit sentiu-se tentado a segurar Yuuri e mantê-lo ali até a noite acabar.

— Vamos, Yuuri? — Victor chamou, com um sorriso falso que em nada condizia com a declaração aberta feita por seu beijo momentos antes. Falso como em seus inúmeros pôsteres.

— Claro! — ele não hesitou em atendê-lo. — Até mais tarde!

Ao alcance de seus dedos, porém longe o bastante para não poder tocá-lo. Aquele ouro em seu pescoço estava pesando e parecendo levá-lo para um buraco enorme dentro de si mesmo, um vazio que não era capaz de preencher no momento, nem com um milhão de fotos, nem com um milhão de medalhas.

Não tinha condição nenhuma de responder sinceramente qualquer uma das parabenizações e entrevistas, optando por se calar e voltar ao hotel usando a desculpa de estar cansado enquanto pudesse.

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— Quem diria que Victor Nikiforov estaria um dia namorando um amigo nosso! — Guang-Hong riu do outro lado da tela. Pela chamada de vídeo, ele e Leo conversavam, tendo Phichit acompanhando apenas como ouvinte. — Sempre que eu vejo as fotos dos paparazzi, parece um sonho!

— Ou pesadelo. — Phichit deixou seu amargor exteriorizar em palavras. — Quero dizer, olhe só, ele é Victor Nikiforov, o mundo o ama e quer saber todos os passos que dá, deve ser no mínimo um incômodo não conseguir sair com seu… — ele respirou fundo antes de se forçar a terminar a frase — … namorado.

Guang-Hong olhou para Leo, que disfarçou coçando a nuca. Embora separados, era como se o desconforto conseguisse quebrar as fronteiras dos países e do fuso horário, atingindo a todos.

— Phichit, podemos te fazer uma pergunta? — Leo tomou a iniciativa, enquanto Ji escondia o rosto em uma de suas pelúcias. Concordando em silêncio, o tailandês aguardou. — Por que não está feliz com o namoro do Yuuri?

— Eu nunca disse que não estava feliz. — resmungou, sabendo bem onde ambos queriam chegar com aquilo.

— Também nunca disse o contrário.

— O que vocês querem?! — explodiu. — Eu só estou preocupado! Vocês não são burros, também leem os sites de notícias e ninguém está dando crédito ao relacionamento! Victor era o solteiro mais cobiçado do mundo e, do dia para a noite, vira técnico e sai aos beijos com o patinador que deveria instruir?! Sério mesmo que só eu vejo problema nisso?!

— Então você não está feliz. — Leo pareceu inabalável, porém o mesmo não se aplicava ao chinês.

— Não, eu não estou feliz! Satisfeito agora?! O que isso muda?! — franziu o cenho, tentando assim desencorajar a insistência de ambos.

— Nada. — Guang murmurou, ainda na defensiva. — Mas pelo menos agora nós temos a confirmação.

— Confirmação de quê? — enfrentou, irado ao imaginar ser ele pauta na conversa entre os outros dois.

— De que está com ciúmes.

— Isso é ridículo. — exasperou, negando com veemência.

— Não é ridículo, você ainda tem sentimentos por ele, é natural que se sinta desconfortável. — Iglesia tentava trazer esclarecimento aos conflitantes sentimentos de Phichit.

— Leo tem razão, Phichit… — Guang arriscou opinar. — E está cada vez mais visível seu descontentamento. Sempre tem algum comentário negativo a fazer em relação ao Victor e muda de assunto quando alguém comenta sobre ele e Yuuri…

— Até você opinando na minha vida? — sua raiva pareceu amenizada pela voz pastosa.

— Você não consegue mais disfarçar, Phichit. — Leo defendeu o ponto do amigo chinês. — Às vezes parece que você… — o rapaz se calou, não precisando falar mais nada. Não existia discussão contra as lágrimas derramadas por Chulanont.

Esfregando os olhos, ele tentava conter o choro, soluçando cada vez mais a medida que percebia seu insucesso em detê-las. Queria gritar e romper a amizade com Guang-Hong e Leo, todavia, sabia que eles estavam certos e seu choro era prova suficiente disso. Chorava pela raiva em ser de tão fácil leitura, pela raiva dos dois em fazê-lo encarar seu ciúmes, pela raiva de Victor Nikiforov não ter continuado apenas mais um pôster na vida do patinador japonês e, principalmente, pela tristeza de saber — e admitir fazê-lo há muito tempo — que entre Yuuri e ele jamais existiria alguma coisa.

Calados em respeito a dor do amigo, Leo e Ji abaixaram suas cabeças, aguardando a solução surgir na cabeça de algum deles. Para o latino-americano, no entanto, a certeza de sua frase não terminada ainda pulsava o culpando:

Às vezes parece que você está prestes a chorar.

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Yuuri e Victor já tinham se encontrado antes da aparição russa em Yuu-topia, no Baile de Gala dos patinadores, pós torneio. Ele não podia acreditar naquilo e qualquer um teria notado sua agitação ao ver as fotos de um Katsuki bêbado e semi-nu rebolando em uma barra de pole dance. Aquilo só podia ser coisa de Giacometti.

— Que vergonha, Yuuri… — foi a única coisa que conseguiu dizer para disfarçar o rubor de suas bochechas.

— Eu não lembro de nada. — a confissão do japonês parecia culpada. Phichit conhecia o lado alcoolizado do amigo o bastante para saber preferir o sóbrio.

Já havia experimentado o Eros mostrado no gelo em um cenário totalmente diferente, sabendo muito bem que Yuuri não precisava de nenhum incentivo alcoólico para seduzir. Pelo contrário, aquelas fotos comprometedoras e vídeos vergonhosos não faziam jus ao potencial mostrado completamente ciente de suas ações, fazendo Phichit se perguntar se Victor conhecia o potencial sedutor do japonês em outra condição — ele ainda se recusava a aceitar o beijo público uma prova da intimidade do “casal”.

— Que anéis são esses? — insinuou Chris e por um momento, Chulanont não conseguiu absorver a provocação.

Então, ele viu o par de alianças e desejou furar os próprios olhos, se isso ajudasse a esquecer da visão. Dourados, brilhantes, polidos e recém-saídos da joalheria, o faiscar das jóias parecia zombar de sua surpresa, apontando um indicador imaginário em sua direção, gargalhando de sua relutância em não querer aceitar o casal escancarado em sua frente.

Decidido fazer sua voz sobressair-se àquelas risadas inexistentes, Phichit elevou a voz e começou a aplaudir em um entusiasmo tão real que quase conseguiu acreditar quando os parabenizou:

— O meu melhor amigo se casou!!

Colocar o título de melhor amigo em Yuuri era uma tentativa falha, quase risível, de diminuir o que sentia por ele, no entanto a única conquista no momento era a da mais pura vergonha consigo mesmo.

— Não é nada disso! — o japonês tentou negar e Phichit em muito apoiava a tentativa.

— São anéis de noivado. — Victor atravessou a declaração negativa, com um sorriso tão desanimado quanto a vontade do tailandês em viver. — Nos casaremos depois que Yuuri ganhar o ouro.

Chulanont não sabia o que mais o atingia, se a confirmação do compromisso entre Nikiforov e Katsuki ou a condição estipulada para o enlace se firmar. Como assim Victor estava cobrando o topo do pódio para oficializar a união? Ele já não tinha medalhas o bastante para ambos? Ou o sentimento dele pelo japonês era moldável conforme suas conquistas?

Sentiu os punhos tremerem e Chris apoiou uma das mãos em seu ombro, em um conselho silencioso para que se acalmasse. Chulanont sabia que se exaltar só causaria um desconforto geral e aquela não era a hora nem lugar para extravasar sua frustração, apenas precisava achar um jeito de sair logo daquele lugar, ou acabaria por passar mal e dar um vexame público.

Por sorte, JJ atravessou a conversa, prometendo ganhar a medalha ou seja lá qual fosse o resto do assunto, deixando ele próprio o local com um gentil puxão de Giacometti. Ele se lembraria de agradecer a ele em outro momento, e também ao canadense, por ter conseguido fazer de sua intromissão a deixa perfeita para Phichit findar aquela noite de merda.

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A medalha reluzindo no peito de Yuuri emocionava mais ao tailandês que o próprio vencedor. A ansiedade do japonês sempre havia sido a pior inimiga de suas performances, mas naquela temporada, Katsuki não só impressionou o mundo como a si mesmo, superando todas as barreiras emocionais e chegando ao pódio, ao lado de Jean-Jacques Leroy e Yuri Plisetsky.

Também ao lado de Victor.

Os sentimentos em relação ao pódio ainda confundiam Pichit. Ele estava feliz pela conquista, tão difícil escalada até a segunda colocação, porém triste em saber que só a medalha de prata não seria o bastante para convencer Victor do matrimônio. No entanto, contrariando ainda mais seus sentimentos, a incerteza sobre o relacionamento de Nikiforov e seu amigo o deixavam radiante, como se a inexistência de um papel oficial fosse capaz de invalidar aquele casal pouco crível e com sobras de problemas. Como alguém sem o mínimo de tato como o russo poderia dar o suporte necessário a Yuuri e seu emocional fragilizado? Como poderia Yuuri confiar tão cegamente em Victor, como se dependesse de sua aprovação para continuar competindo? Como poderia levar aquela relação adiante enquanto ainda enxergasse no albino o ídolo que estampava suas paredes? Seus questionamentos seriam infinitos, mas apenas a dependência de Katsuki e a acomodação de Nikiforov eram o bastante para validar sua desconfiança. As pessoas não viam quão desastroso aquilo poderia ser ou apenas se negavam a admitir o erro existente naquele casal?

Frustrado, percebeu que ninguém interferiria naquela relação enquanto eles fossem belos o bastante para as capas de revista, propagandas e notícias de fofoca. A estética de “Victuuri” — como ridiculamente as redes sociais reduziam a existência separa de cada um — vendia o que Nikiforov sozinho jamais tinha vendido nos últimos anos, a falsa história de amor nascida no gelo e endeusada pela mídia, responsável por esconder a origem duvidosa de um encantamento começado em uma bebedeira e vexame público.

Mas não, aquilo não era errado, afinal, Victuuri era a personificação de almas gêmeas, o casal perfeito, de relacionamento impecável e amor resistente ao tempo.

Em indireta homenagem a Plisetsky, Phichit jogou seu celular no chão.

— Que merda de amor resistente ao tempo é esse?! — gritou em seu idioma, para não deixar que Celestino ou qualquer outro desavisado entendesse seu rompante de raiva. — Nem um ano se passou desde que eles começaram a treinar juntos! Isso não é a porra de um filme, não estamos lendo a porcaria de um livro romântico!!

Extravasada em partes sua frustração, Phichit deitou na cama do hotel e escondeu o rosto no travesseiro, abafando a respiração tensa e as lágrimas raivosas. Precisava sair de Barcelona de uma vez, tentar deixar com o país aquela experiência dolorosa, quem sabe conseguindo com essa partida deixar o patético nome Victuuri para trás.

Love Wins, dizia o título da matéria que fez romper seu descontrole. Era vergonhoso ver um sentimento como o amor reduzido a material de divulgação e isca para o consumidor de baixo intelecto.

Não explicou seu acesso enfurecido para Celestino e não justificou o celular quebrado para ninguém, guardando a peça danificada no fundo da mala, com a intenção de recuperar pelo menos alguns arquivos quando voltassem para a Tailândia. Se o italiano não insistisse muito, eles teriam um retorno silencioso para casa, e longas horas na mais profunda quietude era tudo o que Phichit precisava para reorganizar sua mente confusa.

Quase deixando o hotel e prestes a beijar a calçada em agradecimento por finalmente estar partindo, uma voz conhecida o chamou ao longe. A tentação em continuar de costas para Yuuri e sumir naquele táxi não era o bastante para endurecer seu coração apaixonado, e o jovem acabou de virando para recepcionar o amigo com o sorriso mais franco que conseguia no momento.

Ter Yuuri vindo em sua direção desarmava seu pouco arsenal de palavras rudes, despertando em sua memória todas as belas recordações em que o japonês fazia parte. Seu primeiro encontro com ele, seu primeiro beijo, sua primeira vez… Yuuri havia sido o primeiro em muitos aspectos felizes de sua vida e, traiçoeiramente, também havia sido o primeiro a quebrar seu coração quando rejeitou cuidadosamente a proposta de namoro de Chulanont, os definindo como apenas amigos.

Phichit aceitava aquele posto no coração de Katsuki, sabia não poder forçar um sentimento além daquilo, mas ainda doía e a presença de Victor parecia cutucar cada vez mais a ferida da rejeição.

— Estava deixando Barcelona sem dizer adeus? — perguntou Yuuri aos risos, entre uma respiração e outra.

— E você, veio correndo impedir minha partida? — rebateu bem humorado, rindo abertamente.

— Tipo isso. — confirmou a piada. Afastado, Nikiforov acenou brevemente, oferecendo um sorriso discreto. — Queria me despedir direito. — e abrindo os braços, ele pediu. — Posso?

Chulanont envolveu seus braços em volta de Yuuri com tanta necessidade que era de se desconfiar o tailandês não soltá-lo mais. Ouvir o riso suave de Katsuki tão de perto e sentir o abraço retribuído com tanto carinho o fazia desejar os dias de Detroit novamente, onde eles ainda eram aquela espécie engraçada de amigos coloridos, sua rotina era compartilhada e Victor Nikiforov era apenas um pôster na parede.

— Eu amo você, Yuuri. — sussurrou, não fazendo de sua declaração um show, como o russo tanto gostava de reforçar para as câmeras. — Você é meu melhor amigo.

Não sabendo do sentimento ainda alimentado pelo amigo, o japonês estreitou ainda mais o contato.

— Você também é meu melhor amigo.

Separar foi difícil, principalmente por saber ser aquele gesto a representação do que estava destinado; ser trocado por Victor Nikiforov, fosse pôster, fosse o real. De qualquer forma, sua vontade de rasgar o de papel também estendia-se ao de carne e osso.

Ao notar ser foco da atenção do tailandês, o albino sorriu mais uma vez, não entendendo o porquê de ganhar apenas uma carranca como resposta. A dúvida não se estendeu, já que ele não se importava.

— Victor nunca se importa. — surpreendentemente, a declaração veio de Celestino. — Está pronto?

Phichit entrou no veículo como resposta, se acomodando no banco do passageiro enquanto seu técnico fazia o mesmo. A dúvida que aquela declaração causava em sua mente deixou o silêncio entre os dois desconfortável, a tensão tão pesada que Celestino quase poderia pegá-la com as mãos.

— Olha, Phichit, eu não posso ficar dando detalhes da vida dos outros, nem dentro do campo profissional, nem fora dele. — o rapaz concordou, atento às possíveis dicas que poderiam morar naquele breve discurso. — Mas tudo na vida é passageiro, inclusive os romances de Victor Nikiforov.

A certeza com a qual o italiano dizia aquilo surpreendeu o patinador. Começando a sorrir para a boa impressão que aquela previsão pessimista trazia, Phichit sentiu-se um pouco mais calmo, a animação aumentando por sua esperança alimentada. Sorrindo mais espontâneo, ele ainda arriscou uma piada, satisfeito o bastante em encontrar em Celestino mais uma pessoa desacreditada daquele relacionamento.

— Então você acha que Victuuri não é essa perfeição toda? — alheio aos nomes midiáticos e ao discurso casual da internet, o italiano torceu o nariz.

— O que é isso, nome de remédio?

Phichit riu alto, se ajeitando melhor em seu assento. Ele ainda teria longas horas para se afundar na dor da dúvida, oscilando entre as possibilidades que viriam a perturbar sua cabeça por muito tempo…

Por enquanto, Yuuri ainda continuava dolorosamente distante de seus dedos, tornando-se uma imagem tão inalcançável que ele desconfiava se Victor não tinha conseguido tragar o rapaz para dentro de seu próprio pôster.

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For your kisses sweeter than milk
And your touch that's softer than silk
For your treasures I will be forever at your feet

Notas finais
A música de onde tirei os trechos que abrem e fecham essa oneshot se chama "Forever at your feet", de Oh Susanna, indicada na fanfic angst-maravilha Hollow (que eu ainda não comentei *rindo de nervoso/suando frio*). A composição embalou quase toda a escrita dessa história, então fica aí mais uma recomendação. E vão ler Hollow! ♥

Obrigada pela leitura! Até uma próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!